11.10.25

Nossa Senhora das coisas impossíveis que procuramos em vão

A chegada de Irimiás à vila.

É um momento narrativo importante. Personagens menores — ainda que autoinvestidos de um messianismo capitalista — chegam para extorquir pequenas poupanças a um par de camponeses. Os bufos de serviço contam em detalhe a vida dessas pessoas, a câmara vai ficando para trás, um inseto pousa e passeia pela lente.

A câmara desinteressa-se dos homens, persegue, nos seus longos e lentos trackings shots, qualquer outra coisa que converge com a nossa intimidade ferida e metafísica. Segue por paisagens depostas pelo frio e pelo vento. E ainda a noite se junta, que tudo agrega, Nossa Senhora das Coisas Impossíveis, uma possível reconciliação, uma pílula ontológica para o esquecimento. Béla Tarr coloca-nos a História à frente com desinteresse, a privatização das cooperativas húngaras com os seus mafiosos de esquina. Sempre a mesma avidez, a mesma pilhagem moral, a mesma vaidade. Parece que foge dos homens, mas ir pelo lugar é ainda inquirir a pesadez dos corpos, é ainda investigar os seus medos.

Reencontra-os mais à frente no tasco onde todos os fragmentos se congregam, como que por acaso.


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