O terceiro Terminator, de Jonathan Mostow, coloca questões interessantes. O segundo havia tido muito impacto, com a realização de James Cameron (um apologista de genocídio, diga-se de passagem). O terceiro, uns anos mais tarde, ficou esquecido; por incúria, não tinha dele conhecimento até mais ou menos há uma década. As ausências de Linda Hamilton e Edward Furlong instalam uma estranheza que perdura, como se algo substancial falhasse e já não se tratasse do mesmo universo. É uma questão ontológica significativa que se põe, ou, pelo menos, assim parece. Não estão no filme a louca e o louco da casa, os atores mais emocionais, mais marginais, aqueles que se deixam devastar pelas suas relações. Aliás, no Terminator de Cameron, durante um célebre monólogo, Sarah Connor dá conta da sua insatisfação com todos os homens com os quais tentou viver, uma razão também do seu desequilíbrio, e demonstra admiração pelo terminator quando o vê a ‘interagir’ com o filho. Afirma mesmo que ele seria o único pai responsável num mundo de homens bestiais e imprevisíveis. Maior desencanto era impossível, eis o grande sintoma do nosso tempo: a máquina, previsível, programada, é mais capaz de empatia e amor do que um qualquer humano. E, por isso, melhor uma relação com ela do que com qualquer humano. Como em várias outras dimensões da vida, aceita-se o jogo de existir com a condição de não se sofrer. Além disso, Edward Furlong encarna a criança abandonada que todos fomos, num grau ou noutro, e terá sido uma das grandes razões para o sucesso retumbante do filme, aliada à sua impagável desfaçatez. É o motor da ação na medida em que tudo desafia, carrega a hubris (com a mãe). Mas a estranheza com estas ausências desaparece: no Terminator 3, a gente habitua-se ao novo John Connor, com um abandono que já não possui a angústia que nos precipita, mas quase alheamento, se calhar um grau de desespero acima. Sarah Connor, morta, continua a dar exemplo de além-túmulo.
Então, que questões interessantes são essas, as do terceiro Terminator? Sumariamente: o terminator enviado do futuro para exterminar John Connor é uma mulher, o protótipo da gestora de topo, cuja origem de leste parece servir para enfatizar a frieza (um topos com o seu quê de preconceituoso), e a servir-se da sensualidade numa ocasião para cumprir os objetivos para os quais foi programada (viés de género). Aumenta a desproporção em relação ao bodybuilder de corpo funcional (que encarava punks e bêbados nos inícios dos terminators I e do II, como se fosse seu sucedâneo). Ao contrário de Robert Patrick, não é capaz de humor involuntário. Cumpre o guião, ilustra bem a obsolescência do ódio (Gunther Anders): para quê odiar se isso funciona pior do que a eficácia? Dir-se-ia ser uma femme fatale encarnando os medos masculinos em face da progressiva valorização laboral das mulheres, não fosse punida por um lance de inteligência estratégica – e não de poder – do terminator ‘bom’, ainda Arnold Schwarzenegger.
Destaco também uma sequência mais filosófica, quando John Connor, bem mais desesperado neste filme, ameaça suicidar-se porque recusa o seu destino. Não quer tomar conta do mundo, para usar uma expressão de Clarice Lispector. Também é algo habitual e descrente, não menos sintomático, e a solicitar uma leitura em clave alegórica: não se pretende um destino, prefere-se antes a morte, um módico a cada dia. Precipitar-se no esquecimento, adaptar-se à sua fraqueza, ignorando que o corpo se adapta igualmente bem à sua força (ainda Lispector). E nesse ponto do filme, encena-se de novo o confronto com a máquina, que não se confronta com um suicídio (até ver...). É que na raiz do suicídio está aquela angústia inscrita na liberdade: pode-se escolher como viver, o que fazer com o tempo, dentro do que possibilitam as circunstâncias. E pode-se também abandonar o jogo; não decidimos nascer, mas podemos decidir quando morrer. A máquina, não; e, no entanto, com um paradoxo talvez voluntário, o Terminator III mostra, um pouco à imagem do que o final do II já havia feito, que a máquina ‘se sacrifica’ pelos objetivos a que se propôs. Não como um suicida heroico, mas como um profissional exemplar, a modalidade heróica convertida em ersatz funcional. Só com uma visão muito desencantada se acredita que a continuidade do mundo não está no desinteresse, no amor tresloucado, mas sim no gesto eficaz.
O fim do mundo adquire uma tonalidade aterradora por causa do suspense e outros elementos ainda. Fica claro como o humano não tem mão nas suas criações, algo que faz parte do dia a dia, mas que ali adquire contornos mais vincados. Insere-se no imprevisível cósmico sem controlo. É o desafio que se lança a si próprio e à existência, ele que não se consegue confinar aos limites terrenos. Há uma dose de absoluto na relação com a técnica, como acontece nas revoluções políticas, um despegar-se da terra. Como Goethe escreveu n’Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, com clarividência empírica, centrando-se nas suas potencialidades criadoras e vitais: “O homem nasceu para uma situação limitada, é capaz de ver fins simples, próximos, determinados”. E o fim do mundo é desencadeado pelo premir de uma tecla de um computador, o que também é pregnante e permite ver que o caos está inscrito no gesto mais comum e corrente. Sintoma da desorientação do humano, é pedir-se a Deus que tudo corra bem quando se concede autonomia à super-inteligência. Não só isso, talvez: confinar com Deus é abrir-se ao infinito. Daí que alguém insuspeito como Georges Bataille tenha escrito que a morte de Deus nos confinou, situou a ação apenas nos limites estreitos da finitude. Sem Deus, não há excesso para desafiar, para transgredir, para criar algo na vizinhança do infinito. A catástrofe técnica torna-se, de certo modo, esse desafio coletivo de sinal perverso. Um aspeto final a destacar: as máquinas, logo que estão em controlo, fazem avariar os ecrãs, isto é, escondem as suas intenções dos humanos. A mesma tese é perseguida por Bogna Konior num ensaio interessante, a partir de A floresta sombria, de Liu Cixin. O romance defende que a ausência de comunicação de seres de outros planetas não é, por si só, uma evidência de que eles não existam. E lança a hipótese de que é uma estratégia, um ocultamento das suas intenções. Konior parte daí para inquirir a nossa relação com a técnica, assente numa comunicação constante (e, por isso, talvez ingénua). De certo modo, a IA pede-nos dados constantemente como se fosse um inimigo manipulador e perverso. A comunicação confirma as nossas posições, enquanto o silêncio é não só mais prudente, como mais letal. Depois desta sequência, no filme de Mostow, as máquinas atacam os humanos, que tentam a resistência como podem, de volta a cavernas e bunkers na montanha (como acontece aos resistentes anticolonialistas no Médio Oriente, cuja posição é conhecida pelas imagens recolhidas por satélite).








