23.5.17

Arte poética


TRIBUTO A J.G.ROSA


Passarinho parou de cantar.
Essa é apenas uma informação.
Passarinho desapareceu de cantar.
Esse é um verso de J.G. Rosa.
Desapareceu de cantar é uma graça verbal.
Poesia é uma graça verbal.

Manoel de Barros
Tratado geral das grandezas do ínfimo


21.5.17

"A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares: um novo mundo começa




Heteronomia temático-estilística e território textual

O primeiro livro da série Mitologias é A mulher-sem-cabeça e o homem-do-mau-olhado. Mais um mundo que compõe a “heteronomia temático-estilística” (expressão de Luís Mourão, num artigo da revista Diacrítica) definidora do território textual de Gonçalo M. Tavares. Um caso singularíssimo na Literatura Portuguesa de um autor que cria mundos e trabalha os seus temas e motivos segundo a atmosfera de cada mundo e com as características da linguagem que o configuram. Cada série é um Tavares, não há uma voz autoral atravessando todos os textos. A riqueza deste território textual está na diversidade, que materializa o entusiasmo de escrever avançando pelo desconhecido. De escrever errando e cultivando o informe, um modo de não cortar o fluxo do desejo. Um território textual que cresce na proporção da proliferação das suas séries e muitas obras de arte e múltiplos estudos a que dá origem. Em Breves notas sobre literatura-Bloom, um livro da série Enciclopédia cuja primeira edição teve a chancela da Periscopi, uma editora catalã, o autor assinala que “o território de uma literatura é o espaço para onde esta literatura empurra” (p. 90). Neste sentido, “um verso potente de três palavras ocupa mais território do que seis volumes de um estudo enfadonho” (p. 90). Há mais caminho a percorrer num bom verso curto ou numa frase estranha e extraordinária do que num estudo longo e entediante. Os textos literários potentes são os que instigam a criação de outros textos, danças, quadros, filmes, peças de teatro.


Leis da Física, nomes, literatura, informação e explicações

É cedo para compreendermos toda a configuração deste novo mundo, Mitologias. Mas podemos falar de alguns aspetos.

Trata-se de um mundo com leis físicas diferentes do mundo tal como o conhecemos. O corpo de uma mulher sem cabeça está vivo, e até a cabeça, movendo-se ambas as partes autonomamente. Uma ficção significativa para pensarmos algumas questões identitárias: onde está aquela mulher, no seu corpo ou na sua cabeça? Segundo os seus filhos, está no corpo: “O mais velho insulta a cabeça da mãe; o do meio cospe-lhe, o mais novo dá-lhe um pontapé” (p. 12). A cabeça não é mais importante do que o resto do corpo, nem o rosto é a única parte do corpo – uma parte especialmente convulsa, sempre em movimento – que nos distingue. Em O Bairro também já estávamos num mundo à parte, mas de Mitologias não se excluiu a morte, pois as suas personagens sofrem como os mortais. Mitologias não é uma investigação divertida da especialização humana em fugir. Um mundo diferente, duro, fantástico, mas não maravilhoso, com algumas histórias que lembram o mundo terrífico e entusiasmante de Trilogia da vida de Pasolini.

Outro aspeto importante deste mundo consiste no facto de as personagens não serem, na maioria dos casos, reconhecidas por um nome próprio, mas por uma característica ou um comportamento que as singulariza. A exceção são as cinco crianças, que têm os nomes dos filhos de Nicolau II. O facto de não ter cabeça identifica uma mulher; um homem é definido pelo mau-olhado que os outros lhe reconhecem. Estes são os protagonistas deste romance, ou novela extensa, ou reunião de contos. Mas podem tornar-se personagens secundárias em livros seguintes desta série, nos quais ganham protagonismo as personagens secundárias de A mulher-sem-cabeça e o homem-do-mau-olhado. Não sabemos em que espaço e em que tempo decorre a ação. Isto indica, digamo-lo de modo rápido, que o fundamental neste território textual é investigar o ser humano, cujo comportamento não varia significativamente segundo coordenadas espácio-temporais.

Devemos falar da linguagem. Mais sóbria e concisa do que habitual, com poucos adjetivos, poucos elementos ornamentais, com as repetições sintáticas e lexicais de uma litania ou de um sortilégio. A narração centra-se na ação, o que potencia leituras do texto e devolve a literatura à literatura, afastando-a da esfera informativa, estruturante da mundividência contemporânea. Este pode ser um dos modos de ler a epígrafe final do texto, extraída de “O narrador”, ensaio de Walter Benjamin: “Todas as manhãs somos informados sobre o que de novo acontece à superfície da Terra. E no entanto somos cada vez mais pobres de histórias de espanto. Isso deve-se ao facto de nenhum acontecimento chegar até nós sem estar já impregnado de uma série de explicações”. A mulher-sem-cabeça e o Homem-do-mau-olhado é uma narrativa que pouco explica e expõe os eventos sem julgamentos nem apresentação das suas possíveis causas, estimulando deste modo a imaginação do leitor. O contrário dos eventos descritos em jornais e televisões, que se mantêm na atualidade até serem esclarecidos totalmente os seus efeitos e as suas causas. Os órgãos informativos fomentam uma espécie de febre explicativa que anula o espanto. Sentimo-nos insatisfeitos quando algo não está absolutamente claro. Queremos o consolo da explicação, o fim do desassossego. Preferimos até, como observou Nietzsche em Crepúsculo dos ídolos, uma “explicação qualquer (..) à ausência de explicação”. Quando se torna claro que, afinal, nada se esclarece por completo, ficamos algo desiludidos. O fim da procura da clareza e da verdade é, muitas vezes, o nojo e a desilusão, como diz com humor este verso de Manoel de Barros: “As coisas muito claras me noturnam”. As explicações são a tentativa infrutífera de cessar o espanto e, assim, de provocar o tédio. A literatura vive da inquietação própria da ausência de explicações. Falar do fim do espanto ajuda a compreender as causas da melancolia contemporânea. Não explicar tudo consegue-se com um estilo depurado, árido, como começávamos por dizer neste ponto. É o não querer avançar com explicações filosóficas ou psicológicas para tudo o que as personagens fazem ou pensam que permite que o texto literário conserve a sua força, não se gastando no presente como acontece com a informação. É a aridez narrativa, a ausência de esclarecimentos e julgamentos, que suscitam “admiração e reflexão”, como observou Benjamin no ensaio citado. Aridez que, de certo modo, acelera a narração, ao cingi-la à ação. Uma velocidade diferente daquela que encontramos em animalescos e Canções mexicanas, obras constituídas por ficções narradas de modo embriagante e perverso com cortes, lacerações e rupturas (ao estilo de Um copo de cólera de Raduan Nassar). Neste novo livro de Gonçalo M. Tavares, encontramos uma espécie de “narração-comboio”, avancemos com o termo, centrada na ação, veloz, como o comboio que enlouquecia as pessoas que nele viajavam: “há coisas que não se vêem porque estão longe, há outras que não se entendem porque passam demasiado rápido” (p. 102). Notemos que esta rapidez narrativa acaba também por deixar pouca margem à ironia, habitual nos textos do autor. Pois a ironia é um modo de julgar os eventos.


Mitologias do século XXI

Mitologias revisita criticamente alguns mitos ou elementos mitológicos importantes na Europa. Não apenas os oriundos da tradição greco-latina, mas também de outros tempos e latitudes. Mitologias é um título suficientemente elástico para poder incorporar referências filosóficas e civilizacionais exteriores à tradição clássica. O primeiro elemento mitológico revisitado é o Labirinto. Fala-se da Revolução, que ganhou, em 1789, genericamente, o significado e o simbolismo que hoje possui. Fala-se do gigante – homem com 2,35 metros – que a comanda. Existe um Homem-do-Mau-Olhado perseguido pela comunidade, como tem acontecido durante séculos, de um modo mais ou menos violento. Discute-se a urgência moderna de mais velocidade, que fez com que o ser humano desenvolvesse comboios ultrarrápidos. Da embriaguez – enlouquecedora – que a velocidade provoca. Da necessidade que alguns humanos, nesta ficção, sentiram de inventar o cinema e máquinas voadoras para fugir da Revolução. Aborda-se a Psiquiatria e os eletrochoques, a lobotomia, a invenção de patologias, a obsessão com o comportamento em linha reta, sem desvios, normal. Uma das personagens deste mundo louco é Charcot, criador de uma maravilhosa máquina que faz lobotomias (uma dentre as várias anacronias que reconhecemos na obra). Algumas personagens visitam a casa-das-máquinas-da-história, pois a História tem um motor, como se os eventos históricos fossem produzidos com a regularidade de um mecanismo. A máquina é, talvez, a mitologia que mais peso tem na economia diegética da obra (um motivo aliás recorrente no território textual de Gonçalo M. Tavares). A Revolução matava todos aqueles que tinham esse comportamento tão humano como tremer, sobretudo porque, por mais que o tentemos domesticar, o corpo é imprevisível. A nossa vontade de controlo e previsibilidade, em resposta à qual construímos tantas máquinas, termina no corpo.


A cada um o seu O-kee-pa

Não havendo espaço para falar de todas as mitologias, centremo-nos no destino do Homem-do-mau-olhado. Ele era acusado de causar impotência àqueles para quem olhava, até mesmo às máquinas para as quais olhava. Foi finalmente preso. Os juízes acusaram-no, estando ele de costas para eles, como se fazia “às antigas bruxas” (p. 133). A pena consistia em cegá-lo, mas antes disso quiseram castigá-lo, submetendo-o a um ritual de iniciação de uma tribo índia chamado O-kee-pa. Este ritual consistia (como se refere num parágrafo em itálico, provavelmente uma citação de Peter Sloterdijk) em retalhar as costas e o peito do “futuro guerreiro” (p. 136) com uma “faca de serrilha”, nos quais se enfiavam “espetos de madeira”, aos quais se uniam “correias fortes presas à trave da tenda, o que permitia içar do chão o iniciado, a cujas pernas eram ligados pesos que aumentavam a sua agonia” (idem). Este ritual sádico não terminava aqui: “Depois o prisioneiro era feito girar até perder totalmente a consciência” (idem). O corpo do Homem-do-mau-olhado, como o do iniciado índio, deveria resistir à força que puxa para cima e aos pesos que atraem para baixo: “Se o Homem-do-mau-olhado resistir a estas duas forças ao mesmo tempo, merece ser aceite pelos outros homens como um dos seus” (idem). Talvez viver seja um pouco isto: resistir aos pesos, às desgraças, que puxam para baixo, ao mesmo tempo que devemos resistir às fugas do mundo que nos projetam para o alto, que, no limite, nos fazem planar em vez de existir. Viver é procurar um equilíbrio entre estas duas forças, mantendo ativa a lucidez e vivo o desejo. O Homem-do-mau-olhado sobrevive a esta tortura, e ainda a uma outra, que consistia em correr em círculos, até à exaustão, com os pulsos presos a cordas ligadas a uma estaca de madeira, “exactamente como se faz a um cavalo que se quer domar” (p. 139). Estes rituais visam domesticar o instintivo e forte em cada um. O Homem-do-mau-olhado sucumbe, “está domado, sem consciência, com feridas por todo o corpo” (idem). Depois da tortura, o Homem-do-mau-olhado, cego, amansa, casa e tem filhos. Podemos ler este episódio como uma parte da investigação de longo curso levada a cabo no território textual de Gonçalo M. Tavares sobre a perversidade dos mecanismos aperfeiçoadores do humano.


Publicado no ionline


18.5.17


Não era porque o fim de milénio fosse propício ao apocalipse. É-o o adolescente, chamado a viver, esperando força para sempre, percebendo que o mundo não é o sábado dos sábados, nem claro e previsível. Ele só quer um pouco de ordem e paz. Mas a vida não aceita intimidade excessiva: se muito próximos, não conseguimos ver; se muito optimistas, susceptíveis a quedas aparatosas. Depois é escolher os modos de dirigir a desilusão, com mais ou menos calma, mais ou menos ética.





13.5.17

O homem anoitecido

O casaco

Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado e sujo.
Tentou sair da angústia.
Isto ser:
Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no lixo.
Ele queria amanhecer.

Manoel de Barros, Poemas rupestres



6.5.17

Amor, breve nota

És para ele, pois, o amor para lá de todas as palavras, só que tu própria nunca o percebeste. Para todos nós é sempre incómodo que nos atribuam um alto significado. Preferimos ser amados de uma forma moderada. Gostamos todos mais da comodidade. Ninguém gosta que o outro o considere como que sagrado, porque isso o obriga a ser um modelo. Ser um modelo, ser um paradigma é uma grande maçada, como bem se percebe. Eis o que faz de ti, cara Edite, uma grande, uma enorme pecadora.

Robert Walser, O salteador



4.5.17

Um clássico é um texto que nunca se cala

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu—não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa—existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso.)

E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?


Alberto Caeiro, Poema XXXII do "Guardador de Rebanhos"



28.4.17

O homem interior

Não ter carinho por si mesmo era o começo de uma crueldade para com tudo.


Clarice Lispector, A maçã no escuro



24.4.17

A casa da infância

Na dissolução de toda a forma, à luz crepuscular de uma incerteza embotada que ilumina um mundo de espectros, o homem, tal como uma criança perdida, caminha às apalpadelas, seguindo o frio de uma qualquer logicazinha de curto fôlego, caminha às apalpadelas numa paisagem de sonho a que chama realidade e que, no entanto, não passa de um pesadelo para ele.


Hermann Broch, Os sonâmbulos. Huguenau ou o realismo


O feio é o tempo


Sim, Excelência. São as pessoas e as coisas feias que nos fazem sentir o tempo. Sem coisas feias não apenas os relógios não mexeriam os ponteiros, a própria Terra não se moveria. O feio é o tempo, o tempo é o feio. E assim sucessivamente. É a minha definição.


O torcicologologista, Excelência, Gonçalo M. Tavares



18.4.17

Nietzsche, dois aforismos

A náusea diante da porcaria pode ser tão grande que nos iniba de nos lavarmos - «de nos justificarmos».

Alegrar-se com um elogio é, para muitos, apenas uma delicadeza do coração - precisamente o oposto de uma vaidade do espírito.


Para além do Bem e do Mal



11.4.17

One time





One eye goes laughing,
One eye goes crying
Through the trials and trying of one life
One hand is tied,
One step gets behind
In one breath we're dying

I've been waiting for the sun to come up
Waiting for the showers to stop
Waiting for the penny to drop
One time

And I've been standing in a cloud of plans
Standing on the shifting sands
Hoping for an open hand
One time





18.3.17

O sábio

Um sábio levantar-se-á mais prontamente para impedir uma porta de bater do que para se opor a um homicídio que se cometa sem grande alarido na divisão ao lado. É que quem dedica a sua vida aos cálculos e à meditação conhece o preço do silêncio. Cabe aos eternos distraídos entregar-se às distracções...

Henri Michaux, Fatias de sabedoria



17.3.17

Mundo interior

Não saio de dentro de mim nem pra pescar.

Manoel de Barros, Livro sobre nada



12.3.17

Ser peso

No mesmo prédio, numa ala transversal, vê-se uma rapariga na cozinha; a mãe foi às compras, a rapariga está a escrever o diário à socapa, tem 26 anos, está desempregada. O último registo, de 10 de Julho, rezava assim: Desde ontem à tarde sinto-me outra vez melhor; mas os dias bons agora são tão poucos! Não posso desabafar com ninguém como eu queria. Por isso decidi-me a escrever tudo. Quando me vêm os ataques, não sou capaz de fazer nada, as mais pequenas ninharias causam-me grandes dificuldades. Nessas alturas, tudo o que vejo provoca em mim novos pensamentos e não consigo libertar-me deles, fico muito excitada e só dificilmente me consigo obrigar a fazer qualquer coisa. Um grande desassossego interior empurra-me para aqui e para acolá e, no entanto, não consigo levar nada até ao fim. Por exemplo: de manhã cedo, quando acordo, tomara não me levantar de todo; mas obrigo-me a isso e tento dar-me coragem. Mas logo o vestir implica um grande esforço e demora muito tempo, porque entretanto me passam outra vez pela cabeça montes de ideias. A ideia de fazer qualquer coisa ao contrário e vir depois a causar algum prejuízo não pára de me atormentar. Muitas vezes, quando ponho um bocado de carvão no fogão e alguma faúlha salta, fico toda assustada e depois examino-me toda a ver se nada pegou fogo e se dei cabo de alguma coisa, podia ter ateado um incêndio sem dar por isso. E depois é isto o dia inteiro; tudo o que tenho de fazer parece-me um autêntico peso e quando, apesar disso, me forço a fazê-lo, apesar do muito que me custa a fazê-lo depressa, demora tudo imenso tempo. Assim se vai passando o dia, e eu acabo por não fazer nada, porque em todos os afazeres fico imenso tempo perdida nos meus pensamentos. E quando depois, apesar de todo o esforço, não consigo sair-me bem na vida, fico desesperada e farto-me de chorar. Os meus ataques foram sempre deste género, começaram a aparecer no meu 12.º ano de vida. Os pais acharam sempre que era tudo fingimento. Aos 24 anos tentei pôr fim à vida por causa destes ataques, mas salvaram-me. Naquela altura não tinha ainda tido relações sexuais e punha nisso todas as minhas esperanças, infelizmente em vão. Sexo só tenho tido com conta, peso e medida, e nos últimos tempos já nem quero saber disso para nada, também porque me sinto fisicamente muito fraca.
14 de Agosto. De há uma semana para cá estou outra vez muito mal. Não sei o que vai ser de mim se isto continua assim. Acho que se não tivesse ninguém no mundo, não hesitaria em abrir a torneira do gás, mas assim não posso fazer uma coisa dessas à minha mãe. Mas desejo a sério ter uma doença grave da qual viesse a morrer. Escrevi tudo exactamente como sinto cá dentro.

Alfred Döblin, Berlin Alexanderplatz



10.3.17

Em média: as pessoas aperfeiçoam mais os engenhos
mecânicos da corrupção e das traições mesquinhas
que os da hospitalidade. Os perigos
que observam um corpo são produzidos incessantemente
em qualquer fábrica desconhecida
mas eficaz.
Há muito perigo no mundo
- terás pois (não te aborreças já) a tua bela parte.

Uma viagem à Índia, II.31, Gonçalo M. Tavares



14.2.17

Virgílio

Morremos da infância quando pela primeira vez nos perdemos na cidade. E na segunda vez morremos de amor. E na terceira, de tudo morremos, o que é morrer simplesmente.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca



10.2.17

Thomas de Quincey

O pescoço ou as costas são menos amnésicos do que o cérebro. E até o pénis, o ânus, a vagina e os seios são menos amnésicos do que o cérebro.
O toque é menos esquecido pelo corpo que a resolução de uma equação de matemática ou um verso.
E um verso cortado à mão é mais forte que um verso cortado com uma máquina de agradar.


Biblioteca, Gonçalo M. Tavares


8.2.17

Pensar selvagem

O que choca nos seus livros, é menos a ausência de rigor do que o carácter selvagem das importações intelectuais.

Você diz «selvagem». É correcto. Observo uma espécie de lei pirata que reconhece mal a propriedade das origens. Não, de modo algum, por espírito de contestação. Mas por imediatez do desejo, por avidez, de certa maneira. É por avidez que me apodero por vezes dos temas e das palavras dos outros. De resto, eu próprio nunca protesto quando me «tomam» qualquer coisa.

Roland Barthes, O grão da voz


Sombras e desastres

Os homens, afinal, são todos iguais e nenhum pode fazer bem a outro. Quando estava no palco, tudo era calmo, quando estava ao pé de um homem tudo era escuro. Viver significava comer e comer significava viver. Um dia, alguém se suicidara por causa dela; este gesto não a afectara por aí além, mas costumava pensar nele de bom grado. Tudo o mais mergulhava na sombra e, nessa sombra, os homens passavam como sombras mais carregadas fundindo-se umas nas outras, procurando, depois, dissociar-se novamente. Tudo aquilo só provocava desastres, como se precisassem de se castigar a si próprios quando procuravam o prazer juntos uns dos outros. Sentia-se um tanto orgulhosa por causar desastres também e quando o tal rapaz se suicidara vira nisso uma espécie de expiação e de indemnização que Deus lhe conferira em virtude da sua estirilidade.

Hermann Broch, Os sonâmbulos. Esch ou a anarquia.




1.2.17

Decência, envelhecer, ordem

Esch, sentado na borda da cama, examinou-a à luz vacilante da vela. Em cima da colcha, desenhou com um dedo um três e um sete. Devia ter-lhe trazido um bolo com trinta e sete velas; ou antes, não, ela gostava de esconder a idade, ter-se-ia zangado. Fitou-lhe as feições espessas e inertes e, de súbito, desejou vê-la muito mais velha ainda. Sem que ele soubesse porquê, isso ter-lhe-ia parecido muito mais seguro. Se porventura um toque de varinha mágica a remoçasse, de súbito, se ela ali estivesse no seu vestido de lantejoulas da juventude, o sacrifício desapareceria. E ele precisava daquele sacrifício, era mesmo necessário envelhecer, com a sua dedicação àquela mulher muito mais velha, para que a ordem reinasse no mundo e para que Ilona não tivesse de recear mais as facas, para que o estado de inocência fosse dado a tudo que é vivo e para que mais ninguém fosse condenado a apodrecer na cadeia. Pois bem, podiam estar sossegados, a Sr.ª Hentjen não tardaria a ficar muito velha e muito feia. E o mundo apareceu-lhe então como um corredor sem fim, liso e polido como um espelho. E disse sonhadoramente:
— Devíamos forrar a sala de oleado escuro. Ficava muito bonita.

Hermann Broch,
Os sonâmbulos. Esch ou a anarquia



Um poeta que escreva como um grego, como um homem

Em qualquer sociedade, e em qualquer época, há três sociedades e três épocas. Há, em primeiro lugar, e subjacente a tudo, a humanidade e esse tempo indefinido da sua duração a que a nossa linguagem contingente chama eternidade. «O Homem tem a eternidade» diz Browning, embora seja possível que ele tenha querido dizer algo diferente. Há, depois, e acima dela, a civilização a que essa sociedade e essa época pertencem. Há, por fim, as pequenas coisas específicas do aqui e agora (...)
Estes três níveis podem ter uma estrutura semelhante ou diferente.

Na Grécia antiga, eram praticamente contínuos. A Grécia e a civilização eram coextensivas, ou consubstanciais. A Grécia antiga e a sua civilização, sendo o início da sociabilidade crítica, ou seja, da própria civilização, eram idênticas à substância da humanidade civilizada. Assim, quando um poeta escrevia como um grego, escrevia como um homem. Este Paraíso não foi recuperado. Os arcanjos expulsaram dele o Homem e guardam eternamente as suas portas inúteis.
Um poeta grego, para ser célebre, tinha de adaptar-se a um ambiente. Nós temos três ambientes à escolha. Para nos adaptarmos a todos eles, cada um de nós tem de ser uma trindade, o que é demais até para a loucura.
Fernando Pessoa, Heróstrato


18.1.17

Pasolini, alguns versos

(...)

Magnífica e mísera cidade,
que me ensinaste o que os homens,
alegres e ferozes, aprendem em crianças,

as pequenas coisas em que a grandeza calma
da vida se descobre, como, por exemplo,
andar, duro e lesto, entre a multidão

das ruas, dirigir-se a outro homem
sem tremer, não ter vergonha
de verificar o dinheiro contado

com dedos lentos pelo empregado
que foge, suando, rente às fachadas
numa cor eterna de Verão;

defender-me, atacar, ter
o mundo diante dos olhos e não
apenas no coração, compreender

que poucos conhecem as paixões
em que vivi:
que, não sendo meus irmãos, são, porém,

meus irmãos, porque sentem, justamente,
paixões de homens
que, alegres, inconscientes, inteiros,

vivem de experiências
que nunca vivi.

(...)

Pier Paolo Pasolini, "O pranto da escavadora"



7.1.17

Jenny Hval de volta



Like capitalism
It works like unrequited love that way
It never rests
Just like I need the love I'm not getting from you
And all the people in the world
Are between you and I in that way
And in the way of love

You must be disgusted
But I need to keep writing because everything else is death
I'm self-sufficient, mad, endlessly producing
I don't need money, I just need your love
Or your approval, anything

Like capitalism
It works like unrequited love that way
It never rests
Just like I need the love I'm not getting from you
And all the people in the world
Are between you and I in that way
And in the way of love

Any sign is a promise of love, of being exposed
A stage ritual undressing taking a place of consumation
I'm here writing, working, making myself
Available for love
Making myself available for love
Because I love you
Because I love you
Because I love you

I just need a sign
Any recognition is a reward
Because I love you



6.1.17

Ler

Como ler? 

Letra a letra, sílaba a sílaba. Assim lêem as crianças. E os poetas, alguns.

Mas ler nem sempre é isso. Ler é não ver o rio Tejo, é ver as conquistas, as naus, e o mais. Ler é um desvio, como o olhar. É olhar para outro lado, uma actividade vesga. Não somos tão bons observadores como as crianças. Desaprendemos essa objectividade. O nosso olhar erra.

Quem lê convoca o que já sabe. Ligar é importante. Tudo parece ligado com tudo. Mas tudo, ao mesmo tempo, está desligado de tudo.

Quando leio isto:

Maria Bloom estava apaixonada e, como na inclinação de um caminho, os seus seios e a sua boca inclinavam-se para o desejo. Certas coisas invisíveis vêem-se (A perna esquerda de Paris, Gonçalo M. Tavares),

não releio nenhum outro livro. O meu desvio é outro. Só faço uma ligação com a adolescência, quando o desejo se insinuou, pela primeira vez, na inclinação dos seios e da boca das raparigas. E abria-se aí uma promessa infinda de felicidade (a felicidade tem de ser eterna, senão não é nada, e não é preciso sermos gregos para percebê-lo), o mundo era uma tarde de beijos e excitação; era um verão que, por direito, jamais acabaria. Sabíamos reconhecer o desejo, sem ninguém no-lo ter ensinado; pois certas coisas invisíveis, coisas que outros sentem, vêem-se.

Por isso ler é uma actividade interessante; uma errância que nem sempre o leitor controla. O texto autoriza a errância; é como um filho que, depois de ter saído da maternidade, se afasta dos pais e vai à sua vida.