18.7.19

Quando as frases são literatura

E Bloom finalmente deixou de os ver, o que não significa
que eles tenham deixado de existir,
pois se fosse obrigatório a cada momento
ver-se tudo o que existe, o mundo não seria mundo
mas concentração de todas as coisas
no mais pequeno espaço.
Não existiriam planeta nem países
mas apenas um armazém com tudo.
Um armazém geral, bem se poderia chamar,
um armazém metafísico.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia


Não o mundo, mas o corpo — armazém metafísico, ainda que menos entusiasmante, íntimo, ou seja, pouco grandiloquente. A pele que é passado, movimento, às vezes espera. O nariz que é dias longos, quando passam esses corpos breves que queimam com tal intensidade que nos enchem de alegria e de pavor. Na esquina do movimento, o pavor é a última memória da alegria. De que fala um texto quando apenas é literatura? Ou os ouvidos que adivinham uma queda fatal? As horas tartamudeiam sono de tardes vãs, a boca aberta porque o mundo escapa inapelavelmente. Os olhos já são abertos a plenitude, enquanto a respiração não hesita por um momento a luxúria. A respiração quer ser salva pela alegria — uma respiração lúcida são dias de exercício. Não me esqueço de ti, Jerusalém, sei-o agora, que o agora está aqui, vida plana e plena, outra evidentemente. Oferecem-me mel mas enjeito enegrecer e segregar um crepúsculo e a rua sem ninguém é a única saída e o corpo é um vestígio com outro vento outras mãos outras palavras. O corpo não seria mundo, o corpo-corpo, corpo-noite, corpo-concentração, das memórias que ensinam o humano, hipótese de construir um corpo e alguma bondade. Memórias que também desaprendem o corpo, o atascam em metafísica doméstica. O corpo com todas as suas tralhas de armazém com idade, mãos ansiosas por pensar, acabrunhadas, com medo de desconhecer uma função. Nada mais do que este minuto, apenas a mais grossa indiferença.


24.6.19

Um valoroso lugar incerto



Muito me honra fazer parte desta coleção académica com grandes ensaios.

Este livro saiu pouco tempo antes da morte do Luís Mourão. Agradeço-lhe para sempre o exemplo e o estímulo humano e intelectual. Ele foi meu orientador, os seus textos continuarão a fazer-me pensar e escrever.

Agradeço também muito a amizade e a inteligência de Eunice Ribeiro, minha orientadora.

Agradeço por fim à Direção do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (CEHUM), em especial a Orlando Grossegesse, pelo incentivo e pela decisão de publicar este ensaio.


21.6.19

Luís Mourão (1960-2019): memória



Ao Luís Mourão devo muito.
Comecei a trabalhar em 2009, ano de conclusão da licenciatura, a seu convite, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Tive o privilégio de ensinar várias disciplinas de Literatura com ele, em Licenciaturas e Mestrados. Nunca foi aquela pessoa vigiando o estrito cumprimento das minhas tarefas profissionais. Falava, perguntava se tudo estava bem, esclarecia, apontava calmamente soluções para os problemas com que nos deparávamos.
Comecei o doutoramento em 2013. O Luís foi meu orientador: reviu criticamente todos os meus ensaios, aconselhou, pôs-me a pensar e a organizar melhor o que queria dizer (numa fase para ele muito difícil). Devo-lhe muito pelo que tenho escrito.
Em setembro de 2017 vivi um período complicado. Terminou em agosto o período de vigência da minha bolsa de doutoramento, a minha esposa não tinha trabalho, o nosso filho tinha dois anos. A minha esposa foi com o meu filho para o país-natal dela. Eu fiquei em Portugal, foi uma fase difícil (e vários outros problemas se juntaram) do ponto de vista económico e emocional.
Nesta fase, poucos meses depois da morte de Laura Ferreira dos Santos, o Luís deu-me ajuda financeira e confortou-me. Vivi uns meses em casa dele: a sua calma, a sua boa disposição, a sua lucidez, a sua generosidade, fizeram-me solucionar os problemas um a um. Foi um período que jamais esquecerei, um gesto que me comoverá enquanto viver. Tentarei retribuir o que me foi dado.
Em março de 2018 emigrei. Ia falando com o Luís com frequência, nos últimos meses falávamos muito sobre a vida. Ouvia-me, antecipava a circunstância e os meus medos. Sempre o senti calmo e lúcido; mesmo doente, era o Luís de sempre. Em maio de 2019 chegou um silêncio de dias que não julguei que pudesse tornar-se tão violento. Não pude rever o Luís e tanto queria abraçá-lo. Tentarei que o seu exemplo esteja sempre vívido nas minhas ações e nos meus pensamentos.
O mundo não é um lugar terrível, é um lugar terrível e bom, ao mesmo tempo ou em alternância. Tive o privilégio de me cruzar, num momento muito duro, com o Luís, homem desprendido e bom. A bondade, dizia Manuel António Pina, citando Beethoven, é a única forma de superioridade (talvez ‘superioridade’ não seja a melhor palavra, mas a ideia parece-me fazer jus a quem foi o Luís Mourão).
É muito triste o seu desaparecimento.



10.6.19

Luís Mourão (1960-2019)



A TARDE DE UM ESCRITOR *


O meu obituário termina aqui. Cada começo como o 8 sem princípio nem fim do título do poema sobre o arado de Ruy Belo, indo pela morte dentro como quem regressa, a equívoca sensação de se estar a fazer uma grande travessia quando afinal se realiza o demorado adeus da nossa condição. Estamos sempre a meio, até à última palavra que não é dita por nós. O futebol, o basquetebol, eram meios de estar no meio dos outros, como escreveu ter sido assim na sua infância. (Só um parêntese, caros leitores, isto é uma carta para longe, para a criança que inevitavelmente seremos, para a construção do mundo e do outro que é nossa escolha mortal — será isso, caro Luís?) Em momentos como este, o abandono que somos solta a mão que o agarra, corre desalmadamente como criança que sente que ninguém a entende, não a deixam em paz, porque tem medo de amar, tem medo de ser amada, tem medo que o medo a transforme.

Tentei durante o dia fazer as minhas tarefas de mortal, mas, já quase noite, não sei por que prego no coração, por que desejo absurdo, é inevitável estar frágil perante o cosmos, digo-o aludindo a um livro de Peter Sloterdijk, de que aliás o Luís teria gostado, gostou, estou certo, porque toca no fundo da deficiência congénita humana e da necessidade de acrobacia ética. É isso o modo de viver gregamente? Somos nós que, a cada instante, escolhemos, porque não é possível experimentar indefinidamente, é perigosa a arrogância da imortalidade. Escolher eticamente confere importância e peso ao existir. Citando um poema de que gostava, de Herberto Helder: “porque nada tem retôrno e tudo é dificílimo / (não só o máximo mas também o mínimo)”. É só reconhecendo o difícil ao máximo e ao mínimo que seremos sóbrios, uma linha na existência, uma linha irrequieta, grega, combativa com as manhãs.) Sem psicanalisar muito, toda a criança sente em algum momento esse abandono, como observou ao ler o último romance vergiliano, Na tua face, o outro que somos e se nos apresenta na sua deficiência, largado pela mãe, pelo amor do absoluto entrado nas brumas do mar. Este sentimento de abandono perdura pela vida e agudiza-se em certas circunstâncias quando a tragédia se torna destino e, em certos casos, bem mais violentamente, desistência. A melancolia daí proveniente é atraso em relação ao mundo, salvaguarda de alguma distância por pudor, medo, ou ainda desejo, mas melancolia que é um modo de observar o humano (e o Luís percebia rapidamente o outro) e de entender, aceitar e amar a finitude, sendo esta a tarefa para uma vida inteira, necessariamente inconclusa, mas a única hipótese da ternura, o dever de nos fazermos ao mesmo tempo que fazemos mundo.

Os trâmites dos dias eram também exercidos pelo Luís com sabedoria, olhando os outros nos olhos, não descurando os formalismos em que estarmos em sociedade exige, negociando, procurando melhorar o que é público e de todos para que nunca deixe de o ser com qualidade. Porque “tudo poder ser de todos, tudo mesmo” (lê-se no blogue Manchasdevia ser uma utopia inscrita microscopicamente nos dias, mas nem sempre o é e menos nestes dias de pão curto em reinos salgados. Sabem-no todos os que trabalharam consigo em Viana do Castelo, dedicando-se muitas horas ao bem comum. Na Escola Superior de Educação do IPCV deixa muitas histórias bonitas e engraçadas a todos os amigos, todos gostavam muito de si.

Com a doença, o Luís entendeu claramente o que já sabia, que não se pode negociar com o destino, nem se pode pedir à vida mais do que ela pode dar. Não devolveu o bilhete, há jogo até ao fim, até ao ponto que o corpo permita, assumindo até então as despesas do ataque por sua conta, risco e incerteza. (A incerteza, ingenuamente tão vilipendiada, tão detonador de irritação e metafísica, afinal é salvaguarda do desespero, da obsessão, da maldade: “A incerteza é uma conselheira sábia, pede discernimento e isso protege-nos da alucinação da nossa verdade”, como escreveu também no Manchas). Então acordava cedo e sentava-se, não antes dos gestos exactos preparando o pequeno-almoço com o cuidado que merecem as coisas pequenas (nunca menos do que merecem as grandes), levanta as persianas para que a primeira luz inunde a casa com o entusiasmo do começo não isento da névoa daquilo que ainda não tem forma. Avançava pelo desconhecido de si como quem não se quer queixar nem acusar, pois enquanto deseja não calunia a vida e esse modo exacto de agir, ver e escrever mantinha-o na realidade, recusando-se negá-la pura e simplesmente, e era ainda um modo sóbrio de cair, como o deve tentar todo aquele que se sabe mortal. E isto é bem mais fácil de dizer do que de viver — e o Luís viveu-o. O estardalhaço, o modo inexacto de pôr as coisas, é só um momento mais da mentira que muitos não desejam confrontar. Mas, ó mortal, administra a tristeza sabiamente, talvez seja essa a ciência do mortal.

Mas tudo é ridículo quando se pensa na morte. Pesem embora essa alegria calma, o Deleuze dos jogos de futebol na infância, das tardes a tentar manter o jogo equilibrado, intenso (porque um corpo é a sua potência se se torna deserto, se é tudo o que pode em sentido ético-atlético, se é concentração), na confrontação com a morte, não se evita a metafísica. Em palavras suas: experimentamos “a melancolia insuportável de que o mundo também é feito”. E então há que reconhecer o nosso abandono, abraçá-lo, cuidá-lo — eram isso os seus gestos calmos? O modo sábio, porque vivido, e alegre como não criava uma relação angustiadamente dominadora com a realidade?, atento às tantas formas de que a negação do abandono se reveste (como sucede ao possidente ou ao vaidoso). E se se levantava e escrevia, como a criança que era jogava até não haver mais tempo, era porque o que sabia não interessava tanto saber, se não viver.

Quem fará justiça ao que eram as suas comunicações?, o rigor científico e ascético com que definia o fio da sua argumentação, que depois ia sendo apurado com calma, ao ritmo de um pathos metafísico e irónico — vergiliano? — de que o Luís inolvidavelmente imbuía certas palavras e exactos silêncios?

A ética tem a oportunidade de se manifestar diante da fragilidade, escreveu Gonçalo M. Tavares. Saint-Exupéry afirmou que somos responsáveis por aqueles que cativámos. O Luís exerceu exemplarmente a ética diante de quem se mostrava frágil e esteve disponível para os muitos que cativou. E estou longe de ser o único a afirmá-lo com conhecimento de causa. A sua boa acção importava menos pela razão que a pudesse justificar, mas pelo espaço de construção e ligação que efectivamente permitia. Era afável e generoso — admiro-o muito, farei por não me esquecer do seu exemplo, para não rebaixar a existência, para que com ela possa fazer alguma coisa.

Uma das grandes felicidades da minha vida foi ter sido seu amigo e interlocutor. Faz-nos muita falta, agradeço-lhe por tudo.



* Título inicialmente previsto para a sua tese de mestrado, como o título homónimo do romance de Peter Handke.


5.6.19

Blood orange

It looks so dark the end of the world
      may be near.
I believe it's going to rain.
The birds in the park are silent.
Nothing is what it seems to be,
Nor are we.

There's a tree on our street so big
We can all hide in its leaves.
We won't need any clothes either.
I feel as old as a cockroach, you said.
In my head, I'm a passenger on a ghost ship.

Not even a sight outdoors now.
If a child was left on our doorstep,
It must be asleep.
Everything is teetering on the edge of everything
With a polite smile.

It's because there are things in this world
That just can't be helped, you said.
Right then, I heard the blood orange
Roll off the table and with a thud
Lie cracked open on the floor.

Charles Simic, Walking the black cat


2.6.19

No caminho para o Death Valley


No caminho, espaço percorrível, que distancia da morte. O vazio é o que distancia da morte, o caminho que vai até onde estivermos dispostos a inventar-nos. Vazio que impede o caos? Segunda lei da termodinâmica? Podemos tentá-lo.

















De um lugar ao outro vai uma palavra, e vai ainda estares aí tu e eu noutro lugar. O espaço é hipótese da mudança, mas também possível cisão, hipótese da loucura? Ou enlouqueço porque não suporto consistir, este lugar?

O amor ainda é o possível tempo, se o vazio provoca diferença, também a possibilidade de ligação.
E a angústia do vazio – o amor?
Estou cansado de procurar outro lugar, amo-te. Porque falho em criatividade e vontade, partilho lugar com outra pessoa. O casamento?


E ainda – num espaço saturado, como podes mostrar-te? A economia, a mobilidade, depende do vazio, a pobreza é distópica, “infernal ocupação do metro quadrado vazio” (Gonçalo M. Tavares, Na América, disse Jonathan, p. 67). 

Não saio existencialmente daqui porque não tenho espaço. Não vejo diferenças, indiferença.

“E nunca acordo deste sonho e nunca durmo” (Sophia de Mello Breyner Andresen)


26.5.19

Morte módica — ida à praia

Como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca ora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna
com fruta à escolha nas duas mãos,
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres,
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho

Herberto Helder, A morte sem mestre


20.5.19

Saltos, tristeza e alegria (ficção)

Sobre os saltos

— Está a festejar, excelência?
— Eu não. Estou triste.
— Mas está aos saltos.
— Isto não é um salto, é um afastamento temporário do solo. Eu, quando estou triste, excelência, fico cheio de energia. Como um motor.
— Não costuma ser assim.
— Não. Mas comigo é assim. Quanto estou triste, dou saltos, levanto os braços, buzino, etc.
— Pois. Parece mesmo um estado de alegria.
— Por fora, sim, é exactamente igual. Por dentro é que não.
— De novo! Saltou de novo!
— Isto não é um salto.
— Não?
— Deixo de gostar um bocadinho do solo. Quando perco. É só isso.
— Parece-me um salto.
— Salto seria isto. Veja, excelência (salta).
— Igualzinho. Vossa excelência fez exactamente o mesmo movimento.
— Mas agora estava a pensar noutra coisa, não na tristeza. 
— Sim?
— Sim, excelência. Neste segundo salto, não me estava a afastar do solo, estava a aproximar-me das nuvens. É completamente diferente.
— Ah, ok. 
— Há saltos que parecem querer ocupar posições intermédias entre o chão e o céu. Isso é um facto.
— São os saltos de quem ganha.
— Os saltos eufóricos.
— E depois há os outros.
— Que são...?
— Os que não querem voar, nem ficar no chão.
— Então?
— Nem estão confortáveis em baixo nem em cima, por isso saltam. Não estão bem em lado nenhum, de facto. Nem no chão, nem no ar.
— E saltam?
— Sim, saltam. É um salto triste, mas é também uma solução.
— Compreendo, excelência.


Festa. Lixo e distância entre países

— Aquilo que se produz numa festa não deveria ser designado como lixo.
— Exactamente, excelência. Deveria ter um nome mais poético.
— Imaginar uma festa que termine e que deixe para trás ouro e outras especiarias. Assim me pareceria bem. Uma festa é uma festa!
— Isso! Os restos de uma festa deveriam ser, pelo menos, automaticamente recicláveis.
— Um lixo que se auto-destrua, eis do que necessitamos.
— Outra boa sugestão, excelência.
— Uma festa que não cause lixo, que não deixe atrás um único objecto, um único resto, um único vestígio... eis uma utopia, excelente excelência. Ninguém se diverte sem material de apoio, digamos assim.
— Mas no Japão vi isso.
— O quê, excelência?
— Uma festa com milhares de pessoas que, uma hora depois de terminada, estava completamente desmontada e limpa. Não havia vestígio algum do que se passara ali há menos de uma hora. Parecia um espaço habituado à monotonia de sempre.
— E quem limpou tudo, excelência, quem foi?
— Os próprios senhores participantes da festa.
— Verdade? Isso é inacreditável.
— Onde fica o Japão?
— Bem mais longe do que parece, excelência, bem mais longe.


Dois diálogos com duas ideias opostas.

Diálogo A — O Passado

— O que há depois de ganhar?
— O dia seguinte.
— E depois de perder?
— O dia seguinte.
— Então é igual!
— Sim, o dia seguinte de quem ganha e de quem perde é igual. O que é diferente, é a véspera.
— Ah, compreendo.

Diálogo B — O Futuro

— Como é o dia depois de se perder?
— É péssimo.
— E o dia depois de se ganhar?
— É maravilhoso.
— E dois dias depois, como são os dias de quem perde e de quem ganha?
— O dia de quem perde vai perdendo a péssima intensidade. E o dia de quem ganha vai perdendo a maravilhosa intensidade.
— E?
— E, passado um mês, mês e meio, os dias estão exactamente iguais.
— Um mês?
— Mais ou menos.
— Explique-me.
— No infinito, duas rectas paralelas encontram-se, como sabemos. E dois dias completamente opostos também. Em suma, no infinito, como toda a gente bem sabe, as coisas opostas juntam-se.
— Ok... E quanto tempo demora a chegar-se ao infinito, excelência?
— Se for a andar?
— Sim.
— Mês, mês e meio, mais ou menos.
— A tal duração de que falava há pouco.
— De facto, excelência: o infinito nos países mais pequenos não é assim tão inalcançável. O infinito é mais o sítio, o ponto exacto, em que já se esqueceu o passado e, portanto, é também o dia onde se começa de novo.
— Compreendo, excelência.
— Ou seja: quando começa a nova época? Já há data?


Para terminar

Para terminar, o comentário do comandante Wellington, que derrotou Napoleão na batalha de Waterloo:
«Nada, a não ser uma derrota, é tão melancólica como uma vitória.»
E uma rápida citação, bem irónica, do Ulisses de James Joyce:
«Mais uma vitória como esta e estamos perdidos.»

Gonçalo M. Tavares, A Bola, 19/05/2019


16.5.19

A jeito de epitáfio, ofício cantante

E eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza
vou morrer como um cão deitado à fossa!

Herberto Helder, A morte sem mestre

14.5.19

Agustina, notas de Mónica Baldaque


Em certo sentido, acho que as minhas escolhas não foram tanto escolhas como heranças. Não havia mais escolhas possíveis.


Achava as outras mães excessivamente dominadoras, autoritárias. A minha mãe não era nada disso; era muito mais solta, muito mais atenta a coisas verdadeiramente importantes. E brincava em relação ao que não era importante.



Acho que a minha mãe nunca foi muito sensível a encantos… Ela dissecava de tal maneira as pessoas, desde as empregadas até aos médicos, aos escritores, enfim, aos poetas que frequentavam a casa,  a todos… Ela analisava as pessoas com a mesma força, com a mesma exigência, com a mesma inteligência, tanto fazia quem fosse.



A minha tia Amélia era uma mulher profundamente lúcida, que é o que a minha mãe sempre foi e ainda é, hoje. Uma lucidez que ultrapassa tudo aquilo que temos como medida. Ela via o que os outros eram, apercebia-se das engrenagens das relações, do pensamento das pessoas, e utilizava isso de forma magistral. Acho que toda a obra da minha mãe foi isso: falar das relações humanas, escutá-las até à última. E foi isso o que aprendeu com a tia Amélia. Uma mulher que praticamente não sabia ler, e que assinava mal o nome dela, mas era uma mulher que também não precisou disso para ser uma figura imponente e central no lugar onde vivia. Penso que toda a educação da minha mãe – e considero “A Sibila” um livro exemplarmente educativo, na medida em que ensina o que é a educação – foi esse exercício de leitura da alma humana. Isso é esgotante. 



E o meu pai, que era muito rigoroso, encontrava desacertos na escrita. E então vinha perguntar: “…mas isto, esta personagem aqui chama-se assim, mas lá atrás chamava-se de outra maneira… É a mesma, é outra?”



Não tem época, porque tem que ver com um conhecimento que está muito para além da sua época, desta época ou de qualquer outra. Tem que ver com um conhecimento muito mais profundo da alma humana, que é eterna. A alma atravessa as épocas todas e há-de permanecer. 



Quando pego num romance dela para o ler, isso enche-me os dias, enche-me os meses, porque ali tudo entra de uma maneira tão certeira e para meu uso, para o conhecimento que faço das pessoas, que não me parece que uma coisa assim possa morrer no fundo de uma estante.


Viver é difícil. Sabe Deus o que sofrem, porque são feios, porque são medíocres, porque mentem, porque se escondem, porque odeiam o que lhes fez falta, e o que não esperam. Foi isso sempre o que quis transmitir aos meus filhos, essa atitude de atenção e de condescendência. 


A minha mãe sempre achou que o bem e o mal são muito escorregadios, qualquer um deles rapidamente pode estar no outro lado. É com isso que nós temos de contar nesta vida. O mal deve ser entendido. Assim como o bem. Deve-se reflectir sobre o mal para que se possa entendê-lo e, se necessário, combatê-lo. Mas não sei se se deve combater o mal, não estou segura. A fronteira é que é muito difícil de traçar: perceber onde começa o mal e onde acaba. A fronteira é tão ténue que me parece que só no nosso íntimo somos capazes de percebê-lo, mas para isso há que ter uma grande vida interior e um grande conhecimento de si próprio.


Eram pessoas que a desafiavam, mas não para que ela crescesse e se elevasse, não, era para a destruir. 


13.5.19

Aprender a técnica e o essencial

Diário

Jonathan lembra-se de que o professor da primária se chamava Maximino: máximo e mínimo, e como isso era já ali, só no nome, antes de ele começar a falar, um ensinamento: dois pontos extremos: o máximo e o mínimo — e a vida vai ser assim, algures no meio.
Para Jonathan, a recordação das lições da escola primária era praticamente inexistente. Sabe ler, escrever e contar, mas não se lembra de como chegou a isso, parecendo-lhe por vezes o efeito não de um percurso de dias, semanas e anos, mas de uma aparição. Como se alguém lhe tivesse dito: a partir de amanhã saberás ler.
No entanto, e disso não conseguiu ainda recuperar, ninguém lhe disse, em nenhum momento, em nenhuma situação: a partir de amanhã saberás viver.
Máximo e mínimo.

Gonçalo M. Tavares, Na América, disse Jonathan


12.5.19

Amo quem leva as mãos à cara

Estou esta tarde junto a vocês para dizer:
nesta sala estão sentados alguns assassinos,
ladrões, mentirosos, suicidas
e eu sou irmão do pior
que há num homem,
dentro de mim ou noutro,
como irmão gémeo.
Não sou o juiz do filho do meu pai,
não sou o seu guardião.
Amo quem de forma inesperada se envergonha
e leva as mãos à cara
e desse modo se limpa.
Esta noite entre nós eu amo o bêbado
que perde o caminho para casa.

Erri de Luca, citado em Gonçalo M. Tavares, Na América, disse Jonathan


11.5.19

Celebremos o coração

Em tempos de sustos cardíacos, um elogio ao coração

A forma

1.

A forma do coração há muito deixou de ser uma forma orgânica e parece ter-se juntado às formas da geometria clássica: o quadrado, o triângulo, o rectângulo, a circunferência e o coração. As cinco formas — quatro que são artificiais e uma que é humana e representa a vida. O humano inventou a roda, o coração terá inventado a bondade, dizem os mais optimistas.

Nomes iguais, nomes diferentes

2. 

No livro História universal do coração, de Richard Lewinsohn, é lembrado que algumas tribos índias «usam a mesma palavra para coração e estômago». Claro que essas tribos sabem bem que esses órgãos são elementos diferentes, mas talvez sejam vistos como duas coisas que mexem, que têm batimentos, mais ou menos evidentes. Para essas tribos o corpo inteiro digere: o estômago digere alimentos, o coração digere sangue (os pulmões: o ar) e o cérebro recebe, digere e transforma os pensamentos. O corpo inteiro como um grande estômago.
Numa outra tribo do Mato Grosso, os indígenas usam duas palavras diferentes «uma para o seu próprio coração (nomaihaci)» e uma outra palavra para «o coração dos outros (maihaciti)». É como se dissessem: o meu coração não pode ter o mesmo nome. Os corações enquanto estão vivos têm caminhos particulares, apaixonam-se por coisas e pessoas distintas, exigem por isso nomes diferentes. A anatomia não tem tanta importância como a biografia. É a forma como cada um vive que acabará por dar o nome ao seu coração.

Loucura e coração

3. 

Há ainda belas superstições em redor deste órgão essencial. Os nativos da tribo da Ilha Nias da Indonésia, por exemplo, sempre segundo o livro de Lewinsohn, têm uma explicação para a loucura, que passa, no fundo, por uma alteração das coordenadas do coração (x,y). A loucura, defende esta tribo, é provocada por uma tribo que entra no corpo e «empurra o coração para cima». Isso mesmo: empurra, como se o coração fosse um móvel que os espíritos zangados decidem mudar de sítio.

Coração e consciência

4. 

Para a forma de pensar do antigo Egipto, o coração era o local onde se alojava a consciência moral humana. 
A cabeça pensava, raciocinava, fazia cálculos e usava verbos para explicar o mundo. Já o coração era um órgão mudo, porém era aquele por onde passariam esses dois caminhos que na Antiguidade eram claramente separados: o caminho do bem e do mal. Assim, o coração era a testemunha primeiro do corpo; era o coração que olhava para os actos dos braços e do resto da pele e os julgava. Ele «era a testemunha final» da vida de um humano e, por isso, depois de morto, coração e homem separavam-se. O Homem ia para «banco dos réus» e o coração era a testemunha. No julgamento, o juiz perguntava à testemunha (coração) se o réu (o resto do corpo) se tinha comportado bem. Coisa estranha, um órgão do corpo depor a favor ou contra si próprio ou contra o resto do corpo. Mas sim, era isso. Era o grande órgão, um órgão portador de um espírito que sobrevivia. Em termos concretos, no julgamento dos mortos, o coração era pesado numa balança — acção simbólica, claro. Pesavam-se, no fundo, os actos bons e os actos maus. Podemos até pensar numa espécie de contas de mercearia moral: 10 kg de actos bons menos 5 kg de actos maus igual a um saldo de 5kg de bondade. Mas claro, não há uma verdadeira unidade de medida para a moral. No entanto, o coração foi sempre a referência.

Nada de raciocínios

5. 

O «coração, se pudesse pensar, pararia», escreveu Pessoa. O coração é importante, para os antigos e para os contemporâneos, mas que o coração não pense demasiado, dele só queremos que bata ao ritmo certo que a biografia exige. Que mantenha o ritmo como a bateria de uma banda.

Gonçalo M. Tavares, A Bola, 05/05/2019


6.5.19

Don't think twice, it's all right

À entrada do carro, Jonathan vomita durante vários minutos. Eu ponho a tocar Dylan: «Don't think twice, it's all right».

Gonçalo M. Tavares, Na América, disse Jonathan

15.4.19

Barthes íntimo

28 de agosto de 1979

Siempre esa dificultad de trabajar a la tarde. Salí a eso de las seis y media, a la aventura; divisé en la calle de Rennes a un gigoló nuevo, pelo sobre la cara, aro delgado en la oreja; como la calle B. Palissy estaba totalmente desierta, conversamos; él se llamaba François; pero el hotel estaba lleno; le di dinero, me juró estar en la cita una hora más tarde, y por supuesto no estaba. Me pregunté si realmente me había equivocado (todo el mundo exclamaría: dar plata de antemano a un gigoló!), y me dije que, puesto que en el fondo no le tenía tantas ganas (ni siquiera tenía ganas de acostarme), el resultado era el mismo: acostado o no, a las ocho me habría encontrado en el mismo punto de mi vida; y, como el simple contacto de los ojos, de la palabra, me erotiza, es ese goce el que pagué. Más tarde, en el Flore, no lejos de nuestra mesa, otro, angelical con su pelo largo cortado por una raya al medio; de tanto en tanto me mira; me atrae su camisa muy blanca abierta sobre su pecho; lee Le Monde y toma Ricard, creo; no se va, termina por sonreírme; tiene grandes manos, que desmienten la suavidad y la delicadeza del resto; intuyo el gigoló por sus manos (al final se va antes que nosotros; yo lo detengo, porque sonríe, y tomo una vaga cita). Más lejos, toda una familia, agitada: niños, tres o cuatro, histéricos (siempre, en Francia): me cansan a la distancia. Al volver, en la radio, me entero del atentado del IRA contra Lord Mountbatten. Todo el mundo está indignado, pero nadie habla de la muerte de su nieto, un chico de quince años.

Roland Barthes, Incidentes, "Veladas en París" 


9.4.19

Roubado ao Diogo Martins

Gilles Deleuze não gostava muito de viajar. Dizem que tinha um quarto na Ile de France para encontros mais ou menos privados, e aí as paredes estavam forradas com postais: à sua volta multiplicavam-se as paisagens do mundo. Isto lhe bastaria. Uma ou outra deslocação à América (em 1975, convidado a ir a Columbia) e foi tudo. Não gostava de colóquios (apenas organizou um sobre Nietzsche), não gostava de debates públicos (e costumava dizer que, sempre que lhe faziam uma objecção, a sua vontade era responder: 'de acordo, de acordo, passemos a outra coisa').


17.3.19

Ordem, desordem, concentração e surpresa

1. Dois perigos

Paul Valéry escreveu que «dois perigos ameaçam constantemente o mundo: a ordem e a desordem». Esses dois perigos ameaçam também uma equipa. Sem ordem e hábitos de treino nada feito. Mas o problema da ordem é que se torna, de facto, previsível. Ordem e disciplina, portanto, não bastam.
Podemos então pensar, em alternativa, numa ordem com surpresas. Tornar a estratégia de uma equipa previsível até ao momento em que, subitamente, aparece a surpresa decisiva.
Porém, podemos dizer que há uma dose máxima de surpresa recomendada. Se o treinador planeia uma surpresa a cada cinco minutos talvez a surpresa deixe de ser surpresa. É preciso adormecer antes o adversário, e durante muito tempo.
O filósofo Wittgenstein dizia precisamente o seguinte:
«Se disseres a alguém que quando chegar a casa vai ter uma surpresa, se ele chegar a casa e não tiver uma surpresa, vai ficar surpreendido.»
E sim, no jogo funciona da mesma maneira: por vezes o mais surpreendente é não haver surpresa. Só assim, por exemplo, será possível vencer um adversário que se preparou para muitos imprevistos.
Se alguém se prepara apenas para o imprevisível será vencido pelo previsível, eis uma regra básica de bom senso.

2. Dois modos opostos de ser o melhor

Há dois modos de vencer bem distintos. Dois exemplos, materializados em dois jogadores que, mais uma vez, nesta semana, foram essenciais.
Messi, a desordem colocada em cheio no centro do adversário. A surpresa: no meio do que se compreende aparece o movimento que ninguém espera.
E Ronaldo, não tanto a surpresa, mas sim: a ordem mais eficaz, mais potente do que todas as outras. Salta previsivelmente mais alto, chega previsivelmente mais cedo.

3. Concentração

Eu estava concentradíssimo em ir o mais alto e o mais para a frente possível. Esta é uma frase ouvida enquanto esperava pelo metro. Por vezes agradeço os atrasos constantes dos transportes públicos.
Ver um atleta concentrado, antes de um pénalti ou de um salto em altura, é assistir a um momento de anulação completa do exterior. Não há tempo antes nem depois. Quem está concentrado num gesto não tem futuro, nem memória; não há tempo nem espaço em redor. O que há é apenas corpo e tarefa.
Concentração significa etimologicamente: com um centro. Estar concentrado é ter um único centro. E por isso é sempre divertido escutar alguém dizer que está concentrado em três ou quatro projectos. É assim, no mínimo que nascem os torcicolos, físicos e mentais.
É como pensar num atleta que queira ao mesmo tempo, no mesmo movimento, saltar em altura e em comprimento. A coisa não vai correr bem.

4. Jogador-lupa

A potência da concentração bem evidente na lupa que concentra os raios do sol num pequeno espaço, atirando o calor para uma folha de papel. Aquilo que espalhado nada faz, quando concentrado queima.
O que é um atleta de alta competição? Isto: em cada lance de jogo concentra toda a energia na decisão da situação. Jogador-lupa, jogador concentrado, em oposição ao jogador-janela — este distrai-se com tudo o que acontece (está sempre a olhar para o lado de fora).

5. Dietas

A loucura das dietas continua. Sem x, sem y, sem z. Trata-se de tirar o prazer do prato, como quem diz soberanamente: por que razão os vivos, além de estarem vivos, ainda querem prazeres gustativos?
As restrições alimentares são uma invenção claramente do campo da maldade.
O actor americano Joe E. Lewis é bem claro em relação a isto:
«Iniciei uma dieta, abstive-me de beber, comi o mínimo — e em quinze dias, perdi duas semanas.»
Uma tomada de posição.

Gonçalo M. Tavares, A Bola, 17/03/2019


11.3.19

Relax inside my shiny blueness



I woke up to it
Heavy, alight with trueness
Always aware of losing
Compelled to knew it
My body traveled
My mind waits behind the music
My crime bemuses
Relax inside my shiny blueness

Time: I understand it
But I never choose it
I can't explain it with words
I have to do it
The ship I came here on vanished
We automatic
Don't try to plan it
But chyeah, just when it comes, handle it
Behind the lessons
Miles beneath the slick dressing
Niggas is stressing
Bout shit they should be sure they guessing
I twirl and cool and peel the rear view cause they are arresting
But wear jumpsuit and Chinese slippers, I'm still impressive

(…)

I slowed it down once
Everyone was going fast
So I sped up cause I ain't one to reach the end last
To where the grimy sparkles
Amongst the shiny talkers
The pistol-poppers that make pretty noise and get them dollars

(…)

And what heat cost us
And what loss gave us

(…)

You can't lie to yourself

(…)

8.3.19

'No hablo inglés'


50%

1. O jogo, de futebol e de outras modalidades, balança entre uma análise estatística, que parece vinda da mais definitiva das matemáticas, e os gestos de treinadores e atletas que entram com um pé direito bem direito, fazem a cruz de Cristo na testa e no peito, ajoelham-se e levantam os olhos para o céu, parecendo por vezes agradecer ali, em directo, 50% aos treinos, 50% a Deus, a potência e a precisão do remate decisivo. A ciência do treino e a crença.

Tabuada

2. Sempre gostei de uma personagem de Hans Christian Andersen que, a certa altura, diz: «Pediram-me para rezar, mas só me lembrava da tabuada».
De facto, aí está o jogo moderno: há quem, diante de um pedido de oração ou, pelo menos, diante da mais simples crença ou fé, atire, ao rosto do outro, estatísticas num quadro de excel. E há depois aqueles outros que, quando lhes é pedida a tabuada, a racionalidade, a ciência — só se lembram de rezar.
Uns e outros são tontos e quase inimigos, claro. Mas por vezes têm de se entender.
O que é a crença, no fundo, qualquer que ela seja? É uma energia a mais, um excesso de vontade que ali está para auxiliar tudo o que de humano se fez e treinou.
Se traduzirmos crença por auto-confiança os cépticos do 2x2=4 ficam mais tranquilos. Transforma a crença em conceitos da psicologia e tudo parecerá racional e quase exacto.

Estética e estatística

3. Estatística como forma de transformar a estética, e a beleza, numa contabilidade de armazém. Quantos remates e passes certos e errados e etc.?
Um passe feio é igual a um passe extraordinário, 1=1 na matemática dos cegos pela eficácia: 1 é 1, e nem mais nem menos. Mas claro que não.
É como se a pintura, por exemplo, se avaliasse pelas quantidades de pinceladas e não pelo desassossego e entusiasmo que colocam nos olhos do espectador. Fazer a estatística de um jogo é útil, mas é como fazer a estatística do Museu do Louvre contabilizando o número de quadros com as dimensões 50x30 e 1,5 metrosx70cm, ou o número de quadros em que a cor predominante é o azul ou o amarelo.
Um humano que diga:
— Que me importa a beleza? Que me importa a beleza de um jogo?
merece passar o resto dos dias num qualquer inferno de fealdade e monotonia.
Sem competição, o jogo é um passatempo. Sem beleza, um jogo pode ser visto por cegos artificiais: só lhes importa ouvir o resultado; um jogo, no limite, reduzido a dois números. O resultado final.

A importância do aparelho auricular

4. No desporto, no meio de inúmeros psicólogos, uma ou outra vez ali estão os psiquiatras, tentando ajudar a resolver problemas mais complicados. Falemos dos psiquiatras.
Respeito, claro, este mui nobre trabalho, mas lembro-me por vezes da história de um actor norte-americano que contou que, ao fim de doze anos de terapia, o seu silencioso psiquiatra finalmente abriu a boca e murmurou: «yo no hablo inglés».
Para além do divertido, está aqui a essência. No fundo, um terapeuta é um bom escutador, mesmo que não entenda nada. Talvez se deva até garantir que quem nos vai ouvir não entenda a nossa língua para podermos falar sem qualquer inibição.
A terapia é, muitas vezes, uma forma de espelho sonoro: é a própria pessoa, com as suas palavras, que descobre o problema e o resolve. Quem não se cura é porque se escuta mal a si próprio.

Gonçalo M. Tavares, A Bola, 03/03/2019