Hind Rajab. Evoco o nome e o rosto para evitar o silenciamento de tanta morte, esse apaziguamento calculado por estratégia económica e de carreira, modo discreto de prosseguir séculos de Censura em pouco mais de 500 anos de imprensa em Portugal.
Hind Rajab é o nome de uma menina de cinco anos que fugiu de carro, em Gaza, com a família, no dia 29 de janeiro de 2024. O IDF havia dado ordem de evacuação aos habitantes do bairro Tel al-Hawa. Nem dez minutos depois da saída de casa, a fuga é bloqueada por um tanque israelita. Uma prima de Hind faz uma chamada de telemóvel para o Crescente Vermelho (equivalente da Cruz Vermelha) e pede ajuda. Nas gravações da conversa telefónica, durante seis segundos escutam-se 64 tiros de metralhadora. Pesquisas da Forensic Architecture mostram consistência entre os buracos provocados pelas balas no carro e as armas dos tanques israelitas. A família da menina é executada; Hind Rajab é a única sobrevivente e mantém-se no assento de trás da viatura. Atende a chamada de uma operadora do Crescente Vermelho que, entretanto, procura pôr-se a par dos acontecimentos. Falam mais do que uma vez durante vários minutos e Hind pede ajuda: está fechada no carro com os corpos mortos da sua família, dois adultos e quatro crianças. A gravação de uma conversa em que Hind pede que a vão buscar e só obtém silêncio, é atroz, expõe a operadora a uma impotência ainda mais escandalosa quando confrontada com o exercício arbitrário de poder que, desde logo por sê-lo, é destituído de qualquer empatia. Após longa espera de autorização israelita, é enviada uma ambulância ao local, cerca de 9 horas depois. Em cerca de duas semanas, a 10 de fevereiro, são encontrados mortos os paramédicos (a ambulância explodiu com um projéctil israelita) e a própria Hind, dentro do carro. Investigações da Sky News e do Washington Post confirmam presença militar israelita naquela zona à hora do massacre. As perícias da Forensic Architecture contabilizaram um total de 335 buracos de tiros no carro desta família em fuga. Serão decerto estas pessoas contabilizadas como baixas terroristas nalgum relatório de sintaxe funcional para justificar guerras ao terror e, ipso facto, garantir novos financiamentos para esse efeito da parte das democracias ocidentais.
Esta carnificina motivou a criação do filme The Voice of Hind Rajab da realizadora tunisina Kaouther Ben Hania, com apoio à produção de, entre outros, Brad Pitt e Joaquin Phoenix. Estreará no Festival de Veneza que decorre por estes dias.
À parte as opções da cineasta e a impossibilidade de uma reportagem no terreno (a distância dificulta o acesso à verdade, anula a compaixão e aplaca a revolta, imagine-se que a Rússia impedia a presença total de jornalistas ocidentais na Ucrânia), a História é isto, ceifar de modo inapelável vários anjos, como Hind, em face do triunfalismo dos vencedores. É por isso crucial desviar o olhar ainda que sempre no-lo desejem dirigir, falar num outro tom, destutelar-se de qualquer intenção humanista para continuar o grito de quem sofre, para lhe dar forma. Esse será um dos desígnios da Hind Rajab Foundation entretanto constituída.
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