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5.12.23

Leveza ao quadrado

Vê as flores, estas fiéis à terra, mesmo com vento,
às quais emprestamos destino, nós na margem do destino a passar —
mas quem sabe! Quando elas lamentam seu murchar,
pertence-nos a nós ser seu lamento!

Tudo quer pairar. Circulamos pesados,
sobre as coisas nos colocamos, com os pesos encantados;
oh que mestres devoradores somos para as coisas sem ânsia,
porque são capazes de uma infinita infância.

Se alguém as levasse ao íntimo do sono e lá dormisse
a fundo com as coisas —: oh, como leve acordaria,
diferente para um dia diferente, saído do fundo comum e dormente.

Ou talvez nesse lugar ficasse, talvez tudo florisse
exaltando o convertido, que agora com elas se parecia,
das irmãs do silêncio no vento da planície verdejante.

Rilke, Os Sonetos a Orfeu, trad. Maria Teresa Dias Furtado

4.12.23

Flor para ler devagar

Músculo de flor que à anémona abriu
manhãs de prado, gradualmente,
até que no seu colo a polifónica luz floriu
dos céus sonoros caindo levemente,

na silente flor-estrela, o músculo em tensão
do acolhimento ilimitado, sem prazo,
por vezes tão repleto de plenitude e atenção
que o sinal de descanso do ocaso

mal pode devolver-te as retraídas
orlas da corola vividas:
tu, que és decisão e vigor de tantos mundos!

Nós, violentos, duraremos mais tempo, profundos.
Mas quando, em qual de todas as vidas,
somos nós finalmente abertos e receptivos, fecundos?

Rilke, Os sonetos a Orfeu, trad. Maria Teresa Dias Furtado