1.6.26

Sarah Rajab


Martha Rosler, House Beautiful: Bringing the War Home 
1967–72

O trabalho de Martha Rosler é muito claro: o bem-estar só é possível porque noutro lado do mundo um pai carrega o seu filho assassinado nos braços. A ordem ocidental, o kitsch, são possíveis graças ao horror; por conseguinte, a má-fé é intrínseca ao modus vivendi imperial e capitalista. Jacques Rancière, em O destino das imagens, explica como a mistura destes dois mundos, na imagem de Rosler, tem um efeito revelador: «Trata-se de organizar um choque, de pôr em cena uma estranheza do familiar, para fazer aparecer outra ordem de grandeza que só se descobre mediante a violência de um conflito. A potência da frase-imagem que une as heterogeneidades é então a da separação e do choque que revela o segredo de um mundo, ou seja, o outro mundo cuja lei se impõe por trás das suas aparências anódinas ou gloriosas».

Evoco esta série a propósito de mais um massacre perpetrado por Israel, em Gaza, no dia 27 de maio. Entre as vítimas encontrava-se Sarah Rajab, de 9 anos, transportada em braços por um adulto aterrado com o pequeno corpo carbonizado e em pedaços. Um horror a que um Conrad teria dificuldade em dar voz. Ela havia perdido a mãe, a avó e dois irmãos num ataque aéreo em dezembro de 2023. Há uns meses, perdeu o pai; órfã, foi executada pelo exército de Israel. É liquidada, no espaço de meses, toda uma linhagem familiar.

Decepar a inocência, a inteligência, a beleza, a criatividade, é a finalidade do mal. Também a chacina de Sarah — essencialmente anónima — está nas nossas salas de estar.


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