22.1.26

Colonialismo clean


Branqueamento de um genocídio através de empreendimentos projetados sobre dezenas de milhares de cadáveres do povo da Palestina. O fascismo, tão bem intencionado, cute, gizado com projetos de IA. Este colonialismo clean, este pragmatismo económico, esta uniformidade sintática são o fascismo. Bater palmas aos predadores, que bom, que nos alertam para a perda de tempo e energia que seria condenar os genocidas e enterrar os mortos com a mínima dignidade. Mas não, bulldozers limparam-nos com toneladas de entulho à mistura, eles são parte daquele tóxico monturo, ativos financeiros que requerem saneamento. Uma limpeza não menor do que a de tantos e tantos deficientes, ciganos, dissidentes e judeus por vários campos de concentração ao longo do último século. Nem parece que estão em causa ainda mais crimes de guerra, a mais baixa imoralidade, não enterrar os mortos, não: olhemos para a frente, meus meninos. Foco. Estamos a preparar o terreno. Uma coisa é certa, os nazis tiveram mais vergonha do que os israelitas e os americanos: cometeram um genocídio atrás da guerra e em campos longínquos. Não é grande coisa em face dos resultados, bem sei, nem diminui, de maneira nenhuma, a grandeza do mal cometido. Hoje é tudo explícito por virtude mediática e sobretudo de inúmeros e valentes ativistas, mas a maioria da população recusa-se a entender apesar de tanta evidência. Séculos de censuras e inquisições fizeram com que nos tivéssemos tornado em especialistas no ocultamento de tudo o que é nítido. Podem rir-se da propaganda na Coreia do Norte, certamente em nada mais indolente e retorcida do que a dos media e governos ocidentais. Estes novos nazis, praticamente iguais aos mais antigos, de dentes rútilos, silhueta elegante, com aquela curvatura de pescoço tão sensível que séculos de escravos moldaram, vendem a morte massiva como uma iniciativa económica irrecusável. E nada nem ninguém pode tornar a Europa mais fascista do que o apoio a esta abjeção. Um fascismo investido de ultra-capital, para o qual a liberdade é ir ao McDonald's, viver numa Trump Tower e fazer revoluções only fans. Os países árabes que apoiam isto, governados por puppets autoritários, são igualmente rapaces. Enfim, o velho princípio de estar do lado de quem vence, o cerne da servidão voluntária e da vontade de poder. «A força só escuta palavras de contenção por vontade própria», escreve Gonçalo M. Tavares, numa alusão a Carl Schmitt. E isso é tão válido para os anos 30 do século XX como para o ano de 2026. Embora se duvide que hoje alguém ainda as pronuncie, a não ser em desespero quando o império lhes bate à porta. Veja-se o caso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, banqueiro, ex-gestor da Goldman Sachs, cujo discurso em Davos recupera duas referências históricas. Uma, A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, permite a Carney esgrimir o seguinte argumento: tal como os Atenienses canibalizaram a Liga de Delos após terem derrotado a ameaça que os Persas representavam, assim os Estados Unidos da América exploram os seus aliados depois de terem derrotado o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, tanto Atenas como a América se converteram em máfias especialistas na extorsão dos seus vassalos (em toda esta história, os russos cumprem o papel de malvados fascistas, ainda que mais de 20 milhões de soviéticos tenham morrido durante o conflito). Basicamente, esta referência permite a Carney chorar lágrimas de crocodilo, ao mesmo tempo que, nas entrelinhas, faz da China a nova Esparta. A segunda referência, A potência dos impotentes, de Vaclav Havel, é também sintoma de uma hipocrisia gritante: enquanto se beneficiou dos atropelos à lei internacional do grande império, tudo bem; agora que ele se volta contra nós, é preciso dizer a verdade ao poder. Neste ponto patético também se encontra a Europa. Sobre o Canadá, o mais provável é que Carney, na sua visão neoliberal, conceba o país como um ativo tóxico e, em breve, depois de umas eleições de que sairá reforçado no seu poder, o queira tentar vender à... China.



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