A governança propõe sempre um programa para o desenvolvimento e progresso das desprivilegiadas, de quem está e é errada. E propõe sempre uma forma de ajuda que capitaliza enquanto participação. Por outras palavras, as políticas são sempre uma estratégia de captura e gestão sociais (para lá da esfera estrita do trabalho) que pede a participação do cidadão, a participação pública e do público, como a única maneira que o capital tem de extrair valor das formas de estar comunais que lhe são opacas. Segundo a governança, o que é preciso é traduzir aquilo que se move através de tudo isto, como sussurro ou grito ou música, numa linguagem que se perceba bem, e que portanto se possa dominar: a linguagem da política, que tem então a capacidade de continuar a colonizá-la.
Precisamente porque esta comunalidade e estas formas de estar, de estar-junto, não são claras, explícitas, transparentes para o capital, porque não lhe são imediatamente avaliáveis, mensuráveis, valorizáveis, a governança opera ajudando — ou mesmo «apoiando», «impulsionando», «dando voz a», «estando lá para» — as próprias comunidades para extrair delas interesse — aqui em ambos os sentidos. A governança está sempre a oferecer interesse às pessoas quando oferece o entusiasmo da participação com a promessa de um retorno incremental localizado sempre no futuro — que está já dentro do círculo fechado da dívida-crédito. Onde a governança falha, onde não é capaz de fazer cumprir a sua tarefa e promessa, a culpa é sempre de uma falta de participação cívica, civil e civilizada, uma falta de interesse.
P. Feijó, «Diz-lhes que Voávamos: a Auto-defesa do Arredor», Os Subcomuns: Planeamento Fugitivo e Estudo Negro

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