19.4.26

Sucessão de contritas

Outras versões, quiçá, do princípio da carruagem

A minha vida foi uma sucessão de contritas
Doenças diplomáticas. Na primeira classe
Comecei a ser cábula o mais que podia;
Escapei à primeira comunhão
Indo a férias de natal na covilhã
Com tios empregados nos caminhos-de-ferro;
Fugi à catequese e fiz a confirmação
Sem saber o creio em deus pai e sem saber se cria ou não cria em deus pai;
Nunca mais fui à missa desde os dez, e dizia em casa que ia;
Chumbei por faltas a matemática, a físico-química, a ciência naturais, e o que esqueça,
Por ir jogar à bola, por ficar na cama e por coisa nenhuma;
Acabei o curso de medicina no 2.º ano lectivo por passar o ano civil
A ler sem discriminação na biblioteca geral da universidade;
Servi de pedreiro, sem paixão socialproletária;
Fui à tropa quando não tinha nada que ir;
Fui guarda-nocturno, pouco caso fazendo do que tinha de guardar;
Fui empregado bancário e deixava as contas fazerem-se;
Fiz por acaso a licenciatura e entrei no mestrado depois dos prazos;
Esqueci a conclusão da tese de doutoramento;
Publiquei toneladas para o lixo por descasos de modéstia e sempre desprezando a profissão;
Fiz a agregação porque sim
E et cœtera.

Dei-me prazos e pastagens laterais e voltei sempre in extremis,
E nada disto emocionante, apesar do tamanho rol de não fazer,
E sempre repreensível em tudo isto e, quando calhou, repreendido e sovado,
E de tudo isto, que seria férias prolongadas, não lembrando senão o tédio.
Juntando os bocadinhos numa folha só, o puzzle é:
Estou a olhar um poente de verão interminável
Na fronteira do barrocal (castelo branco cê pê)
Inquieto de sentir o tempo parado e o mundo vazio.

De tanto ir não estando
Uma grande porção da minha historinha
Deixou de estar.

Artistas Congregagos [Américo Lindeza Diogo], Mínimos morais


Contínua luta por relevância

Um capítulo da história do mundo

Deu aulas que os docentes em sabática externa não podiam dar,
Deu aulas que os docentes em sabática interna não queriam dar.
A sua agenda de encargos incluía fazer e corrigir testes
Que outros não faziam e não corrigiam.
Fez,
Notoriamente desprezando uns e outros e os restantes.

No princípio, contente de dar aulas práticas
Da teoria literária herder, hegel
E demais figuras do cânone bonecreiro.
Depois, aproximando-se o fim do prazo de validade,
Querendo assistir às aulas do docente legítimo
Para que constasse que a legitimidade do legítimo era espúria.
Veja-se que o constável seria aproximadamente
Um universal não-contingente,
Uma vez que havia reduzido a dois ou três o número dos discentes espavoridos.

O ano lectivo chegou ao fim e foi posto na rua.
Manifestava então o desejo de aparecer por aí
Com uma ticharte a dizer «sou uma puta»,
Sendo certo que foi deveras a puta
Que na ticharte imaginada era desculpas.

A moral, se alguma, da crónica deste moço,
Que foi uma contínua luta por relevância 
Que apenas pôde ser birra de bernardo e um tremor do universo,
Diz respeito à presente situação das humanidades no mundo.

A desoladora mistela de herder, hegel, outros e restantes,
Com méritos, com autênticos e com gostos de ponta distintíssimos
(Que transforma a prisão de ventre e o horror às pontas soltas
Em arte & religião — herder e tutti fruti)
Permite a origem seja passada a pano dos mil e um escrúpulos
(Sem i-um! ninguém poderá considerar-se escrupuloso)
Até acabar white light white heat ferpeitamente;
Consente libertar os mortos ainda não cativos da matéria bruta;
E torna possível dar vida ao outro e ao pobre, mas, claro,
Nunca com duas beguinas, porém com o lutero que não lembrou.

O leccionador do cânone relevante pode dizer,
Ou trazer na ticharte de trazer,
«O outro vive em mim»
— E, porque isto é dar-te,
Pode abrir os pulsos em palco
Como o vocalista dos mão morta.

Numa casa onde não existem pós-coloniais
Nem, se é crível, subalternos,
O moço conseguiu transformar um horário de substituição
E pessoas de substituição
No papel que deepika bahri chamou «de vítimas por procuração».

De modo que consumiu o outro a patacos
Herder-hegelianos,
Para ser também o outro consumido a tostão.
Nem jameson nem spivak puderam tanto.

Nem adolfo luxúria canibal.

Artistas Congregagos [Américo Lindeza Diogo], Mínimos morais


A universidade

A ÉTICA INVOCADA para a «atitude mental» chama a «universidade» às figuras do ideal; e esta é o amparo da pessoa que a reputa indiscutível, aos jeitos de um último fundamento. Não está em pauta que o teórico da literatura seja uma pessoa detestável, que anda por aquele modo disfarçada; o que antes estará embuçado é um conjunto de problemas éticos modificados, quando não suscitados, pela «consciência que a universidade tem de si» nos seus agentes, e que se exprime já em Abelardo, e antes de Síger, por vários tipos de grandeza e magnimimitas, idest, que a universidade, caracteristicamente, é um desses lugares onde se vive de fama e onde consequentemente se difama, e muito. Se a difamação é extremamente «eficaz contra um capital que, como o capital simbólico, é fama, reputação» (Bourdieu, Science de la science et réflexivité), a «atitude mental» não deixa por isso de lidar com casos menos «metafísicos» [?] de poder feudal, chantagem emotiva mais típica de uma mafia, omertà e imposição de autoridade universitária onde se esperaria discussão científica, incompetência, carreirismo, serviço público mediado pelo notável, que começa até na gestão dos arquivos e bibliografias, nepotismo e oligarquia, &c., a que sobrevive quem chega ao topo, como se quem sobrevivesse fosse o ideal. Vai por aqui uma metalepse, que tem ainda outra feição, pois aquele ideal não é tanto comum como pessoal: o intelecto único universitário tem representação de privilégio em um qualquer lente camonizado. Se a carreira é ética originária «antes de tudo», e solo onde a «atitude mental» deita raízes, o que se chama ética é em rigor uma ideia inata ou um capital incorporado, que a metáfora radicular assevera ser a propriedade natural do lente; a distinção pessoal (camonista) semelha a exultação tipicamente complacente do racismo da inteligência e a derivação «lógico-metódica» que conduz do ideal à ética por figurações conexas vale bem uma teodiceia miniatural do privilégio próprio (Bourdieu, Questions de sociologie).

Américo Lindeza Diogo, Teoria com tipos móveis


18.4.26

A confiança absurda, a vida social

Todos os que nos rodeiam nos matam, seja de que sexo forem. Incluindo as mulheres a quem tudo confiamos, a nossa nudez, a nossa infância, a nossa debilidade, um dia nos matam. Não é culpa das mulheres, mas antes das armas que a nossa confiança lhes entregou. Esta confiança absurda é a mais bela — se contemplada no seio do grupo social — e a mais perigosa das ações que habitam o fundo da alma.
A confidência também é um momento extático. 
A nossa fascinação, o nosso nascimento, a nossa infância, a nossa nudez, a nossa debilidade são as armas que nos matam com mais eficácia. Lembrar-se de que é preciso matar homens e mulheres, de que é preciso antecipar-se, matá-los antes de que nos matem, a isso se chama de vida social. (A vida social distingue-se da selva porque a última não se vê constantemente acossada pela morte do congénere: há gritos, presas, colheitas, risos, flores, sonolências, mas nunca há guerra generalizada na selva.) Em sociedade, até os gritos estão obcecados com a morte do congénere (as óperas). Em sociedade, até as flores estão obcecadas com a morte do congénere (os túmulos).

Pascal Quignard, Vida secreta


17.4.26

Poema apolítico

Cada pessoa é um brilhante
Em estado bruto, único
No seu modo oculto.
Quanta auto-disciplina
Exige um sorriso
Colocado no momento
Certo, uma atenção,
Que só depois a palavra redime.
Será para sempre um enigma,
A razão pela qual a rapariga no autocarro
Sem se irritar,
Nos informou amigavelmente.
Nessa altura passávamos por aldeias
Com alta taxa de desemprego,
Muitos emigrantes, no entanto
Foi um momento conseguido.
Nada de grave sucedeu.
Só mais tarde na estação
De novo se fez ver toda a dureza.
Recantos mal cheirosos, frios,
Lixo diante dos restaurantes de fast-food,
Uma cabine de fotografias tipo passe vazia.
A mulher no guichê dos bilhetes
Olhava fixamente para as suas unhas
Pintadas, antes de, sem palavras,
Empurrar para fora o troco.

Durs Grünbein, Velas de ignição, trad. Maria Teresa Dias Furtado

16.4.26

A merda é a única coisa

A merda é a única coisa
que não se pode conspurcar

Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu


Não podes bater na merda, cuspir na merda, não podes enganar a merda, assediá-la, apalpá-la à cara podre, pagar-lhe mal, caluniá-la, não podes fingir boas intenções nem ser intrujão com a merda, só delicado ou aflito, não podes insinuar, trair a merda, não podes desprezar a merda, injuriá-la com persistência, fazê-la passar por parva, nem sequer descartá-la. Tira-la para longe do olhar, não a profanas, não lhe tocas com a mão, mas nem sequer te vês livre dela, melhor talvez seja ela que te obrigue a ver-se livre do teu corpo. Nem podes, claro, matar a merda, massacrá-la, reservar o melhor sniper para a executar. Tudo isso tem por alvo a vida, a beleza e a inocência, que podes conspurcar. Nenhum poder é exercido sobre a merda, que sobejamente o repudia, nem nada quer submeter. Insubmissa e impotente, a merda, e por isso soberana. Come-a se pretendes não sucumbir ao asco de estar vivo.

Desertos e câmaras de gás

Deserto

Dantes havia homens que se retiravam para o deserto. Para melhor se conhecerem, para comunicarem com Deus, mas nenhum - penso - para conhecer o deserto. Alimentavam-se de mel e gafanhotos, quando não jejuavam. 

Agora foi o deserto que se instalou no meio de nós. E os seus desígnios não são menos obscuros.

Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu

**

No inferno 

Nos anos 30
ocorreu aos nazis
colocar as suas vítimas em câmaras de gás
Os algozes de hoje são mais profissionais:
Eles colocam as câmaras de gás
nas suas vítimas

Najwan Darwish

1.4.26

Pasolini

E o homem que tentava cansar o mar.
(...)
Um homem que deitava fogo às igrejas para que os padres se tornassem pescadores.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca, «Pasolini»


Na rodagem de Decamaron, 1971

Sobre o fechamento do Estreito de Ormuz como violação do direito internacional

A war of aggression is defined as the planning, initiation, or execution of a military conflict without self-defense justification, often aimed at territorial gain. The Nuremberg Tribunal famously labeled it the "supreme international crime" because it contains "the accumulated evil of the whole", as it encompasses all other war crimes.

Quem inicia uma guerra de agressão é o máximo responsável por todo o mal subsequente, dado que se trata de um crime internacional supremo.

Complemento:

«And were a civilized nation engaged with barbarians, who observed no rules even of war, the former must also suspend their observance of them, where they no longer serve to any purpose; and must render every action or recounter as bloody and pernicious as possible to the first aggressors.» (David Hume, «An enquiry concerning the principles of morals»).

Nenhum povo civilizado, mais que não seja por ter sido agredido, deve seguir regras morais, posto que elas tenham sido suspensas pelos povos bárbaros e cumpri-las já não sirva nenhum propósito. Não é o fim do direito internacional, que sempre foi um jogo de sombras refletidas na parede da caverna. É o fim da ficção que encenava o seu justo funcionamento.

22.3.26

Poesia ao fim do seu dia mundial

Poesia. Isto, ou então muito pouco. Crianças com mais ternura, mais confiança, menos encerradas no ofício de sobreviver, de fugir, de comer, de chorar.

E o filme de Lee Chang-Dong, Poesia, mostra-o também, de outro modo, com eloquência. Uma senhora com Alzheimer, a atriz Yun Jeong-hie, quer aprender a escrever poesia, inscreve-se num curso. Seguimos a sua vida: ela tem um neto, mas, segundo me lembro, a relação com os pais é tensa porque eles estão sempre muito ocupados. Nas aulas, ela vai lendo poesia, afinando a sensibilidade, criando amizades, momentos que constituem verdadeiros poemas visuais. O seu trabalho final consiste em escrever um poema. Que ela faz com orgulho. Mas o real poema é a coragem e a empatia com que protege uma menina que foi violada por um grupo de rapazes. A protagonista acaba por rejeitar uma soma avultada de dinheiro em troca do seu silêncio e denuncia os rapazes à polícia, entre os quais o seu próprio neto. Notem que o filme não desvaloriza a virulência nem a subtileza poéticas, pois sem a poesia propriamente dita ela não teria feito o seu gesto radical, contra a família, contra a sociedade, contra os seus interesses.


19.3.26

Poesia de Kiarostami

Hesitante
detenho-me na junção
O único caminho que conheço
é o caminho de volta

Como
posso dormir em paz
se o tempo não pára nem um segundo
mesmo durante o sono?

Como pode viver
a velha tartaruga
trezentos anos
sem notícias do céu?

Para além do bem e do mal
o céu 
é azul

17.3.26

Come-botas

Mário Cesariny com bota-escultura, encenando um estranho desejo. Fanado ao Luis Manuel Gaspar.


16.3.26

O Irão, a esquerda escrupulosa e o império

A administração Trump avalia que estes acordos multilaterais são uma restrição ao poder dos EUA?

Sim, mas acredito que Trump esteja enganado. O multilateralismo fortaleceu o poder dos EUA porque lhes proporcionou uma fachada de soft power. Era benéfico para a sua hegemonia parecer uma potência razoável disposta a envolver-se no multilateralismo. A retirada dos compromissos de financiamento da ONU e dos acordos comerciais e climáticos arruinou a hegemonia do soft power dos EUA. Penso que os EUA estão errados ao tomar esta decisão, mesmo do ponto de vista dos seus interesses materiais.

Jason Hickel, entrevista ao Expresso


Começo este texto com esta reflexão de Jason Hickel, que sinaliza que o multilateralismo ocidental é uma farsa. Ao dia de hoje, toda a gente entende claramente que o multilateralismo não é, como deveria, um consenso que resulta de um conjunto de posições próprias, mesmo se pontualmente dissonantes. É e sempre foi um eufemismo para uma hierarquia em que há um bully e há vassalos, estes com uma linguagem um pouquinho mais sofisticada que uma parte (cada vez menor) do mundo tem por sábia porque proveniente da Europa. A Europa emprestava cobertura à hubris do império americano, contribuindo para que a opinião pública mundial olhasse benignamente para guerras e genocídios, reconvertidos em intervenções inevitáveis em nome de valores elevadíssimos como liberdade, democracia ou simples decência. Essa fachada, a mando do velho dinheiro de oligarcas europeus que mantêm negócios com os bilionários americanos, é construída nos media não apenas pelos jornalistas ou comentadores, mas por uma intelligentsia com escassa mobilidade mental que lhe confere um selo forjado de cientificidade.
Não raras vezes, esta trupe é constituído por pessoas da universidade que perseguem com tenacidade os seus fantasmas: o terem sido de esquerda radical. É bom o exercício autocrítico, sondar e contornar os limites negros do fanatismo, com a condição de não nos tornarmos fanáticos porque o essencial nos passa ao lado. Isto acontece-lhes muito por estes dias. Regra geral, as posições destes reconhecidos guias morais da esquerda, representantes do establishment um niquinho mais desenvoltos, só atingem o acúmen da indignação quando o alvo é a esquerda. Nós somos a única esquerda responsável, tudo o mais é um conjunto de fanáticos que nós sabiamente desconstruímos, tantas vezes até ao ponto de nenhuma convicção nos restar nas mãos. Eis os meninos bonitos da esquerda, querem sempre que o centro, que consente o fascismo, que com ele negoceia, flirta, ou então usa como escudo, os vejam com condescendência, e por isso tornam-se eles realmente parte desse centro, parte da fachada para os desmandos do império, cujos sinais de declínio moral, geopolítico e económico são imensos. Antes do mais, deve-se ressalvar que reconhecer que os EUA são o império dominador não é uma posição extrema. É um dado histórico evidente, senão atualmente — em que a proliferação de guerras nos expõe, europeus, a níveis de propaganda verdadeiramente inauditos, que impedem o espírito crítico, além de fomentarem xenofobias e medos irracionais —, no futuro de certeza o será. Para o Sul Global, a violência imperial é vivida há décadas na pele, no medo e no fascínio diários, e esta constatação, senão outra coisa, dever-nos-ia colocar, a nós europeus, de sobreaviso a respeito do enviesamento das nossas posições. Declínio não significa um fim imediato, como é evidente, enquanto ganha forma um mundo multi-nodal, de nós de poder que pontuam o globo e desafiam a hegemonia norte-americana.
Quando o eixo EUA-Israel decapitou o líder supremo (o Irão continua a atacar sem centro, como um corpo metódico sem cabeça, bom conhecedor da doutrina militar americana), instigou a tomada de poder e, após ter logo visto que ela não era viável, se mostrou disponível para as negociações (que interrompeu brutalmente com o início da guerra, pormenor esquecido), a esquerda ilustrada ficou com medo de que Trump estivesse a entregar os manifestantes às feras. No fundo, os membros desta esquerda zelam e muito pela sua carreira e imagem e, por isso, antes da verdade, antes de tudo o mais, tentam sempre parecer bons e bonitos. Não pensam, protegem o ego, não vão os demais, moralistas de sobreaviso, colocá-los em causa. Manterão a ambiguidade suficiente nas suas posições para que, no futuro, não digam que foram apanhados em contra-pé. Porém renunciaram ao pensamento porque isso colocaria em risco a sua boa imagem. Sustentam-se naquela noção de bondade que é o cálculo interessado. Apertam a realidade para que seja à medida da sua teoria e das suas expectativas, não em função do que acontece, até porque nenhuma multidão iraniana esteve em risco após o início da guerra pelo eixo israelo-americano. Estas posições à esquerda parecem sólidas, mas revelam-se bastante fossilizadas, pouco ajustadas a um tempo diferente daquele em que a sua consolidação de ideias aconteceu. Dirigem as palavras e os juízos mais contundentes ao Irão, sem réplica possível: «regime assassino» e «tirania teocrática». Nunca usariam termos análogos para o caso de Israel, regime muito mais assassino e inclusive teocrático. Também os EUA são um regime oligárquico assassino (democrático a nível interno, embora isso esteja em causa), um império embriagado por décadas sem rival, responsável por inúmeras guerras e genocídios. Só recentemente financiou, defendeu e lucrou com o genocídio em Gaza (o genocídio dos palestinianos é outra simples constatação que certos membros da esquerda só a ferros arrancada dirão, pelo menos em público). 
O caso Epstein, a acontecer no Irão ou na Rússia, desencadearia uma logorreia insanável para que muita esquerda contribuiria. Irrompendo no núcleo do império, é um detalhe, uma extravagância elitista a recalcar. Coloca-se a doença propriamente dita na sombra e dá-se ênfase ao sintoma. Sim, Trump é um sintoma. O regime americano atual é mais tresloucado do que os seus antecessores, mas nada de essencial modificou na política americana. A presidência de Trump mostra que o rei sempre foi nu, como Hickel argumenta. Está-se a marimbar para a fachada de soft power, até porque a sua educação não dá para mais. Ataca os elitistas de Wall Street que se riem dele, aos quais responsabiliza por ter perdido as eleições em 2020. Por isso, a guerra civil nos Estados Unidos é essencialmente entre esta elite e a de Sillicon Valley. Notem que, evidentemente, isto não visa defender Trump, mas assinalar que o problema é mais profundo: é o dispositivo militar que, em defesa do dólar e da economia, lança guerras atrás de guerras para forçar a pilhagem de recursos naturais. Lembremo-nos, ainda, que Obama foi responsável pelos massacres na Líbia e na Síria, onde o Daesh e o ISIS, a mando do eixo Israel-América-Europa, levaram a cabo atos sádicos aproveitando-se do caos gerado pelo vazio de poder. Creio não ser necessário evocar Bush e o Iraque e o Afeganistão, Clinton e Timor, Biden e o apoio ao genocídio em Gaza. O Obamacare e certas políticas liberais nos costumes permitiram a Obama salvar um pouco a face, mas pouca credibilidade reúne à esquerda (protegeu a elite de Wall Street nos anos da crise de 2009 e, também por isso, é provável que regresse nas próximas eleições, contra Trump) justamente por seguir este tipo de políticas genocidas vendidas ao mundo como duras, sim, mas com finalidades e intenções elevadas. Políticas como a guerra ao Irão, que, no eufemismo desta esquerda europeísta, devedor de propaganda de quilate rasca, é «uma iniciativa militar ilegal». O uso do termo «regime» fica reservado para aquilo que os próprios entendem por mal, apressando-se a colocar um cordão sanitário sobre uma realidade que, à partida, desconhecem, mas repugnam, alunos fanhosos do diktat imperial. Esta gramática simplista deveria, à esquerda, ela sim, merecer auto-crítica, precisamente para não darmos cobertura aos atos mais hediondos. O Irão é uma cultura ancestral submetida, no século XX, a um golpe militar dos EUA e do Reino Unido (cuja BP, British Petroleum, não teria sido fundada sem o saque ao solo iraniano) que pôs fim ao governo democrático de Mossadegh em 1953, instaurando um regime de terror policial apoiado pelo Ocidente e liderado por Reza Pahlavi, pai do atual candidato iraniano ao poder, o que o tem levado a financiar e a promover a campanha de massacre em curso contra o seu próprio povo. Na década de 1980, foi atacado pelo Iraque com armas químicas financiadas pelo Ocidente. O Irão tornou-se efetivamente num país fechado que impôs costumes religiosos, sobretudo às mulheres, alheios à sua própria tradição, forçado a virar-se para dentro também por um conjunto sistemático de sanções — a maioria, ilegais — e campanhas mediáticas pejadas de preconceitos. Nada nestas decisões do Ocidente manifesta um interesse verdadeiro em entender e conviver politicamente com o outro, mas apenas em redirigir as suas posições, forçando-as a uma convergência. O Irão foi, ainda, coagido a viver com o terror diário causado pelo projeto colonial sionista ao longo dos últimos oitenta anos.
Lendo-os bem, percebemos o grau de desinformação, ou credulidade eurocêntrica. Posições como as que alguns membros do Livre assumem, diga-se rapidamente, com a apologia, praticamente incondicional, da Europa, estende-se, ao dia de hoje, à ratificação dos valores niilistas do Ocidente e com o apoio, mais ou menos consciente, à violência imperialista.
Os protestos no Irão foram orgânicos, mas só até certo ponto: houve infiltrações da Mossad e da CIA que semearam a violência nas ruas de Teerão e de outras cidades iranianas. Mike Pompeo, antigo diretor da CIA, e ministros israelitas disseram-no abertamente. O secretário de Tesouro norte-americano, Scott Bessent, afirmou, no Fórum Económico Mundial, em Doha, que a tensão no Irão foi provocada pelas sanções americanas, que desvalorizaram brutalmente o rial e visaram intencionalmente o caos. Portanto, considerar que Trump apela aos iranianos a que derrubem o seu governo, no alto do seu pedestal democrático, mesmo que o regime americano tenha preparado e financiado durante décadas esses motins violentos e tenha autorizado medidas financeiras de intenção genocida, além das que impõe com o seu poder naval, marginalizando o país na ordem económica global, é no mínimo ridículo. A credulidade aumenta quando parecem acreditar realmente que os iranianos, bombardeados e massacrados (como aconteceu as 165 crianças de uma escola em Minab), iriam sair à rua em defesa dos seus algozes. Aliás, nos últimos dias, têm-se multiplicado as manifestações em defesa do Irão e da sua administração, durante as quais Israel e os EUA têm lançado bombas e provocado mortes. Ou seja, ao dia de hoje, os ‘libertadores democratas’, em que certa esquerda (para não falar no centro-esquerda, muito menos na direita) depositou tanta esperança, estão a bombardear manifestações pacíficas no Irão. Não era exatamente o que eles anteviram. Uma parte da população iraniana, porém, está realmente muito agastada com o regime político, pelo modo espartano, entende-se melhor agora, como cerrou fileiras, perseguiu dissidentes, investiu em armamento e planeou metodicamente a retaliação desta agressão terrorífica dos EUA e de Israel. No entanto, não é muito inteligente bombardear indiscriminadamente Teerão, onde, entre uma população culta, tendencialmente anti-belicista, mais facilmente se encontrariam apoiantes de uma causa democrática, não certamente esta, encarnada por um populista apalhaçado e belicoso e pelo mais sanguinolento e longevo genocida do século XXI. A resistência escreve-se por linhas tortas. Que o digam os sudaneses, cujo genocídio parece abrandar devido ao bloqueio no Estreito de Ormuz: de há quinze dias a esta parte, as armas e a logística dos Emirados chegam mais dificilmente às milícias do RSF. Já o poder e o consentimento, por seu turno, seguem tanta vez linhas cínicas, isto é, direitas e unânimes. 
Por fim, refira-se que a resposta flexível e ‘criativa’ dos iranianos tem gerado o pânico na Europa, cuja posição política oficial começou por condenar a vítima na expectativa, provavelmente gorada, de reclamar mais apoio para a guerra mais do que perdida na Ucrânia. Trata-se de um grau de vassalagem inaudito que, além do mais, manifesta a aflição com o ataque ao sistema financeiro global (os mísseis e drones iranianos que atingem os países do GCC, essa miragem feita de petrodólares reinvestidos nos mercados financeiros americanos, especialmente de AI), acentuando a nostalgia dos tempos do privilégio, em que não só a defesa estava garantida sob extorsão, como havia energia barata da Rússia. Eis o segredo do ‘milagre’ alemão, sinergia que é do interesse do Império suspender. Enquanto isso acontece, o Sudeste Asiático vai sufocando, especialmente países como o Vietname, Tailândia ou as Filipinas, mas também o Japão, cuja posição seria ainda mais débil se a China controlasse o Estreito de Malaca. O continente africano sofrerá consequências incalculáveis a que se exige especial atenção. Neste momento, a Europa, fornecendo na guerra contra o Irão inteligência, equipamento naval e bases militares — o que é a Europa senão um porta-aviões americano? — faz a figura pública de neutralidade embora contribua para a violência. Mas um envolvimento mais significativo autorizaria a entrada direta da Rússia e da China, transformando o conflito com o Irão numa Terceira Guerra Mundial. A qual parece ser inevitável, ou talvez já esteja a acontecer. Em tempos cínicos em que qualquer facto é invertido, em que tudo pode ser justificado, a tal ponto que nem um arremedo de argumento se necessita utilizar, em que ninguém declara guerra a ninguém, nem sequer esboça um pretexto para uma agressão abjeta, uma guerra mundial poderá passar naturalmente ao lado do mundo como se fosse um simulacro gerado pela AI.

PS: Como alguém disse: «Há aquela frase que diz que "o poder corrompe". E se esta frase é verdadeira, o inverso dela também será verdadeiro. Isto é, aqueles que são perseguidos pelo poder, aqueles que são presas do poder, também são corrompidos de uma forma mais subtil e, até certo ponto, mais trágica.»

7.3.26

Poder imenso, consumpção infinita

A nossa existência, e mesmo a nossa sobrevivência, estão ligadas de modo essencial a um poder imenso: o poder de não reparar nisto e naquilo, de não ver, de não ouvir, de não se lembrar, um poder cuja expansão sempre crescente conduz a uma experiência que nos transporta em surdina, silenciosa, tão vaga como persistente, a experiência de uma consumpção infinita: nós sabemos que estamos sempre a perder.

Maria Filomena Molder, Matérias sensíveis


1.3.26

Oportunismo, estar-junto, comuns e subcomuns

A governança propõe sempre um programa para o desenvolvimento e progresso das desprivilegiadas, de quem está e é errada. E propõe sempre uma forma de ajuda que capitaliza enquanto participação. Por outras palavras, as políticas são sempre uma estratégia de captura e gestão sociais (para lá da esfera estrita do trabalho) que pede a participação do cidadão, a participação pública e do público, como a única maneira que o capital tem de extrair valor das formas de estar comunais que lhe são opacas. Segundo a governança, o que é preciso é traduzir aquilo que se move através de tudo isto, como sussurro ou grito ou música, numa linguagem que se perceba bem, e que portanto se possa dominar: a linguagem da política, que tem então a capacidade de continuar a colonizá-la.
Precisamente porque esta comunalidade e estas formas de estar, de estar-junto, não são claras, explícitas, transparentes para o capital, porque não lhe são imediatamente avaliáveis, mensuráveis, valorizáveis, a governança opera ajudando — ou mesmo «apoiando», «impulsionando», «dando voz a», «estando lá para» — as próprias comunidades para extrair delas interesse — aqui em ambos os sentidos. A governança está sempre a oferecer interesse às pessoas quando oferece o entusiasmo da participação com a promessa de um retorno incremental localizado sempre no futuro — que está já dentro do círculo fechado da dívida-crédito. Onde a governança falha, onde não é capaz de fazer cumprir a sua tarefa e promessa, a culpa é sempre de uma falta de participação cívica, civil e civilizada, uma falta de interesse.

P. Feijó, «Diz-lhes que Voávamos: a Auto-defesa do Arredor», Os Subcomuns: Planeamento Fugitivo e Estudo Negro


28.1.26

Mais nu que a nudez

Existe algo mais nu do que a nudez. É a angústia. A angústia que subitamente atravessa um olhar dá-me a impressão, quando aparece inesperadamente e ascende por esse corpo, de ser uma nudez mais impudica que a nudez propriamente dita. Porque a nudez desvela o corpo enquanto a angústia desvela a identidade e, por trás da identidade, a sua ausência de enraizamento no corpo.
A angústia é a única nudez impudica da humanidade.
Tudo o resto é desnudatio.

Pascal Quignard

22.1.26

Res nullius


Branqueamento de um genocídio através de empreendimentos projetados sobre dezenas de milhares de cadáveres do povo da Palestina. O fascismo, tão bem intencionado, cute, assente em projetos de controlo e vigilância através de dispositivos biométricos. Este colonialismo clean, este pragmatismo económico, esta uniformidade sintática são o fascismo. Desde a doação do Congo ao Rei Leopoldo II, nas Conferências de Berlim, que não havia nada semelhante à aprovação da resolução 2803, no Conselho de Segurança da ONU, a 17 de novembro de 2025, a qual, em termos práticos, faz com que Trump presida indefinidamente a Gaza sem ter a obrigação de prestar contas a nenhum órgão. Bater palmas aos predadores, que bom, que nos alertam para a perda de tempo e energia que seria condenar os genocidas e enterrar os mortos com a mínima dignidade. Mas não, bulldozers limparam-nos com toneladas de entulho à mistura, eles são parte daquele tóxico monturo, ativos financeiros que requerem saneamento. Uma limpeza não menor do que a de tantas e tantas pessoas com deficiência, tantos ciganos, dissidentes e judeus por vários campos de concentração ao longo do último século. Nem parece que estão em causa ainda mais crimes de guerra, a mais baixa imoralidade, não enterrar os mortos, não: olhemos para a frente, meus meninos. Foco. Estamos a preparar o terreno da vossa vida sem vos consultarmos. Hoje é tudo explícito por virtude mediática e sobretudo de inúmeros e valentes ativistas, mas a maioria da população recusa-se a entender apesar de tanta evidência. Séculos de censuras e inquisições fizeram com que nos tivéssemos tornado em especialistas no ocultamento de tudo o que é nítido. Somos inundados por propaganda indolente e retorcida através dos media e governos ocidentais. Estes novos nazis, praticamente iguais aos mais antigos, de dentes rútilos, silhueta elegante, com aquela curvatura de pescoço tão sensível que séculos de escravos moldaram, vendem a morte massiva como uma iniciativa económica irrecusável. E nada nem ninguém pode tornar a Europa mais fascista do que o apoio a esta abjeção. Um fascismo investido de ultra-capital, para o qual a liberdade é ir ao McDonald's, viver numa Trump Tower e fazer revoluções only fans. Os países árabes que apoiam isto, governados por puppets autoritários, são igualmente rapaces. Enfim, o velho princípio de estar do lado de quem vence, o cerne da servidão voluntária e da vontade de poder. Quem tem força só escuta palavras de contenção por vontade própria, como referia Carl Schmitt. E isso é tão válido para os anos 30 do século XX como para o ano de 2026. Embora se duvide que hoje alguém ainda as pronuncie, a não ser em desespero quando o império lhes bata à porta. Veja-se o caso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, banqueiro, ex-gestor da Goldman Sachs, cujo discurso em Davos recupera duas referências históricas. Uma, A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, permite a Carney esgrimir o seguinte argumento: tal como os Atenienses canibalizaram a Liga de Delos após terem derrotado a ameaça que os Persas representavam, assim os Estados Unidos da América exploram os seus aliados depois de terem derrotado o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, tanto Atenas como a América se converteram em máfias especializadas na extorsão dos seus vassalos (em toda esta história, os russos cumprem o papel de malvados fascistas, ainda que mais de 20 milhões de soviéticos tenham morrido durante o conflito). Basicamente, esta referência permite a Carney chorar lágrimas de crocodilo, ao mesmo tempo que, nas entrelinhas, faz da China a nova Esparta. A segunda referência, A potência dos impotentes, de Vaclav Havel, é também sintoma de uma hipocrisia gritante: enquanto se beneficiou dos atropelos à lei internacional do grande império, tudo bem; agora que ele se volta contra nós, é preciso dizer a verdade ao poder. Neste ponto atarantado também se encontra a Europa. Sobre o Canadá, o mais provável é que Carney, na sua visão neoliberal, conceba o seu país como um ativo tóxico e o queira tentar vender à China, na expectativa de consolidar um outro multilateralismo quando o America First e a National Security Strategy fizeram estilhaçar a aparência daquele que (ainda) vigora a Ocidente. Mas é certo que o Ocidente continua a pôr o letreiro 'democracia liberal' à sua porta. Tão bom.



11.1.26

Efeitos da sublimação do Mal

Novick argumenta também que «pretender que o Holocausto faz parte da memória da América» é uma evasão moral, porque faz-nos «desresponsabilizar de coisas que de facto dizem respeito aos americanos quando se confrontam com o seu passado, presente e futuro.» (Sublinhado no original.) Nisso tem toda a razão. É muito mais fácil deplorar os crimes dos outros do que olhar para os nossos. No entanto, também é verdade que, se quiséssemos, poderíamos aprender muito sobre nós mesmos a partir da experiência nazi. O Destino Manifesto foi a pedra basilar de quase todos os elementos ideológicos e programáticos da política de Lebensraum de Hitler. Na realidade, Hitler modelou a sua conquista do Leste pela conquista americana do Oeste. Durante a primeira metade deste século, a maioria dos estados americanos aprovou leis autorizando a esterilização e dezenas de milhares de americanos foram esterilizados à força. Os nazis evocaram explicitamente este precedente americano quando aprovaram as suas leis de esterilização. As famosas Leis de Nuremberga de 1935 privaram os judeus do direito de voto e proibiram a miscigenação entre judeus e não judeus. Os negros do Sul americano sofreram dos mesmos entraves legais e foram alvo de uma violência popular espontânea e consentida muito maior do que a exercida contra os judeus na Alemanha de antes da guerra.
[...]
Mas antes de Wiesel ir chorar por encomenda a sorte dos kosovares, o regime indonésio apoiado pelos Estados Unidos retomara o trabalho que deixara inacabado nos finais dos anos 70, perpetrando novos massacres em Timor-Leste. Apesar disso, o Holocausto varreu-se da memória da administração Clinton, que consentiu o banho de sangue. Como explicou um diplomata ocidental, «A Indonésia conta, Timor-Leste não.»
Novick salienta a cumplicidade dos Estados Unidos em desastres humanos que, embora diferentes do extermínio nazi, têm a mesma dimensão. Recordando, por exemplo, um milhão de crianças mortas na Solução Final, observa que os presidentes americanos pouco fazem além de balbuciar palavras piedosas quando, em todo o mundo, todos os anos «morrem de fome e doenças evitáveis» muitos milhões de crianças. Também podemos considerar um caso pertinente de cumplicidade americana activa. Depois de uma coligação dirigida pelos Estados Unidos ter devastado o Iraque em 1991 para castigar «Saddam-Hitler», os Estados Unidos e a Grã-Bretanha impuseram sanções criminosas através das Nações Unidas a esse desgraçado país, com o objectivo de provocarem a deposição do seu ditador. É provável que tenham morrido um milhão de crianças, como no holocausto nazi. Interrogada na televisão nacional sobre essa hecatombe terrível, a secretária de Estado Madeleine Albright respondeu que «o preço justifica-se». 
Novick afirma que «o próprio carácter extremo do Holocausto limita seriamente a possibilidade de dele retirarmos lições aplicáveis ao nosso mundo de hoje.» Como «bitola máxima de opressão e atrocidade», tende a «banalizar crimes de magnitude inferior». Mas o holocausto nazi também pode sensibilizar-nos para estas injustiças. Visto através do prisma de Auschwitz, o que dantes se considerava como aceitável — por exemplo, os preconceitos racistas — deixou de o ser. Na realidade, foi o holocausto nazi que desacreditou o racismo científico que era uma característica tão presente na vida intelectual americana antes da Segunda Guerra Mundial.

Norman Finkelstein, A indústria do Holocausto. Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus



29.12.25

Não herdar, desconectar a situação

Ph. P. — É também a paródia da emancipação política. Na sua opinião, o capitalismo será esse «monstro frio» de que falava Simone Weil a propósito do Estado?

J. B. — É um monstro que inverte os dados da libertação social: é o capital que se emancipa dos trabalhadores! São os pais que se libertam dos filhos! É o fim do complexo de Édipo, o fim da luta de classes, à sombra dos quais tudo funcionava tão bem. Todos os movimentos se invertem. Só se falava de liberdade, de emancipação, de transformar a fatalidade no máximo possível de liberdade. Apercebemo-nos hoje de que a onda libertadora não é mais do que a melhor forma de oferecer aos escravos o fantasma do poder e da liberdade. 
É uma interacção forçada: a partir de agora a massa intervém directamente nos acontecimentos através dos Audimat e de outros modems interpostos. A massa tornou-se interactiva! Nas sondagens, somos todos implicados estatisticamente: a cumplicidade forçada. De qualquer modo, e sem o querermos, há muito que somos interactivos em todas as áreas, através de todos os sistemas de respostas automáticas aos quais estamos escravizados. E a interactividade que nos propõem nunca igualará aquela que nós já suportamos — a interpassividade colectiva que a outra põe em funcionamento apenas através das técnicas de informação e de comunicação. 
Daí que, na esfera interactiva, se assista à impossibilidade de colocar o problema da liberdade e da responsabilidade. As pessoas quase se espantam por terem filhos (alguma vez as crianças se espantam por terem pais?) e espantam-se por serem responsáveis por eles, como por muitas outras coisas. Espantam-se por terem de tomar conta da sua própria vida. Já não possuem convicções, já não estão persuadidos de nada. Espantam-se por terem um corpo. Nada disto conserva um verdadeiro fundamento. Nada se impõe já como valor ao imaginário nem à consciência, nem sequer como fantasma ao inconsciente. Neste contexto, qualquer responsabilidade ou atribuição de responsabilidade revela-se surrealista. As pessoas bem poderiam espantar-se por terem de procurar trabalho, por serem os instrumentos de ligação de uma quantidade de redes insignificantes, os actores involuntários de uma comédia geral interactiva, o alvo de exigências e de perguntas das quais são apenas os respondedores automáticos.

Ph. P. — Será que eles se espantam, ao menos, por viverem em surda cumplicidade com os poderes?

J. B. — Nem isso, porque são cúmplices de um poder que, a falar verdade, já não existe, o que é pior ainda. De um poder que é investido e desinvestido ao mesmo tempo por toda a gente, como se fosse um palco giratório ou uma geometria variável de soma nula. Toda a gente se permite a comédia do poder (como a de tantas outras coisas, de resto: do social ou da cultura). Mas mantenho a esperança de que exista aí um jogo duplo, individual e colectivo. Seria necessário poder não herdar, desconectar a situação, quebrar o encadeamento consensual. Mas não podemos de forma alguma alimentar ilusões sobre a tomada de consciência nem sobre o encadeamento da revolta. Numa História in progress, provoca-se um acontecimento se se antecipar ou criar condições de evolução mais rápidas, ou seja, um diferencial explosivo. Numa curva involutiva como a nossa, contribui-se para a involução ao tentar acelerar ou corrigir o sistema. Estamos presos na armadilha, na escrita automática dos sistema. Mas existem formas inconscientes de convulsão social e de revolta latente contra esta participação forçada.

Jean Baudrillard, O paroxista indiferente. Conversas com Philippe Petit 


28.12.25

Mostrar a vida como aparece no sonho

A vida em sonho

Muitos de nós inventam as pessoas e apaixonam-se não por uma pessoa real, mas pela ideia com a qual envolvemos essa pessoa, como um vestido que geralmente não lhe fica bem. Que desencanto, quando nos apercebemos disso! Ou melhor, apercebemo-nos disso quando surge o desencanto, quando deixamos de amar. Muitas das personagens de Tchékhov funcionam assim, sonhadores que não reagem segundo a realidade, mas segundo a sua própria imaginação. Se não fosse assim, a jovem Sacha ter-se-ia apaixonado por aquele homem gasto, prostrado, que é Ivanov? «Ela ressuscitará aquele que caiu... Não é Ivanov que ela ama, mas essa tarefa», observa Tchékhov.
Para representar o escritor Trigórin, em A Gaivota, Stanislávski vestira-se com elegância. Tchékhov diz-lhe que não pode ser assim: «Ele veste umas calças aos quadrados e sapatos esburacados.»
Isto significa que Nina fica apaixonada não pelo verdadeiro Trigórin, personagem bastante mesquinha, mas pela ideia que ela tem de um escritor. Está apaixonada pelos seus próprios sonhos.
Numa réplica da mesma peça, Tchékhov diz-nos do modo mais claro possível como evita a alternativa proposta pelo velho Sófocles: «Temos de mostrar a vida não tal como ela é, nem como ela deveria ser, mas tal como ela nos aparece em sonho».

Roger Grenier, Olhai a neve a cair. Impressões de Tchékhov


25.12.25

Não somos fantasmas

A 18 de agosto de 1818, o capitão John Ross descobriu, na Gronelândia, homens que ali viviam desde o paleolítico e que gritavam aos seus marinheiros: «Não nos matem! Não nos matem! Não somos fantasmas!». Mas eram fantasmas de sessenta mil anos. Os dinamarqueses aliaram-se aos norte-americanos, que já haviam demonstrado as suas faculdades exterminadoras, e sob cujas armas e cuja piedade haviam perecido nações inteiras de negros das costas africanas e de indígenas das pradarias americanas. E, de facto, exterminaram-nos. Os poucos Inuit que sobreviveram, porque as suas caçadas de focas com arpões de osso se realizavam no território europeu, converteram-se em membros da CEE.

Pascal Quignard, Vie secrète


23.12.25

Gaza e a consciência funcional

Há um impulso, em momentos como este, de apelar ao interesse próprio. De dizer: estes horrores que estão a permitir que aconteçam um dia bater-vos-ão à porta; de repetir a famosa frase sobre quem eles vieram buscar primeiro e quem virão buscar a seguir. Mas este apelo não pode, de facto, funcionar. Se as pessoas que beneficiam de um sistema que tolera tal carnificina acreditassem verdadeiramente que a mesma carnificina lhes poderia ser infligida um dia, deitariam o sistema abaixo amanhã. E, seja como for, quando tal coisa acontecer, o resto de nós já estará morto.
Não, não há nada de terrível à vossa espera num futuro distante, mas saibam que algo de terrível vos está a acontecer agora. Estão a pedir-vos que matem uma parte de vós que, de outra forma, gritaria em oposição à injustiça. Estão a pedir-vos que desmantelem a maquinaria de uma consciência funcional. Que importa se a conivência diplomática prefere que se ignore a imagem de crianças desmembradas? Que importa se a grande distância do lugar ensanguentado permite a indiferença? Esqueçam a piedade, esqueçam até os mortos se for preciso, mas lutem pelo menos contra o roubo da vossa alma.

Omar El Akkad, Um dia, quando for seguro, quando não houver consequências pessoais por chamar as coisas pelos nomes, quando for demasiado tarde para responsabilizar seja quem for, sempre teremos sido contra isto.


8.12.25

Dobra implosiva: o modernismo

Quero eu dizer que os seus vapores — a sua presença, o seu modo de presença — vêm mais ao de cimo e que então essa «coisa» não sou «eu» mas a minha «aura» negativa, de que eu constituo o «corpo morto», o suporte compósito, anfíbio. Lembro-me de Lovecraft. Dos monstros do ciclo de Dunwich. Mas não me quero sequer explicar... Lembro-me de que há alguns anos vi um filme com Vincent Price, extraído de um conto de Maupassant: o Horla. Mas também não é isso. Fui fã dos filmes da série-Poe, do Corman, mas também não é bem isso. Aproxima-se mais do Scanners, de Cronenberg, mas, tal como em Aliens, de Ridley Scott (ou The Thing, de Carpenter), é preciso compreender que a «coisa» está lá dentro, mas morta, sem nunca ter explodido. Como se recusasse manifestar-se, ser tão evidentemente monstruosa. Um monstro que dissesse: desisto. Prefiro ser esta «coisa» interior que cada um — neste caso «eu» (?) — traz consigo (ou será «ele» que me traz consigo?). Um «monstro», assim, morto. Consigo e comigo próprio cozido. Um processo, portanto, de reclusão interior: um volvo íntimo, implosivo. Não há histórias que tratem suficientemente disto (talvez o que eu aqui escreva não passe, afinal, do argumento para uma série-B ou para um filme medíocre?!...). Sobretudo, não se trata de uma história de «duplos». Não sou nenhum estudante de Praga. William Wilson não é meu amigo. Não se trata disso. Trata-se, isso sim, da própria impossibilidade do «duplo». Uma espécie de dobra de si, mas ao mesmo tempo ausente, nociva (negativa).

Fernando Guerreiro, A sagrada família

Pés-feridos

Escolher um nome é já escolher um sentido. Todo um programa de sinais, sentidos, numa palavra: um destino. Não refiro, nem vos vou falar de novo de Édipo. Já se sabe que, etimologicamente, esse nome significa «pés-feridos». O que nos remete tanto para um incansável andar — de Édipo pode-se dizer que ele tem o nome (e o destino) inscrito na sola dos pés —, como para o curso desse percurso: o reavivar das marcas e dos sintomas das antigas feridas. No caso de Édipo, os pés não sangrarão de novo, mas, quando ele for suspenso — como um anti-Cristo, na posição invertida —, eles incharão, magoadamente, Mas deixemos Édipo e as suas feridas. É de um nome, hoje, que se trata. Porque o escolhi? E com que intenção? A de adivinhar um projecto — ou a de traçar, antecipar um destino? Trata-se, é claro, do nome do meu filho.
Lembro-me vagamente de o ter lido em Dante. Com efeito, num opúsculo em que defende a poesia românica, em língua vulgar (De vulgari eloquentia), referindo-se ao modo de comunicação dos Anjos, Dante afirma que estes não precisavam sequer de falar (de pronunciar uma palavra), já que, sendo transparentes, comunicavam entre si, por antecipação — de uma forma imediata —, os sentidos. Os Anjos assemelhar-se-iam, assim, a espelhos invisíveis.

Fernando Guerreiro, A sagrada família

7.12.25

Carta de Europa

Querido pai,

alguma vez se deparou com a morte? Posso dizer que a vi desde o primeiro dia em que nasci. Não à maneira dos poetas barrocos espanhóis que o pai me leu ou dos memento mori da pintura. Nesses casos, a morte era ainda uma coisa que se anunciava. A vida era a espera e a esperança dessa vinda aguardada e reconhecida. Santa Teresa, aliás, não pensou outra coisa, só que deu o nome de desejo (por vezes «ardente») a essa «espera», vivida como clímax. Percebeu que a única maneira de ultrapassar a morte consistia em antecipá-la, desejando-a e construindo-a ainda em vida. Mishima também fez isso. No famoso dia 25 de novembro de 1970. Fê-lo como uma coisa ou uma forma apetecida. Ficcionalizou a «morte», construiu-a como um dos capítulos ainda da vida. Escreve-se, não é?, para antecipar a morte. A pequena morte. Para a usar em doses pequenas como uma anfetamina — ou morfina. Não falo propositadamente em heroína. Aí, trata-se da espiral alucinatória da morte, ignorando-se, iludida, mas ainda acreditando constituir uma forma entusiástica (nalguns casos orgástica), ou desértica, de vida. Sei que na tua farmácia tens muitas lâminas pequenas e algumas drogas duras. Mas a morte, tal como a queremos, é sempre uma morte pequena. E quando vem, só então é como the last shot, uma droga dura. Em pequena, espetavas-me com as tuas seringas. Dizias-me: «aí tens os teus castelos de espuma — o bosque onde o touro te pode vir surpreender e ferir sonho dentro, como a uma bela adormecida». Eram estes os teus contos de embalar. Entrecortados com veias mortas, facas d'ónix e seringas, lâminas curtas. Os cutelos, manejo-os desde pequena. Foi essa, mesmo, a primeira iniciação que me deste — e onde deve ser, na cozinha. Entre frangos e coisas pequenas: rodelas de fiambre e flores de farinha... O sangue jorrava das pernas e era um caldo morno onde todos, depois — a nossa mãe ausente —, nos banhámos e lavámos as feridas. Foram umas férias — e uma infância — sangrentas. Mas habituou-nos à vida. A reconhecer o sangue onde as pessoas, com as roupas, com todo o cuidado o escondem e dele se defendem. Disseste-nos: as pessoas, se se vestem, as roupas usam-nas como ligaduras: para estancar o sangue ou cauterizar as feridas. De outro modo, não andariam nuas, não é bem isso, mas comportar-se-iam como se o seu estado natural fosse o da transparência. Usariam apenas as roupas que as dessem melhor a ver: translúcidas. Assim não, desculpam-se com o inverno ou a chuva... Por vezes, contudo, há recaídas (como grandes fendas, grandes aberturas no tempo) e então as pessoas cruzam-se como pessoas de novo nuas, feridas. Sobretudo as raparigas. Lembro-me como foi para ti épica essa época dos finais dos anos setenta. Needles and pins. Ou seja, as pessoas finalmente vestiam-se como alfinetes. Como coisas ácidas, duras drogas felinas. A mini-saia voltou a ser, durante algum tempo, um rasgão, um clarão que incendiava o ar e o espaço. Uma ranhura (rasura) no bom-gosto. As meias violácias ardiam no ar, faziam andar o espaço e, quando elas passavam, era como grandes bandos de estorninhos, de súbito mudos; que sobre tudo pousavam e caíam, feridos. Marcel Lecomte comparava-nos às Amazonas — e a tua vontade era que eu fosse a primeira delas, aquela sobre quem Kleist escreveu, Pentesileia, a opositora de Aquiles. Por isso nascemos no dia em que, para os outros, morremos. Não somos zombies dos outros mas vampiros de nós mesmos.

Fernando Guerreiro, A sagrada família



[foto de Diane Arbus]