A administração Trump avalia que estes acordos multilaterais são uma restrição ao poder dos EUA?
Sim, mas acredito que Trump esteja enganado. O multilateralismo fortaleceu o poder dos EUA porque lhes proporcionou uma fachada de soft power. Era benéfico para a sua hegemonia parecer uma potência razoável disposta a envolver-se no multilateralismo. A retirada dos compromissos de financiamento da ONU e dos acordos comerciais e climáticos arruinou a hegemonia do soft power dos EUA. Penso que os EUA estão errados ao tomar esta decisão, mesmo do ponto de vista dos seus interesses materiais.
Jason Hickel, entrevista ao Expresso
Começo este texto com esta reflexão de Jason Hickel, que sinaliza que o multilateralismo ocidental é uma farsa. Ao dia de hoje, toda a gente entende claramente que o multilateralismo não é, como deveria, um consenso que resulta de um conjunto de posições próprias, mesmo se pontualmente dissonantes. É e sempre foi um eufemismo para uma hierarquia em que há um bully e há vassalos, uma linguagem um pouquinho mais sofisticada, que uma parte (cada vez menor) do mundo tem por sábia porque provém da Europa. A Europa empresta cobertura à hubris do império americano, contribuindo para que a opinião pública mundial olhasse benignamente para guerras e genocídios, retoricamente convertidos em intervenções inevitáveis em nome de valores elevadíssimos como liberdade, democracia ou simples decência moral. Essa fachada, a mando do velho dinheiro de oligarcas europeus que têm negócios com os bilionários americanos, é construída nos media não apenas pelos jornalistas ou comentadores, mas por uma intelligentsia, com escassa mobilidade mental, que lhe dá aquele toque de cientificidade e lucidez.
Não raras vezes, são pessoas da universidade que perseguem com tenacidade os seus fantasmas, o terem sido de esquerda mais radical. É bom o exercício autocrítico, sondar e contornar os limites mais negros do fanatismo, com a condição de não se tornarem fanáticos porque o essencial lhes passa ao lado. No entanto, regra geral, as posições destes reconhecidos guias morais da esquerda, que são apenas representantes do establishment um niquinho mais desenvoltos, só atingem o acúmen da indignação quando o alvo é a esquerda. Nós somos a única esquerda responsável, tudo o mais é uma bandalheira, um conjunto de fanáticos que nós sabiamente desconstruímos, tantas vezes até ao ponto de nenhuma convicção nos restar nas mãos. Eis os meninos bonitos da esquerda, querem sempre que o centro, que consente o fascismo, que com ele negoceia, flirta, ou então usa como escudo, os vejam com condescendência, e por isso tornam-se eles realmente parte desse centro, parte da fachada para os desmandos do império, cujos sinais de declínio moral, geopolítico e económico são imensos. Antes do mais, deve-se ressalvar que reconhecer que os EUA são um império não é uma posição extrema. É um dado histórico evidente, senão atualmente — em que a proliferação de guerras nos expõe, europeus, a níveis de propaganda verdadeiramente inauditos, que impedem o espírito crítico, além de fomentarem xenofobias e medos irracionais —, no futuro de certeza o será. Para o Sul Global, a violência imperial é vivida há décadas na pele, no medo e no fascínio diários, e esta constatação, senão outra coisa, dever-nos-ia colocar, aos europeus, de sobreaviso a respeito do enviesamento das nossas posições. Declínio não significa um fim imediato, como é evidente, enquanto ganha forma um mundo multi-nodal, de nós de poder que pontuam o globo e desafiam a hegemonia norte-americana.
Quando o eixo EUA-Israel decapitou o líder supremo (o Irão continua a atacar sem centro, como um corpo metódico sem cabeça, bom conhecedor da doutrina militar americana), instigou a tomada de poder e, após ter logo visto que ela não era viável, se mostrou disponível para as negociações (que interrompeu brutalmente com o início da guerra, pormenor esquecido), a esquerda ilustrada ficou com medo que Trump estivesse a entregar os manifestantes às feras. No fundo, os membros desta esquerda zelam e muito pela sua carreira e imagem e, por isso, antes da verdade, antes de tudo o mais, tentam sempre parecer bons e bonitos. Não pensam, protegem o ego, não vão os demais, moralistas de sobreaviso, colocá-los em causa. Manterão a ambiguidade suficiente nas suas posições para que, no futuro, não digam que foram apanhados em contra-pé. Porém renunciaram ao pensamento porque isso colocaria em risco a sua boa imagem. Sustentam-se naquela noção de bondade que é o cálculo interessado. Apertam a realidade para que seja à medida da sua teoria e das suas expectativas, não em função do que acontece, até porque nenhuma multidão iraniana esteve em risco após o início da guerra pelo eixo israelo-americano. Estas posições à esquerda parecem sólidas, mas revelam-se bastante fossilizadas, pouco ajustadas a um tempo diferente daquele em que a sua consolidação de ideias aconteceu. Dirigem as palavras e os juízos mais contundentes ao Irão: «regime assassino» e «tirania teocrática». Nunca usariam termos análogos para o caso de Israel, regime muito mais assassino e inclusive teocrático. Também os EUA são um regime oligárquico assassino (democrático q.b. para consumo interno, e mesmo isso está em causa), um império embriagado por décadas sem rival, responsável por inúmeras guerras e genocídios. Só recentemente financiou, defendeu e lucrou com o genocídio em Gaza (o genocídio dos palestinianos é outra simples constatação que certos membros da esquerda só a ferros arrancada dirão, pelo menos em público).
O caso Epstein, a acontecer no Irão ou na Rússia, desencadearia uma logorreia insanável para que muita esquerda contribuiria. Irrompendo no núcleo do império, é um detalhe, uma extravagância elitista a recalcar. Coloca-se a doença propriamente dita na sombra e dá-se ênfase ao sintoma. Sim, Trump é um sintoma. O regime americano atual é mais tresloucado do que os seus antecessores, mas nada de essencial modificou na política americana. Lembremo-nos que Obama foi responsável pelos massacres na Líbia e na Síria, onde o Daesh e o ISIS, a mando do eixo Israel-América-Europa, levou a cabo atos sádicos aproveitando-se do caos gerado pelo vazio de poder. Creio não ser necessário evocar Bush e o Iraque e o Afeganistão, Clinton e Timor, Biden e o apoio ao genocídio em Gaza. O Obamacare e certas políticas liberais nos costumes permitiram a Obama salvar um pouco a face, mas pouca credibilidade reúne à esquerda (protegeu a elite de Wall Street nos anos da crise de 2009 e, também por isso, é provável que regresse nas próximas eleições, contra Trump) justamente por seguir este tipo de políticas genocidas vendidas ao mundo como duras, sim, mas com finalidades e intenções elevadas. Políticas como a guerra ao Irão, que, no eufemismo desta esquerda europeísta, devedor de propaganda de quilate rasca, é «uma iniciativa militar ilegal». O uso do termo «regime» fica reservado para aquilo que os próprios entendem por mal, apressando-se a colocar um cordão sanitário sobre uma realidade que, à partida, desconhecem, mas repugnam, alunos fanhosos do diktat imperial. Esta gramática simplista deveria, à esquerda, ela sim, merecer auto-crítica, precisamente para não darmos cobertura aos atos mais hediondos. O Irão é uma cultura ancestral submetida, no século XX, a um golpe militar dos EUA e do Reino Unido (cuja BP, British Petroleum, não teria sido fundada sem o saque ao solo iraniano) que pôs fim ao governo democrático de Mossadegh em 1953, instaurando um regime de terror policial apoiado pelo Ocidente e liderado por Reza Pahlavi, pai do atual candidato iraniano ao poder, o que o tem levado a financiar e a promover a campanha de massacre em curso contra o seu próprio povo. O Irão é efetivamente um país fechado que tentou impor costumes religiosos, sobretudo às mulheres, alheios à sua própria tradição, forçado a virar-se para dentro também por um conjunto sistemático de sanções — a maioria, ilegais — e campanhas mediáticas pejadas de preconceitos. Ou seja, nada nestas decisões manifesta um interesse verdadeiro em entender e conviver politicamente com o outro, mas apenas em redirigir as suas posições, forçando-as a uma convergência. O Irão foi, ainda, coagido a viver com o terror diário causado pelo projeto colonial sionista ao longo dos últimos oitenta anos.
Lendo-os bem, percebemos o grau de desinformação, ou credulidade eurocêntrica. Posições como as que alguns membros do Livre assumem, diga-se rapidamente, com a apologia, praticamente incondicional, da Europa, estende-se, ao dia de hoje, à ratificação dos valores niilistas do Ocidente e com o apoio, mais ou menos consciente, à violência imperialista.
Os protestos no Irão foram orgânicos, mas só até certo ponto: houve infiltrações da Mossad e da CIA que semearam a violência nas ruas de Teerão e de outras cidades iranianas. Mike Pompeo, antigo diretor da CIA, e ministros israelitas disseram-no abertamente.
O secretário de Tesouro norte-americano, Scott Bessent, afirmou, no Fórum Económico Mundial, em Doha, que a tensão no Irão foi provocada pelas sanções americanas, que desvalorizaram brutalmente o rial e visaram intencionalmente o caos. Portanto, considerar que Trump apela aos iranianos a que derrubem o seu governo, no alto do seu pedestal democrático, mesmo que o regime americano tenha preparado e financiado durante décadas esses motins violentos e tenha autorizado medidas financeiras de intenção genocida, além das que impõe com o seu poder naval, marginalizando o país na ordem económica global, é no mínimo ridículo. A credulidade aumenta quando parecem acreditar realmente que os iranianos, bombardeados e massacrados (como aconteceu as 180 crianças de um colégio), iriam sair à rua em defesa dos seus algozes. Aliás, nos últimos dias, têm-se multiplicado as manifestações em defesa do Irão e do seu governo, durante as quais
Israel e os EUA têm lançado bombas e provocado mortes. Ou seja, ao dia de hoje, os ‘libertadores democratas’, em que certa esquerda (para não falar no centro-esquerda, muito menos na direita) depositou tanta esperança, estão a bombardear manifestações pacíficas no Irão. Não era exatamente o que eles anteviram. Uma parte da população iraniana, porém, está realmente muito agastada com o regime político, pelo modo espartano, entende-se melhor agora, como cerrou fileiras, perseguiu dissidentes, investiu em armamento e planeou metodicamente a retaliação desta agressão terrorífica dos EUA e de Israel. No entanto, não é muito inteligente bombardear indiscriminadamente Teerão, onde, entre uma população culta, tendencialmente anti-belicista, mais facilmente se encontrariam apoiantes de uma causa democrática, não certamente esta, encarnada por um populista apalhaçado e belicoso e
pelo mais sanguinolento e longevo genocida do século XXI. A
resistência escreve-se por linhas tortas. Que o digam os sudaneses, cujo genocídio está em vias de cessar devido ao bloqueio no Estreito de Ormuz: de há quinze dias a esta parte, as armas e a logística dos Emirados deixaram de chegar às milícias do RSF. Já o poder e o consentimento, por seu turno, seguem tanta vez linhas cínicas, isto é, direitas e unânimes.
Por fim, refira-se que a resposta flexível e ‘criativa’ dos iranianos tem gerado o pânico na Europa, cuja posição política oficial começou por condenar a vítima na expectativa, provavelmente gorada, de reclamar mais apoio para a guerra mais do que perdida na Ucrânia. Trata-se de um grau de vassalagem inaudito que, além do mais, manifesta a aflição com o ataque ao sistema financeiro global (os mísseis e drones iranianos que atingem os países do GCC, essa miragem feita de petrodólares reinvestidos nos mercados financeiros americanos, especialmente de AI), acentuando a nostalgia dos tempos do privilégio, em que não só a defesa estava garantida sob extorsão, como havia energia barata da Rússia. Eis o segredo do ‘milagre’ alemão, sinergia que é do interesse do Império suspender. Enquanto isso acontece, o Sudeste Asiático vai sufocando, especialmente o Japão, cuja posição seria ainda mais débil se a China controlasse o Estreito de Malaca. Agora, a Europa, continuando na guerra contra o Irão a fornecer inteligência, equipamento naval e bases quando necessário — o que é a Europa senão um porta-aviões americano? — faz a figura pública de neutralidade embora continue a contribuir para a violência. Até porque um envolvimento mais significativo autorizaria a entrada direta da Rússia e da China, transformando o conflito com o Irão numa Terceira Guerra Mundial. A qual parece ser inevitável, ou talvez já esteja a acontecer. Em tempos cínicos em que qualquer facto é invertido, em que tudo pode ser justificado, a tal ponto que nem um arremedo de argumento se necessita utilizar, em que ninguém declara guerra a ninguém, uma guerra mundial poderá passar naturalmente ao lado do mundo como se fosse um simulacro gerado pela AI.