29.5.26

Os gatos amam o pensamento

Escutai as pessoas que suspiram! Suspirar é apagar uma vela no fundo da alma.
Freud escreveu: A tendência dominante da vida psíquica visa a supressão da tensão da excitação. Freud usa então, sem grande razão, no seu gabinete de Viena, uma palavra sânscrita: nirvana. Extinção. Esta palavra pertence ao budismo. Abafar a chama. Suprimir sofrimento, ilusão, desejo. Mas o que Freud afirma é verdade?
Não tenho a certeza.
A busca da tensão é também ela uma paixão verdadeira. Pode detestar-se o prazer, a sua morte, a inexplicabilidade, a náusea onde a volúpia mergulha o corpo saciado. Pode-se fazer deuses da erecção, da fome, da vigilância, do desejo, da tensão extremas. Os gatos gostam da tensão nervosa. Esta atrai-os como um calor, como um movimento de ondas, como uma electricidade. Os gatos aproximam-se irresistivelmente dos seres imóveis, inquietos, apreensivos — ou até dos seres que se aproximam eles próprios da morte no maior dos estupores. Sobem para aqueles que buscam intensamente as suas palavras no silêncio, a sua ordem na frase, de dedos crispados num pedaço de lápis. Instalam-se com todo o seu comprimento nos corpos que pensam em qualquer coisa que ainda não sabem articular. O aumento dessa tensão, do desejo, dessa concentração da energia apaixona tanto a vida psíquica que magnetiza os gatos para a carne que os experimenta e que os convoca no seu silêncio. Tal como o raio de sol os magnetiza na estante onde pousa e que eles depressa alcançam para aí se enroscarem. Ou no pedaço de telhado que este ilumina entre as folhas das árvores. É bom repousar aí o corpo como junto de um fogo de lareira que de repente ganha, curiosamente, a aparência de uma telha, de uma ardósia, de uma página ou de um homem. Pois não é o escritor que ama os gatos nem os gatos que amam os escritores. Os gatos amam o pensamento.

Pascal Quignard, Morrer de pensar, trad. Diogo Paiva


24.5.26

As parecenças do ovo com o espeto

Ciganinha e Zito nem muito um do outro se aproximavam, antes paravam meio brigados, de da véspera, de uma briguinha grande e feia. Pele é que era a morena, com notáveis olhos. Ciganinha, a menina linda no mundo: retrato miúdo da Mamãe. Zito perpensava assuntos de não ousar dizer, coisas de ciumoso, ele abrira-se à espécie de ciúmes sem motivo de quê ou quem. Brejeirinha pulou, por pirueta. — «Eu sei por que é que o ovo se parece com um espeto!» —; ela vivia em álgebra. Mas não ia contar a ninguém. Brejeirinha é assim, não de siso débil; seus segredos são sem acabar. Tem porém infimículas inquietações: — «Eu hoje estou com a cabeça muito quente…» — isto, por não querer estudar. Então, ajunta: — «Eu vou saber geografia.» Ou: — «Eu queria saber o amor…» Pele foi quem deu risada. Ciganinha e Zito erguem olhos, só quase assustados. Quase, quase, se entrefitaram, num não encontrar-se. Mas, Ciganinha, que se crê com a razão, muxoxa. Zito, também, não quer durar mais brigado, viera ao ponto de não aguentar. Se, à socapa, mirava Ciganinha, ela de repente mais linda se envoava.
– «Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?» — Brejeirinha especulava. — «É, hem? Você não sabe ler nem o catecismo…» Pele lambava-lhe um tico de desdém; mas Pele não perdia de boazinha e beliscava em doce, sorria sempre na voz. Brejeirinha rebica, picuíca: — «Engraçada!… Pois eu li as 35 palavras no rótulo da caixa de fósforos…» Por isso, queria avançar afirmações, com superior modo e calor de expressão, deduzidos de babinhas. — «Zito, tubarão é desvairado, ou é explícito ou demagogo?» Porque gostava, poetista, de importar desses sérios nomes, que lampejam longo clarão no escuro de nossa ignorância. Zito não respondia, desesperado de repente, controversioso-culposo, sonhava ir-se embora, teatral, debaixo de chuva que chuva, ele estalava numa raiva. Mas Brejeirinha tinha o dom de apreender as tenuidades: delas apropriava-se e refletia-as em si — a coisa das coisas e a pessoa das pessoas. — «Zito, você podia ser o pirata inglório marujo, num navio muito intacto, para longe, lo-õ-onge no mar, navegante que o nunca-mais, de todos?» Zito sorri, feito um ar forte. Ciganinha estremecera, e segurou com mais dedos o livro, hesitada. Mamãe dera a Pele a terrina, para ela bater os ovos.

João Guimarães Rosa, Primeiras estórias, «Partida do audaz navegante»


O prazer do texto

O prazer do texto: como o simulador de Bacon, ele pode dizer: nunca nos devemos desculpar, nunca nos devemos explicar. Nada nega: «Desviarei o meu olhar, será agora a minha única negação». 

Roland Barthes, O prazer do texto


20.5.26

Excelentíssimo Manta

 No Reino do Mexilhão:





In memoriam João Abel Manta, falecido no dia 15 de maio. 
Ilustrações do Dinossauro Excelentíssimo, de José Cardoso Pires, 1973.

18.5.26

La mato y aparece una mayor


Sueño con serpientes

                  Hay hombres que luchan un día
                  y son buenos.
                  Hay otros que luchan un año
                  y son mejores.
                  Hay quienes luchan muchos años
                  y son muy buenos.
                  Pero hay los que luchan toda la vida:
                  esos son los imprescindibles.
                                               Bertolt Brecht
 
Sueño con serpientes, con serpientes de mar,
con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo.
Largas, transparentes, y en sus barrigas llevan
lo que puedan arrebatarle al amor.
 
Oh, la mato y aparece una mayor,
oh, con mucho más infierno en digestión.
 
No quepo en su boca. Me trata de tragar
pero se atora con un trébol de mi sien.
Creo que está loca. Le doy de masticar
una paloma y la enveneno de mi bien.
 
Oh, la mato y aparece una mayor,
oh, con mucho más infierno en digestión.
 
Esta, al fin, me engulle. Y mientras por su esófago
paseo, voy pensando en qué vendrá.
Pero se destruye cuando llego a su estómago
y planteo con un verso una verdad.
 
Oh, la mato y aparece una mayor,
oh, con mucho más infierno en digestión.

Silvio Rodriguez


The drone song


12.5.26

Ser de esquerda, segundo Gilles Deleuze

No Abécédaire, conduzido por Claire Parnet. É o contrário de se pensar como endereço postal, de pensar nos meios para que o privilégio perdure. Não é de esquerda quem vive obcecado com a defesa dos seus interesses, dos nossos interesses como europeus. No exemplo dado por Parnet, não importa se o Japão é ou não de esquerda; importa, sim, que ele está à esquerda do teu endereço postal. Implica destruir o interesse, pensar a partir de uma exterioridade, do ponto de vista do humano e do animal qualquer, lugar onde todo o sofrimento se pressente e se consiga fazer uivar. Essa minoria que se constrói, que devém e permite o devir, é afinal a grande maioria, embora ela esteja esquecida de si mesma porque forja e imita o maioritário vazio e voraz.


10.5.26

Infernos coloridos, infernos cinzentos

Em momento algum pôs Dostoiévski em causa que a Sibéria fosse um inferno, com todos os seus horrores. No entanto, dava graças ao destino por tê-lo desterrado para lá. Sofreu por causa disso, embora, ao mesmo tempo, tenha vivido como salvação o facto de se ter podido apartar da história e da sua racionalidade cinzenta. Primeiro, teve de se lançar às profundezas para, em seguida, se erguer a uma altura maior, como aqueles prisioneiros, seus companheiros, que se jactavam de ser desesperados, «e este desesperado anseia por vezes que o castiguem o quanto antes, espera que o sentenciem, porque, afinal, acaba por ser perturbador aquele afectado desespero» (Cadernos da casa morta).
Posteriormente, descreveu nos seus romances a Europa, a cultura ocidental da sua época, ou seja, tudo quanto se revelou determinante durante aquele tempo, e descreveu-o igualmente como um inferno. Não obstante, a Sibéria era o inferno porque tinha no seu âmago a santidade em embrião; lá, o horror podia-se manifestar de maneira aberta e desmesurada. A Europa, por seu turno, parecia-lhe um inferno porque a repressão que a civilização moderna se impunha a si mesma era infernal: o estrangulamento da santidade, do sofrimento, da morte e da disponibilidade para a salvação. Entender o inferno também no quotidiano, no cinzento, no costume, no meio termo: isto faz de Dostoiévski um psicólogo demoníaco (ou angelical). «Todos nós nos desabituamos da vida, somos todos mais ou menos inválidos. Tão desabituados estamos que às vezes quase sentimos repugnância diante da vida verdadeira, da vida “viva”, e, por isso mesmo, não toleramos que nos lembrem dela», escreve o habitante do subterrâneo. Diante do colorido inferno siberiano, emerge o cinzento inferno europeu, esse inferno que no século XX aparece nas obras de Kafka e de Beckett, no Stalker de Tarkovski, na destruição mecanizada e portanto impessoal, no auto-esquecimento aparentemente definitivo provocado pela técnica.

László F. Földényi, Dostoiévski lê Hegel na Sibéria e desata a chorar



26.4.26

Requintados constrangimentos, sapatos apertados, etc.

Em Julho de 71, um deputado fascista, Aguiar e Silva, na Assembleia Nacional, cita o Elogio da Censura, de Paul Morand:
«Se, através dos tempos, o regime de censura teve inconvenientes nem por isso deverá ser esquecido o reverso da medalha, que é o de ter constituído para os escritores um dos "requintados constrangimentos" de que falava Paul Valéry (...). Acrescentava, em linguagem primorosa, que a censura obrigou o escritor a fazer da sua pena uma arma de subtileza, de acutilante subtileza. Por outro lado, sob o ângulo do leitor, obrigou-o a ler com atenção, forçando-o a ler nas entrelinhas, nas meias palavras, a esforçar-se por apreender aquilo que o escritor quis mas não pôde dizer à vontade».
Outro deputado:
«Aproveito para lembrar as palavras, dignas de ponderação, de um dos grandes pensadores do início do século XIX, Xavier de Maistre: "Os sapatos apertados fazem descobrir danças novas!"»
Aí está: o mal politicamente necessário transforma-se agora num mal culturalmente útil. As fogueiras da Inquisição tiveram afinal o «mérito» de iluminar para a posteridade a obra do judeu António José da Silva, a Guernica, de Picasso, passou a ser o benefício cultural do massacre de uma povoação indefesa... e assim por diante. Invocando a objectividade histórica, os «independentes instalados» na ordem repressiva deslocam os resultados da repressão para um plano menos imediato, menos local, e mais universal. Comentário de um coleccionador de arte e beneficiário do Regime, numa exposição de Júlio Pomar: «Se não fosse o Fascismo, talvez toda esta imaginação de protesto tivesse sido perdida.»

José Cardoso Pires, E agora, José?, «Técnica do golpe de censura»


25.4.26

Compensação pelos anos mal iluminados

Vacâncias

No dia seguinte a baía parecia ter amansado.
Borboletas, correspondentes em terra firme,
Brincavam cúmplices por cima da frescura do mar.
Alegravam-se por todos nós, cumpriam
Pelos mortos uma volta extra
E desapareciam sem deixar rasto.

Repara, nós também éramos capazes de comunicar,
Mudos, como mergulhadores. Pressentíamos
A aproximação dos ferries vindos de outras ilhas,
Motores que ressoavam nas profundezas,
A soma de Verões por chegar. Ai,

Quem me compensará pelos anos mal iluminados,
Desperdiçados em pisos de escritórios? O dia
Sempre a começar tal como tinha terminado,
Com balanços cinzentos, vacâncias sem esperança.

Durs Grünbein, Velas de ignição

21.4.26

A destruição da infância, da beleza e da graça



Militares da IOF - Israel Occupation Forces - cometem (mais) um crime contra a humanidade, ao bloquearem o acesso de crianças palestinianas à escola, em Umm al-Khair, na Cisjordânia ocupada.

20.4.26

Massacre em baixo-contínuo

Trânsito

Os brancos transportes pesados a caminho do sul
E outros na direcção oposta: uma torrente sem fim
De bens e lixo, máquinas e frutas
Derrama-se atravessando os vales Alpinos,
Atravessando os desfiladeiros, através de ravinas de betão.

Grandes nuvens destroçadas acompanham o movimento
Nos pára-brisas, e as borboletas nocturnas
Farfalham nas vinhas ao longo das rotas,
Onde um sinal negro de travagem anuncia uma desgraça.
Também nas células das macieiras
Espreita uma catástrofe secreta.

Como tudo decorre sem atrito.
Como tudo parece pacífico, civilizado.
Há a abundância e a burocracia.
Há o betão e as bananas,
O pânico mudo dos animais transportados
E as pontadas no estômago.

Será este o aspecto da morte que não vemos?

No supermercado uma promoção surpreendente:
Carne de Minotauro, hoje a metade do preço!

Durs Grünbein, Velas de ignição, trad. Maria Teresa Dias Furtado

19.4.26

Sucessão de contritas

Outras versões, quiçá, do princípio da carruagem

A minha vida foi uma sucessão de contritas
Doenças diplomáticas. Na primeira classe
Comecei a ser cábula o mais que podia;
Escapei à primeira comunhão
Indo a férias de natal na covilhã
Com tios empregados nos caminhos-de-ferro;
Fugi à catequese e fiz a confirmação
Sem saber o creio em deus pai e sem saber se cria ou não cria em deus pai;
Nunca mais fui à missa desde os dez, e dizia em casa que ia;
Chumbei por faltas a matemática, a físico-química, a ciência naturais, e o que esqueça,
Por ir jogar à bola, por ficar na cama e por coisa nenhuma;
Acabei o curso de medicina no 2.º ano lectivo por passar o ano civil
A ler sem discriminação na biblioteca geral da universidade;
Servi de pedreiro, sem paixão socialproletária;
Fui à tropa quando não tinha nada que ir;
Fui guarda-nocturno, pouco caso fazendo do que tinha de guardar;
Fui empregado bancário e deixava as contas fazerem-se;
Fiz por acaso a licenciatura e entrei no mestrado depois dos prazos;
Esqueci a conclusão da tese de doutoramento;
Publiquei toneladas para o lixo por descasos de modéstia e sempre desprezando a profissão;
Fiz a agregação porque sim
E et cœtera.

Dei-me prazos e pastagens laterais e voltei sempre in extremis,
E nada disto emocionante, apesar do tamanho rol de não fazer,
E sempre repreensível em tudo isto e, quando calhou, repreendido e sovado,
E de tudo isto, que seria férias prolongadas, não lembrando senão o tédio.
Juntando os bocadinhos numa folha só, o puzzle é:
Estou a olhar um poente de verão interminável
Na fronteira do barrocal (castelo branco cê pê)
Inquieto de sentir o tempo parado e o mundo vazio.

De tanto ir não estando
Uma grande porção da minha historinha
Deixou de estar.

Artistas Congregagos [Américo Lindeza Diogo], Mínimos morais


Contínua luta por relevância

Um capítulo da história do mundo

Deu aulas que os docentes em sabática externa não podiam dar,
Deu aulas que os docentes em sabática interna não queriam dar.
A sua agenda de encargos incluía fazer e corrigir testes
Que outros não faziam e não corrigiam.
Fez,
Notoriamente desprezando uns e outros e os restantes.

No princípio, contente de dar aulas práticas
Da teoria literária herder, hegel
E demais figuras do cânone bonecreiro.
Depois, aproximando-se o fim do prazo de validade,
Querendo assistir às aulas do docente legítimo
Para que constasse que a legitimidade do legítimo era espúria.
Veja-se que o constável seria aproximadamente
Um universal não-contingente,
Uma vez que havia reduzido a dois ou três o número dos discentes espavoridos.

O ano lectivo chegou ao fim e foi posto na rua.
Manifestava então o desejo de aparecer por aí
Com uma ticharte a dizer «sou uma puta»,
Sendo certo que foi deveras a puta
Que na ticharte imaginada era desculpas.

A moral, se alguma, da crónica deste moço,
Que foi uma contínua luta por relevância 
Que apenas pôde ser birra de bernardo e um tremor do universo,
Diz respeito à presente situação das humanidades no mundo.

A desoladora mistela de herder, hegel, outros e restantes,
Com méritos, com autênticos e com gostos de ponta distintíssimos
(Que transforma a prisão de ventre e o horror às pontas soltas
Em arte & religião — herder e tutti fruti)
Permite a origem seja passada a pano dos mil e um escrúpulos
(Sem i-um! ninguém poderá considerar-se escrupuloso)
Até acabar white light white heat ferpeitamente;
Consente libertar os mortos ainda não cativos da matéria bruta;
E torna possível dar vida ao outro e ao pobre, mas, claro,
Nunca com duas beguinas, porém com o lutero que não lembrou.

O leccionador do cânone relevante pode dizer,
Ou trazer na ticharte de trazer,
«O outro vive em mim»
— E, porque isto é dar-te,
Pode abrir os pulsos em palco
Como o vocalista dos mão morta.

Numa casa onde não existem pós-coloniais
Nem, se é crível, subalternos,
O moço conseguiu transformar um horário de substituição
E pessoas de substituição
No papel que deepika bahri chamou «de vítimas por procuração».

De modo que consumiu o outro a patacos
Herder-hegelianos,
Para ser também o outro consumido a tostão.
Nem jameson nem spivak puderam tanto.

Nem adolfo luxúria canibal.

Artistas Congregagos [Américo Lindeza Diogo], Mínimos morais


A universidade

A ÉTICA INVOCADA para a «atitude mental» chama a «universidade» às figuras do ideal; e esta é o amparo da pessoa que a reputa indiscutível, aos jeitos de um último fundamento. Não está em pauta que o teórico da literatura seja uma pessoa detestável, que anda por aquele modo disfarçada; o que antes estará embuçado é um conjunto de problemas éticos modificados, quando não suscitados, pela «consciência que a universidade tem de si» nos seus agentes, e que se exprime já em Abelardo, e antes de Síger, por vários tipos de grandeza e magnimimitas, idest, que a universidade, caracteristicamente, é um desses lugares onde se vive de fama e onde consequentemente se difama, e muito. Se a difamação é extremamente «eficaz contra um capital que, como o capital simbólico, é fama, reputação» (Bourdieu, Science de la science et réflexivité), a «atitude mental» não deixa por isso de lidar com casos menos «metafísicos» [?] de poder feudal, chantagem emotiva mais típica de uma mafia, omertà e imposição de autoridade universitária onde se esperaria discussão científica, incompetência, carreirismo, serviço público mediado pelo notável, que começa até na gestão dos arquivos e bibliografias, nepotismo e oligarquia, &c., a que sobrevive quem chega ao topo, como se quem sobrevivesse fosse o ideal. Vai por aqui uma metalepse, que tem ainda outra feição, pois aquele ideal não é tanto comum como pessoal: o intelecto único universitário tem representação de privilégio em um qualquer lente camonizado. Se a carreira é ética originária «antes de tudo», e solo onde a «atitude mental» deita raízes, o que se chama ética é em rigor uma ideia inata ou um capital incorporado, que a metáfora radicular assevera ser a propriedade natural do lente; a distinção pessoal (camonista) semelha a exultação tipicamente complacente do racismo da inteligência e a derivação «lógico-metódica» que conduz do ideal à ética por figurações conexas vale bem uma teodiceia miniatural do privilégio próprio (Bourdieu, Questions de sociologie).

Américo Lindeza Diogo, Teoria com tipos móveis


18.4.26

A confiança absurda, a vida social

Todos os que nos rodeiam nos matam, seja de que sexo forem. Incluindo as mulheres a quem tudo confiamos, a nossa nudez, a nossa infância, a nossa debilidade, um dia nos matam. Não é culpa das mulheres, mas antes das armas que a nossa confiança lhes entregou. Esta confiança absurda é a mais bela — se contemplada no seio do grupo social — e a mais perigosa das ações que habitam o fundo da alma.
A confidência também é um momento extático. 
A nossa fascinação, o nosso nascimento, a nossa infância, a nossa nudez, a nossa debilidade são as armas que nos matam com mais eficácia. Lembrar-se de que é preciso matar homens e mulheres, de que é preciso antecipar-se, matá-los antes de que nos matem, a isso se chama de vida social. (A vida social distingue-se da selva porque a última não se vê constantemente acossada pela morte do congénere: há gritos, presas, colheitas, risos, flores, sonolências, mas nunca há guerra generalizada na selva.) Em sociedade, até os gritos estão obcecados com a morte do congénere (as óperas). Em sociedade, até as flores estão obcecadas com a morte do congénere (os túmulos).

Pascal Quignard, Vida secreta


17.4.26

Poema apolítico

Cada pessoa é um brilhante
Em estado bruto, único
No seu modo oculto.
Quanta auto-disciplina
Exige um sorriso
Colocado no momento
Certo, uma atenção,
Que só depois a palavra redime.
Será para sempre um enigma,
A razão pela qual a rapariga no autocarro
Sem se irritar,
Nos informou amigavelmente.
Nessa altura passávamos por aldeias
Com alta taxa de desemprego,
Muitos emigrantes, no entanto
Foi um momento conseguido.
Nada de grave sucedeu.
Só mais tarde na estação
De novo se fez ver toda a dureza.
Recantos mal cheirosos, frios,
Lixo diante dos restaurantes de fast-food,
Uma cabine de fotografias tipo passe vazia.
A mulher no guichê dos bilhetes
Olhava fixamente para as suas unhas
Pintadas, antes de, sem palavras,
Empurrar para fora o troco.

Durs Grünbein, Velas de ignição, trad. Maria Teresa Dias Furtado

16.4.26

A merda é a única coisa

A merda é a única coisa
que não se pode conspurcar

Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu


Não podes bater na merda, cuspir na merda, não podes enganar a merda, assediá-la, apalpá-la à cara podre, pagar-lhe mal, caluniá-la, não podes fingir boas intenções nem ser intrujão com a merda, só delicado ou aflito, não podes insinuar, trair a merda, não podes desprezar a merda, injuriá-la com persistência, fazê-la passar por parva, nem sequer descartá-la. Tira-la para longe do olhar, não a profanas, não lhe tocas com a mão, mas nem sequer te vês livre dela, melhor talvez seja ela que te obrigue a ver-se livre do teu corpo. Nem podes, claro, matar a merda, massacrá-la, reservar o melhor sniper para a executar. Tudo isso tem por alvo a vida, a beleza e a inocência, que podes conspurcar. Nenhum poder é exercido sobre a merda, que sobejamente o repudia, nem nada quer submeter. Insubmissa e impotente, a merda, e por isso soberana. Come-a se pretendes não sucumbir ao asco de estar vivo.

Desertos e câmaras de gás

Deserto

Dantes havia homens que se retiravam para o deserto. Para melhor se conhecerem, para comunicarem com Deus, mas nenhum - penso - para conhecer o deserto. Alimentavam-se de mel e gafanhotos, quando não jejuavam. 

Agora foi o deserto que se instalou no meio de nós. E os seus desígnios não são menos obscuros.

Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu

**

No inferno 

Nos anos 30
ocorreu aos nazis
colocar as suas vítimas em câmaras de gás
Os algozes de hoje são mais profissionais:
Eles colocam as câmaras de gás
nas suas vítimas

Najwan Darwish

1.4.26

Pasolini

E o homem que tentava cansar o mar.
(...)
Um homem que deitava fogo às igrejas para que os padres se tornassem pescadores.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca, «Pasolini»


Na rodagem de Decamaron, 1971

Sobre o fechamento do Estreito de Ormuz como violação do direito internacional

Direito internacional:

A war of aggression is defined as the planning, initiation, or execution of a military conflict without self-defense justification, often aimed at territorial gain. The Nuremberg Tribunal famously labeled it the "supreme international crime" because it contains "the accumulated evil of the whole", as it encompasses all other war crimes.

Quem inicia uma guerra de agressão é o máximo responsável por todo o mal subsequente, dado que se trata de um crime internacional supremo.

Complemento:

«And were a civilized nation engaged with barbarians, who observed no rules even of war, the former must also suspend their observance of them, where they no longer serve to any purpose; and must render every action or recounter as bloody and pernicious as possible to the first aggressors.» (David Hume, «An enquiry concerning the principles of morals»).

Nenhum povo civilizado - leia-se, o Irão - deve seguir regras morais quando elas foram previamente suspensas pelos povos bárbaros, isto é, quando cumpri-las já não serve nenhum propósito. Não vivemos o fim do direito internacional, que sempre foi um jogo de sombras refletidas na parede da caverna. Mas o fim da ficção que encenava o seu justo funcionamento.

22.3.26

Poesia ao fim do seu dia mundial

Poesia. Isto, ou então muito pouco. Crianças com mais ternura, mais confiança, menos encerradas no ofício de sobreviver, de fugir, de comer, de chorar.

E o filme de Lee Chang-Dong, Poesia, mostra-o também, de outro modo, com eloquência. Uma senhora com Alzheimer, a atriz Yun Jeong-hie, quer aprender a escrever poesia, inscreve-se num curso. Seguimos a sua vida: ela tem um neto, mas, segundo me lembro, a relação com os pais é tensa porque eles estão sempre muito ocupados. Nas aulas, ela vai lendo poesia, afinando a sensibilidade, criando amizades, momentos que constituem verdadeiros poemas visuais. O seu trabalho final consiste em escrever um poema. Que ela faz com orgulho. Mas o real poema é a coragem e a empatia com que protege uma menina que foi violada por um grupo de rapazes. A protagonista acaba por rejeitar uma soma avultada de dinheiro em troca do seu silêncio e denuncia os rapazes à polícia, entre os quais o seu próprio neto. Notem que o filme não desvaloriza a virulência nem a subtileza poéticas, pois sem a poesia propriamente dita ela não teria feito o seu gesto radical, contra a família, contra a sociedade, contra os seus interesses.


19.3.26

Poesia de Kiarostami

Hesitante
detenho-me na junção
O único caminho que conheço
é o caminho de volta

*

Como
posso dormir em paz
se o tempo não pára nem um segundo
mesmo durante o sono?

*

Como pode viver
a velha tartaruga
trezentos anos
sem notícias do céu?

*

Para além do bem e do mal
o céu 
é azul

17.3.26

Come-botas

Mário Cesariny com bota-escultura, encenando um estranho desejo. Fanado ao Luis Manuel Gaspar.