22.3.26

Poesia ao fim do seu dia mundial

Poesia. Isto, ou então muito pouco. Crianças com mais carinho, mais confiança, menos encerradas no ofício de sobreviver, de fugir, de comer, de chorar.

E o filme de Lee Chang-Dong, Poesia, mostra-o também, de outro modo, com eloquência. Uma senhora com Alzheimer, a atriz Yun Jeong-hie, quer aprender a escrever poesia, inscreve-se num curso. Seguimos a sua vida: ela tem um neto, mas, segundo me lembro, a relação com os pais é tensa porque eles estão sempre muito ocupados. Nas aulas, ela vai lendo poesia, afinando a sensibilidade, criando amizades, momentos que constituem verdadeiros poemas visuais. O seu trabalho final consiste em escrever um poema. Que ela faz com orgulho. Mas o real poema é a coragem e a empatia com que protege uma menina que foi violada por um grupo de rapazes. A protagonista acaba por rejeitar uma soma avultada de dinheiro em troca do seu silêncio e denuncia os rapazes à polícia, entre os quais o seu próprio neto. Notem que o filme não desvaloriza a virulência nem a subtileza poéticas, pois sem a poesia propriamente dita ela não teria feito o seu gesto radical, contra a família, contra a sociedade, contra os seus interesses.


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