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14.4.23

Abastardamento político

Adicionemos a isto a linguagem usada pelos media para apresentarem e classificar o mundo. É muito parecida com o jargão e a lógica dos peritos em gestão. Quantifica tudo e raramente se refere à substância ou à qualidade. Lida com percentagens, mudanças nas sondagens de opinião, números do desemprego, taxas de crescimento, estimativas de dióxido de carbono, etc., etc. É uma voz que se dá bem com números mas não com corpos vivos ou em sofrimento. Não fala de arrependimentos ou de esperanças. 

John Berger, Confabulações, trad. Maria Eduarda Cardoso

8.6.13

Desabafo

É a cada dia mais asfixiante conviver com a formulação de regras dietéticas que ocorre em interações prosaicas, sobretudo em espaços de restauração. «Isso tem 214 calorias», «aquele bolo vale por 20 pães», «não deves misturar a com b na mesma refeição», «essa bebida é uma bomba calórica», e muito mais. Mas o que é paradoxal é que sejam as mesmas pessoas a repetir chavões como «devemos viver cada momento como se fosse o último», «devemos aproveitar o momento e não pensar», e outros afins. Isto é: norteiam-se pela moral, não são agentes éticos, vivem afogados em regras, no que se deve fazer. Para além disso, o paradoxo: hoje, ninguém é mais regulado do que um hedonista.


24.11.12

Fiabilidade dos números


«O ser humano comparece com pouca frequência nas folhas de Excel, ao contrário do algarismo. E o algarismo não passa fome, ao contrário do ser humano. É raro encontrarmos uma lápide, no cemitério, com a inscrição: "Aqui jaz o algarismo 7. Faleceu na sequência de um engano numa multiplicação. Paz à sua alma."» Ricardo Araújo Pereira