Claro que Accattone (termo que significa ‘mendigo’) retrata, de forma relativamente clara, a pobreza e o desespero a ela associado. Mas a forma como o faz é original, e nem isso é propriamente o seu desígnio principal. Importa aproximar-se de quem sofre, daquele mundo que o genocídio cultural americano, expressão tornada célebre nos Escritos corsários, apaga com método e impiedade. Coloco aqui uma das sequências mais belas e pungentes da história do (meu) cinema, uma pastoral política pautada por uma feroz inocência (não é a ingenuidade, que, ao contrário, deseja ser torpedeada). O mandrião, esfomeado, às voltas após mal ter sido reconhecido pelo filho, expulso pelo sogro do convívio com a criança, vai ter a uns barracões em que se armazenam, lavam e reaproveitam garrafas de vidro. Trabalho duro onde se veem muitas mulheres. Caminha meio desolado, indolente, mas sem a pontada de vaidade que forja a indignação, antes de encetar o diálogo. Os concertos de Brandenburg servem de fundo a este intercâmbio algo previsível, um lugar-comum de teor marxista, até panfletário. Mas esta mistura produz um choque fascinante, o qual resulta de um desvio inesperado: Pasolini reivindica Bach para todos, retira-o do salão mortuário da erudição num gesto tipicamente de vanguarda, e associa-o à classe operária, ao desespero de uma personagem demasiado comum. A quem não associamos, à partida, nenhum transcendente, embora a sua mundividência até seja eminentemente teórica. Ainda que ele próprio, cheio de fome, seja bem mais etéreo do que um corpo. Accattone é um ocioso sem rumo, com o desespero que desconhece outra virtude ao diálogo do que incrementar a sujeição; ela, a estrela que guia este novo rei em busca de Cristo, um Cristo que ele de certo modo já encarna. Stella, ingénua, trabalhadora; ele, um mandrião convicto, não alienado, de uma nobreza que, como consta até do Eclesiastes na leitura que dele faz Maria Filomena Molder, instiga a lançar o pão sobre as águas. É um filme sobre a fome, mas essencialmente sobre a fome de viver e a vontade insurrecta de não trabalhar nunca, a única opção ética (não necessariamente moral, mas enquanto construção de sentido para se existir) mesmo num quadro de miséria. Ou, talvez, sobretudo num quadro de miséria. Na sequência, mesmo no desespero, mesmo com muita fome, há desejo, talvez amor, isto é, comportamento não dirigido à estrita sobrevivência. E isso é do mais poético que a sequência constrói, em especial com a sugestão da música de Bach, cuja função não é apenas fazer-nos compadecer daqueles destinos, mas apontar para alguma chispa invisível que em Accattone se acendeu. Constitui-se, nesta desatenção ao estômago, uma espécie de corpo-sem-órgãos em que a vontade de viver transcende a submissão às finalidades práticas da vida. Que um filme como este, tão cheio de revolta, com tesão, alegria e humor, seja reduzido a uma descrição sociológica, com o miserabilismo associado, como se aos pobres apenas estivesse reservado o respetivo quinhão de dor, é revelador de alguma estreiteza mental e política quase repulsiva de tão desatenta. É muito oportuno, diga-se de passagem, que, na atual circunstância política, onde os fascistas de serviço perseguem encarniçadamente todo o tipo de miseráveis, que a televisão pública tenha exibido este filme. A segunda sequência incide sobre a alegria e a espontaneidade que a modernidade esboroou, sobre um orgulho, um levantamento que ignora a fome (mesmo se instigado de forma mesquinha). A última é um tratado, com muito humor e revolta, às artes da mândria: os jovens a jogar às cartas, o 'capo' Balila sempre na iminência de ser apanhado, com a sua tirada liminar: é uma vergonha trabalhar. O que Accattone chegou a fazer por Stella. Por fim, Cartagine a estirar-se, a levantar os braços em preguiça e amor pela vida, fundamental insubmissão a todas as regras, ao esgotamento e perversão das energias e emoções, esse gesto revolucionário cuja recensão é feita magnificamente por Georges Didi-Huberman nos primeiros capítulos de Desejar desobedecer (a partir de Michaux, Vigo, Goya, do próprio Pasolini, entre outros). É claro que tudo isto é também a causa do crime a que Accattone é conduzido, um efeito maníaco do poder da polícia, que o vigia discretamente e, no fim, o irá executar a sangue frio. Por trás disso está o cuidado e o amor por Stella que o guia, afinal, até à morte. Isto é: antes do efeito lógico e da profundidade está a superfície perfeitamente radical e inocente. Este é um filme acerca de uma insubordinação sufocada, de uma tentativa frustrada de furar o meio. Reduzi-lo a uma esquematismo sociológico é, repito, da pior índole da indolência, a aquietação embrutecedora, prelúdio da barbárie.
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