Novick argumenta também que «pretender que o Holocausto faz parte da memória da América» é uma evasão moral, porque faz-nos «desresponsabilizar de coisas que de facto dizem respeito aos americanos quando se confrontam com o seu passado, presente e futuro.» (Sublinhado no original.) Nisso tem toda a razão. É muito mais fácil deplorar os crimes dos outros do que olhar para os nossos. No entanto, também é verdade que, se quiséssemos, poderíamos aprender muito sobre nós mesmos a partir da experiência nazi. O Destino Manifesto foi a pedra basilar de quase todos os elementos ideológicos e programáticos da política de Lebensraum de Hitler. Na realidade, Hitler modelou a sua conquistou do Leste pela conquista americana do Oeste. Durante a primeira metade deste século, a maioria dos estados americanos aprovou leis autorizando a esterilização e dezenas de milhares de americanos foram esterilizados à força. Os nazis evocaram explicitamente este precedente americano quando aprovaram as suas leis de esterilização. As famosas Leis de Nuremberga de 1935 privaram os judeus do direito de voto e proibiram a miscigenação entre judeus e não judeus. Os negros do Sul americano sofreram dos mesmos entraves legais e foram alvo de uma violência popular espontânea e consentida muito maior do que a exercida contra os judeus na Alemanha de antes da guerra.
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Mas antes de Wiesel ir chorar por encomenda a sorte dos kosovares, o regime indonésio apoiado pelos Estados Unidos retomara o trabalho que deixara inacabado nos finais dos anos 70, perpetrando novos massacres em Timor-Leste. Apesar disso, o Holocausto varreu-se da memória da administração Clinton, que consentiu o banho de sangue. Como explicou um diplomata ocidental, «A Indonésia conta, Timor-Leste não.»
Novick salienta a cumplicidade dos Estados Unidos em desastre humanos que, embora diferentes do extermínio nazi, têm a mesma dimensão. Recordando, por exemplo, um milhão de crianças mortas na Solução Final, observa que os presidentes americanos pouco fazem além de balbuciar palavras piedosas quando, em todo o mundo, todos os anos «morrem de fome e doenças evitáveis» muitos milhões de crianças. Também podemos considerar um caso pertinente de cumplicidade americana activa. Depois de uma coligação dirigida pelos Estados Unidos ter devastado o Iraque em 1991 para castigar «Saddam-Hitler», os Estados Unidos e a Grã-Bretanha impuseram sanções criminosas através das Nações Unidas a esse desgraçado país, com o objectivo de provocarem a deposição do seu ditador. É provável que tenham morrido um milhão de crianças, como no holocausto nazi. Interrogada na televisão nacional sobre essa hecatombe terrível, a secretária de Estado Madeleine Albright respondeu que «o preço justifica-se».
Novick afirma que «o próprio carácter extremo do Holocausto limita seriamente a possibilidade de dele retirarmos lições aplicáveis ao nosso mundo de hoje.» Como «bitola máxima de opressão e atrocidade», tende a «banalizar crimes de magnitude inferior». Mas o holocausto nazi também pode sensibilizar-nos para estas injustiças. Visto através do prisma de Auschwitz, o que dantes se considerava como aceitável — por exemplo, os preconceitos racistas — deixou de o ser. Na realidade, foi o holocausto nazi que desacreditou o racismo científico que era uma característica tão presente na vida intelectual americana antes da Segunda Guerra Mundial.
Norman Finkelstein, A indústria do Holocausto. Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus
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