Todos os que nos rodeiam nos matam, seja de que sexo forem. Também as mulheres a quem tudo confiamos, a nossa nudez, a nossa infância, a nossa debilidade, um dia nos matam. Não é culpa das mulheres, mas antes das armas que a nossa confiança lhes entregou. Esta confiança absurda é a mais bela — se contemplada no seio do grupo social — e a mais perigosa das ações que habitam o fundo da alma.
A confidência também é um momento extático.
A nossa fascinação, o nosso nascimento, a nossa infância, a nossa nudez, a nossa debilidade são as armas que nos matam com mais eficácia. Lembrar-se de que é preciso matar homens e mulheres, de que é preciso antecipar-se, matá-los antes de que nos matem, a isso se chama de vida social. (A vida social distingue-se da selva porque a última não se vê constantemente acossada pela morte do congénere: há gritos, presas, colheitas, risos, flores, sonolências, mas nunca há guerra generalizada na selva.) Em sociedade, até os gritos estão obcecados com a morte do congénere (as óperas). Em sociedade, até as flores estão obcecadas com a morte do congénere (os túmulos).
Pascal Quignard, Vida secreta

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