João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas
Coração sem coragem bate falso, em falso, impercetível, descompassado, desligado de tudo. Bater falso indica um problema não apenas no ritmo, mas no tom: sem coragem, o coração perde autenticidade e verdade, converte-nos em ersatz. Da sinceridade avulta mais confiança, mais coragem, menos batidas inermes. A cobardia torna-nos hipócritas, e o inverso também é verdade; a coragem é o modo como se pode coincidir com quem se é. A cobardia é um desvio de si mesmo (não raro, por submissão às finalidades práticas da vida). E porque o radical de 'coragem' tem a mesma origem etimológica que 'coração' (cor, cordis), também devemos ler o fragmento de modo reversível: a coragem é ter coração. Para se ter coração, precisa-se compaixão, pôr em segundo plano os próprios interesses (um curto-circuito lógico). Menos eu, menos interesse: mais coração, mais coragem. O eu e a sobrevivência impõem um ritmo falso ao coração, pervertem-no, tolhem-no, por mais violento, aliás, que esse ritmo seja. Mas sem coração não há coragem, o que implica um lance com o seu quê de suicida, lançar-se para a frente, precipitar-se, diante da injustiça, a qualquer risco. A travessia do sertão, feita pelos jagunços no plano da história, é, além de uma circunstância comum, «a toda travessia», ou seja, glosando, «a qualquer travessia». Uma possível leitura assinalaria a anomalia duplicante (de determinantes, embora também possa ser de complementos) constitutiva do estilo de Rosa: a existência a atravessar é também ela um sertão (floresta negra, mais negra do que o ser floresta). A vida exige, afinal, a radicalidade dos instantes de decisão ética (no sentido kierkegaardiano, bem entendido), ela vai-se configurando na concatenação desses instantes, todos eles decisivos, por mais microscópicos que aparentem ser. Viver deve, em suma, ser experimentado da forma que Barthes aponta no início do Prazer do texto: sem explicações nem desculpas. De outro modo: com coragem e coração.
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