14.2.17

Virgílio

Morremos da infância quando pela primeira vez nos perdemos na cidade. E na segunda vez morremos de amor. E na terceira, de tudo morremos, o que é morrer simplesmente.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca



10.2.17

Thomas de Quincey

O pescoço ou as costas são menos amnésicos do que o cérebro. E até o pénis, o ânus, a vagina e os seios são menos amnésicos do que o cérebro.
O toque é menos esquecido pelo corpo que a resolução de uma equação de matemática ou um verso.
E um verso cortado à mão é mais forte que um verso cortado com uma máquina de agradar.


Biblioteca, Gonçalo M. Tavares


8.2.17

Pensar selvagem

O que choca nos seus livros, é menos a ausência de rigor do que o carácter selvagem das importações intelectuais.

Você diz «selvagem». É correcto. Observo uma espécie de lei pirata que reconhece mal a propriedade das origens. Não, de modo algum, por espírito de contestação. Mas por imediatez do desejo, por avidez, de certa maneira. É por avidez que me apodero por vezes dos temas e das palavras dos outros. De resto, eu próprio nunca protesto quando me «tomam» qualquer coisa.

Roland Barthes, O grão da voz


Sombras e desastres

Os homens, afinal, são todos iguais e nenhum pode fazer bem a outro. Quando estava no palco, tudo era calmo, quando estava ao pé de um homem tudo era escuro. Viver significava comer e comer significava viver. Um dia, alguém se suicidara por causa dela; este gesto não a afectara por aí além, mas costumava pensar nele de bom grado. Tudo o mais mergulhava na sombra e, nessa sombra, os homens passavam como sombras mais carregadas fundindo-se umas nas outras, procurando, depois, dissociar-se novamente. Tudo aquilo só provocava desastres, como se precisassem de se castigar a si próprios quando procuravam o prazer juntos uns dos outros. Sentia-se um tanto orgulhosa por causar desastres também e quando o tal rapaz se suicidara vira nisso uma espécie de expiação e de indemnização que Deus lhe conferira em virtude da sua estirilidade.

Hermann Broch, Os sonâmbulos. Esch ou a anarquia.




1.2.17

Decência, envelhecer, ordem

Esch, sentado na borda da cama, examinou-a à luz vacilante da vela. Em cima da colcha, desenhou com um dedo um três e um sete. Devia ter-lhe trazido um bolo com trinta e sete velas; ou antes, não, ela gostava de esconder a idade, ter-se-ia zangado. Fitou-lhe as feições espessas e inertes e, de súbito, desejou vê-la muito mais velha ainda. Sem que ele soubesse porquê, isso ter-lhe-ia parecido muito mais seguro. Se porventura um toque de varinha mágica a remoçasse, de súbito, se ela ali estivesse no seu vestido de lantejoulas da juventude, o sacrifício desapareceria. E ele precisava daquele sacrifício, era mesmo necessário envelhecer, com a sua dedicação àquela mulher muito mais velha, para que a ordem reinasse no mundo e para que Ilona não tivesse de recear mais as facas, para que o estado de inocência fosse dado a tudo que é vivo e para que mais ninguém fosse condenado a apodrecer na cadeia. Pois bem, podiam estar sossegados, a Sr.ª Hentjen não tardaria a ficar muito velha e muito feia. E o mundo apareceu-lhe então como um corredor sem fim, liso e polido como um espelho. E disse sonhadoramente:
— Devíamos forrar a sala de oleado escuro. Ficava muito bonita.

Hermann Broch,
Os sonâmbulos. Esch ou a anarquia



Um poeta que escreva como um grego, como um homem

Em qualquer sociedade, e em qualquer época, há três sociedades e três épocas. Há, em primeiro lugar, e subjacente a tudo, a humanidade e esse tempo indefinido da sua duração a que a nossa linguagem contingente chama eternidade. «O Homem tem a eternidade» diz Browning, embora seja possível que ele tenha querido dizer algo diferente. Há, depois, e acima dela, a civilização a que essa sociedade e essa época pertencem. Há, por fim, as pequenas coisas específicas do aqui e agora (...)
Estes três níveis podem ter uma estrutura semelhante ou diferente.

Na Grécia antiga, eram praticamente contínuos. A Grécia e a civilização eram coextensivas, ou consubstanciais. A Grécia antiga e a sua civilização, sendo o início da sociabilidade crítica, ou seja, da própria civilização, eram idênticas à substância da humanidade civilizada. Assim, quando um poeta escrevia como um grego, escrevia como um homem. Este Paraíso não foi recuperado. Os arcanjos expulsaram dele o Homem e guardam eternamente as suas portas inúteis.
Um poeta grego, para ser célebre, tinha de adaptar-se a um ambiente. Nós temos três ambientes à escolha. Para nos adaptarmos a todos eles, cada um de nós tem de ser uma trindade, o que é demais até para a loucura.
Fernando Pessoa, Heróstrato


18.1.17

Pasolini, alguns versos

(...)

Magnífica e mísera cidade,
que me ensinaste o que os homens,
alegres e ferozes, aprendem em crianças,

as pequenas coisas em que a grandeza calma
da vida se descobre, como, por exemplo,
andar, duro e lesto, entre a multidão

das ruas, dirigir-se a outro homem
sem tremer, não ter vergonha
de verificar o dinheiro contado

com dedos lentos pelo empregado
que foge, suando, rente às fachadas
numa cor eterna de Verão;

defender-me, atacar, ter
o mundo diante dos olhos e não
apenas no coração, compreender

que poucos conhecem as paixões
em que vivi:
que, não sendo meus irmãos, são, porém,

meus irmãos, porque sentem, justamente,
paixões de homens
que, alegres, inconscientes, inteiros,

vivem de experiências
que nunca vivi.

(...)

Pier Paolo Pasolini, "O pranto da escavadora"



7.1.17

Jenny Hval de volta



Like capitalism
It works like unrequited love that way
It never rests
Just like I need the love I'm not getting from you
And all the people in the world
Are between you and I in that way
And in the way of love

You must be disgusted
But I need to keep writing because everything else is death
I'm self-sufficient, mad, endlessly producing
I don't need money, I just need your love
Or your approval, anything

Like capitalism
It works like unrequited love that way
It never rests
Just like I need the love I'm not getting from you
And all the people in the world
Are between you and I in that way
And in the way of love

Any sign is a promise of love, of being exposed
A stage ritual undressing taking a place of consumation
I'm here writing, working, making myself
Available for love
Making myself available for love
Because I love you
Because I love you
Because I love you

I just need a sign
Any recognition is a reward
Because I love you



6.1.17

Ler

Como ler? 

Letra a letra, sílaba a sílaba. Assim lêem as crianças. E os poetas, alguns.

Mas ler nem sempre é isso. Ler é não ver o rio Tejo, é ver as conquistas, as naus, e o mais. Ler é um desvio, como o olhar. É olhar para outro lado, uma actividade vesga. Não somos tão bons observadores como as crianças. Desaprendemos essa objectividade. O nosso olhar erra.

Quem lê convoca o que já sabe. Ligar é importante. Tudo parece ligado com tudo. Mas tudo, ao mesmo tempo, está desligado de tudo.

Quando leio isto:

Maria Bloom estava apaixonada e, como na inclinação de um caminho, os seus seios e a sua boca inclinavam-se para o desejo. Certas coisas invisíveis vêem-se (A perna esquerda de Paris, Gonçalo M. Tavares),

não releio nenhum outro livro. O meu desvio é outro. Só faço uma ligação com a adolescência, quando o desejo se insinuou, pela primeira vez, na inclinação dos seios e da boca das raparigas. E abria-se aí uma promessa infinda de felicidade (a felicidade tem de ser eterna, senão não é nada, e não é preciso sermos gregos para percebê-lo), o mundo era uma tarde de beijos e excitação; era um verão que, por direito, jamais acabaria. Sabíamos reconhecer o desejo, sem ninguém no-lo ter ensinado; pois certas coisas invisíveis, coisas que outros sentem, vêem-se.

Por isso ler é uma actividade interessante; uma errância que nem sempre o leitor controla. O texto autoriza a errância; é como um filho que, depois de ter saído da maternidade, se afasta dos pais e vai à sua vida.



5.1.17

Inclinação para o desejo

Maria Bloom estava apaixonada e, como na inclinação de um caminho, os seus seios e a sua boca inclinavam-se para o desejo. Certas coisas invisíveis vêem-se.


A perna esquerda de Paris, Gonçalo M. Tavares



9.12.16

Palavras de amigo (ironia, dependendo do modo como exerces a lucidez)

E o veneno, como se sabe, quando enviado em forma bela,
é recebido como um condimento pacífico,
e assim sucedeu. Palavras de amigo
são sempre mansas e parecem versos.
Shankra escutou-as: e como julgar de modo neutro
palavras de um irmão?
Por exemplo, estamos mais frágeis enquanto dançamos
e por isso só dançamos ao lado de amigos (não somos parvos).
Mas isto é só um exemplo.

Uma viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares, VIII.52




28.11.16

Técnicas para treinar a lucidez

Conheço pessoas que andam na rua como se fizessem um favor ao acto de andar. É perigoso julgarmo-nos maiores que a nossa tarefa - explicava o senhor Valéry.
- Se a nossa tarefa for fixar um prego na parede... 
(e ele desenhava)
- ...e se nos julgarmos mais inteligentes que essa tarefa, corremos o risco de falhar o prego, acertando em cheio no nosso próprio dedo.
- Mas também não nos podemos considerar menos inteligentes que a tarefa, pois por inibição corremos o risco de falhar outra vez o prego, e dessa forma acertarmos, de novo, em cheio, no nosso próprio dedo.
- Deste modo - concluía o senhor Valéry - eu considero-me, em qualquer situação, ao mesmo nível da tarefa. Nem sou seu chefe, nem seu empregado. Eu e a minha tarefa somos coisas com igual inteligência que num determinado momento partilham o Destino. E é só.


O senhor Valéry, Gonçalo M. Tavares



Syrinx fala

Os mesmos discos sempre, tecno-dance,
o mesmo souvenir de nova iorque
janelas de lisboa na parede, a mesma dança
de saliva e suor e chão dormido,
a mesma madrugada do desprezo.
Depois estou junto ao rio, onde turistas
fazem olhos velhacos e procuram
nos mapas a espanhol o que não há;
cheiro um resto de pó e fico vendo
nuvens no céu ali além das pontes
onde o corpo em pedaços me ficou.
Sonho, no fino fio em espiral do fumo,
as madeiras de pinho de outro barco
de âncora solta ao ar movendo o vento
e ao leme, sem culpa nem desejo,
o vigoroso eunuco cantador.


Quatro caprichos, António Franco Alexandre



12.11.16

Segundas moradas

ir ser como todos os outros era uma tarefa imprevisível, um labor
minuciosamente distraído,
precisávamos de armas, de bancos, de assaltos
a navios voando com as cores do panamá,
construímos casas, canais
por onde a água se levanta até
à boca dos antepassados,
castelos, moradas

onde as crianças desaparecem para nunca mais, e passam
a vestir bombazina, e a ter
amores perfeitos na gola do casaco, enquanto o ogre os saboreia.
ele dizia, estes são os mais belos animais, o presente a que aspiro
quando for rei, e quando se quebrar
a ânfora, que trouxe ao meu prazer
tão duvidosa eternidade,
serei feliz, generoso com a minha pobreza.

agora fico indeciso
entre um e outro, ou o fantasma de permeio,
o tédio de antigamente.
se vestir gabardine fico de pessoa completo,
civil, esguio, laico quanto baste.
o prazer possível não me deixa viver tranquilo.
vou deixar este negócio de acreditar, não acreditar,
vou ser todo igual, definitivamente outro.

António Franco Alexandre, As moradas 1 a 3



Máquina de segurar as coisas


Charles Ray, 1986, How a table works


11.11.16

Educação pelas coisas

A educação dada a um rapaz pelos objectos, pelas coisas, pela realidade física - por outras palavras, pelos fenómenos materiais da sua condição social - torna esse rapaz corporeamente o que é e o que será ao longo da vida. O que é educada é a sua carne como forma do seu espírito.

Pier Paolo Pasolini, Cartas luteranas



Prolegómenos da melancolia contemporânea


Internacional Situacionista, antologia



3.11.16

Em síntese, isto

Afinal, ninguém consegue que as coisas, incluindo os livros, lhe digam mais do que aquilo que já sabe. Para aquilo que, por experiência, não se tem acesso, também não se tem ouvidos.

Friedrich Nietzsche, Ecce Homo


28.10.16

Dylan, Deleuze & Parnet

Sim sou um ladrão de pensamentos
não um caçador de almas
construí e reconstruí
sobre o que espera
porque a areia nas praias
recorta muitos castelos
naquilo que foi aberto
no tempo que me antecedeu
uma palavra, uma brisa, uma história, uma linha
chaves no vento para o meu espírito vagabundo
que dá aos meus pensamentos uma corrente de ar fresco
não é coisa minha, sentar-me e meditar
perdendo e contemplando o tempo
para perder pensamentos que ainda não foram pensados
para perder sonhos que ainda não foram sonhados
ou ideias novas ainda não escritas,
ou palavras novas que rimariam…
e desprezo as regras novas
porque ainda estão por fabricar
e grito o que canta na minha cabeça
sabendo que sou eu e outros meus iguais
que as faremos, a essas novas regras,
e se as pessoas de amanhã
tiverem realmente necessidade das regras de hoje
então reúnam-se, procuradores gerais
o mundo não sendo o mundo mais que um tribunal
sim
mas conheço os acusados melhor que vós
e enquanto estiverem ocupados com inquisições
assobiamos com vagar
limpamos a sala de audiências
varrendo, varrendo
escutando, escutando
piscando o olho entre nós
cuidado
   cuidado
a vossa vez está a chegar.

«Orgulho e maravilha, modéstia também deste poema de Bob Dylan. Diz tudo. Como professor, gostaria de fazer um curso tal como Dylan compõe uma canção, assombroso produtor mais do que autor. E que comece como ele, num instante, com a sua máscara de clown, com uma arte que coloca cada detalhe no sítio exacto, e que, no entanto, pareça improvisada. O contrário de um plagiador, mas também o contrário de um mestre ou de um modelo. Uma longuíssima preparação, mas sem método nem regras ou receitas. Núpcias, e não casais nem conjugalidade. Ter um saco onde ponho tudo o que encontro, sob a condição de que eu também seja posto num saco. Descobrir, encontrar, roubar, em vez de resolver, reconhecer e julgar. Porque o reconhecimento é o contrário de um encontro. Julgar é a profissão de muitos, e não é uma boa profissão, mas é também o uso que muitos fazem da escrita. Antes varredor do que juiz.» 

Deleuze & Parnet, Diálogos


23.10.16

Infância, e depois

Quando penso na minha primeira infância, parece-me que nessa altura o dentro e o fora mal se distinguiam. Se gatinhava em direcção a alguma coisa, ela vinha ao meu encontro, voando; e quando acontecia alguma coisa importante para nós, não éramos só nós que ficávamos excitados, as próprias coisas começavam a vibrar. Não estou a dizer que éramos mais felizes do que fomos depois. Ainda não nos possuíamos a nós mesmos; no fundo, ainda não existíamos, a nossa condição de pessoa ainda não se distinguia da do mundo. Parece estranho, mas é verdade: os nossos sentimentos, as nossas vontades, e mesmo nós próprios ainda não estávamos inteiramente em nós. Mais estranho ainda seria eu dizer: ainda não nos tínhamos afastado suficientemente de nós próprios. De facto, se hoje, num momento em que julgas estar de posse de ti própria, te perguntares excepcionalmente quem és, farás esta descoberta. Ver-te-ás sempre a partir de fora, como uma coisa. Apercebes-te de que numa ocasião ficas irritada e noutra triste, como um casaco que ora está molhado ora é quente. A mais atenta observação permitir-te-á, quando muito, descortinar as motivações dos teus actos, mas nunca penetrar fundo em ti. Faças o que fizeres, ficas fora de ti própria – e as excepções são apenas aqueles poucos momentos em que todos dirão que estás fora de ti. A compensação encontrámo-la, já adultos, ao chegarmos ao ponto de podermos pensar, em cada ocasião e porque isso nos diverte: «eu sou». Vês um carro, e de algum modo vês também, como uma sombra: «Eu estou a ver um carro.» Amas ou estás triste, e vês que estás assim. Mas, em sentido estrito, nem o carro, nem a tua tristeza ou o teu amor ou tu própria estão inteiramente aí. Nada está da mesma maneira aí, inteiro, como esteve na infância. Pelo contrário, tudo aquilo em que tocas, até ao mais íntimo de ti, fica como que petrificado assim que chegas a ser uma «personalidade»; e o que resta, envolto numa existência totalmente exterior, é apenas o fio de névoa espectral da autoconsciência e de um indistinto amor-próprio.

Robert Musil, O homem sem qualidades, vol. II



14.10.16

Os prémios

"Não há nada a louvar, nada a amaldiçoar, nada a condenar, mas muito há de ridículo; tudo é ridículo quando se pensa na morte." Discurso de Thomas Bernhard ao receber o Prémio Nacional Austríaco de Literatura





1.10.16

Civilização, ersatz, instintos

«A história é sempre a mesma: a pretexto de civilização temos de viver no meio dos ersatz. E já se vai construindo uma teoria que explica a nossa perpétua solidão: se nos mantivermos sem companheiros entre os que nos disseram ser nossos semelhantes, é porque não encontramos nenhuma criatura espontânea. Ninguém que saiba dar-nos ocasião a estados primordiais, e a abafarmos com eles a nossa existência para uma magia ao mesmo tempo magnífica e brutal.»

René Crevel, O meu corpo e eu