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17.4.26

Poema apolítico

Cada pessoa é um brilhante
Em estado bruto, único
No seu modo oculto.
Quanta auto-disciplina
Exige um sorriso
Colocado no momento
Certo, uma atenção,
Que só depois a palavra redime.
Será para sempre um enigma,
A razão pela qual a rapariga no autocarro
Sem se irritar,
Nos informou amigavelmente.
Nessa altura passávamos por aldeias
Com alta taxa de desemprego,
Muitos emigrantes, no entanto
Foi um momento conseguido.
Nada de grave sucedeu.
Só mais tarde na estação
De novo se fez ver toda a dureza.
Recantos mal cheirosos, frios,
Lixo diante dos restaurantes de fast-food,
Uma cabine de fotografias tipo passe vazia.
A mulher no guichê dos bilhetes
Olhava fixamente para as suas unhas
Pintadas, antes de, sem palavras,
Empurrar para fora o troco.

Durs Grünbein, Velas de ignição, trad. Maria Teresa Dias Furtado

21.5.24

Carta ao pai (fragmentos)

A morte é mesquinha, quem a chora? Só quem por esgotamento não conseguir mais lutar contra ela. Chorar para deter o inexorável, uma prova lógica que esburgamos em favor do desejo de imortalidade. Não, não salvo, não curo, sou mortal. Um discernimento que o grau de desespero põe à prova. A menos que a delicadeza possa ser um salvar mínimo. Mas a delicadeza deveria ser o normal e lúcido, não enclausurada em hospitais aflitos, não apenas no silenciar da voz diante de um moribundo (mas todos o somos).

Chorar porque nos comovemos; intuímos o que outros sentem, o amor que outros sentiam e ainda sentem. O meu pai, com tanta preparação e silêncio desapareceu.

A morte não pode ser outra coisa; a bondade, sim. Poderia ser, por exemplo: olhar para o lado se algum náufrago soluça, saudar alegremente um defunto, querer saber mais da sorte de um rei do que dos vivos, entregar-se aos rituais da morte – enfim, o quotidiano – como se fôssemos roupa dentro de uma bolsa de vácuo, ler as minúsculas letras de uma revista ou contrato, manter-se estritamente na posição vertical dos alinhados, querer imitar sem convicção a boa bondade dos cínicos, falar por um orifício algures nos joelhos, quem sabe se já próximo de tocar o chão com a língua, verificar com rigor a bainha de umas calças bem arranjadas.

Comovo-me, enfim, com as nossas melhores possibilidades, com a beleza, a bondade, o amor, a inteligência, a sua inutilidade segundo os valores tão altos da esperta e altiva sobrevivência.

«Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado» (Lispector, A descoberta do mundo).

Pelos homens a quem o meu pai mudamente implorou e de quem mudamente recebeu. Uma urgência de lentidão por eles atendida.


29.11.23

4 aforismos

Tendes liberdade sem guerra; por força haveis de viver entre uma infinidade de crimes.

Os corpos unem-se pelo prazer; as almas, pela dor.

Não morres. Entras na vida profunda do esquecimento. 

O homem muito sociável é o homem de vida retirada. Casa nunca vazia de convidados é já uma imagem de gulag.

Guido Ceronetti, Pensamentos do chá

30.5.23

Delicadeza superior a toda a ponderação

«Porei todo o meu empenho em evitar escrupulosamente qualquer tipo de fanfarronice.
(...)
uma delicadeza superior a toda a ponderação, isto é, uma impressão de uma ternura e uma bondade extraordinárias.»

Robert Walser, Diário de 1926

29.4.23

Celebrando Kore-Eda Hirokazu

«O Homem Genuíno de outrora
nem conhecia o gosto pela vida, nem conhecia a aversão à morte.
Aparecia e não se mostrava feliz por isso,
desaparecia e não se mostrava distante.
Era velozmente que partia,
e velozmente que regressava, e era tudo»

Do livro de Chuang Tse

A avidez no lugar da vida.
Ir e vir rápido; estar sempre aqui. O outro é a tarefa da atenção.
A delicadeza, a liberdade:
«A liberdade começa na ausência de rosto» (Quignard).
A avidez é inimiga do sentir. 
«A emoção não diz eu» (Deleuze) — os que sabem, apagados.
Sabedoria é coisa de amígdala e dentro.
E as cigarras, o máximo do desejo, esgotar-se a cantar. 
(Ponho no youtube: cigarras, Japão. Vídeo seguinte, algoritmo surreal, certo: Wire, punk.
Nada mais extremo do que o corpo inteiro no tempo e lugar.)
Alegria e calor para o próximo inverno.
E o silêncio, radical «contra-dicção» (Barrento).

Alguém que teve uma boa vida; o máximo, o mínimo, dificílimos.

Filme: Nossa Irmã Mais Nova - Made in Japan

13.11.18

E Camões, já o lemos?



A comédia de Deus, João César Monteiro (1995)

Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

Camões, Lírica


23.9.18

17 anos

Canção da torre mais alta


De ócios jovem presa
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah que o tempo avance
Que encanta os amantes.

Eu disse-me: esquece,
Não sejas ninguém.
E deixa a promessa
De mais altos bens.
Que nada te frustre
O retiro augusto.

Ó viuvezes várias
Da pobre alma agora
Que só tem a imagem
De Nossa Senhora:
Rezar dever-se-ia
À Virgem Maria?

Esperei tão paciente
Que para sempre esqueci.
Medo e sofrimento
No céu os perdi.
E uma sede langue
Escurece o meu sangue.

Tal a pradaria
Que o olvido vence,
Crescida e florida
De joios e de incenso,
Ao zoar furibundo
Das moscas imundas.

De ócios jovem presa
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah que o tempo avance
Que encanta os amantes.

Rimbaud, Obra completa

19.7.18

Desejo, esquecimento e pântano

O desejo é um modo de a realidade dizer que existe. O que espera de ti, não sabes. Mas é claro que o melhor é continuares no mundo que bem conheces. Aí ninguém te pode acusar de nada, tornas-te o ser puro ainda que o teu mundo se parta em dois. Não corras o risco de seres quem não sabes, dizes. A salvo do que desconheces ainda tens hipótese de seres tu, pensas, essa castidade ilude-te quanto à santidade. Esquece as tuas referências, as memórias em que te julgavas de substância divina, tenta o inumano, o demónio que escolhe. É preciso que julgues, é preciso que julgues.

Danças para te salvares enquanto morres. Deve ser isso. Ou então vives próximo de uma máquina que esconde tudo com eficácia. Uma máquina como o cérebro, também capaz de tudo esconder ainda com mais eficácia. Porém, pensavas que o pântano, esse sim, é que era o mais eficaz no esquecimento.



(Fotograma de Psycho, Hitchcock)


18.5.18

Gonçalo M. Tavares sobre Vila-Matas e Robert Walser

Há no Doutor Vila-Matas essa atracção pela Patagónia em que existe “uma pessoa por quilómetro quadrado e reina o silêncio” e por esses países em que não se publicam livros.
Mas felizmente o Doutor Vila-Matas é um médico generoso e um inventor reputado – no meio da descoberta de novas doenças (a Angústia do Pasavento (APS), o Mal de Montano (MM), entre outras), consegue manter essa infinita delicadeza Walseriana de procurar nunca incomodar os outros mesmo que os outros sejam portadores de uma guilhotina e o seu pescoço seja o alvo. Provocar danos na lâmina, nada envergonharia mais o pescoço do homem discreto e delicado que quer desaparecer.
Mas o mais importante é o inverso: ainda não foi inventado (e jamais o será) a lâmina capaz de encontrar o sítio onde esta literatura colocou o pescoço. 



6.5.18

Paciência e obediência

Aprende-se muito pouco aqui, há falta de professores, e nós, rapazes do Instituto Benjamenta, nunca seremos ninguém, por outras palavras, nas nossas vidas futuras seremos apenas coisas muito pequenas e subalternas. A nossa instrução visa sobretudo incutir-nos paciência e obediência, duas qualidades que pouco ou nenhum proveito prometem. Proveito espiritual, sim. Mas o que nos dão as virtudes espirituais? Trarão comida para a mesa? Gostava de ser rico, viajar de coche e esbanjar dinheiro. Falei a este respeito com Kraus, o meu colega de escola, mas ele apenas encolheu os ombros com desdém e não se dignou dirigir-me uma palavra. Kraus tem princípios, senta-se com firmeza na sela da satisfação, um cavalo que não serve a quem quer galopar.


Robert Walser, Jakob von Gunten


15.7.17

2 mil anos depois

Estica-se a mão e alcanca-se. Faz-se força e agarra-se.

Os maus ganham. Os bons perdem porque são bons. Porque perdem, os bons têm uma compensação metafísica, a Verdade.

Os bons sabem melhor do que ninguém o que é ser bom, não resistem a ser superiores, mesmo sabendo que é tudo igual, que somos inseparáveis do nosso pior.

Claro que fazer alguma coisa implica uma certa violência. Os maus fazem coisas. Os delicados emitem juízos, que é uma forma de não fazer e de continuar com medo da sua própria força, porque parece que preferimos ser generosos a ser fortes. Mas não. Nenhum corpo é alegre sendo impotente.

A força é má. Se o mundo fôssemos nós, não seria mundo, mas seria bom. É uma pena que o mundo seja mundo, e é bom continuarmos queixosos e infelizes. O mundo é mau, é feito para os maus, devia ser substituído, está errado.

Também temos culpa por tudo o que devemos a nós próprios quando não fazemos. É a culpa mais comum.

Mas nem sempre se ganha, aliás, acabaremos derrotados e sabemo-lo. Enquanto isso não acontece, temos algumas vitórias mesquinhas, e ainda nos podemos consolar com o espírito, os seus juízos, a maldade dos outros, tão bom. Se os outros isto, os outros aquilo, os outros desaparecessem, no limite, seria bom. Enquanto isso, tempo passa e temos mais razões para continuar desiludidos.

Claro que o delicado esconde uma grosseria, mal controlada, de espírito que não encontra saída, não consegue explicar que as coisas sejam como são. Nunca será claro e as vacas pastam com uma mansidão invejável.

Outros repetirão os mesmos argumentos contra a vida. Desviarão o olhar do que não aceitam, falharão em explicar. A metafísica continuará a ser o consolo dos Napoleões que nunca se levantaram da cama.