1.5.21

Apesar de tudo, as nuvens

Por que as nuvens não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta.

A hora da estrela, Clarice Lispector

28.4.21

Emerson

 "all men's thinkings run laterally, not vertically"

Essays and lectures

27.4.21

A grande desilusão de tudo o mais, a pobreza, a disponibilidade

Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, há um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então, não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.

«O ovo e a galinha» de Clarice Lispector


Zero de conduta

 


Jean Vigo, Zéro de conduite (1933)


5.4.21

Lição de humildade

Nah ist

Und schwer zu fassen der Gott.

Próximo está

E difícil de compreender, Deus

Hölderlin, "Patmos"

Acaso

Na dificuldade, a salvação está aí, agarramo-nos ao que permite avançar. Uma espécie de surrealismo sobrevivente.

6.3.21

Não quero atravessar o rio

 Leio Yosa Buson, haikus.

“o banho do sacerdote 

não interrompe 

o canto das cigarras”

A natureza prossegue; poucas coisas a interrompem.

Em “Os Quatro Rostos do Mundo”, haikus de Yosa Buson, o tradutor, Joaquim M. Palma, faz referência a um poeta eremita, Jouzan (1583-1673) que habitava “a margem do rio Kamo oposta a Quioto”.

Segundo consta, o poeta eremita foi convidado pelo imperador (talvez para um cargo relevante no Palácio).

Jouzan terá respondido: “Não quero atravessar o rio.”

Gonçalo M. Tavares, "O mesmo vento, duas velocidades", 31.10.2020


4.3.21

Uma forma de alegria

 Diz Molder que esta é uma alegria e nós concordamos:

"Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba".

Clarice Lispector, "Uma experiência", 22 de junho de 1966, A descoberta do mundo

2.3.21

Rápida alegria

Que fazer sem a rápida alegria

Que levanta o cavalo em plena guerra,

Vivo no meio dos vivos, conhecendo

A grandeza do nada, a força extrema

De uma respiração.

Hélia Correia, A terceira miséria


7.1.21

Síntese

Então, depois de conversar estupidamente, passado pouco tempo casámo-nos.

Isaac Bábel, Contos e Diários

1.1.21

Cheios de alegria, privados de toda a esperança (Hermann Broch)

 


Glauber Rocha, Deus e o Diabo na terra do sol (1964)


Cortázar com Maiakovski

No se aplaca el dolor del corazón,
se adhiere el eslabón al eslabón.

Vladímir Maiakovski, "De esto"


Happy New Year

Mira, no pido mucho,
solamente tu mano, tenerla
como un sapito que duerme así contento.
Necesito esa puerta que me dabas
para entrar a tu mundo, ese trocito
de azúcar verde, de redondo alegre.
¿No me prestás tu mano en esta noche
de fìn de año de lechuzas roncas?
No puedes, por razones técnicas.
Entonces la tramo en el aire, urdiendo cada dedo,
el durazno sedoso de la palma
y el dorso, ese país de azules árboles.
Así la tomo y la sostengo,
como si de ello dependiera
muchísimo del mundo,
la sucesión de las cuatro estaciones,
el canto de los gallos, el amor de los hombres.

Julio Cortázar, "Happy New Year"

17.12.20

Veneração, julgamento, desejo

Não há nada mais estranho e mais melindroso do que a relação entre pessoas que apenas se conhecem de vista, que diariamente e a toda a hora se encontram, se observam e que, por questões sociais ou mero capricho, são obrigadas a manter a aparência de mútua indiferença. Entre elas reina a inquietação e curiosidade tensa, a histeria de uma necessidade de troca insatisfeita e artificialmente reprimida e também uma espécie de consideração constrangida. Pois o homem ama e venera o seu próximo, quando não pode julgá-lo; o desejo é uma criação do conhecimento insuficiente.

Thomas Mann, A morte em Veneza


9.8.20

Marc Ribot e Luís Mourão

Um dos músicos que Luís Mourão mais apreciava era Marc Ribot. Não sei de música, entro no invisível à minha maneira, a única que posso. Não vejo como nas cordas poderá estar mais suspensa uma alegria por fazer.  A música é a síntese mais eficaz. O não-verbal conseguido impõe as afecções todas, nós defendemo-nos tentando compreender o que isso é, o que isso somos, fomos, não sabemos bem. Em cada gesto a rapidez do essencial, que, de todo, não é a velocidade em que o poder se manifesta. A diferença entre força e passagem rápida. O exterior que merece atenção é o amor, as possibilidades de ligação. A velocidade não conhece o exterior, é, quando muito, conhecimento que nunca chegou a pensar. O poder provoca tristeza, mas não entristece tanto como a vida que se esvai. E afinal, olhamos de forma diferente para os gestos que somos; como já nesse amor antigo, em tudo o que esquecemos está aquilo por que ansiamos. Mas não vale a pena esperar encontrar, é só persistir na claridade que foge e fica ali à mão o importante. Um certo dedilhar inquieto e calmo, as mãos aparadas, como convém ao abraço que desejamos dar ao sol, à chuva, ao vento que a cólera arrebata aos caminhos. Manter a alegria subtil, assim como a tristeza, não somos ninguém para nos pormos em bicos de pé, apenas para voar. A rapidez vê e é vesga, o exterior e o íntimo numa corrente. Lá fora atropelam-se para riscar a palavra fome das paredes e, em seu lugar, pôr outro nome, o seu, o da abjecção. Luís, é nessa corda que vem um pouco tarde, áspera e sonora, é o inevitável calmo, como a felicidade que não deve arrebatar, não só por pudor, mas porque não nos pertence. Uma escada para subir sem instruções, escada que nos sobe, sem pedir licença reacende os vestígios, fogo nunca totalmente consumido, vento que trouxesse formas que a distracção julgou insignificantes. A raiva vem dessa hesitação ainda lá atrás. A melancolia ocupa o território a toda a extensão, interrupção gulosa. Gosto muito que o Luís nunca tivesse pedido autorização para pensar. A música é curta, e nela já cabe tudo, a medida tanto do mínimo exterior que merecemos como do máximo íntimo por que nos esforçamos. Mão, cordas, ritmo, o corpo está completo aí porque quer, move-se por dentro, pode continuar. O corpo experimenta quando quer e ninguém, incluindo nós, tem algo a ver com isso. O luto é imóvel (Barthes), não há metro-padrão que lhe valha. Na perda entramos com os dois pés, só assim saltamos da cama, só assim cuidamos dos vivos.



21.7.20

A cidade, agora mais que nunca

Devemos perceber o que significa os pequenos gestos
terem sido substituídos
pelos grandes movimentos.
Na cidade já não há pormenores,
verifica-o. As pessoas cruzam-se
sempre em momentos de partida ou de chegada.
Ninguém fica. Não há estados intermédios.
Do coração dos homens o que as mulheres conhecem
são electrocardiogramas saudáveis. E vice-versa.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, V.50

19.7.20

Building-uivo




"we bow to Republic, Employer and God"

"we bow to republic, employer and god"

"não te curves senão para amar" (René Char, trad. Margarida Vale de Gato)


"Grita, e os seus gritos são palavras quase sem ruído ecoando nas paredes do quarto, são contra as pessoas para quem tem de olhar, são de ódio contra elas e contra si, mas exprimem também o desejo de que aquela multidão pudesse ser uma comunidade de amor, à qual ele viesse juntar-se".

Greil Marcus, Marcas de batom, trad. Helder Moura Pereira, Frenesi


17.7.20

Máquinas de salvação e de culpa, máquinas de amor

Podemos considerar que nenhuma máquina pode ensinar a justiça; no limite, ensinará a obediência ao seu superior, segundo uma história célebre. Nenhuma redenção num rosto convicto e límpido; uma certa seriedade que não se pode salvar, nem consegue aprender. Em linha recta não aprendes nada, disseram. A justiça é o colapso da máquina: uma linha recta pode morrer pela impossibilidade da justiça. Só podes exercê-la sem exactidão; não esquecer, todavia, que não há punição sem cegueira. A máquina pune; a justiça não conhece os caminhos da exactidão. Conhecerá outros? O caminho do disforme? Uma justiça que acontecesse em pés grosseiros, mãos que tremem, alegria, fome, avidez. Justiça errada, a única possibilidade. Através do erro encontrarás a salvação e a cegueira é comum ao erro. Os olhos abertos são, por seu turno, pórtico da morte: assassinato puro. Morres se souberes exactamente qual era o mal que praticaste; enquanto estiveres cego a respeito da tua culpa e da tua sentença, poderás viver, talvez desejar. A importância dos juízes imprecisos e silenciosos.

Uma síntese: “Mas a máquina que salva também aponta a culpa. A mão que aponta diz: tu mereces morrer por aquilo que fizeste” (Gonçalo M. Tavares, Electra). Os que buscam salvação: os culpados, os mortais, todos suspirando por essa máquina que, para além de tudo, reúne dedos apontados.

Uma história: Paul Virilio construiu uma capela em Nevers, França. Era cinzenta e sólida, inspirada na forma de um bunker; capela-bunker desenhada também de acordo com a estrutura de um coração. Capela, bunker, coração.

Pensar na crença como a única reserva segura para a vida; o coração como bunker portátil: víscera inquieta que permite avançar, raiva e amor que saltam para outros corpos. Estamos, contudo, num acidente: a velocidade é tão rápida que nem avisa e até esconde o vazio.

Por outro lado, bunker como espaço de salvação sem toque (Gonçalo M. Tavares); de outra perspectiva ainda, tentativa de fuga do medo mais terrível, espaço de liberdade.

Espaço também de morte: a sobrinha-neta de Charles de Gaulle, conta Virilio, em lugar da execução, foi enviada para um bunker por oficiais nazis. Casa preparada para que nada entre, nada saia.

Não bem um coração talvez, tantas vezes volátil. A estrutura da igreja tinha dois ventrículos: num, o coro, o coração serve para cantar, para elevar a voz e o corpo. Noutro ventrículo, estava o confessionário, explica Virilio, cristão devoto, “onde uma pessoa diz: admito, sou um completo filho da puta, mea culpa. Todos confessamos o mesmo. Ninguém diz: ‘sou genial, sou puro’. Para além disso, só depois de nos reconhecermos como filhos da puta, podemos começar a amar-nos”. O coração é ainda a víscera que permite aprender; é a mortalidade, única hipótese para o amor. Coração que canta, aprende e ama.

Máquina de salvação e de culpa — máquinas de amor. De fora para dentro; de dentro para fora.