20.5.18

O máximo e o mínimo




Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada
já posso dizer tudo.

Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que daqui a um pouco depois
estarei morto
e só de pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo-me nos nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.

E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do que alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água que toca os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo.

Herberto Helder, Servidões


18.5.18

Gonçalo M. Tavares sobre Vila-Matas e Robert Walser

Há no Doutor Vila-Matas essa atracção pela Patagónia em que existe “uma pessoa por quilómetro quadrado e reina o silêncio” e por esses países em que não se publicam livros.
Mas felizmente o Doutor Vila-Matas é um médico generoso e um inventor reputado – no meio da descoberta de novas doenças (a Angústia do Pasavento (APS), o Mal de Montano (MM), entre outras), consegue manter essa infinita delicadeza Walseriana de procurar nunca incomodar os outros mesmo que os outros sejam portadores de uma guilhotina e o seu pescoço seja o alvo. Provocar danos na lâmina, nada envergonharia mais o pescoço do homem discreto e delicado que quer desaparecer.
Mas o mais importante é o inverso: ainda não foi inventado (e jamais o será) a lâmina capaz de encontrar o sítio onde esta literatura colocou o pescoço. 



6.5.18

Paciência e obediência

Aprende-se muito pouco aqui, há falta de professores, e nós, rapazes do Instituto Benjamenta, nunca seremos ninguém, por outras palavras, nas nossas vidas futuras seremos apenas coisas muito pequenas e subalternas. A nossa instrução visa sobretudo incutir-nos paciência e obediência, duas qualidades que pouco ou nenhum proveito prometem. Proveito espiritual, sim. Mas o que nos dão as virtudes espirituais? Trarão comida para a mesa? Gostava de ser rico, viajar de coche e esbanjar dinheiro. Falei a este respeito com Kraus, o meu colega de escola, mas ele apenas encolheu os ombros com desdém e não se dignou dirigir-me uma palavra. Kraus tem princípios, senta-se com firmeza na sela da satisfação, um cavalo que não serve a quem quer galopar.


Robert Walser, Jakob von Gunten


A vida e o devir

Isso e todas as coisas começaram como nada, latentes no interior de um vasto caldo de energia, mas depois demos-lhe um nome, e amámo-las, e, deste modo, trouxemo-las ao de cima.
E agora temos de as perder.
Envio-vos isto, queridos amigos, antes de me ir, neste instantâneo transbordar de pensamentos, de um lugar onde o tempo abranda e depois pára e nós podemos viver para sempre num único instante. 
Adeus adeus ade...

George Saunders, Lincoln no bardo


Experimenta-se e alguma coisa começa. Não imaginávamos o que poderia ser nem nunca o pedimos a ninguém. Mas depois não se sabe o que fazer com isso a que demos um nome. O tempo é o lugar das escolhas, das possibilidades. Parar num único instante é sossego do espectador, do idólatra do permanente. Nunca nos pode ser subtraído o que nunca nos foi dado por garantido. É lenta a aprendizagem da perda, nunca consumada. Só aí existe corpo, só aí existe tempo. Continuar a lançar-se mesmo que o mar continue a clamar por figos. 

Pensou Lincoln: "Quer dizer, o filho dele não estava mais aqui do que em qualquer outra parte. Este lugar não tinha, doravante, nada de especial".

A aceitação de Lincoln: o filho não estava ali, mas em qualquer outra parte, porque só provisoriamente somos espaço em movimento e temos tempo. Os vivos insistem em tratar os mortos como vivos, o que, em alguns casos, esconde a dificuldade em aceitar a despossessão, em compreender o ludíbrio metafísico: nada se possui que não seja na eternidade, no tempo perde-se.


4.5.18

Ironia, camuflagem

Nem sequer compreendera que ela se camuflara propositadamente na ironia, que é esse o habitual derradeiro refúgio das pessoas de coração pudico e recto quando, de modo grosseiro e insistente, se lhes quer penetrar na alma — das pessoas que, por orgulho, resistem até ao último instante e têm medo de exprimir diante dos outros o que sentem.

Fiódor Dostoiévski, Cadernos do subterrâneo

3.4.18

Avançar

Sim, esta é a vida vista pela vida. Mas de repente esqueço o como captar o que acontece, não sei captar o que existe senão vivendo aqui cada coisa que surgir e não importa o que: estou quase livre de meus erros. Deixo o cavalo livre correr fogoso. Eu, que troto nervosa e só a realidade me delimita. 

Clarice Lispector, Água viva

1.4.18

Seres de soslaio

A vida oblíqua? Bem sei que há um desencontro leve entre as coisas, elas quase se chocam, há desencontro entre os seres que se perdem uns aos outros entre palavras que quase não dizem mais nada. Mas quase nos entendemos nesse leve desencontro, nesse quase que é a única forma de suportar a vida em cheio, pois um encontro brusco face a face com ela nos assustaria, espaventaria os seus delicados fios de teia de aranha. Nós somos de soslaio para não comprometer o que pressentimos de infinitamente outro nessa vida de que te falo.
E eu vivo de lado — lugar onde a luz central não me cresta. E falo bem baixo para que os ouvidos sejam obrigados a ficar atentos e a me ouvir.
Mas conheço também outra vida ainda. Conheço-a e quero-o e devoro-a truculentamente. É uma vida de violência mágica. E misteriosa e enfeitiçante. 

Clarice Lispector, Água viva


30.3.18

Sentimentos grossos, vida oblíqua, acaso, frio

Como te explicar? Vou tentar. É que estou percebendo uma realidade enviesada. Vista por um corte oblíquo. Só agora pressenti o oblíquo da vida. Antes só via através de cortes retos e paralelos. Não percebia o sonso traço enviesado. Agora adivinho que a vida é outra. Que viver não é só desenrolar sentimentos grossos — é algo mais sortilégico e mais grácil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a existência feneça no que tem de oblíquo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e não existe nisso contradição.
A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.

Clarice Lispector, Água viva


26.3.18

Do fundo da sétima solidão

Um dia, tendo fechado uma porta atrás de si, o viajante deteve-se e chorou. Depois disse: «Esta necessidade de verdadeiro, esta sede do real, do certo, este ódio pela aparência... Ah! Como lhes quero mal! Porque é que terei sempre atrás de mim estes perseguidores sombrios e apaixonados? Porquê eu? Aspiro ao repouso, eles não mo consentem. Quantas coisas me exortam, tentadoras, a que me detenha! Encontro por toda a parte jardins de Armida: novos temas de sofrimento, novos temas de amarguras sem fim! É necessário voltar a partir, fazer avançar este pé cansado, este pé ferido; e porque é necessário, volto-me muitas vezes para lançar um olhar feroz para as belas coisas que não me souberam reter... porque não me souberam reter!»

Nietzsche, A gaia ciência

25.3.18

Epitáfio

Aqui jaz o que sempre se escapou
E só agora é que se realizou

Samuel Beckett, O primeiro amor

24.3.18

Em favor da crítica

Vês agora um erro nesta coisa que amaste antigamente como verdadeira ou como provável: rejeita-la para longe de ti e imaginas que a tua razão acaba de conseguir uma vitória. Mas talvez este erro, antigamente, quando eras um outro – nunca se deixa de ser um outro –, te fosse tão necessário como as tuas «verdades» de hoje; era uma espécie de pele que te escondia, te velava muitas coisas que ainda não tinhas o direito de ver. Foi a tua nova vida, não foi a tua razão, que matou em ti essa ideia: já não tens necessidade dela; desaba sobre ti, e a sua irrisão aparece à luz do dia, aparece rastejando como um verme. Quando exercemos a nossa crítica, não é arbitrariamente, não é impessoalmente, é, muitas vezes, pelo menos, porque há em nós um impulso de forças vivas em via de se libertar da sua casca. Negamos e somos obrigados a fazê-lo, porque há em nós qualquer coisa que quer viver e quer afirmar-se, alguma coisa que não conhecemos, que não vemos talvez ainda!... Lavremos à crítica este louvor.

Nietzsche, A gaia ciência


17.3.18

Para o novo ano [in media res]

Ainda vivo, ainda penso: é ainda necessário que eu viva, porque é ainda necessário que eu pense. Sum ergo cogito: cogito, ergo sum. Hoje todos se permitem exprimir os seus desejos, o seu mais caro pensamento: vou, portanto, dizer, eu também, o que mais desejo hoje e qual foi o primeiro pensamento que desejei realizar este ano; vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a minha vida! É aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: seja esse de agora em diante o meu amor. Não quero fazer a guerra ao feio. Não quero acusar, nem mesmo os acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa, de ora em diante, a minha única negação! E, numa palavra em grosso, não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão um afirmador.

Nietzsche, A gaia ciência

16.3.18

Amor como exílio

Dê-me um lugar, disse ela. O meu primeiro impulso foi ir-me embora, mas a fadiga e o não saber para onde ir, impediram-me de o seguir. Encolhi portanto um pouco os pés para debaixo do corpo e ela sentou-se. Não se passou nada entre nós nessa noite, e depressa se foi embora, sem me ter dirigido palavra. Limitara-se a cantar, como se fosse só para si, e sem as palavras, felizmente, algumas velhas canções populares, de uma forma curiosamente fragmentária, saltando de uma para outra, e voltando à que tinha acabado de interromper antes de haver concluído a seguinte. Tinha uma voz falsa mas agradável. Pressentia uma dessas almas que se aborrecem depressa e nunca concluem nada, que são de todas talvez as menos chatas. Mesmo em relação ao banco, depressa se tinha fartado, e no que toca a mim tinha-lhe bastado uma olhadela. Era na realidade uma mulher extremamente tenaz. Voltou no dia seguinte e no dia seguinte a esse e as coisas passaram-se mais ou menos da mesma maneira. Trocaram-se talvez algumas palavras. No dia seguinte chovia e pensei que ia ficar sossegado, mas enganava-me. Perguntei-lhe se fazia parte dos seus projectos vir incomodar-me todas as noites. Incomodo-o? disse ela. Devia estar a olhar para mim. Não devia ver grande coisa. Talvez duas pálpebras e um pouco de nariz e de testa, mas mal, por causa do escuro. Pensei que estávamos bem, disse ela. Você incomoda-me, disse eu, não posso deitar-me ao comprido quando você aí está. Falava dentro da gola do sobretudo mas ela mesmo assim ouvia-me. É assim tão importante para si deitar-se ao comprido? disse ela. É no que dá dirigir a palavra às pessoas. O que tem a fazer é assentar os pés nos meus joelhos, disse ela. Não me fiz rogado. Sentia por baixo das minhas pobres barrigas das pernas as suas coxas roliças. Pôs a acariciar os meus tornozelos. E se lhe desse com o tacão na cona, pensei. Fala-se às pessoas em estar deitado e elas vêem imediatamente um corpo estendido. O que a mim, rei sem súbditos, me interessava, essa coisa de que a disposição da minha carcassa era apenas o mais longínquo e fútil dos reflexos, era a supinação cerebral, a atenuação da ideia do eu e da ideia desse pequeno resíduo de ninharias peçonhentas que apelidam de não-eu e até, por preguiça, de mundo. Mas aos vinte e cinco anos o homem moderno ainda se entesa, fisicamente também, de tempos a tempos, é a sorte de cada um, eu próprio não lhe andava a correr atrás, se é que a isso se pode chamar entesar. Ela naturalmente apercebeu-se, as mulheres farejam um falo no ar a mais de dez quilómetros de distância e perguntam-se, Como é que esse conseguiu ver-me? Deixamos de ser nós próprios, nessas condições, e é penoso já não sermos nós próprios, mais ainda do que sê-lo, diga-se lá o que se disser. Porque quando o somos sabemos o que temos a fazer, para o ser menos, enquanto que quando já o não somos passamos a ser qualquer um, não há já processo de nos ocultarmos. Aquilo a que se chama amor é o exílio, com um postal da terra de vez em quando, é o meu sentimento nesta noite. Quando ela acabou e o meu eu, amansado, se reconstituiu com a ajuda de uma breve inconsciência, encontrei-me só.

Samuel Beckett, O primeiro amor

11.3.18

Conhecer a dor, conhecer-se

Conhecia mal as mulheres, nessa época. Aliás, ainda as conheço mal. Aos homens também. Aos animais também. O que conheço menos mal são as minhas dores. Passo-as em revista a todas, todos os dias, é rápido, o pensamento anda tão depressa, mas elas não vêm todas do pensamento. Sim, há horas, sobretudo à tarde, em que me sinto sincretista, à maneira de Reinhold. Que equilíbrio. Aliás, também as conheço mal a elas, às minhas dores. Isto deve porvir de eu não ser apenas dor. Aí está a astúcia. Então afasto-me, até ao pasmo, até à admiração, de um outro planeta. Raramente, mas chega. Nada estúpida, a vida. Ser só dor, como isso simplificaria as coisas! Ser todo-dolente!

Samuel Beckett, O primeiro amor

5.3.18

Desvios intrínsecos à interpretação

«A espécie humana foi dotada pela natureza de Tudo o que é necessário para a percepção, observação, comparação e distinção das coisas. Para isso, não só dispõe de tudo aquilo que se encontra na sua imediata presença, e não só pode adquirir sabedoria a partir da própria experiência, como também tem à sua inteira disposição as experiências de todos os tempos passados e as observações e as observações dum determinado número de indivíduos de espírito aguçado que, pelo menos muitas das vezes, viram as coisas correctamente. De acordo com estas experiências e observações, há muito que se conhecem as leis da natureza pelas quais o Homem — independentemente do tipo de sociedade e de sistema político em que se encontre — deve reger o seu pensamento e as suas acções, de forma a alcançar a felicidade da sua espécie. Nessas leis encontra-se irrefutavelmente exposto Tudo aquilo que poderá ser útil ou nocivo em todos os tempos e circunstâncias, para a totalidade da espécie; as regras cujas aplicação nos poderá poupar equívocos e falácias já foram encontradas; podemos saber com certeza satisfatória o que é bonito ou feio, justo ou injusto, bom ou mau, porque é como é, e em que medida o é; ou seja, não há nenhuma estupidez, vício ou maldade cuja insensatez ou nocividade não possa ser provada com o mesmo rigor de um teorema qualquer de Euclides. E ainda assim! Apesar de Tudo isto, os seres humanos continuam à deriva no mesmo círculo de estupidezes, equívocos e abusos, não se tornam mais inteligentes nem pela própria experiência, nem pela de outrem, ou seja, resumidamente, na melhor das hipóteses, um indivíduo poderá tornar-se mais versado, mais sagaz, mais erudito, mas nunca mais sábio.»
«Porque os seres humanos geralmente não raciocinam de acordo com as leis da razão. Pelo contrário: a forma inata de se armarem em racionais é a seguinte: partir de casos particulares para o geral, derivar conclusões erróneas de acontecimentos fugazes ou de observações unilaterais, e a toda a hora confundir palavras com conceitos e conceitos com coisas. A grande maioria — o que na estimativa mais razoável dá 999 em cada 1000 — julga os acontecimentos mais frequentes e mais importantes da vida baseando-se em primeiras impressões sensoriais, preconceitos, paixões, caprichos, fantasias, humores, combinações aleatórias de palavras e de conceitos nos seus cérebros, semelhanças aparentes e inspirações secretas de parcialidade a seu próprio favor, de maneira que constantemente tomam o próprio jumento por cavalo e o cavalo de outro por jumento. Entre os mencionados 999 existem pelo menos 900 que, para chegarem a este ponto, nem sequer sentem a necessidade de recorrer aos seus próprios órgãos, preferindo, numa preguiça inexplicável, discernir erroneamente através dos olhos de outros, ouvir mal através de ouvidos de outros, fazer figura de palhaço em nome da ignorância de outros, em vez de quererem fazê-lo por conta própria. Para não falar duma parte considerável destes 900 que se habituaram a falar de mil coisas importantes num tom importante, sem sequer saberem o que dizem e sem se preocuparem por um único instante se aquilo que dizem faz sentido ou não.»

Arno Schmidt, Espelhos negros


3.3.18

O primo motore

«Uma máquina, um mero instrumento que necessariamente se deixa manipular e maltratar por mãos alheias; um feixe de palha que a qualquer momento pode pegar fogo por causa de uma única fagulha; uma pluma que se deixa levar, mudando de direcção à mais leve aragem — provavelmente, desde que existe o mundo, nunca terão sido consideradas imagens adequadas para designar a actividade de um ser racional: a elas se recorreu, isso sim, sempre que se tratava de expressar a forma como os seres humanos, em particular quando comprimidos em grandes massas, costumam movimentar-se e agir. Geralmente, o desejo e a repulsa, o medo e a esperança — impulsionados pelos sentidos e pela imaginação — não só são as principais forças motrizes de todas as acções quotidianas que não sejam obra de hábitos meramente instintivos: como também, nos casos mais frequentes e de maior relevância — quando o que está em jogo é precisamente a fortuna ou a desgraça de uma vida inteira, o bem-estar ou a miséria de povos inteiros: e sobretudo quando se trata do Melhor para a espécie humana na sua totalidade — são paixões ou preconceitos alheios, é a pressão ou o empurrão de umas poucas mãos, a língua afiada de um único fala-barato, o fogo intempestivo de um único fanático, o zelo hipócrita de um único falso profeta, a chamada de um único temerário, que se chega à frente — que põem em movimento milhares e centenas de milhares que não discernem nem a justeza nem as consequências: com que direito é que uma espécie de criaturas tão irracionais...» (antes de mais nada, respirar fundo).
Ora bem: «Esses fazedores de caretas, vigaristas, saltimbancos, prestidigitadores, alcoviteiros, carteiristas e embusteiros dividiram-se pelo mundo; — os carneiros baixaram as orelhas e deixaram-se tosquiar; — enquanto os bobos davam pinotes e cambalhotas. E os espertos, sempre que podiam, partiam e tornavam-se eremitas: a história do mundo in nuce, in usum Delphini.»
«O culpado?» — «É evidentemente o primo motore da coisa, o criador, que eu apelidei de Leviatã e cuja existência provei de forma exaustiva.» Durante o meu belo discurso — provavelmente num excesso de concentração — ela tinha fechado os olhos e apenas voltou a abri-los quando a roda do moinho parou de bater. «Enfim», disse devagar: «Ainda por mais tenho um pouco de dores de dentes.» «Nesse caso deve dirigir imediatamente as suas preces a Santa Apolónia», aconselhei, mas apenas recebi um olhar zangado de volta: «Graças à sua coronhada!» murmurou (numa fórmula elegantemente elíptica).

Arno Schmidt, Espelhos negros



25.2.18

O perigo constante da vida

Como é que se explica que cada corpo nascido tenha espírito? Acontece sempre o inesperado pois nunca ninguém pôs uma alma na vida que nasce.
É a hora da consumação.
Viver é o meu código e o meu enigma. E quando eu morrer serei para os outros um código e um enigma. E quando eu morrer serei para os outros um código e um enigma.
Despenhadeiros.
Eu não sabia que o perigo é o que torna preciosa a vida.
A morte é o perigo constante da vida.
A vantagem de Ângela sobre mim é que ela é inespecial, enquanto eu ocupo um lugar e mesmo depois de morto continuarei ocupando a terra.

Um sopro de vida (pulsações)
Clarice Lispector


A vertigem de estar vivo

Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angústia amordaçante: assusto-me.
Sou tão medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que não têm pudor, as leis a obedecer, o assassinato — tudo isso me dá vertigem como há pessoas que desmaiam a ver sangue: o estudante de medicina com o rosto pálido e os lábios brancos diante do primeiro cadáver a dissecar. Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do espírito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo interminável da eternidade, abismo através do qual me comunico fantasmagórica com Deus. Tenho medo da lei natural que a gente chama de Deus. O temor. Os suicidas muitas vezes se matam porque têm medo de morrer. Não suportam a tensão crescente da vida e da espera do pior — e se matam para se verem livres da ameaça.
A gente sai de um Alfa para um Ómega e se destrói e trabalha e diverte e… Para quê? Caminhamos para um vórtice — irremediavelmente.
Não fazer nada pode ser ainda a solução.
Iam confundir isto com suicídio mas é mera coincidência. Tem sentido correr tanto atrás da felicidade, será que basta ser feliz? Será que ser feliz é um estado de tolerância?

Clarice Lispector
Um sopro de vida (pulsações)


23.2.18

As inconsistências da fantasia (as do real já eram conhecidas)


Tudo o que parecemos saber é que Diana se matou. Nem estamos certos de que tenha mandado matar seja quem for, embora seja verosímil. Uma ficção dentro de outra ficção, uma caixa vazia, como o sujeito, uma meta-ficção. O real tem círculos negros em torno dos olhos, persianas fechadas. Mas, na fantasia, há a luz de LA, taxistas simpáticos que carregam o peso por nós, familiares delicados e ricos, não existe perigo em ser-se lírico. O contrário do mundo que acaba na porta, apenas tocados pelos fantasmas, imaginando desempenhos épicos em que todos se atirariam aos nossos pés. O mundo é um inconsistente cubículo fechado.



18.2.18

Sou louco porque consisto


Há uma estrada que termina sempre no medo masculino — a mulher goza, o homem não sabe como esse gozo funciona (leitura psicanalítica que, cinematograficamente falando, convocaria o film noir e a femme fatale). Mas há múltiplas estradas muito importantes.

A bizarria muitas vezes é só humildade: o retirar-se quando o terror aparece. Só isso, melhor não explicar.

Entender a cabeça que chega a um crime, a cabeça que tem medo, que o realiza tantas vezes lá dentro. As suposições, os tremores em que a energia se escoa. Como se chega a um crime pelo pavor de consistir:

«Desde há cem anos que a loucura (literária) tem fama de consistir nisto: ‘Eu é um outro’: a loucura é uma experiência de despersonalização. Para mim, sujeito apaixonado, é exactamente o contrário: é o tornar-me um sujeito, sem poder deixar de o ser, que me torna louco. Eu não sou um outro: é o que noto com pavor. 
(...)
Sou indefectivelmente eu próprio e é nisso que sou louco: sou louco porque consisto.»
(Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso, p.187)

Quer dizer, ama-se e descobre-se que se é. Consisto, sou um, ser-menos, mortal, o terrível. Mas antes disso, experimenta-se com angústia a hipótese, quase niilista, de ser por osmose:

«Eu não possuo o meu corpo como posso eu possuir com ele? Eu não possuo a minha alma — como posso possuir com ela? Não compreendo o meu espírito como através dele compreender?
As nossas sensações passam — como possuí-las pois — ou o que elas mostram muito menos. Possui alguém um rio que corre, pertence a alguém o vento que passa?
Não possuímos nem um corpo nem uma verdade — nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões e a minha vida é vã por fora e por dentro.
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer — eu sou eu?
Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.
Quando outro possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.
Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?»
(Bernardo Soares, Livro do desassossego, 1982, p. 171).

Nem o corpo nem a alma possuímos — é fantasmático esse terror juvenil de possuir. Aquele medo que precipita o estúpido, a vertigem da antecipação da perda. A descoberta da consistência é a da subjetividade, a da liberdade que questiona o aconchego. Consistência inconsistente, somos mas não sabemos: a cognoscibilidade e a possessão dependeriam da anulação do devir. Não seria possível ser, sem ter que ser um, mesmo quando esse um não é sempre o mesmo? Resta sentir, quando não se possui nem compreende, sem saber quem se é. E é isto o que sobra dos filmes de Lynch: o sentir de quem volta a atravessar o que doeu e não se compreende. E como parecemos próximos de tudo o que ficou por explicar no vivido, até que esse conhecimento escapa entre os dedos como água. Como quando num sonho se tenta muito fazer alguma coisa grandiosa, sexual ou outra, e, quando se está prestes a fazê-lo, no instante imediatamente prévio à ação, acorda-se.