«É assim o entardecer que temos de clarificar. O cravo está cheio de espinhos carnívoros, que estranha natureza poderá gerar? Há estrume, vermes saídos do velho cadáver fascista que penetraram a flor pela raiz, e também isso é uma verdade. São os rancorosos emissários do passado a pretenderem fazer dele, cravo, um cravo árido e sem horizonte mas não chegarão a tanto, é a nossa esperança. Se o conseguirem, se consumarem a sua corrupção, então nada mais resta ao desespero dos traídos do que queimá-lo em purificação, como uma alcachofra, para que volte a florir. E mesmo assim será ainda cravo, sempre cravo. Como tal nasceu e como tal o inventámos».
José Cardoso Pires, «Prefácio natural do medo», E agora, José?, Abril de 1977

«Cravo cheio de espinhos carnívoros», «vermes saídos do velho cadáver fascista», «rancorosos emissários do passado»: vale tanto para a brutalidade da polícia como para a fleuma retorcida e servil de jornalistas e comentadores em face das imagens de violência policial. Aliás, muitos deles nem isso são, senão o pus dos espinhos, o visco dos vermes, os pajens dos emissários. Portugal é um país com longeva vocação esclavagista cuja elite defende o direito natural a viver da chulice e da brutalidade exercidas sobre o seu povo e outros povos, ao mesmo tempo que acusa os pobres, os doentes e os imigrantes de serem improdutivos, chulos ou violentos. Aqueles que denunciam a chulice e a brutalidade da elite e do capital internacional são inimigos da nação, não defendem diálogos entre a espada e o pescoço, têm de se aguentar amordaçados e rezar para que o flagelo doravante não os atinja tão em cheio. Com sorte, se se mostrarem 24/7 disponíveis e nunca inoportunos, ainda farão carreira, de medo perfilado, cães que conhecem o dono. Se em 77 se vivia o prefácio, estamos agora em plena obra do medo.
P.S. - Uma descrição minuciosa do dispositivo e dos fundamentos do poder, por António Brito Guterres, que inclui a ausência de defesa dos trabalhadores não institucionalizados pelos organizadores de esquerda, que não defendem a face mais visível da precariedade e, aliás, dão eco mediático ao carimbo de vândalos. Alguns recortes:
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Serpenteia-se a Calçada do Combro, dando densidade às massas que desaguam em frente ao parlamento. Quando acabam os discursos e os sindicatos fecham formalmente a manifestação, metade dos manifestantes ainda nem conseguiu vislumbrar o parlamento.
A estes, últimos, milhares, é-lhes oferecida uma orfandade organizacional que permite às forças policiais ter uma liberdade de acção mais abstracta – até porque a manifestação já acabou mesmo que não se tenha acabado o percurso. Mas pior, retira o poder a milhares de pessoas: esfomeadas, revoltadas, precarizadas de fazer a sua encenação política, catarse e protesto junto à representação legislativa.
É aí que tem entrado a polícia, para limpar o largo do parlamento “libertando a circulação” e terminando com aquele convívio de “rufias”: o cota que ainda quer mandar uns impropérios em direcção ao parlamento, os militantes de vários grupos que ensaiam outras palavras de ordem, jovens que se acabaram de conhecer e partilham uma cerveja sentados no chão, os adolescentes que cantam em redor de uma coluna e os sozinhos, que não têm grupo mas sabem que têm de estar ali.
Sim, é nesse momento que para o comandante operacional da PSP a manifestação tornou-se “violenta” que foram “encurralados e obrigados a”. A violência na verdade não é mais que a ocupação do espaço por pessoas não institucionalizadas – em especial em frente ao parlamento.
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Os organizadores acotovelam-se para informar que o que se passou já não é da sua responsabilidade – foi pós-manifestação – e que o desfile organizado foi mais uma prova ordeira da força dos trabalhadores. (E os que ficaram são o quê?) Os partidos de esquerda ficam muito chateados porque as acções de uns poucos vândalos fez a ação da direita boicotando mediaticamente a greve geral (sim, como se houvesse uma cobertura digna da mesma e fossem estes media a fazerem-no). Uns e outros, pelo meio, ainda inventam movimentos extremistas não existentes.
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A violência policial estará sempre presente contra a turba de descontentes. Seja nos espaços do quotidiano daqueles que este sistema tornou mais vulneráveis: locais de trabalho, nos transportes, nos bairros, quer nos espaços da cidade onde queremos reivindicar. Pode até ter gradações diferentes de violência, mas é articulada e pretende o mesmo. O que aconteceu ontem foi parte dessa articulação. Foi organizada, pensada e deliberada. Sabendo que em resposta os camaradas bem comportados acabam o serviço da polícia, etiquetando as vítimas como culpadas através de uma serie de definições da década de XX do século anterior.
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