23.2.24

Bairro

O rapaz acabou de almoçar
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir no cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor,
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.

Adélia Prado, Tudo que existe louvará

15.2.24

Todo um século

nébulas e rotas inversas
são linhas de horizonte no estômago
de um lado relógio sem âncora
do outro ausências sem retorno
entre buzinas e acessos viris
olhamos no pára-brisas
a doença recém-chegada
ranho miasmas restos do dia
todo um século de óculos escuros
ou amputação do esquecimento

Nunes da Rocha, 42 poemas de um orate em flauta

Reza para as quatro almas de Fernando Pessoa

Da belíssima “Ode à noite antiga”
resulta que eu entendo, limpo de esforço
e vaidade, se nos fosse possível:
da oração verdadeira nasce a força.
Ninguém se cansa de bondade e avencas.
Os rebanhos guardados guardam o homem.
Todos que estamos vivos morreremos.
Não é para entender que nós pensamos,
é para sermos perdoados.
Pai nosso, criador da noite, do sonho,
do meu poder sobre os bois,
eis-me, eis-me.

Adélia Prado, Tudo que existe louvará

11.2.24

Módulo de verão

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.
Nem um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarraxadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
– chamado canto – cinzento-seco, garra
de pêlo e arame, um áspero metal.
As cigarras têm cabeça de noiva,
as asas como véu, translúcidas.
As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
Quem não quis junto deles uma agulha?
– Filhinho meu, vem comer,
ó meu amor, vem dormir.
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.

Adélia Prado, Tudo que existe louvará

Contabilidade mortal


The Mekons, «32 weeks»

7.2.24

O impreciso é melhor que o certo

Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteiro 
Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim, 
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, 
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta, 
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele, 
Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto 
E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir...

E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver
São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta,
E eu, parado, mole, adormecido, 
Tenho o mar embalando-me e sofro...

A casa branca nau preta...
Felicidade na Austrália...

Versos de «Casa branca nau preta», Álvaro de Campos

5.2.24

Dos Jefferson Airplane até hoje

To be loving you
It'll all be there

I'm so full of love
I could burst apart
And start to cry

31.1.24

Em síntese

Os animais não têm inconsciente, porque têm um território. Os homens não têm um inconsciente senão desde que já não têm um território.

Jean Baudrillard, Simulacros e simulação, trad. Maria João da Costa Pereira

«Tenho missão tão grave sobre os ombros / e quero só vadiar»

Se olho atentamente a erva no pedregulho
uma voz me admoesta: mulher! mulher!
como se me dissesse: Moisés! Moisés!
Tenho missão tão grave sobre os ombros
e quero só vadiar.
Um nome para mim seria A BOCA
ou A SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA
ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.
Gosto tanto de feijão com arroz!
Meu pai e minha mãe que se privaram
da metade do prato para me engordar
sofreram menos que eu.
Pecaram exatos pecados,
voz nenhuma os perseguiu.
Quantos sacos de arroz já consumi?
Ó Deus, cujo Reino é um festim,
a mesa dissoluta me seduz,
tem piedade de mim.

Adélia Prado, Tudo que existe louvará

30.1.24

Céline: ronda e esquecimento

— Nosso cabo! Quando a alvorada tocar leve-o à vestimenta! Entendido?... Pobretanas é que ele não parece nada... não!... lá isso!... É uma coisinha de sonho! E tope-me agora o perfil! Já se lhe foram as cores, palavra! Está aqui, está no hospital! O que vai ser de ti, passarinho, quando te obrigarem a voar!

(...)

Ah! Fanfarrões das dúzias, vão só ver como elas mordem... até se vêm todos, de morte. Esse treino! Esse treino! Direita volver! Direita volver! Arma ao ombro!... Que eu veja um só a gozar o pagode! Meheu, não quero molenguices!

(...)

— É carne para canhão! Garante o Governo. Quando dás por ela já não existes! Já vinhas tísico...
Acertava-nos o passo à força de arrotos gritados bem alto... Oache... Oache!... A interromperem-lhe o calor oratório...

(...)

A gente lá se esgueirou... O mais rente à parede que era possível. Que lá do alto caía urina... chuva é que não... uma cascata, mijo de todos os andares. Que aguaceiro estranho nos batia. E para me não safar do chuveiro diversas vezes me deram empurrões, os sacanas, para debaixo das regadelas... Queriam ver-me bem encharcado, que eu tivesse um baptismo a sério. Verdadeiras fontes por baixo das janelas de todos os andares... A mijarem cá para baixo às revoadas, em girândolas chatas como sei lá o quê... às rajadas...

(...)

E guinou por ali adentro numa lufa-lufa, com a lanterna a saltitar de casa em casa, a recolher cagalhotos. Um picadeiro autêntico à volta das rabadilhas. Enfiava-se por ali fora, mesmo-mesmo... até os calhaus arriarem quentinhos no seu jacto de vapor... Trambulharem para o meio da ciranda... Era de virtuoso... Tinha de manejá-la de esquisita forma, dar o salto no momento exacto! Numa galocha e na outra... antes que aquilo se esgueirasse, espirrasse em caganeira... Cheio de equilíbrio, tomava tento para a colheita ser apanhada num só monte... num montículo muito alto e fumegante.

(...)

Que o amor é filho de cigano.
Trauteava, seguia outra vez por ali fora com a ciranda da colheita. E aparecia numa direcção diferente; com vinte quilos de brioches por cada passeata, bem fumegantes, de cheiro acre, frágeis!

(...)

No fundo da maralha estava quente, fofo e até mesmo embalador. Pena era o apertanço, sobretudo pelas barretinas, as esporas, os sabres, aqueles aços que casavam mal com os nossos membros, furavam costelas. 

(...)

Pura escola de amestragem, rapaz! Não penses que acabaste! Para o Biribi, que nem ossos se te aproveitam! Vais lavrar desertos!

(...)

Sinto a fronha feita num carrocel! Azelha! Os tiras viraram-se do avesso para me dar com o canastro em pantanas! Sei muito bem o que digo! Já as paguei! Desgraçados há em todo o lado, mas o pior é a gente ter de empanturrar-se com merdunça a um tusta por dia! 

(...)

— E rôo! Rôo! Aaá! — fazia ele. — Mas isto é a morte do serviço! Nem mais! Há lá Deus possível!... Ó chulos do olho do cu de Deus de merda, que só vistos! Ó nosso cabo! Ó nosso cabo! Rôo! Raá!... Com a pressão daquela fúria sufocava...

(...)

— Ah! Que eu estou lixado convosco! Ah! Que sorte! Não se lembram de mais nenhuma?
Apesar disso os homens insistiam, continuavam na deles, que a senha era mesmo aquela, «Margarida».
— Tinha mesmo que ser nome de puta! Só me pensa na trancada, esta vadiagem! Isto é assunto de pixotadas?

(...)

— Tu! Meu cafre! Meu fiteiro! Se me voltas a aparecer sem te acharem nada! Se me apareces feito flor de estufa! Sangue é o que te faço vomitar! Hás-de bolsá-la toda, à tua vida!

Céline, De três em pipa, trad. Aníbal Fernandes

O século, os intervalos e a vida

A lua é bem mais velha que o dia de hoje. Este tipo de gente como eu, já ela viu muitas vezes. Assim como assim, já ela presenciou muitas coisas. Pois bem. Tenho uma vida difícil pela frente. Às vezes nem tenho vontade nenhuma nela. Nesses momentos, já sei tudo com avanço, como irá ser, e depois fico tão cansada, é que assim já não é preciso que eu viva tudo na realidade. Porém, a vida é sempre mais forte em mim. E então acho tudo novamente «interessante» e tal, e excitante, e torno-me outra vez combativa e cheia de ideias. Uma pessoa deve «fazer intervalos onde quiser». Mas eu estou mesmo em cheio no meio dos «intervalos», assim me parece. E agora boa noite.

Etty Hillesum, Diário 1941-1943

28.1.24

Sublinhado de Luís Mourão

Havia nos seus olhos a luz de quem conquistara a dor até
aquele ponto em que a dor é conquistável ou digna de o ser.

Carl Sandburg, Antologia poética, trad. Alexandre O'Neill e Vasco Gato

25.1.24

Kaurismaki, Folhas caídas

1.
Quem está em coma pode esperar 5 minutos. Não mais do que isso, ainda assim bem mais do que os mais vivos. Kaurismaki com um certo humor absurdo como o de Roy Andersson. Muito ligeiro sim, até porque este filme não se projeta tanto para o plano existencial.
Ressuscitar duas vezes para poder amar. Enfrentar medo de sofrer, o medo de não ter amparo, de estar exposto.
É evidente que o absurdo é o quotidiano como tal e também na época que nos toca. Muitos esquecidos de um destino, que até o possam suportar com álcool ou um cãozinho.
Personagens à beira de sucumbir, mas que resistem. Ela sobretudo: não há pré-aviso, responde ela ao chefe, quando demitida após ter sido apanhada a levar para casa um produto fora da validade. A coragem no gesto que faz da dignidade o mais importante. Uma frontalidade que é a insolência exercida só contra quem esteja em posição superior.

2. 
“Nem eu, sequer, me sentia especialmente irritado contra essa miséria: aceitava ter de pagar o direito que definitivamente me outorgara de não exprimir outras ideias que não fossem as minhas” (O amor louco, Breton).

3. 
Uma certa perversidade (distração minha?) na primeira cena no bar: quando ele e ela se encontram, já dela nos tínhamos esquecido, é como se ela fosse invisível.
Rimo-nos das personagens quando elas se riem delas próprias. Um riso logo a seguir calado. É por isso que este humor não é o de Roy Andersson, em cujos filmes nos rimos da nossa queixa sem fim. Este mundo é esmaecido e tem personagens maquilhadas pela morte, constituído por um niilismo sem outra saída que não a suspensão momentânea pelo riso, ainda que mordaz e, por isso, que nos distancia da dor. Mas os contrastes de cores primárias nos planos de Kaurismaki são um fundo dionisíaco sempre alegre trazido à superfície, o entusiasmo e o espanto do começo. O amarelo, por exemplo, é como a Primavera, “o tranquilo espírito vaticinador de infinitas esperanças”, até inclusive “a obscura simpatia para com o mundo social que se desdobra” (Novalis). Viver é trágico e doloroso, sim, mas não te esqueças do urgente e do essencial. O eterno-retorno, tal como o leio em Vontade de Poder, é esse dizer sim apesar de tudo, depois de tudo o que se sofreu, o único e reiterado sim.

4.
E a ficção avança porque há limites, porque há morte. O mal esquece o fundo.
Limites, limites, limites, tão altos e maciços como os muros à volta dos cemitérios. Cercados pela morte, pela tumba, pela terra – e ainda por muros maciços. Eis a vida dos vivos, eis a prisão ainda maior dos mortos.
O mundo é construído com base naquilo que não se pode fazer. Isto não podes, aquilo não podes. Nada podes, nada posso.

5.
E havia uma mulher tão parada que fazia entrar no silêncio e no tempo, agarrada à sua guitarra.
E ainda assim: um correr trôpego atrás de uma outra vida, o não ter descido logo de divisão. Esse último ir a tropeçar para um destino que, não sendo épico, não habitado pelo fluxo de uma intensidade, de uma revolução permanente e privada, será ainda assim o confronto com essa alteridade que nos desloca para algum outro lugar desconhecido.

6. 
As personagens estáticas e sem expressão; o barulho é uma mentira em face do informulável, em face do espectáculo do mundo.

Kaurismaki is the business: Fallen Leaves reviewed | The Spectator

23.1.24

Síntese de uma geração ao lado da realidade, sem canto de aumento

Estamos na margem ilusória da abundância, ao lado da realidade em que a promessa geral de crise basta para nos tolher. Estamos do lado errado do desejo, consumindo com emoção apocalíptica, mas consagrando o gosto ao minimal para que a alma tenha ainda por onde se salvar. Nada nos aparenta a esses velhos mendigos que perturbavam um pouco a nossa infância, esses que faziam amizade com os pombos e nunca entravam nas confeitarias. E no entanto são o único povo que ainda nos comove. Mesmo se não passamos necessidade, se temos casa, um trabalho, alguém connosco, começamos a saber que em breve o mundo será um lugar pobre, árido, descarnado, e também nós começamos a sê-lo, também nós estimamos a dificuldade do que aí vem. Sim, estamos cercados pela necromancia da finança, a obscura passagem do dinheiro entre esclavagistas mortos e artistas vivos, estamos excluídos da boa casta e cripta bafienta das heranças, temos de trabalhar sem outro propósito além de pagar as contas e essa exigência torna amorfa a nossa raiva — ninguém tem a clareza necessária ao uso da raiva ao fim de oito absurdas horas mais o tempo da viagem. Afeiçoamo-nos ao ritmo da catástrofe, à distensão no intervalo das notícias, à ciclotimia que é a verdadeira marca da ausência das paixões.

Andreia C. Faria, Canto do aumento, desenhos Rita Roque

«A alma é, entre todos os venenos, o mais forte»

Novalis, Fragmentos, trad. Rui Chafes

18.12.23

Planos de infelicidade

Mussolini desprezava Sironi e os pintores seus contemporâneos: abominava a arte negativa, por mais que os artistas lhe fossem fiéis. A mesma mentalidade que Lenine, Estaline, Hitler, Mao: mentes estreitas e perversas. Os niilistas odeiam os pessimistas: quem quer que conheça a verdade da dor estorva os seus planos em favor do incremento da infelicidade no mundo.

Guido Ceronetti, Os pensamentos do chá

Urban landscape, 1922 - Mario Sironi - WikiArt.org

10.12.23

Palavras de Nunes da Rocha

Um testemunho lúcido, comovente, violento.
O oposto do que acontece com frequência: fala-se dos interesses, os assuntos entre nós, com a gravidade do momento. Com o tom trágico que convém à prossecução dos seus próprios interesses. A gravidade verbal que projeta os problemas para a via láctea, não para a escuta efetiva; não a exposição à incerteza, não a espera de perceber aquilo em que se pensa, mas o mínimo que sucumbe, logo conclui, arrematado por alguma piada para efeitos democráticos. Dispostos num ar tão rarefeito, numa tão transcendente humanidade verbal, que se torna tudo indiscutível. O pânico de expressar uma opinião como se qualquer dúvida fosse o epitáfio de uma inteligência sem nenhuma confiança em si mesma.
Nunes da Rocha fala da educação a partir dos seus próprios pés indecisos, de uma sensibilidade que não suportaria não estribar o mundo na delicadeza. A realidade é o fim de um «magnetismo inato», dita que ao amor apenas de rastos podemos chegar; água em curto-circuito, «protagonismo do normal», o medo como a autoestrada definitiva. O abjeto em forma de linha reta, o consolo de tantos mortos. O professor como um simples guardador: inteligência não, que morde. Ao fim de milénios encontramos novos argumentos contra o sapiens: não, excelência, que aqui é a morte, fora com a inverdade que não confirme a nossa sobrevivência. Pois a instituição, senhor, moderniza-se estupidamente com as unhas e o instinto ratados.
O mais é a exaltação: um pouco do avesso da poesia portuguesa nas últimas décadas. A poesia é o animal acossado que, nalgum canto, uiva e se concentra no que dói com raiva e verrina. É o ter sido ladrado pelos lobos. O destino solitário como uma civilização extinta: eis o que se sente sempre ao respirar algum verso, desavindo do outro lado do espelho. O corpo é essa extinção em estranheza, pois dela não temos memória. Um erro já sem medo. Cada gesto ou palavra ou atitude é um escombro; o que, do juízo mais cínico, é atraso irremediável em relação ao mundo, é afinal a mortalidade trémula e doce, não autoritária nem condescendente.

«A mim me largaram
manancial de águas vivas
para escavarem cisternas
cisternas esburacadas
incapazes de reter água»

Jeremias 2:13

E a raiva de Vaz Pinto é a de um trovador diante do reino: mesmo o escárnio é maldizer nos reinos salgados. Que o nosso mais visível não seja a sombra, nem o selvagem prossiga no esconso. Um trabalho que é a arqueologia do presente, arqueologia dessa tão pancada-ruína que levanta. E que, no futuro, seja arquivo vivo.

https://www.buzzsprout.com/2169835/14099353

Eu queria como tu

Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a f'licidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.
Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais!
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!

Almada Negreiros, Cena do ódio

9.12.23

Apodrecer ou arder

Se soubermos viver como vencidos, sê-lo-emos um pouco menos.

«Compreendei que na vida não há escolha. Ou apodrecemos ou ardemos» (Conrad, Sob o olhar do Ocidente, Sofia Antónovna a Rázumov). Um pensamento análogo encontra-se nos fragmentos de Catão (ou a ferrugem ou a consumação).

Em minha casa, às primeiras horas da manhã e da tarde, há quase sempre uma vela acesa, não votiva, mas para iluminar os objetos. Às vezes, a luz vai abaixo. Então torna-se incrível ver, enquanto as luzes artificiais emudecem, essa luz verdadeira que permanece viva, solitária, indiferente às máquinas da Energia, às repentinas quebras de tensão e aos cortes da Companhia Elétrica.

Das Menschenmaterial: é nisto que nos temos convertido desde 1914, palavra nascida então, e isto somos, nada mais que neutro «material humano», e mais que nunca agora. Antes éramos uns miseráveis, uns abjetos, mas ainda não tínhamos sido reduzidos a puro material. Eis-nos aqui em poder do Inorgânico que nos trata como a seus filhos.

Guido Ceronetti, Os pensamentos do chá

5.12.23

Leveza ao quadrado

Vê as flores, estas fiéis à terra, mesmo com vento,
às quais emprestamos destino, nós na margem do destino a passar —
mas quem sabe! Quando elas lamentam seu murchar,
pertence-nos a nós ser seu lamento!

Tudo quer pairar. Circulamos pesados,
sobre as coisas nos colocamos, com os pesos encantados;
oh que mestres devoradores somos para as coisas sem ânsia,
porque são capazes de uma infinita infância.

Se alguém as levasse ao íntimo do sono e lá dormisse
a fundo com as coisas —: oh, como leve acordaria,
diferente para um dia diferente, saído do fundo comum e dormente.

Ou talvez nesse lugar ficasse, talvez tudo florisse
exaltando o convertido, que agora com elas se parecia,
das irmãs do silêncio no vento da planície verdejante.

Rilke, Os Sonetos a Orfeu, trad. Maria Teresa Dias Furtado

4.12.23

Flor para ler devagar

Músculo de flor que à anémona abriu
manhãs de prado, gradualmente,
até que no seu colo a polifónica luz floriu
dos céus sonoros caindo levemente,

na silente flor-estrela, o músculo em tensão
do acolhimento ilimitado, sem prazo,
por vezes tão repleto de plenitude e atenção
que o sinal de descanso do ocaso

mal pode devolver-te as retraídas
orlas da corola vividas:
tu, que és decisão e vigor de tantos mundos!

Nós, violentos, duraremos mais tempo, profundos.
Mas quando, em qual de todas as vidas,
somos nós finalmente abertos e receptivos, fecundos?

Rilke, Os sonetos a Orfeu, trad. Maria Teresa Dias Furtado