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3.6.26

Coração, coragem

«Que: coragem — é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia — do sertão — a toda travessia»

João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas


Coração sem coragem bate falso, em falso, impercetível, descompassado, desligado de tudo. Bater falso indica um problema não apenas no ritmo, mas no tom: sem coragem, o coração perde autenticidade e verdade, converte-nos em ersatz. Da sinceridade avulta mais confiança, mais coragem, menos batidas inermes. A cobardia torna-nos hipócritas, e o inverso também é verdade; a coragem é o modo como se pode coincidir com quem se é. A cobardia é um desvio de si mesmo (não raro, por submissão às finalidades práticas da vida). E porque o radical de 'coragem' tem a mesma origem etimológica que 'coração' (cor, cordis), também devemos ler o fragmento de modo reversível: a coragem é ter coração. Para se ter coração, precisa-se compaixão, pôr em segundo plano os próprios interesses (um curto-circuito lógico). Menos eu, menos interesse: mais coração, mais coragem. O eu e a sobrevivência impõem um ritmo falso ao coração, pervertem-no, tolhem-no, por mais violento, aliás, que esse ritmo seja. Mas sem coração não há coragem, o que implica um lance com o seu quê de suicida, lançar-se para a frente, precipitar-se, diante da injustiça, a qualquer risco. A travessia do sertão, feita pelos jagunços no plano da história, é, além de uma circunstância comum, «a toda travessia», ou seja, glosando, «a qualquer travessia». Uma possível leitura assinalaria a anomalia duplicante (de determinantes, embora também possa ser de complementos) constitutiva do estilo de Rosa: a existência a atravessar é também ela um sertão (floresta negra, mais negra do que o ser floresta). A vida exige, afinal, a radicalidade dos instantes de decisão ética (no sentido kierkegaardiano, bem entendido), ela vai-se configurando na concatenação desses instantes, todos eles decisivos, por mais microscópicos que aparentem ser. Viver deve, em suma, ser experimentado da forma que Barthes aponta no início do Prazer do texto: sem explicações nem desculpas. De outro modo: com coragem e coração.


24.5.26

As parecenças do ovo com o espeto

Ciganinha e Zito nem muito um do outro se aproximavam, antes paravam meio brigados, de da véspera, de uma briguinha grande e feia. Pele é que era a morena, com notáveis olhos. Ciganinha, a menina linda no mundo: retrato miúdo da Mamãe. Zito perpensava assuntos de não ousar dizer, coisas de ciumoso, ele abrira-se à espécie de ciúmes sem motivo de quê ou quem. Brejeirinha pulou, por pirueta. — «Eu sei por que é que o ovo se parece com um espeto!» —; ela vivia em álgebra. Mas não ia contar a ninguém. Brejeirinha é assim, não de siso débil; seus segredos são sem acabar. Tem porém infimículas inquietações: — «Eu hoje estou com a cabeça muito quente…» — isto, por não querer estudar. Então, ajunta: — «Eu vou saber geografia.» Ou: — «Eu queria saber o amor…» Pele foi quem deu risada. Ciganinha e Zito erguem olhos, só quase assustados. Quase, quase, se entrefitaram, num não encontrar-se. Mas, Ciganinha, que se crê com a razão, muxoxa. Zito, também, não quer durar mais brigado, viera ao ponto de não aguentar. Se, à socapa, mirava Ciganinha, ela de repente mais linda se envoava.
– «Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?» — Brejeirinha especulava. — «É, hem? Você não sabe ler nem o catecismo…» Pele lambava-lhe um tico de desdém; mas Pele não perdia de boazinha e beliscava em doce, sorria sempre na voz. Brejeirinha rebica, picuíca: — «Engraçada!… Pois eu li as 35 palavras no rótulo da caixa de fósforos…» Por isso, queria avançar afirmações, com superior modo e calor de expressão, deduzidos de babinhas. — «Zito, tubarão é desvairado, ou é explícito ou demagogo?» Porque gostava, poetista, de importar desses sérios nomes, que lampejam longo clarão no escuro de nossa ignorância. Zito não respondia, desesperado de repente, controversioso-culposo, sonhava ir-se embora, teatral, debaixo de chuva que chuva, ele estalava numa raiva. Mas Brejeirinha tinha o dom de apreender as tenuidades: delas apropriava-se e refletia-as em si — a coisa das coisas e a pessoa das pessoas. — «Zito, você podia ser o pirata inglório marujo, num navio muito intacto, para longe, lo-õ-onge no mar, navegante que o nunca-mais, de todos?» Zito sorri, feito um ar forte. Ciganinha estremecera, e segurou com mais dedos o livro, hesitada. Mamãe dera a Pele a terrina, para ela bater os ovos.

João Guimarães Rosa, Primeiras estórias, «Partida do audaz navegante»