Poesia. Isto, ou então muito pouco. Crianças com mais carinho, mais confiança, menos encerradas no ofício de sobreviver, de fugir, de comer, de chorar.
E o filme de Lee Chang-Dong, Poesia, mostra-o também, de outro modo, com eloquência. Uma senhora com Alzheimer, a atriz Yun Jeong-hie, quer aprender a escrever poesia, inscreve-se num curso. Seguimos a sua vida: ela tem um neto, mas, segundo me lembro, a relação com os pais é tensa porque eles estão sempre muito ocupados. Nas aulas, ela vai lendo poesia, afinando a sensibilidade, criando amizades, momentos que constituem verdadeiros poemas visuais. O seu trabalho final consiste em escrever um poema. Que ela faz com orgulho. Mas o real poema é a coragem e a empatia com que protege uma menina que foi violada por um grupo de rapazes. A protagonista acaba por rejeitar uma soma avultada de dinheiro em troca do seu silêncio e denuncia os rapazes à polícia, entre os quais o seu próprio neto. Notem que o filme não desvaloriza a virulência nem a subtileza poéticas, pois sem a poesia propriamente dita ela não teria feito o seu gesto radical, contra a família, contra a sociedade, contra os seus interesses.
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