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11.8.25

Vicariously I live while the whole world dies

Porque as músicas da nossa adolescência, e não só, nos perseguem, como os fantasmas do nosso desejo, algo que Mark Fisher poderia ter formulado. Elas eram um conhecimento teórico das coisas, prévio a uma vivência e a um entendimento mais empíricos.


Eye on the TV, 'cause tragedy thrills me
Whatever flavor it happens to be like
"Killed by the husband"
"Drowned by the ocean"
"Shot by his own son"
"She used the poison in his tea"
"Then kissed him goodbye"
That's my kind of story
It's no fun 'til someone dies

Don't look at me like I am a monster
Frown out your one face, but with the other
Stare like a junkie into the TV
Stare like a zombie while the mother holds her child
Watches him die
Hands to the sky crying, "Why, oh why?"

'Cause I need to watch things die
From a distance
Vicariously I live while the whole world dies
You all need it too, don't lie
Why can't we just admit it?
Why can't we just admit it?
We won't give pause until the blood is flowin'
Neither the brave nor bold
Nor brightest of stories told
We won't give pause until the blood is flowin'
I need to watch things die
From a good safe distance
Vicariously, I live while the whole world dies
You all feel the same, so
Why can't we just admit it?

Blood like rain come down
Drum on grave and ground
Part vampire, part warrior
Carnivore and voyeur
Stare at the transmittal
Sing to the death rattle

La-la, la-la, la, la, la-lie
La-la, la-la, la, la, la-lie
La-la, la-la, la, la, la-lie
La-la, la-la, la, la, la-lie

Credulous at best, your desire to believe in
Angels in the hearts of men
Pull your head on out your hippy haze and give a listen
Shouldn't have to say it all again
The universe is hostile, so impersonal
Devour to survive, so it is, so it's always been
We all feed on tragedy
It's like blood to a vampire
Vicariously, I live while the whole world dies
Much better you than I

21.11.15

Televisão no lugar de Deus. Ou televisão como «máquina-buda» (Sloterdijk)

Karen olhou para o aparelho de televisão aos pés da cama. Via-se uma mulher montada numa bicicleta de exercício, estava vestida com um fato justo e cintilante e falava para a câmara enquanto pedalava, e num dos cantos do ecrã via-se a imagem de uma segunda mulher, com o tamanho de um selo, que repetia em linguagem gestual o discurso da primeira. Karen observou-as a ambas, os seus olhos a varrerem o ecrã. Era uma rapariga muito indefesa. Engolia tudo, acreditava em tudo, dor, êxtase, comida para cães, as coisas mais seráficas, a felicidade infantil a descer dos céus. Scott olhou para ela e ficou à espera.
Ela trazia em si o vírus do futuro.


Don DeLillo, Mao II 
(tradução de José Miguel Silva)
 
 
 

6.11.15

Televisão, torneira

Televisão

Ligo-a como se fosse uma torneira,
nem frio nem quente, só tépido infotenimento,
e dela jorram as provas cintilantes
de conflitos, misérias, concupiscência,
desatrelados pouco a pouco, em remissões
de publicidade ansiosa que antecipa
para nosso bem a melhor vida dependente
de uma compra, de alguma aquisição indispensável.

Um carro lustroso dá curvas na chuva murmurante,
uma praia de alvura óssea acolhe peles bronzeadas,
um toalhete acalma as rugas de uma pele enrugada,
um unguento consola a dor sedentária,
dentes falsos resplandecem, a cerveja provoca alegria,
e cabelos pintados arremessam a cor pelo ecrã:
erupções de luz bebidas pelo meu cérebro,
que depressa se cansa, até ficar sequioso outra vez.



John Updike, Ponto último (traição de Ana Luísa Amaral)




7.5.13

Também tenho ido a bares



Ao que parece, a reivindicação da autotelia esmoreceu um pouco em A fábrica. Não deixa contudo de se transparecer do uso de léxico inusitado, da sintaxe por vezes agramatical e da respiração dos poemas, a reivindicação de uma linguagem poética. Para além disso, a poesia de Vasco Gato também engendra imagens insólitas (por exemplo, o poema 2, p. 9), o que a autonomiza, levando, ipso facto, a que o mundo por ela criado por vezes seja bem distinto daquilo que usualmente entendemos como mundo (algo que, nos livros anteriores, terá ocorrido com mais força).
Neste livro, consegue Vasco Gato aliar certa narratividade a algum hermetismo. Como o disse o poeta numa entrevista concedida a Luís Caetano, houve a intenção de que A fábrica fosse mais comunicante de que outros já publicados pelo autor, abrindo-se mais, como mencionado, ao mundo. Talvez o poeta tente cerzir as duas grandes linhas que vêm estruturando a poesia portuguesa moderna e contemporânea, ensaiando uma aventura de linguagem que ao mesmo tempo diga algo do mundo (social, político, cultural) em que vivemos. É um lance arriscado que diz que a mais completa transparência é impossível. Toda poesia vive da metamorfose do que se quer dizer, posto o significado deslize constantemente sob o significante. Como o Lord Chandos de Hofmannsthal, também Vasco Gato duvida da capacidade de as palavras apreenderem totalmente um mundo demasiado esquivo. «A nomeação é a eterna e vã tentativa de conhecer», diz João Barrento, sobre a Carta mencionada. Por seu turno, diz Vasco Gato:
O suborno de que fomos capazes
                      apenas nos garantiu
os ossos de um nome caído
               no deserto.

Visa esta poesia, através de um ritmo que nos empurra por vezes a golfadas de ar, mimetizar o pulsar rebarbativo do mundo. Mas que não deixa desta forma de atravessar os temas que os poetas do lirismo figurativo mais têm explorado. A perda, desde logo, como a sentida por um cervo aquando da morte da sua cria (p. 23); a consciência de que as coisas falham, de que a mortalidade é uma dádiva, e de como isso é (um)a religião (p. 13), uma esfera separada da mundana sobre a qual se deve elaborar a liturgia (uma administração sábia da melancolia?): 
De um lado ao outro da cidade
- nossa por idades convergentes –
                 escancarou-se de repente
                 a conspiração
de elementos tão díspares
como: a tua demora,
          a minha precipitação,
                      uma mesma música
expandindo-se sobre todos os
                             motivos alheios. (p. 14)

Mas o livro abre com a seguinte epígrafe: «Proletaires de tous les pays, je n’ai pas de conseils à vous donner», de Louis Scutenaire. Não só assinala ela o perigo que toda a deriva utópica representa, como isola a literatura num campo autónomo. O dispositivo que produz a verdade e alisa subjectividades, subsumindo-as a uma só voz, é a televisão, através do efeito de hipnose. O resultado será uma massa ruminante, amorfa e insensível, após horas de exposição a descargas de energia. A fábrica é a obediência que todos devem a dispositivos técnicos e à televisão em particular. Também, como o holocausto, racional, organizada, sistemática, letal (Zygmunt Bauman considerou que sem a modernidade técnica o holocausto não teria ocorrido da forma que ocorreu). E se, de facto, serão «necessárias / electrocussões capazes de restabelecer / a biologia» (p. 8), então outro dos efeitos da televisão é a impassibilidade, a absoluta insensibilidade, o transe, isto é, ela gera um efeito zen; a televisão é uma «máquina-buda» (Peter Sloterdijk) que consola – ilusoriamente, diz Vasco Gato – dos males do mundo. «É essa a única dádiva / morrer / e tornar a morrer» (p. 8). Tragicamente, encontram-se sem saída, dificilmente se moverão os que se encontram «soterrados sob / camadas e camadas / de detritos verbais» (p. 8), os que estão encerrados na moldura televisiva. É a palavra, sobretudo a portátil, como dizia Ruy Belo, a provocar esta morte; é o fantasma que ela é, ela que está no lugar da coisa, ela que desvitaliza a substância da existência. Em face disso, do facto de a palavra ser tanto mais sinónimo de morte quanto vise mais ser (equivocamente) comunicativa, é tarefa ética do poeta «a escolha soberana da língua própria, / com sua parte de fogo / e seu emblema de ódio» (p. 30), para que se concretize a «eterna e vã tentativa de conhecer» de que falava João Barrento.


18.12.11

Avulso

Será que os apologistas, durante este período natalício, em que o cinismo ocidental rejubila, da solidariedade social (isto é, da caridade) defendem um Estado solidário? É aí, na conceção de Estado que defendamos, que se encontra o possível antídoto para a caridadezinha natalícia. Há aqui um curto-circuito evidente, mas não será o verniz televisivo a levantá-lo.