9.8.20

Marc Ribot e Luís Mourão

Um dos músicos que Luís Mourão mais apreciava era Marc Ribot. Não sei de música, entro no invisível à minha maneira, a única que posso. Não vejo como nas cordas poderá estar mais suspensa uma alegria por fazer.  A música é a síntese mais eficaz. O não-verbal conseguido impõe as afecções todas, nós defendemo-nos tentando compreender o que isso é, o que isso somos, fomos, não sabemos bem. Em cada gesto a rapidez do essencial, que, de todo, não é a velocidade em que o poder se manifesta. A diferença entre força e passagem rápida. O exterior que merece atenção é o amor, as possibilidades de ligação. A velocidade não conhece o exterior, é, quando muito, conhecimento que nunca chegou a pensar. O poder provoca tristeza, mas não entristece tanto como a vida que se esvai. E afinal, olhamos de forma diferente para os gestos que somos; como já nesse amor antigo, em tudo o que esquecemos está aquilo por que ansiamos. Mas não vale a pena esperar encontrar, é só persistir na claridade que foge e fica ali à mão o importante. Um certo dedilhar inquieto e calmo, as mãos aparadas, como convém ao abraço que desejamos dar ao sol, à chuva, ao vento que a cólera arrebata aos caminhos. Manter a alegria subtil, assim como a tristeza, não somos ninguém para nos pormos em bicos de pé, apenas para voar. A rapidez vê e é vesga, o exterior e o íntimo numa corrente. Lá fora atropelam-se para riscar a palavra fome das paredes e, em seu lugar, pôr outro nome, o seu, o da abjecção. Luís, é nessa corda que vem um pouco tarde, áspera e sonora, é o inevitável calmo, como a felicidade que não deve arrebatar, não só por pudor, mas porque não nos pertence. Uma escada para subir sem instruções, escada que nos sobe, sem pedir licença reacende os vestígios, fogo nunca totalmente consumido, vento que trouxesse formas que a distracção julgou insignificantes. A raiva vem dessa hesitação ainda lá atrás. A melancolia ocupa o território a toda a extensão, interrupção gulosa. Gosto muito que o Luís nunca tivesse pedido autorização para pensar. A música é curta, e nela já cabe tudo, a medida tanto do mínimo exterior que merecemos como do máximo íntimo por que nos esforçamos. Mão, cordas, ritmo, o corpo está completo aí porque quer, move-se por dentro, pode continuar. O corpo experimenta quando quer e ninguém, incluindo nós, tem algo a ver com isso. O luto é imóvel (Barthes), não há metro-padrão que lhe valha. Na perda entramos com os dois pés, só assim saltamos da cama, só assim cuidamos dos vivos.



21.7.20

A cidade, agora mais que nunca

Devemos perceber o que significa os pequenos gestos
terem sido substituídos
pelos grandes movimentos.
Na cidade já não há pormenores,
verifica-o. As pessoas cruzam-se
sempre em momentos de partida ou de chegada.
Ninguém fica. Não há estados intermédios.
Do coração dos homens o que as mulheres conhecem
são electrocardiogramas saudáveis. E vice-versa.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, V.50

19.7.20

Building-uivo




"we bow to Republic, Employer and God"

"we bow to republic, employer and god"

"não te curves senão para amar" (René Char, trad. Margarida Vale de Gato)


"Grita, e os seus gritos são palavras quase sem ruído ecoando nas paredes do quarto, são contra as pessoas para quem tem de olhar, são de ódio contra elas e contra si, mas exprimem também o desejo de que aquela multidão pudesse ser uma comunidade de amor, à qual ele viesse juntar-se".

Greil Marcus, Marcas de batom, trad. Helder Moura Pereira, Frenesi


17.7.20

Máquinas de salvação e de culpa, máquinas de amor

Podemos considerar que nenhuma máquina pode ensinar a justiça; no limite, ensinará a obediência ao seu superior, segundo uma história célebre. Nenhuma redenção num rosto convicto e límpido; uma certa seriedade que não se pode salvar, nem consegue aprender. Em linha recta não aprendes nada, disseram. A justiça é o colapso da máquina: uma linha recta pode morrer pela impossibilidade da justiça. Só podes exercê-la sem exactidão; não esquecer, todavia, que não há punição sem cegueira. A máquina pune; a justiça não conhece os caminhos da exactidão. Conhecerá outros? O caminho do disforme? Uma justiça que acontecesse em pés grosseiros, mãos que tremem, alegria, fome, avidez. Justiça errada, a única possibilidade. Através do erro encontrarás a salvação e a cegueira é comum ao erro. Os olhos abertos são, por seu turno, pórtico da morte: assassinato puro. Morres se souberes exactamente qual era o mal que praticaste; enquanto estiveres cego a respeito da tua culpa e da tua sentença, poderás viver, talvez desejar. A importância dos juízes imprecisos e silenciosos.

Uma síntese: “Mas a máquina que salva também aponta a culpa. A mão que aponta diz: tu mereces morrer por aquilo que fizeste” (Gonçalo M. Tavares, Electra). Os que buscam salvação: os culpados, os mortais, todos suspirando por essa máquina que, para além de tudo, reúne dedos apontados.

Uma história: Paul Virilio construiu uma capela em Nevers, França. Era cinzenta e sólida, inspirada na forma de um bunker; capela-bunker desenhada também de acordo com a estrutura de um coração. Capela, bunker, coração.

Pensar na crença como a única reserva segura para a vida; o coração como bunker portátil: víscera inquieta que permite avançar, raiva e amor que saltam para outros corpos. Estamos, contudo, num acidente: a velocidade é tão rápida que nem avisa e até esconde o vazio.

Por outro lado, bunker como espaço de salvação sem toque (Gonçalo M. Tavares); de outra perspectiva ainda, tentativa de fuga do medo mais terrível, espaço de liberdade.

Espaço também de morte: a sobrinha-neta de Charles de Gaulle, conta Virilio, em lugar da execução, foi enviada para um bunker por oficiais nazis. Casa preparada para que nada entre, nada saia.

Não bem um coração talvez, tantas vezes volátil. A estrutura da igreja tinha dois ventrículos: num, o coro, o coração serve para cantar, para elevar a voz e o corpo. Noutro ventrículo, estava o confessionário, explica Virilio, cristão devoto, “onde uma pessoa diz: admito, sou um completo filho da puta, mea culpa. Todos confessamos o mesmo. Ninguém diz: ‘sou genial, sou puro’. Para além disso, só depois de nos reconhecermos como filhos da puta, podemos começar a amar-nos”. O coração é ainda a víscera que permite aprender; é a mortalidade, única hipótese para o amor. Coração que canta, aprende e ama.

Máquina de salvação e de culpa — máquinas de amor. De fora para dentro; de dentro para fora.

20.6.20

Why Theory?

Why Theory? No geral dos casos, porque ela simula uma reivindicação de autonomia do estudo, companheira da exigência de independência da literatura como arte. Teoria seria reivindicar a literatura qua literatura, como faz a mesma por sua própria boca; mais dos factos é que coincida com a defesa, como suficiência operativa, de estados de grande exigência cultural, quando não de bom-senso ou de independência de espírito. No específico institucional, porque é sucesso académico. Quão meritório é, sendo método e arrumo, empacotar-se a obra toda de Lispector com uma noção ou duas. Na vanguarda da classe, que é ética (ou seja, maneiras de viver), convém que essas levem griffe de alguma autoridade não apenas reconhecida, mas distintiva (das que compõem o cânone da Teoria, disciplina que sem qualificação ulterior nos chega enquanto tal das universidades dos EUA); e convém notoriamente que o autor em estudo seja do tipo Lispector, que é profundo, e de que se podem usar as letras como símbolo de alguma maneira avançada de viver. Já no comum da classe, uma ou outra coisa narratológica, um que outro tema farão as despesas da normalização. Não parece sofrer dúvida que o exegeta que reivindica pela teoria a autonomia do estudo, como se por esse modo abraçasse a autonomia da arte literária, se fica com pouquíssima coisa (narrador, tema, figura &c.); e que a idiotia da especialização pode ser gritante nestes domínios que justamente a metem a ridículo (quantas vezes por inveja dos trabalhadores científicos). O interessante é que as duas noções avançadas funcionem do mesmo modo; e que, apesar da especificidade (e da especialização ética), em rigor não sejam discerníveis da lisonja da doxa humanística, que afirma o privilégio das artes e das letras, na suposição que os cumprimentos foram já retribuídos de boa mente pelos génios com serem génios.

Américo Lindeza Diogo, Teoria com tipos móveis



People got their opinions
Where do they come from?
Each day seems like a natural fact
And what we think changes how we act
People got opinions
Where do they come from?

Distant blood of ruvies
Won't discover money come on
Each day seems like a natural fact
And what we think changes how we act
So to change ideas
Change is what we do

Too much thinking makes me ill
I think I'll have another gin
A few more drinks it'll be alright
Each day seems like a natural fact
And what we think changes how we act
Each day seems like a natural fact

7.6.20

Luís Mourão, Pyrauta

Os dias continuam altos; os mais tristes, longos. Um dia que cresce na vertical, na direcção da alegria; ou em comprimento para o lado do abismo, que também nos olha. Entramos a meio e um pouco adiante saímos; o fim in media res. É a medida da alegria e das perguntas a que não respondemos; de outro modo, existiria o gastar-se aquém de nós. Quanto tempo ignoramos a luz fria e, em lugar disso, preferimos o fogo? Disse o Gonçalo:

"Plínio inventou muito nas suas histórias.
Disse que havia uma mosca que nascia no fogo.
E só conseguia respirar perto dele. Pyrauta, o nome.
Quando se afastava do fogo morria.
Uma bela imagem. Muito mais importante do que ser mentira."

É isso — estar perto de fogo, que leio como desejo. E o reverso disso na pequena certeza e no consolo mínimo de ser entendido. De ser ouvido e visto até à exasperação. O tempo sentido como o que não pode ser parado. O peso do inexorável a tolher o próximo gesto e a fé. Uma queda minúscula para dentro, não pode ser, nada é exactamente assim. A angústia do corpo que conhece o tempo, ainda que não se conheça, ou não esteja disposto a reconhecê-lo. Não é a culpa pela inutilidade — cortar patinhas de aranha e enviá-las em carta ao ministério; coleccionar formigas; fazer figurinhas geométricas na canícula; guardar uma rã para explicar mais tarde; levar uma plantinha a passear; insectar o tremeluzente no destino. Essas descoisas de cronópios conhecidos. Seria só isso? — repetimos, não aceitamos.

Ir ficando, caro Luís; em alternativa, a mortalidade como única condição de "real acesso ao outro". Estar perto de si era o oposto de Riobaldo perto de Garanço: "Não, com êle eu não me fazia; melhor esperar; eu ia ficando" (Guimarães Rosa).

E dois versos de Goethe que, do meu ponto de vista, sintetizam a ética da sua obra e da sua intervenção na esfera pública:

"O talento forma-se no silêncio,
O carácter no oceano do mundo".

2.6.20

Lars von Trier, Melancholia

Um curto filme dentro do filme: uma lentidão bela e melancólica, sínteses que nos permitem antever o desfecho do filme. O fim do mundo por cima das nossas cabeças logo desde o início; é o irreparável. Saturno, deus da lentidão.

Clássico Lars von Trier: uns minutos de adaptação até que a câmara páre dentro da cabeça.

Uma vertigem aumentada pelo kitsch; por favor, desejo sair do carro. Representado em câmara tosca, o kitsch, porém, só pode ser provocação.

Nada faria prever o desenvolvimento; aquela alegria não era a felicidade ingénua, mas a da inadaptação. Como demonstro aos outros a minha felicidade?

Quem parecia predador era, afinal, o ingénuo, não entendia quem tinha pela frente. A beleza é triunfante? O que promete a beleza?

A limousine não chegar é daquelas falhas que, retrospectivamente, anunciam quão o social pode ser insuportável. Sorrir, cumprimentar; um prazer fraco, análogo ao de uma função orgânica. Era mais um alívio. Porém, a noite era longa, muitas ordens havia ainda por cumprir. Até trabalho para fazer, pois há sempre quem seja muito ostensivo em não se deixar vencer pelo mundo. Nenhum músculo é tão forte como o mundo interior.

Em que instante se instala essa distância? Em que momento, por parecer brutalmente que o mundo apenas agride, nos tornamos agressores mais ou menos conscientes? Um asco crescente que nenhum gesto, pensamento ou acontecimento consegue sacudir.

Um momento brutal: levantar um pé para tomar banho e não conseguir. Nem o sangue seria tão eloquente. E o efeito compassivo da nudez: "Se vocês tivessem que se enfrentar nus uns aos outros, a matança resultar-vos-ia mais difícil. As fardas assassinas" (Elias Canetti, Apontamentos I).

Tempo para o que parece uma citação do final de Nostalghia de Tarkovsky: não a casa, mas de certo modo a infância, em que mais plenos nos imaginamos. Leveza proporcionada pela novidade, o invulgar exterior.

Cavalos que adivinham: o sobressalto, o terror nessa capacidade de ver o invisível. A insolência: como podem animais rudimentares saber?

Cavalos com medo: como podem não obedecer? Como pode o mundo não funcionar? A energia não dirigida ao mundo explodindo brutalmente. A cólera e a vergonha do humano. Esperar entre uma necessidade e a seguinte; quando a seguinte tarda, até um anjo pode matar.

Aflição com o fim, aparente calma com o fim.

Estás definitivamente perdido. Ou seja, nem sequer estás perdido, porque desta sentença não há fuga. Não te podes iludir, nem criar sentido, a floresta não tem nenhum caminho por onde possas continuar; será, daqui a pouco, transformada noutra coisa.

Avança-se para onde quando realmente não há tempo? Correr não elimina o irreparável — quando muito, poderá dar-lhe força e sentido. A iminência da morte — é ela? — aumenta o medo. A última esperança é, talvez, um medo demasiado violento.

Mais que calma, existe vontade do fim, uma certa atracção por um azul doce e perverso. O pessimismo de Lars von Trier, na senda de Dreyer — aliás, no seu estúdio, guarda a mesa de montagem do mestre.



27.5.20

A margem: a cidade

A METROPOLIZAÇÃO que, por conseguinte, devemos recear para o século que aí vem, é menos a da concentração das populações nesta ou naquela ‘rede de cidades’, mas a hiper-concentração da cidade-mundo, cidade das cidades, que é virtual, onde cada cidade real não passaria de um bairro, uma espécie de periferia OMNIPOLITANA cujo centro não estaria em lado algum e a circunferência estaria por todo o lado, decompondo-se a sociedade de amanhã em duas categorias antagónicas: os que viverão ao ritmo do tempo real da cidade mundial, na comunidade virtual dos abastados, e os que sobreviverão nas margens do espaço real das cidades locais, mais abandonados do que aqueles que hoje vivem nas zonas suburbanas do Terceiro Mundo.

Paul Virilio, A velocidade da libertação [1995]

Observações inconjuntas (VII)

7. Uma escada sem chão nem parede

Se em certos livros andávamos de tema em tema de uma frase para a seguinte, dentro do mesmo verso etc, aqui de modo sumamente perverso entramos na história pelo meio e saímos dela um pouco mais à frente, longe do fim. 

Longe do fim e do início, aliás, no exato ponto do nosso desconhecimento das coisas.

Subindo uma escada que, sem suporte, permite avançar até ao fim de si mesma; sem, pois, outra finalidade que não seja subir ou avançar um pouco, entre um ponto em suspenso até outro ponto que não chega a lado nenhum.

Adenda: De outro ângulo, claro, o perverso é a normal expectativa a respeito da ficção.

24.5.20

Observações inconjuntas (VI)

6. Regime alegórico e citação

Que regime alegórico existe num mundo sempre refeito, ainda mal recém-nascido?

"Desconfio de todos os sistemáticos e afasto-me do seu caminho. A vontade de sistema é uma falta de probidade" (Nietzsche, O Crepúsculo dos ídolos).

10.5.20

Uma deriva a partir da quinta observação inconjunta

Outra deriva a partir da citação de Pessoa: a alegria não deseja ser interrompida. Da interrupção dos fluxos muitas vezes nascerá a melancolia, talvez a angústia ou a cólera; em raras e sublimes ocasiões, da interrupção poderá nascer o cómico (Jacques Tati). A ponto de se parar durante minutos com o fim de se afugentar um moscardo. Perseguir o que atrasa — prolongar o atraso — quando teria sido possível fugir do que atrasa.


A propósito, o humor de Agustina: "A tristeza nasce do facto de sermos interrompidos, sabem muito bem que é assim. Os comentários à obra dum grande artista não passam de vaidosas maneiras de o interromper." [Agustina, Dicionário imperfeito].

Ao que Luís Mourão respondeu: "Nem sempre, nem sempre".

9.5.20

Observações inconjuntas (V)

5. Ofício: caçar a astúcia — síntese, ressalva e pensamento

Síntese

"A escrita do ensaio não quer dizer o dito" (João Barrento, O género intranquilo. Anatomia do ensaio e do fragmento).

Máximo e mínimo

O mínimo para se alcançar o máximo.

Exigir da vida o máximo; mas antes, ter exigido o mínimo.

Ou seja: deitar fora certos valores, comportamentos, despojar-se, segundo Clarice Lispector:

"com fome apenas do pouco, com fome apenas do menos" (A paixão segundo G.H.).

Clarice também chamava a isto o abandono da sentimentação — escolher o mínimo. O mínimo como o somatório dos nãos; condição da multiplicação das possibilidades.

Em Clarice, há a história de deixar para trás uma vida segundo as expectativas do social — os comportamentos da multidão: ser o centro das atenções mundanas, obter sucesso profissional, acumular honras. Isto significa que este máximo da multidão é falso e esconderia outro máximo, desta feita ético e orgânico: a alegria, o entusiasmo, através da escrita, atividade que, aos olhos do social, é o vazio, o mínimo.

Outra observação essencial, de algum modo uma deriva: "Os homens elogiam muito o que sentem. O que é tão perigoso como execrar o que se sente" (Clarice Lispector).

Elogiar muito o que se sente; o mim. Ou seja, não poder andar com a parafernália do que o Outro é suposto querer — disponibilidade para funcionar, participar acriticamente no mundano, etc. "Não é que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar" (Clarice Lispector). Ausência para poder ser leve, andar — saltar, diria mesmo. E a delicadeza: não é que deseje a pureza pela pureza. Não é que queira ser pura, só desejo saltar. Que no meu abandono da vaidade ninguém venha a encontrar o juízo.

No passado, muitas personagens claricianas estariam um passo antes da vida: "Um passo antes de minha vida … que, por uma espécie de forte íman ao contrário, eu não transformava em vida; e também por uma vontade de ordem" (Lispector). Um passo antes da vida — a espera. E uma vontade de ordem, pois "a desordem é de mau gosto". A alegria ou a espera, o máximo ou o mínimo. Artaud também observou: "Depressa, depressa, vou desordenar a minha vida" (O suicidado da sociedade).

O máximo é, pois, "o essencial tornado urgente" (Gonçalo M. Tavares). O prazer — sendo efémero, porque somos vivos, não equivale ao fútil, nem ao coletivo, com as suas palavras de ordem. Não é o Poder (substantivo despótico), mas o poder (verbo): eu posso, tu podes, ele pode...

O desejo é o essencial, "um devir-pura energia intensiva — a que circula no corpo paradoxal, múltiplo, fechado sobre si e em comunicação com o cosmos, e que coincide com a energia da sua consciência subtil" (José Gil, Caos e ritmo). Noutro ponto do livro, José Gil fala também da "pura energia sem Forma", o instante em que o grosseiro se converte em subtil, "porque o ritmo transporta-se a si mesmo do corpo para o pensamento, transformando o corpo em pensamento".

Alegria, movimento e pensamento: "Quando é que o pensamento do movimento se torna movimento do pensamento? Quando o ritmo do corpo se torna ritmo do pensamento" (José Gil).

Entrar no individual, desfazer o mim, sentir e explorar a pluralidade por via do prazer. Abandonar o máximo —a decantação do humano — para atingir outro máximo. Recusar a caridade para finalmente ser caridoso: “A gradual deseroização de si mesmo é o verdadeiro trabalho que se labora sob o aparente trabalho, a vida é uma missão secreta” (Lispector, A paixão segundo G.H.).


Para continuar o pensamento

"A única afirmação grande de Nietzsche é que a alegria é mais profunda que a dor, que a alegria quer profunda, profunda eternidade" (Fernando Pessoa).

A eternidade é a de um desejo que cresce, que quer indefinidamente continuar. Na enunciação de Pessoa, a alegria é metafísica. Porém, se fosse atingida essa profunda eternidade, a alegria dissolver-se-ia — a sua afirmatividade desapareceria caso fosse possível ao humano experimentar indefinidamente.

Por isso, se quer continuar (diríamos paradoxalmente, atendendo à frase de Pessoa), a alegria só poderá querer a mortalidade.

Um diálogo entre S. Agostinho e Clarice Lispector, moderado por Maria Filomena Molder (Dia alegre, dia pensante, dias fatais):

— Existe entre os homens esta grande questão: o homem pode ser feliz e mortal? (De ciuitate dei)
— Amar a vida mortal, isso é a felicidade. (A descoberta do mundo)

O horizonte de um fim é a condição da alegria, ainda que possamos suspeitar de uma secreta expectativa de eternidade.

Se torcêssemos os termos da enunciação pessoana, com júbilo aceitaríamos que o desejo de uma profunda, profunda alegria é imprescindível para o mundo continuar.

Em aberto, está a hipótese de recomeçar, de jogar.

3.5.20

Observações inconjuntas (IV)

4. «Um facto não existe sozinho»
(Uma menina está perdida no seu século à procura do pai)

Alguém passeia na rua e encontra um sapato. Não houve, nesta rua, nenhum desfile, nenhuma festa, não existe vestígio de acidente algum. O sapato não está perto de nada. Não está próximo de caixotes do lixo, nem de casas ou jardins. Como um objecto louco, sem função ou lugar.

Está no meio da rua, desamparado, sem o seu par, o par que poderia inserir o sapato perdido num conjunto, na unidade que sossegaria por momentos a turbulência no coração. Meia unidade é o desassossego.

Um sapato deverá ter um par; ou então algo perto, com o qual se possa ligar, contaminar, derivar em sentido. Mas não há nada perto, apenas um sapato. Não é possível identificar a sua origem; mas, pelo menos, haveria a possibilidade de nexo causal entre as coisas; pelo menos, esboçaríamos uma explicação.

Um verso: "O mundo tem o calor do sangue e é pessoal" (Sylvia Plath).

Um sapato no meio da rua é o assombro. 

Assim começa Uma mulher sem sorte de Richard Brautigan.

Assim é cada capítulo de Cinco meninos, cinco ratos. Um sapato sem par no meio da rua, irradiando sentido em todas as direções.


27.4.20

Observações inconjuntas (III)

3. Leitura cansada

Que disponibilidade temos, leitores, para aceitar avançar sem saber? Não quero certezas, só quero avançar. Ou então: ou me dás o sentido ou saco da pistola. De outro modo: a interpretação corre o risco de ser uma acusação. O juízo é uma cabeça gigante de ombros curtos — o homem-cabeça, a cabeça isolada e paranóica. Onde está o óbvio? — pergunta. Há muito espaço entre uma coisa e a coisa seguinte. Uma estepe inteira! Uma viagem longa, prefiro ficar em casa.

Na verdade avançamos sem saber — o que se passou em Naked Lunch? Antes uma explicação, dê-me uma explicação, por favor.

26.4.20

Observações inconjuntas (II)

2. Dez dedos, dez personagens

Noutros livros, essa injunção viria de outras formas. Por exemplo, no Livro da dança: "uma parte do movimento é excremento. / a outra é desejo." Ou o espanto de quem se vê atuar, vê o que faz enquanto age sem atraso: "Alguém / me / aconteço!".

"Os dedos são personagens. / Dez personagens" do mesmo livro. Cinco meninos, cinco ratos, dez dedos. Os dedos são as personagens.



24.4.20

Observações inconjuntas

1. Experimentar, não interpretar

Como é que se pode falar rápido daquilo que avança rápido? Daquilo que, indo mais lento, talvez favorecesse a interpretação? Mais radicalmente, talvez fosse interpretação e não texto.

Um injunção mas por meio da velocidade — não interpretes, experimenta (Gilles Deleuze).

21.4.20

Subir por uma escada que não assenta no chão

É que todas as coisas que me vêm à mente não me vêm à mente a partir da raiz, e sim apenas a partir de algum lugar próximo ao meio delas. Que alguém tente então segurá-las, que alguém tente segurar uma erva que começa a crescer somente no meio do talo, e a si mesmo nela.

Franz Kafka, Diários

10.4.20

Frantz de François Ozon

Um Ozon algo diferente, neste remake de Broken Lullaby de Ernst Lubitsch (1932). Sem o corpo jovem no verão. Houve, porém, um vislumbre desse corpo quando o soldado francês tomou banho. Em Ozon, retenho o corpo e o desejo que provoca, violento, em que reverbera um toque de nostalgia. Um pouco antes do ponto em que a beleza extrema se poderia tornar extrema crueldade (Gonçalo M. Tavares).

Em Frantz narra-se uma tentativa de suicídio com alguma delicadeza. Sem música dramática — embora com o anúncio de breves sons graves, picadas de estilete — a mulher avança de costas para a câmara, sem grandes planos. Outro detalhe: a habitação de Frantz em Paris. Como teria sido a sua vida aí, que outra pessoa seria. Não sabemos, mas imaginamos, isso é o cinema, é a arte. Que teria/terá pensado Hanna disso? Desse hotel? Também não sabemos, imaginamos. Não explicar, eis o decisivo.

Outro corpo (esse sim também comparece noutros Ozon): corpo melancólico, consumido pela culpa. Vou a França, não vou; conto, ou a felicidade é o mais importante. A coragem de avançar; a fraqueza de contar. Caso porque a mãe diz, é o desejo da mãe. Noutros filmes, pode ser o corpo em face do corpo jovem do verão, abrumado com tanta força. Aqui coube-lhe viver uma vida que não quis, outra tragédia. Não menos realista, de resto.

Uma grande delicadeza: visitar uma campa sem defunto. Fazer visitas à memória, a um amor que nunca se esqueceu, a uma felicidade tão irreal, que permitiu suspender o peso mais pesado entre todos. Tanto mais fantasmática quanto dela não temos imagens.

Goethe, em Fausto, sobre a felicidade: “Treme-me a voz, mal posso respirar; / Isto é um sonho, sem tempo nem lugar”. 

Uma certa ordem no luto, a melancolia necessária para que, talvez, não doa demasiado. De alguma forma, ainda amor (hipótese): “Chocado pela natureza abstracta da ausência; e no entanto, arde, dilacera. Daí que compreenda melhor a abstracção: é ausência e dor, dor da ausência — talvez, portanto, amor?” (Roland Barthes, Diário de luto). Não só o amor como abstracção, como a descoberta e, depois, o convívio com a dor que avulta na ausência; mas também a abstracção como amor, sensação de ausência irremível. “E agora apago-me de novo e volto para essas duas pessoas que por força das circunstâncias eram seres meio abstractos” (Clarice Lispector, A hora da estrela).

Outra bela delicadeza de Hanna: está tudo bem, não se preocupem. Aqui por Paris a vida é uma festa. A força necessária para se ser fraco. Uma vida é uma vida, nem mais nem menos. A coragem de não contar; a coragem de mentir; a coragem de não sofrer com o que o mundo reclama (R. Barthes); de não converter melancolia em auto-comprazimento doce. Habitar a infelicidade, habitar o desejo, um dissídio no livro de Barthes. A propósito, cita Barthes a dada altura uma carta de Proust: “Diga também isto de si para si porque é uma doçura saber que nunca amaremos menos, que nunca nos consolaremos, que nos lembraremos cada vez mais.

Diário de luto, Roland Barthes:

Dor e imortalidade; os mortais continuam a sofrer

“— 'Nunca mais, nunca mais!'
— E no entanto, contradição: este 'nunca mais' não é eterno porque nós próprios morreremos um dia.
'Nunca mais' é um dizer de imortal.

Coragem

“A minha moral
— A coragem da discrição
— É corajoso não se ser corajoso.” (R.B.)

Argumento contra o suicídio

“Como saberei que já não sofro, se morri?” A dor é, sobretudo, o conhecimento da dor.


Agradecendo à Medeia Filmes tanta gentileza por ter tornado acessíveis vários filmes interessantes



20.3.20

Olhar sem complacência, isto é, sem desejo

Agora conheço, pensa ela, conheço o prazer em cada canto, mas estou em Berlim, e queria passar a noite a varrer a cidade. Queria estar no lado dos que limpam, não dos que sujam; mas não existe esse lado, dos que só limpam: o varredor também suja. Martha olha para ele sem complacência, isto é: já sem desejo; e vê, confirma: como aquele homem é abjecto, como aquele homem que limpa Berlim é feio! Um homem feio limpa Berlim. É preciso chamar as autoridades, pensa Martha: um homem feio limpa Berlim. É preciso chamar alguém!

"Episódios da vida de Martha, Berlim", Bucareste-Budapeste: Budapeste-Bucareste
Gonçalo M. Tavares


23.2.20

A máquina ocupou o meio

Gonçalo M. Tavares, Bucareste-Budapeste: Budapeste-Bucareste

Mãe e filho

Sou tanto tua mãe como
A nuvem que em espelho se destila e nele vai reflectir o seu
lento
Apagamento às mãos do vento

Sylvia Plath, "Canção da manhã", Ariel

15.2.20

Ir ao fundo do que se sabe

Em situações-limite agarramo-nos a cada pormenor do corpo como se fôssemos cobertos de ouro; ávidos de organismo como antes de dinheiro.
Ninguém exige morrer rico, todos exigem não morrer.

Gonçalo M. Tavares, O osso do meio, Colóquio/Letras (janeiro/abril 2020)