O desespero é a ausência de perspectivas materiais para se existir no imediato. Esta chaga desencadeia o seguinte efeito: acredita-se na primeira explicação para o desespero, a que se consiga entender clara e imediatamente. Pode ser incoerente e infundada, mas mais vale uma explicação qualquer à ausência de explicação (como argumentou Nietzsche). Entender a incoerência e a ausência de fundamentação da explicação requer tempo e paciência, precisamente aquilo cuja ausência o desespero havia provocado. E porque o genocida império americano tem, ou extrai, cada vez menos recursos aos países do Sul Global (fora o esgotamento que resulta de problemas ambientais), nós, em Portugal, no cu do império, com ainda menos sobras dele vivemos, ficamos ainda à mercê de elites locais que não querem ficar atrás das internacionais, cujo 'desespero', o de ambas, não se mede no imediato, mas com a eternidade por referência, e se concretiza no incremento inclemente e descarado da pilhagem ao desgraçado, com o inexorável fomento da desigualdade económica (vulgo, sofrimento atroz). Vai daí cresce o desespero geral e, nessa medida, a expectativa – o desejo? – de se ser enganado. E quanto mais rápido, melhor, com as soluções apensas, finais, também elas rápidas, fáceis e óbvias, porque o mais rápido, fácil e óbvio é desde sempre atacar quem não se pode defender: deportação de imigrantes, fim de subsídios às pessoas mais vulneráveis, pogroms, genocídios em todo e qualquer continente, a qualquer povo, de antemão terrorista, para o justificar há programas de tv de diálogo sintaticamente refinado, mas inane e sádico, tal como o aleijado, o deprimido, o deficiente, o doente mental, o ocioso, o digno, o pura e simplesmente fustigado por existir neste vil antro de credo na boca é desde logo um chulo doméstico a quem é urgente punir por querer esmifrar o nosso e tão caro suado e honesto pão deste rosto desumano e besta como nenhum animal consegue ser, muito menos argumentar com botões de punho ou decote na blusa, que, além da bestidade, também do cinismo as ditas-bestas estão livres.
A bestidade do fascismo doméstico, da casa portuguesa: lei da imigração, da nacionalidade, PSU, pacote laboral, reclusos a limpar matas. De supetão, com quase nulo escrutínio, bruto e besto fascismo: violento com os fracos, serviçal com os fortes, curvado, titubeante e lesto. A ser tudo aprovado, para formalizar a mudança de regime, só faltará o golpe constitucional. Seria a melhor forma de a direita prestar homenagem, cem anos depois, ao golpe militar de 28 de maio de 1926.











