Crueza bruta
27.9.26
Para a esquerda instalada, é sofisticado colaborar com nazis
15.9.26
O fim do mundo pela Inteligência Artificial: o caso de Terminator III
O terceiro Terminator, de Jonathan Mostow, é um filme de ação que permite colocar questões interessantes. O segundo havia tido muito impacto mediático, com a realização de James Cameron (um apologista de genocídio, diga-se de passagem). O terceiro, uns anos mais tarde, ficou esquecido; por incúria, não tinha dele conhecimento até mais ou menos há uma década. As ausências de Linda Hamilton e Edward Furlong instalam uma estranheza que perdura, como se algo substancial falhasse e já não se tratasse do mesmo universo. É uma questão ontológica significativa que se põe, ou, pelo menos, assim parece. Não estão no filme a louca e o louco da casa, os atores mais emocionais, mais marginais, aqueles que se deixam devastar pelas suas relações. Aliás, no Terminator de Cameron, durante um célebre monólogo, Sarah Connor dá conta da sua insatisfação com todos os homens com os quais tentou viver, uma razão também do seu desequilíbrio, e demonstra admiração pelo terminator quando o vê a ‘interagir’ com o filho. Afirma mesmo que ele seria o único pai responsável num mundo de homens bestiais e imprevisíveis. Maior desencanto era impossível, eis o grande sintoma do nosso tempo: a máquina, previsível, programada, é mais capaz de empatia e amor do que um qualquer humano. E, por isso, melhor uma relação com ela do que com qualquer humano. Como em várias outras dimensões da vida, aceita-se o jogo de existir com a condição de não se sofrer. Além disso, Furlong encarna a criança abandonada que todos fomos, num grau ou noutro, e, aliada à sua impagável desfaçatez, terá sido uma das grandes razões para o sucesso retumbante do filme. É o motor da ação na medida em que tudo desafia, carrega a hubris (com a mãe). Mas a estranheza com estas ausências desaparece: no Terminator 3, a gente habitua-se ao novo John Connor, com um abandono que já não possui a angústia que nos precipita, mas quase alheamento, se calhar num grau de desespero acima. Sarah Connor, morta, continua a dar exemplo de além-túmulo.
Então, que questões interessantes são essas, as do terceiro Terminator? Sumariamente: o terminator enviado do futuro para exterminar John Connor é uma mulher, o protótipo da gestora de topo, cuja origem de leste europeu parece servir para enfatizar a frieza (um topos com o seu quê de preconceituoso), e a servir-se da sensualidade numa ocasião para cumprir os objetivos para os quais foi programada (preconceito de género). Aumenta a desproporção em relação ao bodybuilder de corpo funcional (que encarava punks e bêbados nos inícios dos terminators I e do II, como se fosse seu sucedâneo). Ao contrário de Robert Patrick, não tem humor involuntário. Cumpre o guião, ilustra bem a obsolescência do ódio (Gunther Anders): para quê odiar se isso funciona pior do que a eficácia? Dir-se-ia ser uma femme fatale a manipular os medos masculinos em face da progressiva valorização laboral das mulheres, não fosse punida por um lance de inteligência estratégica – e não de poder – do terminator ‘bom’, ainda Arnold Schwarzenegger.
Destaco também uma sequência mais filosófica, quando John Connor, bem mais desesperado neste filme, ameaça suicidar-se porque recusa o seu destino. Não quer tomar conta do mundo, para usar uma expressão de Clarice Lispector. Também é algo habitual e descrente, não menos sintomático, e a solicitar uma leitura em clave alegórica: não se pretende um destino, prefere-se antes a morte, um módico a cada dia. Precipitar-se no esquecimento, adaptar-se à sua fraqueza, ignorando que o corpo se adapta igualmente bem à sua força (ainda Lispector). E nesse ponto do filme, encena-se de novo o confronto com a máquina, que não se confronta com um suicídio (até ver...). É que na raiz do suicídio está aquela angústia inscrita na liberdade: pode-se escolher como viver, o que fazer com o tempo, dentro do que possibilitam as circunstâncias. E pode-se também abandonar o jogo; não decidimos nascer, mas podemos decidir quando morrer. A máquina, não; e, no entanto, com um paradoxo talvez voluntário, o Terminator III mostra, um pouco à imagem do que o final do II já havia feito, que a máquina ‘se sacrifica’ pelos objetivos a que se propôs. Não como um suicida heroico, mas como um profissional exemplar, a modalidade heróica convertida em ersatz funcional. Só com uma visão muito desencantada se acredita que a continuidade do mundo não está no desinteresse, no amor tresloucado, mas sim no gesto eficaz.
A sequência do fim do mundo adquire uma tonalidade aterradora por causa do suspense e outros elementos ainda. Fica claro como o humano não tem mão nas suas criações, algo que faz parte do dia a dia, mas que ali adquire contornos mais vincados. Insere-se no imprevisível cósmico sem controlo. É o desafio que o humano lança a si próprio e à existência, ele que não se consegue confinar aos limites terrenos. Há uma dose de absoluto na relação com a técnica, como acontece nas revoluções políticas, um despegar-se da terra. Como Goethe escreveu n’Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, com clarividência empírica, centrando-se nas suas potencialidades criadoras e vitais: “O homem nasceu para uma situação limitada, é capaz de ver fins simples, próximos, determinados”. E o fim do mundo é desencadeado pelo premir de uma tecla de um computador, o que também é pregnante e permite ver que o caos está inscrito no gesto mais comum e corrente. Sintoma da desorientação do humano, é pedir-se a Deus que tudo corra bem quando se concede autonomia à super-inteligência. Não só isso, talvez: confinar com Deus é abrir-se ao infinito. Daí que alguém insuspeito como Georges Bataille tenha escrito que a morte de Deus nos confinou, situou a ação apenas nos limites estreitos da finitude. Sem Deus, não há excesso para desafiar, para transgredir, para criar algo na vizinhança do infinito. A catástrofe técnica torna-se, de certo modo, esse desafio coletivo de sinal perverso. Um aspeto final a destacar: as máquinas, logo que estão em controlo, fazem avariar os ecrãs, isto é, escondem as suas intenções dos humanos. A mesma tese é perseguida por Bogna Konior num ensaio interessante, a partir de A floresta sombria, de Liu Cixin. O romance defende que a ausência de comunicação de seres de outros planetas não é, por si só, uma evidência de que eles não existam. E lança a hipótese de que é uma estratégia, um ocultamento das suas intenções. Konior parte daí para inquirir a nossa relação com a técnica, assente numa comunicação constante (e, por isso, talvez ingénua). De certo modo, a IA pede-nos dados constantemente como se fosse um inimigo manipulador e perverso. A comunicação confirma as nossas posições, enquanto o silêncio é não só mais prudente, como pode tornar-se mais letal. Depois desta sequência, no filme de Mostow, as máquinas atacam os humanos, que tentam a resistência como podem, de volta a 'cavernas' na montanha (como acontece aos resistentes anticolonialistas no Médio Oriente, cuja posição é conhecida pelas imagens recolhidas por satélite).
A propósito de invasões

2.8.26
Nenhuma revolta, nenhum ritual

30.7.26
Trump unfolded
4.7.26
1000 dias -- é melhor mesmo perguntar
Blooming o caralho
Quase todo o mundo é uma colónia americana. Os métodos de colonização variam, porém. Por cá, engenharia moral, financeira e jurídica, e basta. Os imigrantes do Bangladesh e do Brasil, além de explorados sem mais direitos, fiquem com as culpas da insustentabilidade da vida para o indígena, eis a política para o justificar. Ou isso ou a culpa morre solteira, o que demonstra como a social-democracia ficou entalada: quer a quadratura do círculo, conjugar democracia liberal com império. Alguns mais livres limitam-se a fazer cócegas ao status quo e contentam-se com um sim ambíguo, nunca com o não que os comprometeria inteiramente. São reformistas e acham que o poder dialoga, eis o seu efeito de propaganda: eles sentam-se e negoceiam com a sua cabeça. O problema continua, só o dinheiro vive e se multiplica. Os baby boomers estabelecidos, também os que pela Europa mandam, leem palavras do mesmo teor, o módico bom senso, como um radicalismo inusitado, e não se fartam de o repetir no palco mediático que controlam. Sejam eles ou os mais jovens que falam por eles. Aqueles sem herança fizeram a videirunha graças à 'liberdade americana', nazismo muito mais eficaz que o vetusto porque mais ardiloso, tão refinado a matar como a retorcer, de implementação ora lenta ora rápida, mascarado pelo espetáculo, pela publicidade, pela informação e até pela diplomacia. Que concede liberdades formais no seio dos white power e, quanto mais rico se for, mais livre se será, arguem os nossos liberais com que a social-democracia, inane no essencial, concorda. E com a rules based international order a legitimar os seus crimes, seja ignorando-os, seja perseguindo inimigos que urja abater. Que o pequeno-burguês da mesma geração, que por cá fez vida e carreira, tendo recebido um voucher, entretanto esgotado, de adesão ao império (que reabsorveu o possível do nosso de miséria e fancaria), glose o guião dos oligarcas e do capital (investidores, expats, o jubilado com papel, em jargão 'informativo'), é dececionante, ao limitar um plano de intervenção, embora totalmente expectável. O hábito do conforto tem esse efeito: letargia; orgânica, primeiro, intelectual depois. Junta-se uma certa vaidade ainda, a de quem reclama os méritos às circunstâncias. E também uma postura acomodada, que vem com a idade, mas que a ela não se resume, e que obtém invariavelmente o nome de 'maturidade', que, como explicou Agustina Bessa-Luís, é um estacionamento mental, enquanto a inteligência, volúvel, é de um infantilismo alvar.
1.7.26
Pôr ordem no hospício
20.6.26
Exaltação, abandono e poder — sobre Accattone
13.6.26
Cem anos do 28 de maio
9.6.26
Fornicar e casa

4.6.26
Cravo sem horizonte que urge queimar

3.6.26
Coração, coragem
1.6.26
Sarah Rajab
30.5.26
A bestidade não é o forte dos animais
29.5.26
Os gatos amam o pensamento

24.5.26
As parecenças do ovo com o espeto
O prazer do texto
20.5.26
Excelentíssimo Manta
No Reino do Mexilhão:
18.5.26
La mato y aparece una mayor
The drone song
12.5.26
Ser de esquerda, segundo Gilles Deleuze
11.5.26
«A gente cresce sempre, sem saber para onde»

10.5.26
Infernos coloridos, infernos cinzentos
26.4.26
Requintados constrangimentos, sapatos apertados, etc.


