25.2.18

O perigo constante da vida

Como é que se explica que cada corpo nascido tenha espírito? Acontece sempre o inesperado pois nunca ninguém pôs uma alma na vida que nasce.
É a hora da consumação.
Viver é o meu código e o meu enigma. E quando eu morrer serei para os outros um código e um enigma. E quando eu morrer serei para os outros um código e um enigma.
Despenhadeiros.
Eu não sabia que o perigo é o que torna preciosa a vida.
A morte é o perigo constante da vida.
A vantagem de Ângela sobre mim é que ela é inespecial, enquanto eu ocupo um lugar e mesmo depois de morto continuarei ocupando a terra.

Um sopro de vida (pulsações)
Clarice Lispector


A vertigem de estar vivo

Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma angústia amordaçante: assusto-me.
Sou tão medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que não têm pudor, as leis a obedecer, o assassinato — tudo isso me dá vertigem como há pessoas que desmaiam a ver sangue: o estudante de medicina com o rosto pálido e os lábios brancos diante do primeiro cadáver a dissecar. Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do espírito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo interminável da eternidade, abismo através do qual me comunico fantasmagórica com Deus. Tenho medo da lei natural que a gente chama de Deus. O temor. Os suicidas muitas vezes se matam porque têm medo de morrer. Não suportam a tensão crescente da vida e da espera do pior — e se matam para se verem livres da ameaça.
A gente sai de um Alfa para um Ómega e se destrói e trabalha e diverte e… Para quê? Caminhamos para um vórtice — irremediavelmente.
Não fazer nada pode ser ainda a solução.
Iam confundir isto com suicídio mas é mera coincidência. Tem sentido correr tanto atrás da felicidade, será que basta ser feliz? Será que ser feliz é um estado de tolerância?

Clarice Lispector
Um sopro de vida (pulsações)


23.2.18

As inconsistências da fantasia (as do real já eram conhecidas)


Tudo o que parecemos saber é que Diana se matou. Nem estamos certos de que tenha mandado matar seja quem for, embora seja verosímil. Uma ficção dentro de outra ficção, uma caixa vazia, como o sujeito, uma meta-ficção. O real tem círculos negros em torno dos olhos, persianas fechadas. Mas, na fantasia, há a luz de LA, taxistas simpáticos que carregam o peso por nós, familiares delicados e ricos, não existe perigo em ser-se lírico. O contrário do mundo que acaba na porta, apenas tocados pelos fantasmas, imaginando desempenhos épicos em que todos se atirariam aos nossos pés. O mundo é um inconsistente cubículo fechado.



18.2.18

Sou louco porque consisto


Há uma estrada que termina sempre no medo masculino — a mulher goza, o homem não sabe como esse gozo funciona (leitura psicanalítica que, cinematograficamente falando, convocaria o film noir e a femme fatale). Mas há múltiplas estradas muito importantes.

A bizarria muitas vezes é só humildade: o retirar-se quando o terror aparece. Só isso, melhor não explicar.

Entender a cabeça que chega a um crime, a cabeça que tem medo, que o realiza tantas vezes lá dentro. As suposições, os tremores em que a energia se escoa. Como se chega a um crime pelo pavor de consistir:

«Desde há cem anos que a loucura (literária) tem fama de consistir nisto: ‘Eu é um outro’: a loucura é uma experiência de despersonalização. Para mim, sujeito apaixonado, é exactamente o contrário: é o tornar-me um sujeito, sem poder deixar de o ser, que me torna louco. Eu não sou um outro: é o que noto com pavor. 
(...)
Sou indefectivelmente eu próprio e é nisso que sou louco: sou louco porque consisto.»
(Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso, p.187)

Quer dizer, ama-se e descobre-se que se é. Consisto, sou um, ser-menos, mortal, o terrível. Mas antes disso, experimenta-se com angústia a hipótese, quase niilista, de ser por osmose:

«Eu não possuo o meu corpo como posso eu possuir com ele? Eu não possuo a minha alma — como posso possuir com ela? Não compreendo o meu espírito como através dele compreender?
As nossas sensações passam — como possuí-las pois — ou o que elas mostram muito menos. Possui alguém um rio que corre, pertence a alguém o vento que passa?
Não possuímos nem um corpo nem uma verdade — nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões e a minha vida é vã por fora e por dentro.
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer — eu sou eu?
Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.
Quando outro possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.
Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?»
(Bernardo Soares, Livro do desassossego, 1982, p. 171).

Nem o corpo nem a alma possuímos — é fantasmático esse terror juvenil de possuir. Aquele medo que precipita o estúpido, a vertigem da antecipação da perda. A descoberta da consistência é a da subjetividade, a da liberdade que questiona o aconchego. Consistência inconsistente, somos mas não sabemos: a cognoscibilidade e a possessão dependeriam da anulação do devir. Não seria possível ser, sem ter que ser um, mesmo quando esse um não é sempre o mesmo? Resta sentir, quando não se possui nem compreende, sem saber quem se é. E é isto o que sobra dos filmes de Lynch: o sentir de quem volta a atravessar o que doeu e não se compreende. E como parecemos próximos de tudo o que ficou por explicar no vivido, até que esse conhecimento escapa entre os dedos como água. Como quando num sonho se tenta muito fazer alguma coisa grandiosa, sexual ou outra, e, quando se está prestes a fazê-lo, no instante imediatamente prévio à ação, acorda-se.


17.2.18

Que interessa, se o diz A ou B, o Autor ou Clarice?

O pior é que sou vice-versa e em ziguezague. Sou inconcludente. Mas é preciso me amar como involuntariamente sou. Apenas me responsabilizo pelo que há de voluntário em mim e que é muito pouco (p. 130).

Eu não me aprovo porque mal consigo viver comigo mesmo. Faço quase o impossível para ter isenção. Isenção de mim. Estou quase atingindo esse estado de beatitude (p. 131).

Eu já tive e experimentei um pouco de todas as torturadas baixezas e ambições humanas — estou agora quase livre do "pecado" da alma. Posso enfim me dar ao luxo de estar liberta de mim mesma e começar a sentir certa olímpica paz.
Viver me deixa tão nervosa, tão à beira de. Tomo calmantes só pelo fato de estar viva: o calmante me mata parcialmente e embota um pouco o aço demasiado agudo da minha lâmina de vida. Eu deixo de fremir um pouco. E passo a um estágio mais contemplativo (p. 139).

Todo nascimento supõe um rompimento.
Eu fui convidado para assistir um parto mas não tenho força de assistir o dramático nascimento da aurora nas montanhas quando o sol é de fogo.
Todo nascimento é uma crueldade. Devia-se deixar dormir o que quer dormir.
Minha maldade vem do mau acomodamento da alma no corpo. Ela é apertada, falta-lhe espaço interior (p. 142).

Clarice Lispector, Um sopro de vida (pulsações)


13.2.18

Império do dentro (II)



A excitação de quem se acha destinado: o dia abre-se, o mundo obedece a sua excelência, como um vitelo dócil. Tardes infindas onde, afinal, o desejo se descobre bem maior do que qualquer feito. Uma festa, dança e insinuação de disponibilidade e força para conquista, um teatro animalesco, a ferocidade revestida pela delicadeza, enquanto os delicados exasperam com tanta ferocidade contida. As mãos vazias, um dia passou, mas ainda não desapareceu o espanto diante de tudo quanto poderia ter sido. E quando não é assim, não estamos vivos, apenas o estaremos se iludidos. O que é triste, mas não menos trágico. Doravante observando e continuando sem compreender, esperando a mão malévola que apontará para o pêndulo. Até lá, sentimo-nos excluídos do mundo dos sentimentos, de quem sabe como viver. E é como se não sentíssemos, mal suportando a dor de não termos vivido o suficiente. A mulher olhando, confrontada com o radical vivido, sabendo como previsões fecham o mundo.

Mas é claro, a ironia — vá, faz, só que não.


12.2.18

Império do dentro (I)

Tudo começa num sonho; ou antes, numa tentativa de compreendê-lo. Porventura será melhor irmos um pouco atrás, ao momento em que a realidade acelera, ao teatro escuro e aos telhados caindo, e nós seguindo-lhes o movimento. Entramos pela alma adentro descobrindo um lugar sujo mal iluminado, escadarias velhas e paredes a desfazer-se. E quando olhamos de novo já não sabemos como foi possível o cabelo desgrenhado, as marcas de aspereza, nem sabemos reconduzir os passos indecisos e flácidos a uma explicação. Muito tempo passou, nunca percebemos se estivemos sempre acordados ou se ainda vamos a tempo da manhã. É que o sonho é tanto acção frenética que não admite intervalos como inércia interrompida no momento em que, finalmente, sentimos o mundo e as mãos. Tudo estava em ordem até que um certo cansaço nos convenceu da doçura da fatalidade, de como são inúteis as razões contra o abismo. E nós seguimos, olhando para trás, para os lados, e perdendo a vontade de falar.


10.2.18

Alguma beleza, eis o que fica, quando fica

OROFERNES
(1915)

Este que no tetradracma
parece iluminar seu rosto com um sorriso,
seu formoso, fino rosto,
este é Orofernes, filho de Ariarates.

Menino e moço o expulsaram da Capadócia,
do grande palácio do seu pai,
e a crescer o mandaram para a Jónia,
entre gentes remotas esquecido.

Ah, noites maravilhosas da Jónia,
onde, sem medos e à grega,
conheceu a plenitude do prazer.
No seu coração, sempre asiático.
Mas grego pelos modos e a língua,
ornado de turquesas, vestido à grega,
ungido seu corpo com aromas de jasmim
e, entre os formosos moços da Jónia,
o mais formoso, ele, o mais ideal.

Depois, quando entraram os sírios
na Capadócia e o fizeram rei,
entregou-se à sua realeza
para gozar cada dia de um modo novo,
para arrecadar com avidez ouro e prata,
para se deleitar e se envaidecer,
vendo brilhar empilhadas as riquezas.
Quanto ao cuidado do país e do governo,
ignorava o que em seu redor sucedia.

Os capadócios depressa o expulsaram
e refugiou-se na Síria, no palácio
de Demétrio, a divertir-se e a preguiçar.

Um dia, porém, insólitos pensamentos
irromperam no seu ócio prolongado;
recordou que por sua mãe Antioquida
e por aquela vetusta Estratonice,
procedia da casa real da Síria
e que quase era um Selêucida.
Prescindiu por um pouco da lascívia e da embriaguez,
e desastradamente, meio aturdido,
intentou maquinar algo,
fazer algo, planear alguma coisa,
mas fracassou miseravelmente e foi aniquilado.

O seu fim, escreveu-se algures, talvez, e perdeu-se;
ou talvez a história, passando por ele,
com razão, não achasse oportuno,
consignar tamanha insignificância.

Este que no tetradracma
deixou o rasto do seu encanto juvenil,
uma luz da sua poética beleza,
a lembrança sensual dum rapaz da Jónia,
é Orofernes, filho de Ariarates.

Konstantinos Kavafis, 145 poemas




8.2.18

Nossos esforços são os dos troianos

TROIANOS
(1905)

Nossos esforços são — ó desditosos —,
nossos esforços são os dos troianos.
Quando algo conseguimos, ou quando algo
empreendemos, logo começamos
a encher-nos de coragem e esperanças.

Mas sempre algo há-de vir que nos detém.
Aquiles salta da trincheira à nossa frente
e com seus grandes berros nos aterra.

Nossos esforços são os dos troianos.
Cremos que, com audácia e decisão,
venceremos os trambolhões da sorte,
e saímos lá para fora a combater.

Mas quando a hora chega momentosa,
desertam-nos audácia e decisão;
a nossa alma fraqueja, está tolhida,
e à volta dos muros corremos,
procurando na fuga a salvação.

Mas a nossa ruína é certa. Lá em cima,
nos muros, já começam os lamentos.
Choram nossas lembranças, nossos sentimentos.
Amargamente por nós choram Príamo e Hécuba.

Konstantinos Kavafis, 145 poemas


7.2.18

Fala Ângela, na defesa ética do anti-herói

Não estou — espero — me julgando com excesso de imparcialidade. Mas preciso ser um pouco imparcial senão sucumbo e me enredo na minha forma patética de viver. Aliás fisicamente tenho algo de patético: meus olhos grandes são infantilmente interrogativos ao mesmo tempo em que parecem pedir alguma coisa e meus lábios estão sempre entreabertos como se fica diante de uma surpresa ou então como quando o ar que se respira pelo nariz é insuficiente e então se respira pela boca: ou então como ficam os lábios quando estão prestes a serem beijados. Eu sou, sem ter consciência disso, uma armadilha.
Apesar de sagaz, não compreendo realmente o que está me acontecendo. E o mundo a exigir decisões para as quais não estou preparada. Decisões não só a respeito de provocar o nascimento de fatos mas também decisões sobre a melhor forma de se ser.
Uma tensão de corda de violino.
Eu não compreendo o meu passado mais remoto, a infância e a adolescência que vive sem compreender e sem prestar atenção. Era uma avoada. Agora sem o mínimo de apoio na base inicial de minha vida sou solta e periclitante e os acontecimentos vêm a mim como algo sempre descontínuo, não ligados a uma compreensão anterior à qual esses acontecimentos deviam ser uma sucessão inteligível. Mas não: os acontecimentos parecem não ter causa em mim. Eu não entendo propriamente o que me acontece. E meu ponto de vista em relação às honras é primário.
Por que quero fazer de mim um herói? Eu na verdade sou anti-heróica. O que me atormenta é que tudo é "por enquanto", nada é "sempre". A vida — a partir do momento em que se nasce — é guiada, idealizada pelo sonho. Eu nada planejo, eu dou um salto no escuro e mastigo trevas, e nessas trevas às vezes vejo o faiscar luminoso e puro de três brilhantes que não são comíveis. Então subo à tona com um brilhante em cada pupila dos olhos para traspassar o opaco do mundo e outro entre os lábios semicerrados para quando eu falar minhas palavras sejam cristalinas, duras e ofuscantes.


Clarice Lispector, Um sopro de vida (pulsações)



5.2.18

Fala o Autor

As coisas acontecem indiretamente. Elas vêm de lado. Eu juraria que esse era o lado esquerdo. (Em me dou melhor com o meu lado esquerdo.) Que é quebrantado como o olhar de sensível ternura melancólica. É o encontro da pureza com a pureza e então a gente sente que é permissível a si mesmo, não sei mais o que dizer. Então — não o digo ou seria melhor que eu o diga. Ser um ser permissível a si mesmo é a glória de existir. Poder dizer a si mesmo com vergonha e canhestramente: eu a ti também te amo um pouco. Eu me permito.

Clarice Lispector, Um sopro de vida (pulsações)


4.2.18

A natureza e o verso

Não fosse o petróleo, e a natureza seria dispensável,
como um todo.
O petróleo salva a natureza e os heróis salvam apenas a sua
honra quando parecem salvar princesas ou castelos.
O homem magro, por exemplo, que quase não chegava a horas
ao massacre, portou-se como um verso rude: entrou,
arrumou o mundo e saiu logo a seguir.
Foi um valente: um homem que mata assim, como se fosse fácil,
merece, no mínimo, ter o seu nome numa rua,
no centro da cidade.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia


29.1.18

Sem fraque, mas com disposição romanesca

Era o primeiro encontro com Wagner, em Leipzig, marcado por intermédio de um conhecido, Nietzsche tinha vinte e poucos anos e ainda se licenciava. Foi ao alfaiate encomendar um fato à altura da ocasião. Vai à loja na manhã do domingo em que o encontro teria lugar; foi-lhe dito que, à noite, tudo estaria pronto. Espera em casa, chega o alfaiate; experimenta o fato, tudo nos conformes. O homem pede-lhe dinheiro, que Nietzsche não possui, fica tudo sem efeito. Apesar disso, existe humor e entusiasmo, não está tudo perdido, como o próprio confessou em carta a Rohde, um amigo:

Fora, a chuva cai torrencialmente. Oito horas e um quarto. Às oito e meia Windisch espera-me no Café do Teatro. Precipito-me na noite chuvosa, escura, também, eu um pobre homem magro, sem fraque, mas com disposição romanesca.

In Daniel Halévy, Nietzsche


28.1.18

Máquinas delirantes, a escrita, o corpo, o jazz

Mas Schafer não está a ouvi-lo.
— Sabe uma coisa? — diz impulsivamente. — Acho que vou voltar à cirurgia pura e simples. O organismo é escandalosamente ineficaz. Em vez de uma boca e de um ânus sujeitos a falhas porque é que não temos um único orifício polivalente para comer e defecar? Podíamos selar o nariz e a boca, entulhar o estômago e abrir um buraco de ventilação directamente nos pulmões... coisa que deveria ter sido feito desde o princípio...
Benwey — E porque não uma massa informe para todos os usos? Nunca lhe contei a história do tipo que ensinou o olho do cu a falar? Todo o seu abdómen se mexia para cima e para baixo pronunciando as palavras através de peidos. Nunca tinha ouvido uma coisa tão estranha. 
«Esse cu tinha uma espécie de frequência visceral. Captávamo-la directamente, como se estivéssemos à rasca para ir à casa de banho. Como quando o cólon nos dá cotoveladas e sentimos frio cá dentro... Só nos resta largar o lastro... Pois bem, esta conversa de cu fazia um som espesso, gorgolejante e surdo, um som que se podia cheirar.
«Este homem em questão trabalhava como ventríloquo numa feira. Ao princípio, era realmente divertido. Tinha um número que era de morrer a rir. Já não me lembro muito bem, mas era divertido. Do género, "ó pá, ainda estás aí em baixo?"
"Agora não me chateies. Estou a cagar", respondia-lhe o cu.
«Mas, a partir de dada altura, o cu começou a falar por conta própria. O tipo entrava em cena sem ter preparado nada e o cu respondia espontaneamente. Ao princípio, ele achou aquilo giro, mas, depois, o cu abriu-lhe um buraco nas calças e começou a falar em plena rua gritando que queria direitos iguais. Às vezes embriagava-se e desatava a chorar que ninguém gostava dele e que queria ser beijado como qualquer outra boca. Por fim, pôs-se a falar dia e noite. Ouvia-se o dono do cu a mandá-lo calar a quilómetros de distância. Dava-lhe grandes cargas de porrada e enfiava velas por ele próprio acima, mas não servia de nada. Um dia, o cu disse-lhe: "És tu quem vai acabar por se calar. Eu cá não. Já não precisamos de ti por estas bandas. Sou eu que posso falar, comer e cagar."
«Depois disso, o homem começou a acordar de manhã com uma espécie de girino gelatinoso à volta da boca. Essa gelatina é o que os cientistas denominam TND, tecido não diferenciado, o qual pode enxertar-se em qualquer parte do corpo humano. Ele arrancava-o da boca e os bocados colavam-se às mãos como gasolina a arder e voltavam a crescer; cresciam onde quer que caíssem. Ficou, finalmente, com a boca tapada e a própria cabeça teria caído se não fossem os olhos... A propósito, sabe que existe uma doença em certas regiões da África comum à raça negra em que o dedo pequenino do pé cai espontaneamente?
«A única coisa que o olho do cu não podia fazer era ver, está a perceber? E, por conseguinte, precisava de olhos. Mas o circuito nervoso encontrava-se bloqueado, invadido, atrofiado, e, assim, o cérebro já não podia transmitir ordens. Estava encerrado no crânio, selado. Durante uns tempos, ainda se vislumbrava o sofrimento desesperado e silencioso do cérebro por detrás dos olhos, mas, depois, o cérebro deve ter morrido porque os olhos apagaram-se... tinham tanta vida como os olhos de um caranguejo na ponta de um pedúnculo.

William Burroughs, Festim nu


E o igualmente chanfrado filme de Cronenberg:





27.1.18

Seres com alma

Nietzsche [com dezoito anos, idade com que começa a estudar na Universidade de Bona] deslocou-se por alguns dias a Colónia. Perguntou onde se podia alojar e certamente um brincalhão indicou-lhe uma casa de tolerância. Entrou na sala e viu-se imediatamente rodeado por raparigas despidas. No meio do aposento estava aberto um piano. «Fui direito ao piano», contou ele, «como se fosse o único ser que naquela sala tivesse uma alma.» Sentou-se, pousou as mãos no teclado e lançou-se numa daquelas extraordinárias improvisações que os seus amigos admiravam. As raparigas escutavam-no estupefactas. Nietzsche levantou-se subitamente e saiu, deixando-as espantadas.

Daniel Halévy, Nietzsche [biografia]


26.1.18

O limitado reportório das reacções humanas

Há algum tempo vi, não sei onde, a fotografia de uma execução no tempo da guerra. Três homens pálidos, de estatura mediana, sem nada de especial que lhes distinguisse as feições (a máquina apanhou-os de perfil) estavam alinhados à beira de uma vala acabada de abrir. Tinham ar de homens do Norte — a fotografia foi de facto tirada, segundo julgo, na Lituânia. Mesmo atrás de cada um deles estava um soldado alemão de pistola em punho. Entrevia-se ao longe mais um grupo de soldados: os espectadores. Deve ter sido no princípio do Inverno ou no fim do Outono, porque os soldados envergavam os seus casacões. Os condenados estavam também todos três vestidos da mesma maneira. Traziam bonés de pano e grossos casacos pretos por cima das camisolas interiores sem gola: o uniforme das vítimas. Como se tudo o mais não bastasse, tinham frio. Era em parte por causa disso que enterravam a cabeça nos ombros. Vão morrer daqui a um segundo: o fotógrafo disparou a máquina no instante anterior àquele em que os soldados carregavam no gatilho. Os três rapazes da aldeia enterravam a cabeça nos ombros e semicerravam os olhos como as crianças fazem na expectativa da dor. Contavam ser feridos, talvez gravemente; aguardavam — tão perto dos seus ouvidos! — o estrondo ensurdecedor de um tiro. E semicerravam os olhos. É tão limitado o reportório das reacções humanas! O que os esperava era a morte, e não a dor; porém os seus corpos não conseguiam distinguir uma da outra.

Joseph Brodsky, Marca de água


25.1.18

O gato e a calma

Ao longo destes anos, nas minhas estadias longas ou breves passagens por aqui, fui, creio eu, ora feliz ora infeliz, em proporções quase iguais. Tanto fazia, aliás, quanto mais não fosse porque eu não vinha com intuitos românticos mas para trabalhar, para terminar um artigo, para traduzir, para escrever dois ou três poemas, se tivesse essa sorte; para ser, simplesmente. Isto é, nem para uma lua-de-mel (o mais perto que estive disso foi há muitos anos, na ilha de Ischia, ou então em Siena) nem para um divórcio. Trabalhava, portanto. A felicidade ou a infelicidade vinham apenas por acréscimo, embora às vezes prolongassem a sua estadia para além da minha, como se resolvessem escoltar-me. Convenci-me há muito da virtude que é não nos consumirmos na vida das nossas emoções. Há sempre trabalho bastante para nos entreter, não falando já do vasto mundo lá fora. Em última análise, há sempre esta cidade. Enquanto ela existir, não creio que eu, ou seja quem for, possa deixar-se hipnotizar ou ofuscar por tragédias românticas. Lembro-me de um dia — o dia em que me preparava para partir, ao fim de um mês aqui passado sozinho. Acabava de almoçar numa pequena tratoria, no extremo mais distante das Fondamente Nuove, peixe grelhado e meia garrafa de vinho. Com essa refeição no papo, dirigi-me para o sítio onde ficara alojado, para ir buscar as malas e apanhar um vaporetto. Caminhei um quarto de milha ao longo dos Fondamente Nuove, um pequeno ponto móvel nessa gigantesca aguarela, e depois virei à direita, no hospital de Giovanni e Paolo. Estava um dia quente, soalheiro, o céu azul, um perfeito encanto. E, de costas para as Fondamente e para San Michele, rente ao muro do hospital, quase a aflorá-lo com o ombro esquerdo e dando a cara ao sol, de olhos semicerrados, senti de repente: sou um gato. Um gato que ainda agora comeu peixe. Se alguém me tivesse dirigido a palavra nesse instante, eu teria respondido com um miado. Foi uma felicidade animal, absoluta. Doze horas mais tarde, ao aterrar em Nova Iorque, deparei, é claro, com o pior sarilho da minha vida — ou o que nessa altura me pareceu sê-lo. Porém o gato, dentro de mim, resistia ainda; se não fosse esse gato, estaria agora a trepar pelas paredes nalgum manicómio de luxo.


Joseph Brodsky, Marca de água



24.1.18

A autonomia do olhar

O olho é o mais autónomo dos nossos órgãos. É-o porque os objectos da sua atenção se situam inevitavelmente no exterior. Salvo num espelho, o olho nunca se vê a si próprio. É o último a fechar-se quando o corpo adormece. Permanece aberto quando o corpo está paralisado ou morto. O olho continua a registar a realidade em todas as circunstâncias, mesmo quando não há razão aparente para o fazer. Porquê?, perguntar-se-á. E a resposta é: porque o meio circundante é hostil. A vista é o instrumento da adaptação a um meio que permanece hostil, por muito bem que a ele nos adaptemos. A hostilidade do meio ambiente cresce proporcionalmente à duração da nossa presença nele, e não me refiro apenas à velhice. Em suma, o olho procura a segurança. Assim se explica a predilecção dos olhos pela arte em geral e pela arte veneziana em particular. Assim se explica a apetência dos olhos pela beleza, bem como a própria existência da beleza. Porque, sendo segurança, a beleza é refrigério. Não nos ameaça de morte nem nos agonia. Uma estátua de Apolo não morde, como não morde o caniche de Carpaccio. Quando os olhos não encontram beleza — que é como quem diz, refrigério — ordenam ao corpo que a crie ou, à falta de melhor, habituam-se a descortinar na fealdade virtude. No primeiro caso, confiam no génio humano; no segundo, alimentam-se da nossa reserva de humildade. Esta última é mais abundante e, como todas as maiorias, tende a impor as suas leis. Tomemos um exemplo, a título de ilustração:  uma jovem donzela. Chegados a uma certa idade, miramos as donzelas que passam sem termos por elas qualquer interesse de ordem prática, sem aspirarmos a montá-las. Como uma televisão deixada acesa num apartamento abandonado, o olho continua a transmitir imagens desses milagres de cinco pés e oito polegadas, a cuja perfeição não faltam o cabelo castanho claro, o desenho oval do rosto, à Peruigno, os olhos de gazela, o busto de ama de leite, a cintura de vespa, os vestidos de veludo verde-escuro, e os tendões finos como lâminas. O olho pode avistá-las na igreja, num casamento qualquer ou, pior ainda, na secção de poesia de uma livraria. Dotado de excepcional acuidade, ou pedindo auxílio ao ouvido, o olho pode descobrir a identidade (associada a nomes tão assombrosos como, por exemplo, Arabella Ferri) e, para mal dos seus pecados, a desanimada firmeza das ligações românticas dessas donzelas. Indiferente à inutilidade de tais dados, o olho continua a recolhê-los. De facto, quanto mais inúteis os dados, mais viva a atenção. Perguntar-se-á porquê, e a resposta está em que a beleza é sempre exterior; é, além disso, a excepção à regra. São esses dois aspectos — a sua localização e a sua singularidade — que fazem oscilar descompassadamente o olho, ou — no linguajar da humildade militante — que o desencaminham. Porque a beleza é onde o olho descansa. O sentido estético é gémeo do nosso instinto de auto-conservação, e é mais digno de confiança do que a ética. O principal instrumento da estética, o olho, é absolutamente autónomo. Em matéria de autonomia, só as lágrimas lhe levam a palma.

Joseph Brodsky, Marca de água



A melancolia de um radical metafísico






Margarida escuta, pressentindo a loucura, ingenuamente fascinada com o que não compreende.

Fausto, Sokurov, 2011



23.1.18

Tudo tão pouco — que é que resta sempre de uma vida humana?

Que palavra se diz neste dizer? não a sei. Sei apenas que esse silêncio se preenche de tudo o que não sei dizer nem sobretudo me apetece dizer. Como uma rede que sustivesse todas as impurezas, o fio da água passa e a sua pureza me comove e só ela me existe. Fecho a caixa do violino, fecho a janela. Desço de novo à sala, olho ainda a tarde que se apaga. E é como se eu próprio me evolasse com essa tarde e de mim ficasse o que de útil e necessário me sustentasse o viver. Tudo tão pouco — que é que resta sempre de uma vida humana? Mesmo a dos heróis, dos grandes génios da arte e do saber. Depositaram a grandeza que foi sua, o que lhes fica é o nada que os sustenta, a miséria de um corpo que se extingue. Toda a convulsão de uma vida, aguentada agora com uma breve ideia, um frágil apoio, o vazio de si. A vida realiza-se multiplicadamente com a realização de quem a realiza. Como esse nada ou esse tudo se colabora na sua diversificação. Estou só — estás só. Não penses. Não fales. És em ti apenas o máximo de ti. Qualquer coisa mais alta do que tu te assumiu e rejeitou como a árvore que se poda para crescer. Que te dá pensares-te o ramo que se suprimiu? A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. E as estrelas, e os animais. Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede. Há uma palavra qualquer que deve poder dizer isso, não a sabes — e porque queres sabê-la? É a palavra que conhece o mistério e que o mistério conhece — não é tua. De ti é apenas o silêncio sem mais e o eco de uma música em que ele se reabsorva. Pensa-o ardentemente, profundamente, absolutamente. Não és grande, terás apenas a mania das grandezas? Como queres igualar-te ao imenso e imperscrutável? O dia acaba devagar. Assume-o e aceita-o. É a palavra final, a da aceitação. Só os loucos e os iludidos a não sabem. Não sou louco. Não são horas de ilusão. Vou fechar a varanda. Tenho de ir avisar a Deolinda. É uma tarde quente de Agosto, ainda não arrefeceu. Pensa com a grandeza que pode haver na humildade. Pensa. Profundamente, serenamente. Aqui estou. Na casa grande e deserta. Para sempre.

Vergílio Ferreira, Para sempre



22.1.18

Equilíbrio no instável

O drama de Ângela é o drama de todos: equilibrar-se no instável. Pois tudo pode acontecer e danificar a vida mais íntima da pessoa. O que é que terá sido feito à minha alma no ano que vem? Essa alma terá crescido? e crescido tranquilamente ou através da dor de duvidar?

Clarice Lispector, Um sopro de vida (pulsações)


21.1.18

O lugar em que somos

Eu me dou melhor comigo mesma quando estou infeliz: há um encontro. Quando me sinto feliz, parece-me que sou outra. Embora outra da mesma. Outra estranhamente alegre, esfuziante, levemente infeliz é mais tranquilo.
Tenho tanta vontade de ser corriqueira e um pouco vulgar e dizer: a esperança é a última que morre.

Clarice Lispector, Um sopro de vida (pulsações)


19.1.18

A esperança é fraca ceia

No Inverno acorda-se nesta cidade, principalmente ao domingo, ao som dos seus inúmeros sinos, como se para lá das nossas cortinas de tule vibrasse um gigantesco serviço de chá de porcelana, sobre uma bandeja de prata, no céu cinzento-pérola. Abrimos a janela num gesto largo, e o quarto fica instantaneamente inundado desta névoa exterior, carregada de repiques, feita em parte de oxigénio húmido, em parte de café e preces. Por muitos e por mais variados comprimidos que tenhas que tomar essa manhã, sentimos que ainda não está tudo perdido. Pela mesma razão, por muito autónomos que sejamos, por mais que tenhamos sido traídos, por rigoroso e desanimador que seja o conhecimento que temos de nós próprios, confiamos em que ainda haja para nós uma esperança, ou pelo menos um futuro. (Disse Francis Bacon que a esperança é um bom pequeno-almoço mas uma fraca ceia.) Este optimismo advém da névoa, do seu elemento de prece, em particular se forem horas do pequeno-almoço. Em dias como esses, a cidade adquire de facto um aspecto de porcelana, com todas as suas cúpulas revestidas de zinco a lembrar bules ou chávenas viradas ao contrário, e o perfil oblíquo dos campanários a retinir como um molho de colheres abandonadas e a esfumar-se no céu. Isto para já não falar das gaivotas e dos pombos, ora de contornos nítidos, ora a dissolver-se no ar.

Joseph Brodsky, Marca d'água



18.1.18

O dia seguinte

Porém um homem não se pode desligar
do que lhe acontece. Bloom existia,
e isso é ser frágil por fora, mesmo
que por dentro se esteja em aprendizagens sábias.
A Natureza ensina, mas não aprendemos:
o cão doméstico não impede a existência do lobo, um
clima magnífico não proíbe as tempestades,
ser feliz não impede o dia seguinte.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia


17.1.18

Não esquecer



1. Podes atacar
>

2. Defender-te



3. Mas o melhor é mesmo o movimento



Gonçalo M. Tavares, O senhor Swedenborg e as investigações geométricas