Em momento algum pôs Dostoiévski em causa que a Sibéria fosse um inferno, com todos os seus horrores. No entanto, dava graças ao destino por tê-lo desterrado para lá. Sofreu por causa disso, embora, ao mesmo tempo, tenha vivido como salvação o facto de se ter podido apartar da história e da sua racionalidade cinzenta. Primeiro, teve de se lançar às profundezas para, em seguida, se erguer a uma altura maior, como aqueles prisioneiros, seus companheiros, que se jactavam de ser desesperados, «e este desesperado anseia por vezes que o castiguem o quanto antes, espera que o sentenciem, porque, afinal, acaba por ser perturbador aquele afectado desespero» (Cadernos da casa morta).
Posteriormente, descreveu nos seus romances a Europa, a cultura ocidental da sua época, ou seja, tudo quanto se revelou determinante durante aquele tempo, e descreveu-o igualmente como um inferno. Não obstante, a Sibéria era o inferno porque tinha no seu âmago a santidade em embrião; lá, o horror podia-se manifestar de maneira aberta e desmesurada. A Europa, por seu turno, parecia-lhe um inferno porque a repressão que a civilização moderna se impunha a si mesma era infernal: o estrangulamento da santidade, do sofrimento, da morte e da disponibilidade para a salvação. Entender o inferno também no quotidiano, no cinzento, no costume, no meio termo: isto faz de Dostoiévski um psicólogo demoníaco (ou angelical). «Todos nós nos desabituamos da vida, somos todos mais ou menos inválidos. Tão desabituados estamos que às vezes quase sentimos repugnância diante da vida verdadeira, da vida “viva”, e, por isso mesmo, não toleramos que nos lembrem dela», escreve o habitante do subterrâneo. Diante do colorido inferno siberiano, emerge o cinzento inferno europeu, esse inferno que no século XX aparece nas obras de Kafka e de Beckett, no Stalker de Tarkovski, na destruição mecanizada e portanto impessoal, no auto-esquecimento aparentemente definitivo provocado pela técnica.
László F. Földényi, Dostoiévski lê Hegel na Sibéria e desata a chorar
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