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11.10.13

Restless, de Gus Van Sant

Restless: estar preso no triângulo familiar. Procurar libertar-se dele e dos seus fantasmas. Libertar o desejo, reativar conexões, fluxos, refluxos. Fugir do discurso papá-mamã, soltar o desejo deste cativeiro. É que, para além deste discurso, há coisas importantes - como a vida (lembra Deleuze).

Gus Van Sant tem dado protagonismo a adolescentes com frequência nos seus filmes. Perante isto, muitos dos seus detratores conservadores, de forma alarve, lembram a homossexualidade do cineasta. O que me parece, antes, é que Gus Van Sant intui que a adolescência é o período da vida durante o qual mais intensamente vivemos. Michel Houellebecq disse que todos nós somos órfãos dos amores que não vivemos na adolescência. A perda começa aí. 

O adolescente devasta o mundo só de olhá-lo com força, como escreveu Herberto. É ferido pelo que constrange o desejo, pelo que o limita e o explica. Simplesmente, há demasiada voracidade para ser contida em leis morais, em códigos. Por esta razão são errantes as personagens. Não sei se Gus Van Sant nos quer dizer que a neurose é inevitável. É possível que sim. A corroborá-lo está o facto de a família enquadrar os comportamentos dos adolescentes, o que faz as delícias de psiquiatras e psicanalistas. Geralmente, famílias disfuncionais - como todas, de resto. No caso de Restless, um dos adolescentes nem pais tem.

A nível formal, apreciei sobremaneira a presença quase intrusiva de uma luz outonal baça, que atinge os planos com uma leve mancha onírica, especialmente em sequências rodadas perto de um rio, em Portland, uma paisagem que teria agradado aos impressionistas, que, como se sabe, privilegiavam zonas suburbanas.













30.9.11

Um blogue também pode conter uma cantiga de escárnio


A questão nunca é a verdade. É sempre o poder. E a verticalidade as mais das vezes não é reconhecida. É bazófia, insolência. Sentir não é para todos. É para os que ainda tenham seu algo genuíno.

«Man is the only animal that blushes - or needs to.» Mark Twain



30.5.11

Asterios


A vida de Asterios Polyp vai do desejo indomável de saber, de competir intelectualmente com os demais, à suspensão desse desejo. O encontro pleno com o outro dá-se aqui, pela renúncia. O trágico do romance gráfico reside no seguinte: a castração ocorre depois de se aceitar a renúncia. Asterios perde um olho depois de decidir reencontrar a sua ex-mulher e não antes de isso haver acontecido. Ele não regressa por se sentir culpado, mas porque aprendeu a renunciar - a deixar o mundo acariciá-lo. Também ele sabe que é na paz entediante de Penélope (aqui Hana) que a vida ganha sentido. Ulisses soube-o sempre; Asterios, não. O outro lado: abdicar do intelecto, e do absurdo de uma vida a ele votada, é castrador.
Há vários motivos de interesse a nível gráfico. Saliento três. 

Quando Asterios discute com a mulher torna-se um azul geométrico e cubista, o que é outro nome para uma razão sem corpo e cruel (porque indiferente). Hana torna-se vermelha (ela é uma mulher demasiado ternurenta e, apesar do génio, mais preocupada com olhar o outro nos olhos do que com a sua escultura).




Um dos capítulos da obra pretende caracterizar o aborrecimento da rotina. Para isso recorre-se apenas a elementos gráficos, aos recursos desta arte. Vinhetas de tamanho variável, decompondo a horizontalidade da tira, sem alguma fala, contribuem para se acentuar a monotonia das acções que repetimos, e que nos angustiam. Dias há em que parece que apenas essas situações teremos a contar: o corpo, os seus fluxos, o que o corpo gasta, o ciclo menstrual, a repetição e o maquínico. É essa repetição, essa melancolia, que define as relações. E neste ponto devo citar Robin Williams, no filme de Gus van Sant, Good Will Hunting. Quando o psicólogo quer demonstrar ao aluno a importância de estar com outra pessoa, menciona o facto de conhecermos a parte do outro que mais ninguém conhece (e, igualmente, damos a conhecer ao outro o que mais ninguém conhece sobre nós). E conta um episódio: a sua mulher acordava às vezes durante a noite com a própria flatulência. Isto é que é «good stuff»: aceder ao íntimo possível. Nesta BD, a aproximação ao íntimo, o close-up, é feita sobriamente, ao longo de pranchas, e com ela capta-se o essencial da partilha do tempo: o silêncio.




Mais tarde, quando reencontra a ex-mulher, os balões enlaçam-se: o amor acontece pelo discurso, a forma é o conteúdo, nem precisávamos das palavras para nada.





Oculto mais pormenores assaz deliciosos como estes e recomendo parte das vossas horas à descoberta da magnus opus, até ao momento, de David Mazzuchelli, a qual já recebeu um sem-número de prémios.