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2.7.25

Uma ocorrência da Natureza

Descida profunda. 15 metros, 20 metros, 30 metros, 35 metros. Era como se as montanhas do Colorado estivessem debaixo de água. Penhascos e ravinas, barrancos e vales. Peixes e plantas que Eloise nunca vira; os peixes que reconhecia eram enormes, atrevidos. Fez pontaria a uma garoupa-do-golfo, falhou, fez novamente pontaria e deu-lhe um tiro certeiro. Era tão grande que Juan a ajudou a carregá-la para a sua corda de pesca; a fricção da corda queimava-lhe os dedos. À sua volta, disparos e transporte de peixes em frenesi. Loras, pargos, charuteiros-catarinos. Sangre. Acertou numa merluza-negra e noutra garoupa-do-golfo, contente por não ter visto César, por estar por sua conta. Depois ficou assustada, mas viu-o muito ao longe e voou rapidamente na sua direcção através dos penhascos serrilhados. Ele deu às barbatanas, esperando por ela no escuro, e depois puxou-a para si. Abraçaram-se, com os reguladores a entrechocarem. Ela apercebeu-se nessa altura de que o pénis dele estava dentro dela; entrelaçou as pernas à volta dele enquanto giravam e ondulavam no mar escuro. Quando saiu de dentro dela, o seu esperma começou a vogar para cima, como se fosse uma pálida tinta de polvo.
Quando, mais tarde, Eloise pensou nisto, não foi como se recordasse uma pessoa ou um acto sexual, mas como se tivesse sido uma ocorrência da Natureza, um pequeno tremor de terra, uma rabanada de vento num dia de Verão.

Lucia Berlin, Manual para mulheres de limpeza

27.11.23

Miniaturas e absurdo

A imaginação vale mais que isso. De fato, a imaginação miniaturizadora é uma imaginação natural. Aparece em todas as idades do devaneio dos que nasceram sonhadores. Precisamente, é preciso separar o que diverte para descobrir aí raízes psicológicas efetivas. Por exemplo, poderemos ler seriamente esta página de Hermann Hesse publicada na revista Fontaine (n.° 57, pág. 725). Um prisioneiro pintou na parede de sua cela uma paisagem: um trenzinho entrando no túnel. Quando os carcereiros vêm procurá-lo, ele lhes pede "gentilmente que esperassem um momento para que eu possa entrar no trenzinho da minha tela a fim de verificar aí uma coisa. Como de hábito, eles se puseram a rir, pois me olhavam como a um fraco de espírito. Eu me tornei pequenininho. Entrei em meu quadro, subi no trenzinho que se pôs em movimento e desapareceu na escuridão de um pequeno túnel. Por instantes, percebeu-se ainda um pouco de fumaça em flocos que saía pelo buraco arredondado. Depois essa fumaça desapareceu e com ela o quadro e com o quadro minha pessoa..." Quantas vezes o poeta-pintor, na prisão, não perfurou as paredes por um túnel! Quantas vezes, curtindo seu sonho, não se evadiu por uma fenda da parede! Para sair da prisão, todos os meios são válidos. Precisando-se, o absurdo é capaz de libertar.

Gaston Bachelard, A poética do espaço

31.5.23

Amor, o mal do mundo e a moral da história

— O jogo está a correr bastante melhor, agora — disse, para fazer conversa.
— É verdade — respondeu a Duquesa. — E a moral disto é a seguinte: «É o amor que faz o mundo rodar.»
— Alguém disse que o que faz o mundo rodar é que cada um se meta na sua vida — atalhou Alice em voz baixa.
— Ah, bem! Isso quer dizer a mesma coisa — respondeu a Duquesa, enterrando ainda mais o queixo pontiagudo no ombro de Alice.
— E a moral disso é: «Ocupa-te do sentido que os sons se ocuparão de si próprios.»
«Como ela gosta de descobrir uma moral nas coisas!», pensou Alice.

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, trad. Maria Filomena Duarte

27.1.13

Além de palavras (27 de janeiro, dia internacional em memória das vítimas do Holocausto)


A morte por gás durava
entre dez a quinze minutos.
O momento mais atroz era
a abertura da câmara de gás,
essa visão insustentável:
as pessoas, comprimidas como basalto,
blocos compactos de pedra.
Como desabavam fora das câmaras de gás!
Várias vezes assisti a isso.
Era o mais difícil de tudo.
A isso nunca nos habituávamos.
Era impossível.
Sim. É preciso imaginar.

C. Lanzmann