8.9.18

Quando fala de desenho, Michaux fala, muitas vezes, da criança

Amuo de criança, arma para quem dispõe de tão poucas, que muitos miúdos e miúdas acabam por descobrir mais cedo ou mais tarde, e contra a qual não haverá defesa fácil.
Recusa. Não à participação, à comida, ao falar, ao andar, às próprias brincadeiras.

Mais vigorosamente do que se julga, a criança sente a tentação de parar, de impedir que a encaminhem para o desenvolvimento, por onde sempre a levam rumo aos esforços que nunca mais acabam, à aprendizagem cada vez mais complicada... Irá ela continuar? Ou parar?

Henri Michaux, O retiro pelo risco (antologia)


2.9.18

Cristão e anarquista (ainda nem começamos a entender, nem nunca acabaremos)

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os
outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

Alberto Caeiro, in «O Guardador de Rebanhos — Poema XXXII»


26.8.18

Quando se lê Herberto como quem lê Mário-Henrique

No gracioso ano de 1951, fomos todos ver um Académica-Benfica, em Coimbra. Éramos um grupo que se tinha vindo a preparar desde muito cedo, com copos de tinto e pasteizinhos de bacalhau. Foi uma boa preparação, porque, quando chegámos lá, estávamos prontos para uma quantidade de coisas. Para gritar, por exemplo. Começámos a gritar. De repente, alguém achou que era necessário as pessoas darem porrada umas nas outras. E então demos porradas umas nas outras. Depois, acabou. Nunca mais fui ao futebol. Tinha sido divertido de mais, e eu receava dedicar o resto da minha vida às fascinações do tinto, do grito e da batatada no meio da cabeça.

Herberto Helder, em minúsculas, “Um passeio no campo”


21.8.18

Isto, mil vezes isto

Ele suporta mal qualquer imagem de si próprio, sofre ao ser citado. Considera que a perfeição duma relação humana depende dessa ausência da imagem: abolir entre si, de um para o outro, os adjectivos; uma relação que é adjectivada está do lado da imagem, do lado da dominação, da morte.

Roland Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes

20.8.18

Sedativo moral, sedativo moral

E vê que, ao fundo, algures num grupo de gente obscena,
um líquido passa pelas bocas
de todos. Líquido que acalma e une, transformando
fortes inimizades em aproximações neutras.
Com os efeitos de um álcool manso, um grupo arruma, assim,
discretamente, a violência, apertando as mãos,
dobrando as costas, sorrindo sorrisos.

Uma viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares

19.8.18

Amor e depois

Cada um tem o privilégio de sentir tudo, um com o mundo, até ao fechamento da noite. Ela não é eterna, como nenhum desencanto, vem a manhã de um destino particular a cumprir, havendo disciplina e entusiasmo. Um destino particular é o que se tem a cumprir depois do destino comum. Depois da totalidade, a melancolia do fragmento.

Poucos como Char dizem o impossível. 

18.8.18

A plenitude

Cada um de nós vive até à noite que completa o amor. Sob a harmoniosa autoridade de um destino comum a todos, o destino particular cumpre-se até à solidão, até ao oráculo.

René Char, Furor e mistério

Os luxos e a compreensão

É claro que, em boa medida, o luxo do pensamento se relaciona com o luxo do café, dois luxos da civilização. Que, muitas vezes, obscenamente, esconde ainda um outro luxo, o do masculino.

Quanto a compreender, o melhor será segurar o coração.

16.8.18

Luxos do pensamento

compreender o quê?
isso de vida e de morte, esses porquês
escute, Senhora D, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, hein?


Hilda Hilst, A obscena Senhora D

15.8.18

Palavras-de-ordem, factos, ideias

A respeito da crónica do António Guerreiro, duas ou três coisas: que há um sistema-enxurrada que nos leva todos a comentar, a proferir palavras-de-ordem, em estado exaltado, é óbvio. E que essa enxurrada institui o privilégio de uns quantos, também é certo. Porém, que a existência da hipertrofia não nos convença de que alguma vez levantamos as saias aos factos. Nem que nos faça esquecer que uma ideia não é uma ideia se não for um exercício de soberania sobre si próprio.

11.8.18

O que se prefere para outros

Custódio era o ponto onde o coração de Quina vacilava. Não casou, pois havia presenciado a desgraça de sua mãe, mas amou aquela criatura, com uma cegueira que a fazia mulher destrambelhada, ainda que os seus inimigos acentuassem a transformação com acinte. É com melancolia e felicidade que vê aquela falha, para si mesma, por certo, a mais decisiva. Preferia a brutalidade sem cálculo – apesar de tudo – ao fingimento e à manipulação, os quais, todavia, a fizeram multiplicar os seus bens. Se não se pode ser ingénuo nos negócios, pode-se sê-lo quando estão em jogo bens mesquinhos ou sentimentos, segundo uma hierarquia axiológica decerto duvidosa. Mas talvez isto nos diga como deixar uma natureza entregue a si mesma, uma natureza que não se moldou, não se refez, por uma reserva de amor que em nenhum outro lugar desaguava, tenha o seu quê de perigoso. Quina fez os outros segundo os seus próprios fins, mas renunciou fazer o mesmo com Custódio, cujas ingenuidade e falha de arteirice não poderiam tornar uma verdadeira ameaça, apenas provocariam algum vexame e, na hora da morte, nojo. Quina, de outro ângulo, fez uma não-ameaça que pudesse proteger, mantendo-a infatigavelmente na esfera repetitiva do afecto.

8.8.18

Quina e Custódio

— O que me deixa vossemecê quando morrer?
— Que me és tu? — disse Quina. — Criei-te e dou-te de comer. Que esperas mais?
— Então que estou aqui a fazer? — bradou o moço, com escândalo. E ela riu-se, ainda que a desajeitada punhalada, por muito tempo ou para sempre, tivesse de sangrar dentro de si.
Aquela ingenuidade, aquela falta de arteirice e de dissimulação eram, de resto, menos desfavoráveis para Custódio do que a astúcia mais consumada. Mesmo quando a sua ambição eclodiu e se fez apresentar com favores de malícia, uma ou outra inesperada argúcia, ela acreditava-o apenas instrumento de conselheiros mais hábeis, e não impulso da sua própria natureza tão singela.

Agustina Bessa-Luís, A sibila


2.8.18

Um outro modo de voltar ao início deste blogue, ou Kavafis via-Adília

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

Adília Lopes, Florbela Espanca Espanca




28.7.18

Luis Bernal





A doença e a miséria outorgaram-lhe poucos anos, e, em cada ano, poucos meses, durante os quais, enfebrecido e esfomeado, ele teve o tempo de pintar, entre outros, um quadro magistral, destinado a exercer repercussão inigualável em qualquer homem verdadeiro, quadro esse pelo qual eu daria, se as tivesse, todas as telas modernas: o Homem agrilhoado. Um céu puro, azul sombrio, cambiante, alto, profundo, interminável, perigoso, distante, um céu que se retira diante da criatura. O desgraçado tem assim de ficar só. No céu, um enfermo, corroído por dentro e por fora, no corpo e nas vestes. Cai, porque um desgraçado nem por um instante pode parar na sua queda. De braços estendidos, traz neles grilhetas. O espaço crucifica-o. Para ele não há repouso, não há suporte ou apoio, da família, da sociedade, da segurança social, duma organização. Há apenas o espaço indiferente que o não distingue duma folha a esvoaçar, dum excremento de pássaro a cair, dum aerólito.
Este quadro, de uma magnetizante verdade, é toda a sua vida. Acrescentar-lhe o quê? E por que razão não se poderá ser o homem de uma obra só? Por que razão mais que uma obra para um só destino?


Henri Michaux, O retiro pelo risco (antologia)



26.7.18

Cegueira e pavor


Digamos que és cego, isto é, és mortal; é que mesmo o momento só te é dado viver, nunca compreender. Abrupto e inexperiente porque não vês o que se congemina noutro lugar e, por isso, racionalmente, procuras ou reclamas. E tornas-te ríspido devido ao pavor de errar — e quando muito se pode resolver na estupidez que avança, na aceitação da cegueira e de que, de facto, não tens certezas quanto ao como deves viver. Cruzas-te com o acaso e trava-lo, porque te achas sábio e, com arrogância, maior do que o teu destino. Mas talvez nem tudo deva ser tão feroz, pensas, com a insolência prévia à próxima interrupção.

Auto-sabotagem

INTERRUPÇÃO

O trabalho dos deuses nós o interrompemos,
abruptos e inexperientes seres do momento.
Nos palácios de Elêusis e Ftia,
Deméter e Tétis empreendem boas obras
em meio de enormes chamas e fumo denso.
Mas sempre surge Metanira
dos quartos reais, desgrenhada e aterrada,
e sempre Peleu se assusta e intervém.

Kaváfis, 145 poemas

19.7.18

Desejo, esquecimento e pântano

O desejo é um modo de a realidade dizer que existe. O que espera de ti, não sabes. Mas é claro que o melhor é continuares no mundo que bem conheces. Aí ninguém te pode acusar de nada, tornas-te o ser puro ainda que o teu mundo se parta em dois. Não corras o risco de seres quem não sabes, dizes. A salvo do que desconheces ainda tens hipótese de seres tu, pensas, essa castidade ilude-te quanto à santidade. Esquece as tuas referências, as memórias em que te julgavas de substância divina, tenta o inumano, o demónio que escolhe. É preciso que julgues, é preciso que julgues.

Danças para te salvares enquanto morres. Deve ser isso. Ou então vives próximo de uma máquina que esconde tudo com eficácia. Uma máquina como o cérebro, também capaz de tudo esconder ainda com mais eficácia. Porém, pensavas que o pântano, esse sim, é que era o mais eficaz no esquecimento.



(Fotograma de Psycho, Hitchcock)


18.7.18

Formas de digerir a desilusão, hey, children are the only ones who blush, dear Mark!

Standing on the corner,
Suitcase in my hand
Jack is in his corset, and jane is her vest,
And me Im in a rocknroll band hah!
Ridin in a stutz bear cat, jim
You know, those were different times!
Oh, all the poets they studied rules of verse
And those ladies, they rolled their eyes

Sweet jane! whoa! sweet jane, oh-oh-a! sweet jane!

Ill tell you something
Jack, he is a banker
And jane, she is a clerk
Both of them save their monies, ha
And when, when they come home from work
Oh, sittin down by the fire, oh!
The radio does play
The classical music there, jim
The march of the wooden soldiers
All you protest kids
You can hear jack say, get ready, ah

Sweet jane! come on baby! sweet jane! oh-oh-a! sweet jane!

Some people, they like to go out dancing
And other peoples, they have to work, just watch me now!
And theres even some evil mothers
Well theyre gonna tell you that everything is just dirt
Yknow that, women, never really faint
And that villains always blink their eyes, woo!
And that, yknow, children are the only ones who blush!
And that, life is just to die!
And, everyone who ever had a heart
They wouldnt turn around and break it
And anyone who ever played a part
Oh wouldnt turn around and hate it!

Sweet jane! whoa-oh-oh! sweet jane! sweet jane!

Heavenly wine and roses
Seems to whisper to her when he smiles
Heavenly wine and roses
Seems to whisper to her when she smiles
La lala lala la, la lala lala la
Sweet jane
Sweet jane
Sweet jane


17.7.18

Sweet sweet Jane

Anyone who's ever had a heart
Wouldn't turn around and break it
And anyone who's ever played a part
Wouldn't turn around and hate it
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

You're waiting for Jimmy down in the alley
Waiting there for him to come back home
Waiting down on the corner
And thinking of ways to get back home
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Anyone who's ever had a dream
Anyone who's ever played a part
Anyone who's ever been lonely
And anyone who's ever split apart
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Heavenly widened roses
Seem to whisper to me when you smile
Heavenly widened roses
Seem to whisper to me when you smile
Sweet Jane
Sweet, sweet Jane



Bartleby, Bloom, Ulisses, Ulrich, homens que só têm o chão

Bartleby é o Celibatário, aquele de quem Kafka dizia: «Só existe o chão que faz falta os seus dois pés, e que pode ser ponto de apoio às suas duas mãos» — aquele que se deita na neve no Inverno para morrer de frio como uma criança, aquele que apenas tinha de passear, mas que podia fazê-lo num lugar qualquer, sem se mexer. Bartleby é o homem sem referências, sem posses, sem propriedades, sem qualidades, sem particularidades: ele é demasiado liso para que lhe possamos pregar uma particularidade qualquer. Sem passado nem futuro, ele é instantâneo. I PREFER NOT TO é a fórmula química ou alquímica de Bartleby, mas podemos ler ao contrário, I AM NOT PARTICULAR, eu não sou particular, como o complemento indispensável. É todo o século XIX que será atravessado por esta procura do homem sem nome, regicida ou parricida, Ulisses dos tempos modernos («Eu sou Ninguém»): o homem esmagado e mecanizado das grandes metrópoles, mas de onde se espera, talvez, que saia o Homem do futuro ou de um novo mundo.

Deleuze, Crítica e clínica

16.7.18

O chão, a única propriedade

O chão não se derrota, aguenta toda a carga, não se queixa. Não se cansa de ver, é firme — ensina-te a mortalidade, és um peso, bem podes saltar de uma ponte que acabarás por cair. Ele espera-te, não conhece o fútil, apenas o urgente, seguros tanto os que estão num festa como os que se levantam com pressa. Podes perder tudo, depois de tantas traições, fadiga, falhanços, depois de estares cansado tanto porque trabalhaste muito, como porque se infiltra, não sabes de que forma, ferrugem nas juntas da vontade, depois de não teres mais nada nem ninguém a quem te possas ligar, serás sempre um peso ligado ao chão. O chão é a propriedade que reconheces depois de perdido o que tinhas por essencial. Mas ele esteve sempre ali, foi sempre a propriedade que mais consistência dava às tuas ligações. É ele quem te segura depois de observares os factos vezes sem conta, instigando o confronto com o fragmento. Depois da última emoção, da impossibilidade de somar mais uma embriaguez, quando te tornares paixão frenética sem ligação que te devolva o corpo e a sua energia, lembra-te do chão, da mentira de tantas emoções, de tanto amor.

13.7.18

A também justa homenagem ao chão


Chão

Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.

Gonçalo M. Tavares, 1


11.7.18

A partir de Agustina

O ponto máximo de perversidade é o pressentimento da força — a cumplicidade é só uma estratégia para enfraquecer, evitando-se obstáculos futuros. As almas muito inseguras que sem a caução alheia para cada passo — incluindo os que a própria consciência julga como perversos — são incapazes de fazer o mínimo. Uma insegurança que é sobretudo filha do ressentimento e da manha. Farejam os que estão em suspenso para o exercício do seu magistério mesquinho. Como sabemos, o poder ganha-se muitas vezes não no incremento da força individual, antes na subtracção da força dos que podem ameaçar. O pequeno ódio fomentado com astúcia, o acesso de febre fomentado por certas palavras, envoltas em celofane, são o necessário para conquistar mais um palmo de terreno, num mundo pequeno para pessoas com sapatos altos. A simpatia como técnica negocial, na expectativa de lucros futuros, e não propriamente entrega ingénua ou intencionalmente bondosa. No mundo existem carros longos e comentários aprazíveis. Hoje é mais um dia em que tudo se joga ao milímetro: uma achega, palavras doces como veneno, o uso ponderado do elogio, em busca da cumplicidade que caucione o mal, e, em consequência, alguém irá cair, mais ou menos devagar, receberemos essa energia com gáudio.

Caminham como se o mundo fosse revestido a alcatifa e dividem os homens entre os que pisam a terra e os que sobrevivem uns degraus acima do ar. 


6.7.18

O microscópio de Agustina


Custódio não bebia. Repugnava-lhe o vinho; o velho hábito das casas de lavoura, onde o criado mais antigo fica incumbido de descer à adega a encher a cântara para as refeições, era cumprido por ele. Quina sabia que ele não aproveitaria jamais aquele direito quase oficial dum gole extra à beira da pipa. Porém, não raro subtraía algumas canadas para Libória, que gostava de fazer pactuar consigo, pois tinha uma necessidade absoluta de angariar protecção na consciência dos outros, e, pela coacção da cumplicidade, fazê-los seus aliados, sobretudo quando os pressentia inimigos.

Agustina Bessa-Luís, A Sibila