30.7.26

Trump unfolded

Além do privilégio concedido às big tech, secundarizando Wall Street, o essencial da presidência de Trump está contido no primeiro vídeo: não sabe manter a compostura, isto é, a narrativa forjada que os funcionários cinzentos do status quo veiculam com uma teatralização tão eficaz. Diga-se de passagem que o repetem também por cá, pelo que é hipócrita que jornalistas portugueses se manifestem contristados pelo impedimento de ir a Gaza, dado que eles veiculam, por princípio, a propaganda israelita – veja-se o caso de Henrique Cymerman, que se percebe ter o papel de configurar a forma como todo o canal onde trabalha entende o ‘conflito’. Recentemente, quando há reportagens a partir da Cisjordânia ocupada, ou de Telavive, apenas há distorção e normalização puras da violência. Aliás, só o princípio de ouvir igualmente ambas as partes (que está longe de suceder) quando está em causa um genocídio, limpeza étnica e apartheid já é uma falha deontológica grotesca (para dizer o mínimo). Retomando o ponto: o que mais temos visto é a dissonância entre a propaganda veiculada pelos meios de comunicação corporativos e o discurso de Trump, rude e 'autêntico'. É precisamente esta autenticidade que arrelia o centro político (sobretudo o centro-esquerda de cá, os liberais americanos), mais ainda do que as suas políticas propriamente ditas: ele não se esforça para conferir uma fachada de normalidade, nem sequer num funeral, a um sistema imperialista comandado por gente ávida de sangue e dinheiro como Lindsey Graham (ver o segundo vídeo para se ter um vislumbre suficientemente clarificador da figura). A sua política é, pois, praticamente a mesma que a dos seus antecessores (que certamente lhe agradecem a impopularidade da imposição de tarifas aos seus aliados, canibalismo recorrente na história dos imperialismos). Ter atacado criminalmente o Irão quando mais ninguém o fez não é suficiente como contra-argumento, considerando que seria este país o capítulo final da história. Já não havia, no mundo muçulmano, muito mais para arrasar, depois dos ataques a Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia, Líbano (2006), Iémen e do genocídio em Gaza (iniciado por Biden). Massacres e genocídios atrás de massacres e genocídios, um upgrade inequívoco em relação à dantesca história europeia do século XX. Neste ponto, talvez só mesmo alguém como Obama possa salvar a imagem do império. Mas quando o mundo ocidental já percebeu que o rei vai nu – o resto do planeta já o sabia há muito –, conter os danos torna-se praticamente impossível. Resta a fuga em frente. Daí a tentativa de destruição em curso de instituições como o Tribunal Penal Internacional, para a qual a destituição de Karim Khan é um firme e decisivo passo.




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