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4.7.26

1000 dias -- é melhor mesmo perguntar

Can you hear me, you there,
behind the wall?
Have angels fluttered in your heart,
in the wasteland of your soul, in the sky? 
Is there still a sky? Is there soil, fields, tender grass to eat?
Are there still infants to be thrown out of incubators to be killed?
Am I freer here under siege than they are 
over there? Is my dream sweeter than any dream, 
simpler, more beautiful?
Maybe I'm still better off, 
and so, I thought I'd ask.

—Ibrahim Nasrallah, One Hundred Questions and More: A Child in Gaza Asks You, tr. Huda Fakhreddine

Lido por Anna Badkhen:



1.6.26

Sarah Rajab


Martha Rosler, House Beautiful: Bringing the War Home 
1967–72

O trabalho de Martha Rosler é muito claro: o bem-estar só é possível porque noutro lado do mundo um pai carrega o seu filho assassinado nos braços. A ordem ocidental, o kitsch, são possíveis graças ao horror; por conseguinte, a má-fé é intrínseca ao modus vivendi imperial e capitalista. Jacques Rancière, em O destino das imagens, explica como a mistura destes dois mundos, na imagem de Rosler, tem um efeito revelador: «Trata-se de organizar um choque, de pôr em cena uma estranheza do familiar, para fazer aparecer outra ordem de grandeza que só se descobre mediante a violência de um conflito. A potência da frase-imagem que une as heterogeneidades é então a da separação e do choque que revela o segredo de um mundo, ou seja, o outro mundo cuja lei se impõe por trás das suas aparências anódinas ou gloriosas».

Evoco esta série a propósito de mais um massacre perpetrado por Israel, em Gaza, no dia 27 de maio. Entre as vítimas encontrava-se Sarah Rajab, de 9 anos, transportada em braços por um adulto aterrado com o pequeno corpo carbonizado e desconjuntado. Um horror a que um Conrad teria dificuldade em dar voz. Ela havia perdido a mãe, a avó e dois irmãos num ataque aéreo israelita em dezembro de 2023. Há uns meses, perdeu o pai; órfã, foi executada pelo exército de Israel. É liquidada, no espaço de meses, toda uma linhagem familiar.

Decepar a inocência, a inteligência, a graça, a criatividade, é a finalidade do poder. Também a chacina de Sarah — essencialmente anónima — está nas nossas salas de estar.


21.4.26

A destruição da infância, da beleza e da graça



Militares da IOF - Israel Occupation Forces - cometem (mais) um crime contra a humanidade, ao bloquearem o acesso de crianças palestinianas à escola, em Umm al-Khair, na Cisjordânia ocupada.

16.3.26

O Irão, a esquerda escrupulosa e o império

A administração Trump avalia que estes acordos multilaterais são uma restrição ao poder dos EUA?

Sim, mas acredito que Trump esteja enganado. O multilateralismo fortaleceu o poder dos EUA porque lhes proporcionou uma fachada de soft power. Era benéfico para a sua hegemonia parecer uma potência razoável disposta a envolver-se no multilateralismo. A retirada dos compromissos de financiamento da ONU e dos acordos comerciais e climáticos arruinou a hegemonia do soft power dos EUA. Penso que os EUA estão errados ao tomar esta decisão, mesmo do ponto de vista dos seus interesses materiais.

Jason Hickel, entrevista ao Expresso


Começo este texto com esta reflexão de Jason Hickel, que sinaliza que o multilateralismo ocidental é uma farsa. Ao dia de hoje, toda a gente entende claramente que o multilateralismo não é, como deveria, um consenso que resulta de um conjunto de posições próprias, mesmo se pontualmente dissonantes. É e sempre foi um eufemismo para uma hierarquia em que há um bully e há vassalos, estes com uma linguagem um pouquinho mais sofisticada que uma parte (cada vez menor) do mundo tem por sábia porque proveniente da Europa. A Europa emprestava cobertura à hubris do império americano, contribuindo para que a opinião pública mundial olhasse benignamente para guerras e genocídios, reconvertidos em intervenções inevitáveis em nome de valores elevadíssimos como liberdade, democracia ou simples decência. Essa fachada, a mando do velho dinheiro de oligarcas europeus que mantêm negócios com os bilionários americanos, é construída nos media não apenas pelos jornalistas ou comentadores, mas por uma intelligentsia com escassa mobilidade mental que lhe confere um selo forjado de cientificidade.
Não raras vezes, esta trupe é constituído por pessoas da universidade que perseguem com tenacidade os seus fantasmas: o terem sido de esquerda radical. É bom o exercício autocrítico, sondar e contornar os limites negros do fanatismo, com a condição de não nos tornarmos fanáticos porque o essencial nos passa ao lado. Isto acontece-lhes muito por estes dias. Regra geral, as posições destes reconhecidos guias morais da esquerda, representantes do establishment um niquinho mais desenvoltos, só atingem o acúmen da indignação quando o alvo é a esquerda. Nós somos a única esquerda responsável, tudo o mais é um conjunto de fanáticos que nós sabiamente desconstruímos, tantas vezes até ao ponto de nenhuma convicção nos restar nas mãos. Eis os meninos bonitos da esquerda, querem sempre que o centro, que consente o fascismo, que com ele negoceia, flirta, ou então usa como escudo, os vejam com condescendência, e por isso tornam-se eles realmente parte desse centro, parte da fachada para os desmandos do império, cujos sinais de declínio moral, geopolítico e económico são imensos. Antes do mais, deve-se ressalvar que reconhecer que os EUA são o império dominador não é uma posição extrema. É um dado histórico evidente, senão atualmente — em que a proliferação de guerras nos expõe, europeus, a níveis de propaganda verdadeiramente inauditos, que impedem o espírito crítico, além de fomentarem xenofobias e medos irracionais —, no futuro de certeza o será. Para o Sul Global, a violência imperial é vivida há décadas na pele, no medo e no fascínio diários, e esta constatação, senão outra coisa, dever-nos-ia colocar, a nós europeus, de sobreaviso a respeito do enviesamento das nossas posições. Declínio não significa um fim imediato, como é evidente, enquanto ganha forma um mundo multi-nodal, de nós de poder que pontuam o globo e desafiam a hegemonia norte-americana.
Quando o eixo EUA-Israel decapitou o líder supremo (o Irão continua a atacar sem centro, como um corpo metódico sem cabeça, bom conhecedor da doutrina militar americana), instigou a tomada de poder e, após ter logo visto que ela não era viável, se mostrou disponível para as negociações (que interrompeu brutalmente com o início da guerra, pormenor esquecido), a esquerda ilustrada ficou com medo de que Trump estivesse a entregar os manifestantes às feras. No fundo, os membros desta esquerda zelam e muito pela sua carreira e imagem e, por isso, antes da verdade, antes de tudo o mais, tentam sempre parecer bons e bonitos. Não pensam, protegem o ego, não vão os demais, moralistas de sobreaviso, colocá-los em causa. Manterão a ambiguidade suficiente nas suas posições para que, no futuro, não digam que foram apanhados em contra-pé. Porém renunciaram ao pensamento porque isso colocaria em risco a sua boa imagem. Sustentam-se naquela noção de bondade que é o cálculo interessado. Apertam a realidade para que seja à medida da sua teoria e das suas expectativas, não em função do que acontece, até porque nenhuma multidão iraniana esteve em risco após o início da guerra pelo eixo israelo-americano. Estas posições à esquerda parecem sólidas, mas revelam-se bastante fossilizadas, pouco ajustadas a um tempo diferente daquele em que a sua consolidação de ideias aconteceu. Dirigem as palavras e os juízos mais contundentes ao Irão, sem réplica possível: «regime assassino» e «tirania teocrática». Nunca usariam termos análogos para o caso de Israel, regime muito mais assassino e, inclusive, teocrático, numa interpretação do regime menos formalista ou legalista. Também os EUA são um regime oligárquico assassino (democrático a nível interno, embora isso esteja em causa), um império embriagado por décadas sem rival, responsável por inúmeras guerras e genocídios. Só recentemente financiou, defendeu e lucrou com o genocídio em Gaza (o genocídio dos palestinianos é outra simples constatação que certos membros da esquerda só a ferros arrancada dirão, pelo menos em público). 
O caso Epstein, a acontecer no Irão ou na Rússia, desencadearia uma logorreia insanável para que muita esquerda contribuiria. Irrompendo no núcleo do império, é um detalhe, uma extravagância elitista a recalcar. Coloca-se a doença propriamente dita na sombra e dá-se ênfase ao sintoma. Sim, Trump é um sintoma. O regime americano atual é mais tresloucado do que os seus antecessores, mas nada de essencial modificou na política americana. A presidência de Trump mostra que o rei sempre foi nu, como Hickel argumenta. Está-se a marimbar para a fachada de soft power, até porque a sua educação não dá para mais. Ataca os elitistas de Wall Street que se riem dele, aos quais responsabiliza por ter perdido as eleições em 2020. Por isso, a guerra civil nos Estados Unidos é essencialmente entre esta elite e a de Sillicon Valley. Notem que, evidentemente, isto não visa defender Trump, mas assinalar que o problema é mais profundo: é o dispositivo militar que, em defesa do dólar e da economia, lança guerras atrás de guerras para forçar a pilhagem de recursos naturais. Lembremo-nos, ainda, que Obama foi responsável pelos massacres na Líbia e na Síria, onde o Daesh e o ISIS, a mando do eixo Israel-América-Europa, levaram a cabo atos sádicos aproveitando-se do caos gerado pelo vazio de poder. Creio não ser necessário evocar Bush e o Iraque e o Afeganistão, Clinton e Timor, Biden e o apoio ao genocídio em Gaza. O Obamacare e certas políticas liberais nos costumes permitiram a Obama salvar um pouco a face, mas pouca credibilidade reúne à esquerda (protegeu a elite de Wall Street nos anos da crise de 2009 e, também por isso, é provável que regresse nas próximas eleições, contra Trump) justamente por seguir este tipo de políticas genocidas vendidas ao mundo como duras, sim, mas com finalidades e intenções elevadas. Políticas como a guerra ao Irão, que, no eufemismo desta esquerda europeísta, devedor de propaganda de quilate rasca, é «uma iniciativa militar ilegal». O uso do termo «regime» fica reservado para aquilo que os próprios entendem por mal, apressando-se a colocar um cordão sanitário sobre uma realidade que, à partida, desconhecem, mas repugnam, alunos fanhosos do diktat imperial. Esta gramática simplista deveria, à esquerda, ela sim, merecer auto-crítica, precisamente para não darmos cobertura aos atos mais hediondos. O Irão é uma cultura ancestral submetida, no século XX, a um golpe militar dos EUA e do Reino Unido (cuja BP, British Petroleum, não teria sido fundada sem o saque ao solo iraniano) que pôs fim ao governo democrático de Mossadegh em 1953, instaurando um regime de terror policial apoiado pelo Ocidente e liderado por Reza Pahlavi, pai do atual candidato iraniano ao poder, o que o tem levado a financiar e a promover a campanha de massacre em curso contra o seu próprio povo. Na década de 1980, foi atacado pelo Iraque com armas químicas financiadas pelo Ocidente. O Irão tornou-se efetivamente num país fechado que impôs costumes religiosos, sobretudo às mulheres, alheios à sua própria tradição, forçado a virar-se para dentro também por um conjunto sistemático de sanções — a maioria, ilegais — e campanhas mediáticas pejadas de preconceitos. Nada nestas decisões do Ocidente manifesta um interesse verdadeiro em entender e conviver politicamente com o outro, mas apenas em redirigir as suas posições, forçando-as a uma convergência. O Irão foi, ainda, coagido a viver com o terror diário causado pelo projeto colonial sionista ao longo dos últimos oitenta anos.
Lendo-os bem, percebemos o grau de desinformação, ou credulidade eurocêntrica. Posições como as que alguns membros do Livre assumem, diga-se rapidamente, com a apologia, praticamente incondicional, da Europa, estende-se, ao dia de hoje, à ratificação dos valores niilistas do Ocidente e com o apoio, mais ou menos consciente, à violência imperialista.
Os protestos no Irão foram orgânicos, mas só até certo ponto: houve infiltrações da Mossad e da CIA que semearam a violência nas ruas de Teerão e de outras cidades iranianas. Mike Pompeo, antigo diretor da CIA, e ministros israelitas disseram-no abertamente. O secretário de Tesouro norte-americano, Scott Bessent, afirmou, no Fórum Económico Mundial, em Doha, que a tensão no Irão foi provocada pelas sanções americanas, que desvalorizaram brutalmente o rial e visaram intencionalmente o caos. Portanto, considerar que Trump apela aos iranianos a que derrubem o seu governo, no alto do seu pedestal democrático, mesmo que o regime americano tenha preparado e financiado durante décadas esses motins violentos e tenha autorizado medidas financeiras de intenção genocida, além das que impõe com o seu poder naval, marginalizando o país na ordem económica global, é no mínimo ridículo. A credulidade aumenta quando parecem acreditar realmente que os iranianos, bombardeados e massacrados (como aconteceu as 165 crianças de uma escola em Minab), iriam sair à rua em defesa dos seus algozes. Aliás, nos últimos dias, têm-se multiplicado as manifestações em defesa do Irão e da sua administração, durante as quais Israel e os EUA têm lançado bombas e provocado mortes. Ou seja, ao dia de hoje, os ‘libertadores democratas’, em que certa esquerda (para não falar no centro-esquerda, muito menos na direita) depositou tanta esperança, estão a bombardear manifestações pacíficas no Irão. Não era exatamente o que eles anteviram. Uma parte da população iraniana, porém, está realmente muito agastada com o regime político, pelo modo espartano, entende-se melhor agora, como cerrou fileiras, perseguiu dissidentes, investiu em armamento e planeou metodicamente a retaliação desta agressão terrorífica dos EUA e de Israel. No entanto, não é muito inteligente bombardear indiscriminadamente Teerão, onde, entre uma população culta, tendencialmente anti-belicista, mais facilmente se encontrariam apoiantes de uma causa democrática, não certamente esta, encarnada por um populista apalhaçado e belicoso e pelo mais sanguinolento e longevo genocida do século XXI. A resistência escreve-se por linhas tortas. Já o poder e o consentimento, por seu turno, seguem tanta vez linhas cínicas, isto é, direitas e unânimes. 
Por fim, refira-se que a resposta flexível e ‘criativa’ dos iranianos tem gerado o pânico na Europa, cuja posição política oficial começou por condenar a vítima na expectativa, provavelmente gorada, de reclamar mais apoio para a guerra mais do que perdida na Ucrânia. Trata-se de um grau de vassalagem inaudito que, além do mais, manifesta a aflição com o ataque ao sistema financeiro global (os mísseis e drones iranianos que atingem os países do GCC, essa miragem feita de petrodólares reinvestidos nos mercados financeiros americanos, especialmente de AI), acentuando a nostalgia dos tempos do privilégio, em que não só a defesa estava garantida sob extorsão, como havia energia barata da Rússia. Eis o segredo do ‘milagre’ alemão, sinergia que é do interesse do Império suspender. Enquanto isso acontece, o Sudeste Asiático vai sufocando, especialmente países como o Vietname, Tailândia ou as Filipinas, mas também o Japão, cuja posição seria ainda mais débil se a China controlasse o Estreito de Malaca. O continente africano sofrerá consequências incalculáveis a que se exige especial atenção. Neste momento, a Europa, fornecendo na guerra contra o Irão inteligência, equipamento naval e bases militares — o que é a Europa senão um porta-aviões americano? — faz a figura pública de neutralidade embora contribua para a violência. Mas um envolvimento mais significativo autorizaria a entrada direta da Rússia e da China, transformando o conflito com o Irão numa Terceira Guerra Mundial. A qual parece ser inevitável, ou talvez já esteja a acontecer. Em tempos cínicos em que qualquer facto é invertido, em que tudo pode ser justificado, a tal ponto que nem um arremedo de argumento se necessita utilizar, em que ninguém declara guerra a ninguém, nem sequer esboça um pretexto para uma agressão abjeta, uma guerra mundial poderá passar naturalmente ao lado do mundo como se fosse um simulacro gerado pela AI.

PS1: Como alguém disse: «Há aquela frase que diz que "o poder corrompe". E se esta frase é verdadeira, o inverso dela também será verdadeiro. Isto é, aqueles que são perseguidos pelo poder, aqueles que são presas do poder, também são corrompidos de uma forma mais subtil e, até certo ponto, mais trágica.»

PS2: As sanções americanas (e também europeias) provocaram 38 milhões de mortes um pouco por todo o mundo entre 1971 e 2021, de acordo com um estudo da revista científica de Medicina The Lancet.


22.1.26

Res nullius


Branqueamento de um genocídio através de empreendimentos projetados sobre dezenas de milhares de cadáveres do povo da Palestina. O fascismo, tão bem intencionado, cute, assente em projetos de controlo e vigilância através de dispositivos biométricos. Este colonialismo clean, este pragmatismo económico, esta uniformidade sintática são o fascismo. Desde a doação do Congo ao Rei Leopoldo II, nas Conferências de Berlim, que não havia nada semelhante à aprovação da resolução 2803, no Conselho de Segurança da ONU, a 17 de novembro de 2025, a qual, em termos práticos, faz com que Trump, presidente pedófilo (cf. página 8), presida indefinidamente a Gaza sem ter a obrigação de prestar contas a nenhum órgão. Bater palmas aos predadores, que bom, que nos alertam para a perda de tempo e energia que seria condenar os genocidas e enterrar os mortos com a mínima dignidade. Mas não, bulldozers limparam-nos com toneladas de entulho à mistura, eles são parte daquele tóxico monturo, ativos financeiros que requerem saneamento. Uma limpeza não menor do que a de tantas e tantas pessoas com deficiência, tantos ciganos, dissidentes e judeus por vários campos de concentração ao longo do último século. Nem parece que estão em causa ainda mais crimes de guerra, a mais baixa imoralidade, não enterrar os mortos, não: olhemos para a frente, meus meninos. Foco. Estamos a preparar o terreno da vossa vida sem vos consultarmos. Hoje é tudo explícito por virtude mediática e sobretudo de inúmeros e valentes ativistas, mas a maioria da população recusa-se a entender apesar de tanta evidência. Séculos de censuras e inquisições fizeram com que nos tivéssemos tornado em especialistas no ocultamento de tudo o que é nítido. Somos inundados por propaganda indolente e retorcida através dos media e governos ocidentais. Estes novos nazis, praticamente iguais aos mais antigos, de dentes rútilos, silhueta elegante, com aquela curvatura de pescoço tão sensível que séculos de escravos moldaram, vendem a morte massiva como uma iniciativa económica irrecusável. E nada nem ninguém pode tornar a Europa mais fascista do que o apoio a esta abjeção. Um fascismo investido de ultra-capital, para o qual a liberdade é ir ao McDonald's, viver numa Trump Tower e fazer revoluções only fans. Os países árabes que apoiam isto, governados por puppets autoritários, são igualmente rapaces. Enfim, o velho princípio de estar do lado de quem vence, o cerne da servidão voluntária e da vontade de poder. Quem tem força só escuta palavras de contenção por vontade própria, como referia Carl Schmitt. E isso é tão válido para os anos 30 do século XX como para o ano de 2026. Embora se duvide que hoje alguém ainda as pronuncie, a não ser em desespero quando o império lhes bata à porta. Veja-se o caso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, banqueiro, ex-gestor da Goldman Sachs, cujo discurso em Davos recupera duas referências históricas. Uma, A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, permite a Carney esgrimir o seguinte argumento: tal como os Atenienses canibalizaram a Liga de Delos após terem derrotado a ameaça que os Persas representavam, assim os Estados Unidos da América exploram os seus aliados depois de terem derrotado o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, tanto Atenas como a América se converteram em máfias especializadas na extorsão dos seus vassalos (em toda esta história, os russos cumprem o papel de malvados fascistas, ainda que mais de 20 milhões de soviéticos tenham morrido durante o conflito). Basicamente, esta referência permite a Carney chorar lágrimas de crocodilo, ao mesmo tempo que, nas entrelinhas, faz da China a nova Esparta. A segunda referência, A potência dos impotentes, de Vaclav Havel, é também sintoma de uma hipocrisia gritante: enquanto se beneficiou dos atropelos à lei internacional do grande império, tudo bem; agora que ele se volta contra nós, é preciso dizer a verdade ao poder. Neste ponto atarantado também se encontra a Europa. Sobre o Canadá, o mais provável é que Carney, na sua visão neoliberal, conceba o seu país como um ativo tóxico e o queira tentar vender à China, na expectativa de consolidar um outro multilateralismo quando o America First e a National Security Strategy fizeram estilhaçar a aparência daquele que (ainda) vigora a Ocidente. Mas é certo que o Ocidente continua a pôr o letreiro 'democracia liberal' à sua porta. Tão bom.



23.12.25

Gaza e a consciência funcional

Há um impulso, em momentos como este, de apelar ao interesse próprio. De dizer: estes horrores que estão a permitir que aconteçam um dia bater-vos-ão à porta; de repetir a famosa frase sobre quem eles vieram buscar primeiro e quem virão buscar a seguir. Mas este apelo não pode, de facto, funcionar. Se as pessoas que beneficiam de um sistema que tolera tal carnificina acreditassem verdadeiramente que a mesma carnificina lhes poderia ser infligida um dia, deitariam o sistema abaixo amanhã. E, seja como for, quando tal coisa acontecer, o resto de nós já estará morto.
Não, não há nada de terrível à vossa espera num futuro distante, mas saibam que algo de terrível vos está a acontecer agora. Estão a pedir-vos que matem uma parte de vós que, de outra forma, gritaria em oposição à injustiça. Estão a pedir-vos que desmantelem a maquinaria de uma consciência funcional. Que importa se a conivência diplomática prefere que se ignore a imagem de crianças desmembradas? Que importa se a grande distância do lugar ensanguentado permite a indiferença? Esqueçam a piedade, esqueçam até os mortos se for preciso, mas lutem pelo menos contra o roubo da vossa alma.

Omar El Akkad, Um dia, quando for seguro, quando não houver consequências pessoais por chamar as coisas pelos nomes, quando for demasiado tarde para responsabilizar seja quem for, sempre teremos sido contra isto.


2.12.25

Cães num presépio

Até que ponto acha que a sua experiência familiar e pessoal ajuda a compreender o que se passa hoje em dia?

Esta não é uma autobiografia convencional. Os três mundos do título são o Iraque, onde vivi até aos 5 anos; Israel, onde vivi dos 5 aos 15; e Inglaterra, onde estudei dos 15 aos 18. O livro tenta entrelaçar uma história familiar com uma história mais ampla — a da comunidade judaica no Iraque na primeira metade do século XX. Gosto de pensar nele como uma autobiografia impessoal — o que, claro, é uma contradição nos termos. Mas há certos temas subjacentes. O sionismo era um movimento de judeus europeus para judeus europeus. Um dia perguntei à minha mãe — que falava sempre dos maravilhosos amigos muçulmanos que tínhamos em Bagdade — se tínhamos algum amigo sionista. Ela olhou para mim como se fosse uma pergunta bizarra. E disse: “Não, não, o sionismo é uma coisa asquenaze. Não tem nada a ver connosco.” Essa visão era bastante representativa, típica da maioria dos judeus no Iraque. Estavam lá há dois milénios e meio, quase mil anos antes do surgimento do Islão. Além disso, os líderes sionistas não tinham interesse nos judeus das terras árabes. Tinham uma visão eurocêntrica. Olhavam de cima para os árabes e também para os judeus árabes, como a minha família — apenas um pouco menos “primitivos” do que os outros árabes.

[...]

Até que ponto acha que o racismo esteve por detrás de tudo isto em 1917 e ainda hoje?

O racismo está no ADN das potências coloniais. Arthur Balfour, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, era na verdade um antissemita. Aprovou a Lei dos Estrangeiros de 1905, a primeira legislação anti-imigração na Grã-Bretanha, destinada a impedir que judeus perseguidos na Europa de Leste viessem para o país. Os antissemitas apoiavam o sionismo — a cria­ção de um Estado judaico — precisamente porque não queriam judeus nos seus próprios países. As potências coloniais viam os povos nativos como primitivos, inferiores e atrasados, mas os judeus num nível de civilização superior. Em 1937, Winston Churchill comparou os árabes locais, os nativos, a cães num presépio, dizendo que o facto de o cão ter estado deitado no presépio durante muitos anos não lhe dava direito a ele. Acrescentou que os árabes deviam dar lugar a outra raça, uma raça mais experiente e superior — os judeus. É um exemplo extremo do racismo britânico.

“Israel é um Estado de supremacia judaica”: entrevista ao historiador Avi Shlaim por Luís Faria, Expresso, 27.11.2025

18.9.25

Velocidades diferentes

O supremacismo de Israel realiza, nos territórios ocupados da Palestina, aquilo que a extrema-direita imputa aos imigrantes (muitos deles árabes ou muçulmanos) no Ocidente. De acordo com a propaganda abjecta da extrema-direita europeia, os imigrantes beneficiam de elevados subsídios, apartamentos e outros bens oferecidos pelos Estados europeus. Ora, um imigrante americano ou europeu que adira ao sionismo sabe que não precisará de grande esforço para despossuir os palestinianos da sua terra, da sua casa e de outros recursos. Basta o assédio, a ameaça, a vandalização de propriedade, a agressão, o assassinato — com armas fornecidas pelo Estado de Israel. Imputa-se de algum modo aos imigrantes que vivem nas sociedades europeias as acções que os ocidentais realizam na Palestina. Território onde se operacionaliza um programa humanista que visa destruir e reconverter civilizações consideradas inferiores. Ao mesmo tempo, fomenta-se e normaliza-se a arabofobia, a islamofobia e o racismo, em geral, por cá, com base nos mesmos pressupostos políticos e metafísicos. De outro modo, retomando um argumento de Enzo Traverso, predomina uma visão conservadora segundo a qual o Ocidente estaria sob ameaça do Islamismo, o que legitimaria os actos mais hediondos. Daí que os partidos de extrema-direita europeus estejam do lado de Israel, que representa o modelo para os regimes pós-democráticos que se esboçam pela Europa. A social-democracia europeia ainda está dividida quanto a reconhecer a existência de um projecto colonial israelita que provoca todo o tipo de violência e fanatismos. Israel é o resultado do processo de secularização do sionismo, um nacionalismo estatal que opera a limpeza étnica e o genocídio sistemático desde 1947 e que conta com o apoio financeiro e o entusiasmo de inúmeros cristãos fundamentalistas justamente porque se permite pôr em prática a purificação étnica da Terra Santa. Por isso, o que verdadeiramente deveria ser discutido é o processo de descolonização da Palestina e não a questão dos dois Estados. A garantia de que há direitos iguais para todos, o fim do apartheid, o fim do rogue state de Israel. Seja como for, é ridículo que se continue a afastar os palestinianos da liderança da negociação do futuro naquele território. Enquanto a opinião pública internacional se vai lentamente ilustrando para pressionar o poder político (o que move os políticos são apenas as suas carreiras e a imagem pública), em Gaza milhares de inocentes são chacinados sem parar. Velocidades diferentes que permitem a expansão do horror.

12.9.25

A grande farsa

 

Limpeza étnica, pogroms, Lebensraum, genocídio (a 11/09, 72 palestinianos mortos em Gaza, 9 mortos a pedir comida, 7 mortes por fome e má nutrição). 'Presos', referem os jornais, jamais 'reféns' (culpados, pois, por não quererem ver destruídos ou alienados os seus bens, nem mortos os seus familiares e amigos). Marcha pelas estradas de Tulkarm de mais ou menos 100 homens para condenação geral, para serem humilhados. À volta de 1500 palestinianos feitos reféns por Israel ontem em toda a Cisjordânia. Num total de 15000, sem acusação, entre os quais centenas de crianças. Por cá sem manchetes, sem notícias, em suposta democracia.

Adenda, Basel Adra e família em risco, entre tantos outros palestinianos: