30.8.25

Força e linguagem

Relembrar aquele que foi sarcasticamente designado como o juiz de mesinha de cabeceira nazi, Carl Schmitt, e o terrível conceito de “guerra justa”, que ele, entre outros, desenvolveu nos anos 40 do século passado — “o ensino da guerra justa anula a distinção entre inimigo e criminoso. O vencedor na guerra justa elege-se a si mesmo como um juiz diante do criminoso.” O juiz, ou seja, o vencedor da “guerra justa”, escreve Carl Schmitt, não se deve comover; e quem perde a guerra comete um crime que, no momento da derrota, lhe é atribuído em definitivo. Neste mundo perverso, os soldados que perdem deixam de ser soldados e passam a ser delinquentes comuns. Um salto que parece pequeno e quase insignificante, mas que é tremendo.
Carl Schmitt, aliás, no mesmo apontamento de 1947, troça da ideia de que quem escreve possa traçar os limites morais de quem triunfou na guerra. Schmitt cita um rei prussiano que afirmava, com a típica ironia dos vencedores: dizem que “o vencedor não pode” decidir o que faz do vencido, mas “quem escreve livros sim, pode decidir o que o vencedor deve fazer ao vencido.” Como se fosse ridículo, o vencedor pela força obedecer aos conselhos dos puros observadores que apenas escrevem ou discursam. De facto, para os reis da Prússia e para Carl Schmitt, o vencedor só não era surdo se quisesse. O vencedor fala o quer, ouve o que quer.
No fundo, sempre isto. Em 1848, em 1947 ou em 2022. A força só escuta palavras de contenção por vontade própria. A força do vencedor deve conter-se, todos o podemos dizer ou escrever, mas, no limite, só o vencedor pode decidir conter-se. Entre o dever moral e o poder do vencedor — eis o conflito. O vencedor deve, sim, tem mesmo uma enorme quantidade de deveres — as convenções de Genebra sobre a Guerra são disso um bom exemplo — mas só ele pode. Só mesmo ele pode.

Gonçalo M. Tavares, Expresso, «A força e a linguagem», 22.07.2022

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