Os nazis são, até certo ponto, um problema para a extrema-direita que define o establishment. Mesmo que o establishment fomente a existência de partidos nazis e aprecie as atoardas dos seus militantes, estes têm mesmo de moderar a postura. É que a publicidade ao massacre é horrível, ainda pode levar ao seu fim. Que o establishment não entenda a radicalidade das suas posições é também sintomático do desvario absoluto nesta época, em especial em Israel, projeto colonial abertamente racista, com, aliás, poucos pruridos legalistas. Uma sinopse dos nossos tempos também pela Europa.
Nesta história, onde entra a esquerda dita moderada? É um baluarte de inclusão, de tolerância democrática. Nada de cancelamentos, esse wokismo deplorável (e nazi, como notam os... nazis! elogiados pela mesma esquerda). Ser-se sofisticado, para a esquerda aburguesada ("a questão é estar instalado", dizia o Almada), é tolerar o negacionismo de genocídio, o racismo e a aldrabice. Isso é ser-se, além de tolerante, 'disruptivo’, para citar à letra a ideologia desta época. Ou melhor, talvez se mostrem contra o racismo, mas não aquele que incide sobre os palestinianos, como se fossem um povo que não merece qualquer dignidade, tão desumanizado que nem sequer existe. Mas existe cancelamento dentro da casa dessa esquerda: parece mal receber nazis rústicos, mas são bem-vindos os sofisticados. A esquerda instalada, para ser tolerada pelo establishment, deve ainda ofender a outra esquerda, o refugo: não falem muito do genocídio em curso, se não, esquerdalhos, serão tachados de antissemitas, atiram entredentes alarvemente. Ainda que o árabe, semita também, nem a acusação possa devolver, até a linguagem de legítima defesa lhe é interdita.
Nazis, establishment e esquerda instalada têm muito em comum, e a cada dia isso parece que aumenta, na proporção aliás do aumento do custo de vida. Uns aferram-se aos seus preconceitos e aldrabam até mais não; outros, nazis de partidos formalmente democráticos, realizam esses preconceitos com o seu apoio concreto a guerras, massacres, negócios ou fazendo propaganda; os últimos, de esquerda acomodada, consentem que esses preconceitos se colem às suas posições, sobretudo quando estão entalados, para que o extremismo dono da guita – que a muitos deles consagra os luxos – não os tome por intolerantes. Têm ainda sentido de sobrevivência – caso contrário, não estariam instalados – e das conveniências. Serão os primeiros a mostrar escândalo com os crimes de Israel quando e se houver condenações em Haia (ainda há dias, Trump apelou, na ONU, a que todos os países saiam do Tribunal Penal Internacional, tendo, numa decisão claramente censória e ditatorial, anunciado sanções aos países que não deixarem de ser seus membros, a qual foi recebida com bonomia pela comunicação social portuguesa e pela própria esquerda). A equidistância, forjada e perniciosa, que a esquerda instalada diz ostentar, não passa, como se percebe, de puro colaboracionismo, no histórico sentido do termo.
Sem comentários:
Enviar um comentário