19.4.26

Sucessão de contritas

Outras versões, quiçá, do princípio da carruagem

A minha vida foi uma sucessão de contritas
Doenças diplomáticas. Na primeira classe
Comecei a ser cábula o mais que podia;
Escapei à primeira comunhão
Indo a férias de natal na covilhã
Com tios empregados nos caminhos-de-ferro;
Fugi à catequese e fiz a confirmação
Sem saber o creio em deus pai e sem saber se cria ou não cria em deus pai;
Nunca mais fui à missa desde os dez, e dizia em casa que ia;
Chumbei por faltas a matemática, a físico-química, a ciência naturais, e o que esqueça,
Por ir jogar à bola, por ficar na cama e por coisa nenhuma;
Acabei o curso de medicina no 2.º ano lectivo por passar o ano civil
A ler sem discriminação na biblioteca geral da universidade;
Servi de pedreiro, sem paixão socialproletária;
Fui à tropa quando não tinha nada que ir;
Fui guarda-nocturno, pouco caso fazendo do que tinha de guardar;
Fui empregado bancário e deixava as contas fazerem-se;
Fiz por acaso a licenciatura e entrei no mestrado depois dos prazos;
Esqueci a conclusão da tese de doutoramento;
Publiquei toneladas para o lixo por descasos de modéstia e sempre desprezando a profissão;
Fiz a agregação porque sim
E et cœtera.

Dei-me prazos e pastagens laterais e voltei sempre in extremis,
E nada disto emocionante, apesar do tamanho rol de não fazer,
E sempre repreensível em tudo isto e, quando calhou, repreendido e sovado,
E de tudo isto, que seria férias prolongadas, não lembrando senão o tédio.
Juntando os bocadinhos numa folha só, o puzzle é:
Estou a olhar um poente de verão interminável
Na fronteira do barrocal (castelo branco cê pê)
Inquieto de sentir o tempo parado e o mundo vazio.

De tanto ir não estando
Uma grande porção da minha historinha
Deixou de estar.

Artistas Congregagos [Américo Lindeza Diogo], Mínimos morais


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