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27.5.20

Observações inconjuntas (VII)

7. Uma escada sem chão nem parede

Se em certos livros andávamos de tema em tema de uma frase para a seguinte, dentro do mesmo verso etc, aqui de modo sumamente perverso entramos na história pelo meio e saímos dela um pouco mais à frente, longe do fim. 

Longe do fim e do início, aliás, no exato ponto do nosso desconhecimento das coisas.

Subindo uma escada que, sem suporte, permite avançar até ao fim de si mesma; sem, pois, outra finalidade que não seja subir ou avançar um pouco, entre um ponto em suspenso até outro ponto que não chega a lado nenhum.

Adenda: De outro ângulo, claro, o perverso é a normal expectativa a respeito da ficção.

9.5.20

Observações inconjuntas (V)

5. Ofício: caçar a astúcia — síntese, ressalva e pensamento

Síntese

"A escrita do ensaio não quer dizer o dito" (João Barrento, O género intranquilo. Anatomia do ensaio e do fragmento).

Máximo e mínimo

O mínimo para se alcançar o máximo.

Exigir da vida o máximo; mas antes, ter exigido o mínimo.

Ou seja: deitar fora certos valores, comportamentos, despojar-se, segundo Clarice Lispector:

"com fome apenas do pouco, com fome apenas do menos" (A paixão segundo G.H.).

Clarice também chamava a isto o abandono da sentimentação — escolher o mínimo. O mínimo como o somatório dos nãos; condição da multiplicação das possibilidades.

Em Clarice, há a história de deixar para trás uma vida segundo as expectativas do social — os comportamentos da multidão: ser o centro das atenções mundanas, obter sucesso profissional, acumular honras. Isto significa que este máximo da multidão é falso e esconderia outro máximo, desta feita ético e orgânico: a alegria, o entusiasmo, através da escrita, atividade que, aos olhos do social, é o vazio, o mínimo.

Outra observação essencial, de algum modo uma deriva: "Os homens elogiam muito o que sentem. O que é tão perigoso como execrar o que se sente" (Clarice Lispector).

Elogiar muito o que se sente; o mim. Ou seja, não poder andar com a parafernália do que o Outro é suposto querer — disponibilidade para funcionar, participar acriticamente no mundano, etc. "Não é que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar" (Clarice Lispector). Ausência para poder ser leve, andar — saltar, diria mesmo. E a delicadeza: não é que deseje a pureza pela pureza. Não é que queira ser pura, só desejo saltar. Que no meu abandono da vaidade ninguém venha a encontrar o juízo.

No passado, muitas personagens claricianas estariam um passo antes da vida: "Um passo antes de minha vida … que, por uma espécie de forte íman ao contrário, eu não transformava em vida; e também por uma vontade de ordem" (Lispector). Um passo antes da vida — a espera. E uma vontade de ordem, pois "a desordem é de mau gosto". A alegria ou a espera, o máximo ou o mínimo. Artaud também observou: "Depressa, depressa, vou desordenar a minha vida" (O suicidado da sociedade).

O máximo é, pois, "o essencial tornado urgente" (Gonçalo M. Tavares). O prazer — sendo efémero, porque somos vivos, não equivale ao fútil, nem ao coletivo, com as suas palavras de ordem. Não é o Poder (substantivo despótico), mas o poder (verbo): eu posso, tu podes, ele pode...

O desejo é o essencial, "um devir-pura energia intensiva — a que circula no corpo paradoxal, múltiplo, fechado sobre si e em comunicação com o cosmos, e que coincide com a energia da sua consciência subtil" (José Gil, Caos e ritmo). Noutro ponto do livro, José Gil fala também da "pura energia sem Forma", o instante em que o grosseiro se converte em subtil, "porque o ritmo transporta-se a si mesmo do corpo para o pensamento, transformando o corpo em pensamento".

Alegria, movimento e pensamento: "Quando é que o pensamento do movimento se torna movimento do pensamento? Quando o ritmo do corpo se torna ritmo do pensamento" (José Gil).

Entrar no individual, desfazer o mim, sentir e explorar a pluralidade por via do prazer. Abandonar o máximo —a decantação do humano — para atingir outro máximo. Recusar a caridade para finalmente ser caridoso: “A gradual deseroização de si mesmo é o verdadeiro trabalho que se labora sob o aparente trabalho, a vida é uma missão secreta” (Lispector, A paixão segundo G.H.).


Para continuar o pensamento

"A única afirmação grande de Nietzsche é que a alegria é mais profunda que a dor, que a alegria quer profunda, profunda eternidade" (Fernando Pessoa).

A eternidade é a de um desejo que cresce, que quer indefinidamente continuar. Na enunciação de Pessoa, a alegria é metafísica. Porém, se fosse atingida essa profunda eternidade, a alegria dissolver-se-ia — a sua afirmatividade desapareceria caso fosse possível ao humano experimentar indefinidamente.

Por isso, se quer continuar (diríamos paradoxalmente, atendendo à frase de Pessoa), a alegria só poderá querer a mortalidade.

Um diálogo entre S. Agostinho e Clarice Lispector, moderado por Maria Filomena Molder (Dia alegre, dia pensante, dias fatais):

— Existe entre os homens esta grande questão: o homem pode ser feliz e mortal? (De ciuitate dei)
— Amar a vida mortal, isso é a felicidade. (A descoberta do mundo)

O horizonte de um fim é a condição da alegria, ainda que possamos suspeitar de uma secreta expectativa de eternidade.

Se torcêssemos os termos da enunciação pessoana, com júbilo aceitaríamos que o desejo de uma profunda, profunda alegria é imprescindível para o mundo continuar.

Em aberto, está a hipótese de recomeçar, de jogar.

3.5.20

Observações inconjuntas (IV)

4. «Um facto não existe sozinho»
(Uma menina está perdida no seu século à procura do pai)

Alguém passeia na rua e encontra um sapato. Não houve, nesta rua, nenhum desfile, nenhuma festa, não existe vestígio de acidente algum. O sapato não está perto de nada. Não está próximo de caixotes do lixo, nem de casas ou jardins. Como um objecto louco, sem função ou lugar.

Está no meio da rua, desamparado, sem o seu par, o par que poderia inserir o sapato perdido num conjunto, na unidade que sossegaria por momentos a turbulência no coração. Meia unidade é o desassossego.

Um sapato deverá ter um par; ou então algo perto, com o qual se possa ligar, contaminar, derivar em sentido. Mas não há nada perto, apenas um sapato. Não é possível identificar a sua origem; mas, pelo menos, haveria a possibilidade de nexo causal entre as coisas; pelo menos, esboçaríamos uma explicação.

Um verso: "O mundo tem o calor do sangue e é pessoal" (Sylvia Plath).

Um sapato no meio da rua é o assombro. 

Assim começa Uma mulher sem sorte de Richard Brautigan.

Assim é cada capítulo de Cinco meninos, cinco ratos. Um sapato sem par no meio da rua, irradiando sentido em todas as direções.


27.4.20

Observações inconjuntas (III)

3. Leitura cansada

Que disponibilidade temos, leitores, para aceitar avançar sem saber? Não quero certezas, só quero avançar. Ou então: ou me dás o sentido ou saco da pistola. De outro modo: a interpretação corre o risco de ser uma acusação. O juízo é uma cabeça gigante de ombros curtos — o homem-cabeça, a cabeça isolada e paranóica. Onde está o óbvio? — pergunta. Há muito espaço entre uma coisa e a coisa seguinte. Uma estepe inteira! Uma viagem longa, prefiro ficar em casa.

Na verdade avançamos sem saber — o que se passou em Naked Lunch? Antes uma explicação, dê-me uma explicação, por favor.

26.4.20

Observações inconjuntas (II)

2. Dez dedos, dez personagens

Noutros livros, essa injunção viria de outras formas. Por exemplo, no Livro da dança: "uma parte do movimento é excremento. / a outra é desejo." Ou o espanto de quem se vê atuar, vê o que faz enquanto age sem atraso: "Alguém / me / aconteço!".

"Os dedos são personagens. / Dez personagens" do mesmo livro. Cinco meninos, cinco ratos, dez dedos. Os dedos são as personagens.