18.1.17

Pasolini, alguns versos

(...)

Magnífica e mísera cidade,
que me ensinaste o que os homens,
alegres e ferozes, aprendem em crianças,

as pequenas coisas em que a grandeza calma
da vida se descobre, como, por exemplo,
andar, duro e lesto, entre a multidão

das ruas, dirigir-se a outro homem
sem tremer, não ter vergonha
de verificar o dinheiro contado

com dedos lentos pelo empregado
que foge, suando, rente às fachadas
numa cor eterna de Verão;

defender-me, atacar, ter
o mundo diante dos olhos e não
apenas no coração, compreender

que poucos conhecem as paixões
em que vivi:
que, não sendo meus irmãos, são, porém,

meus irmãos, porque sentem, justamente,
paixões de homens
que, alegres, inconscientes, inteiros,

vivem de experiências
que nunca vivi.

(...)

Pier Paolo Pasolini, "O pranto da escavadora"



7.1.17

Jenny Hval de volta



Like capitalism
It works like unrequited love that way
It never rests
Just like I need the love I'm not getting from you
And all the people in the world
Are between you and I in that way
And in the way of love

You must be disgusted
But I need to keep writing because everything else is death
I'm self-sufficient, mad, endlessly producing
I don't need money, I just need your love
Or your approval, anything

Like capitalism
It works like unrequited love that way
It never rests
Just like I need the love I'm not getting from you
And all the people in the world
Are between you and I in that way
And in the way of love

Any sign is a promise of love, of being exposed
A stage ritual undressing taking a place of consumation
I'm here writing, working, making myself
Available for love
Making myself available for love
Because I love you
Because I love you
Because I love you

I just need a sign
Any recognition is a reward
Because I love you



6.1.17

Ler

Como ler? 

Letra a letra, sílaba a sílaba. Assim lêem as crianças. E os poetas, alguns.

Mas ler nem sempre é isso. Ler é não ver o rio Tejo, é ver as conquistas, as naus, e o mais. Ler é um desvio, como o olhar. É olhar para outro lado, uma actividade vesga. Não somos tão bons observadores como as crianças. Desaprendemos essa objectividade. O nosso olhar erra.

Quem lê convoca o que já sabe. Ligar é importante. Tudo parece ligado com tudo. Mas tudo, ao mesmo tempo, está desligado de tudo.

Quando leio isto:

Maria Bloom estava apaixonada e, como na inclinação de um caminho, os seus seios e a sua boca inclinavam-se para o desejo. Certas coisas invisíveis vêem-se (A perna esquerda de Paris, Gonçalo M. Tavares),

não releio nenhum outro livro. O meu desvio é outro. Só faço uma ligação com a adolescência, quando o desejo se insinuou, pela primeira vez, na inclinação dos seios e da boca das raparigas. E abria-se aí uma promessa infinda de felicidade (a felicidade tem de ser eterna, senão não é nada, e não é preciso sermos gregos para percebê-lo), o mundo era uma tarde de beijos e excitação; era um verão que, por direito, jamais acabaria. Sabíamos reconhecer o desejo, sem ninguém no-lo ter ensinado; pois certas coisas invisíveis, coisas que outros sentem, vêem-se.

Por isso ler é uma actividade interessante; uma errância que nem sempre o leitor controla. O texto autoriza a errância; é como um filho que, depois de ter saído da maternidade, se afasta dos pais e vai à sua vida.



5.1.17

Inclinação para o desejo

Maria Bloom estava apaixonada e, como na inclinação de um caminho, os seus seios e a sua boca inclinavam-se para o desejo. Certas coisas invisíveis vêem-se.


A perna esquerda de Paris, Gonçalo M. Tavares



9.12.16

Palavras de amigo (ironia, dependendo do modo como exerces a lucidez)

E o veneno, como se sabe, quando enviado em forma bela,
é recebido como um condimento pacífico,
e assim sucedeu. Palavras de amigo
são sempre mansas e parecem versos.
Shankra escutou-as: e como julgar de modo neutro
palavras de um irmão?
Por exemplo, estamos mais frágeis enquanto dançamos
e por isso só dançamos ao lado de amigos (não somos parvos).
Mas isto é só um exemplo.

Uma viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares, VIII.52




28.11.16

Técnicas para treinar a lucidez

Conheço pessoas que andam na rua como se fizessem um favor ao acto de andar. É perigoso julgarmo-nos maiores que a nossa tarefa - explicava o senhor Valéry.
- Se a nossa tarefa for fixar um prego na parede... 
(e ele desenhava)
- ...e se nos julgarmos mais inteligentes que essa tarefa, corremos o risco de falhar o prego, acertando em cheio no nosso próprio dedo.
- Mas também não nos podemos considerar menos inteligentes que a tarefa, pois por inibição corremos o risco de falhar outra vez o prego, e dessa forma acertarmos, de novo, em cheio, no nosso próprio dedo.
- Deste modo - concluía o senhor Valéry - eu considero-me, em qualquer situação, ao mesmo nível da tarefa. Nem sou seu chefe, nem seu empregado. Eu e a minha tarefa somos coisas com igual inteligência que num determinado momento partilham o Destino. E é só.


O senhor Valéry, Gonçalo M. Tavares



Syrinx fala

Os mesmos discos sempre, tecno-dance,
o mesmo souvenir de nova iorque
janelas de lisboa na parede, a mesma dança
de saliva e suor e chão dormido,
a mesma madrugada do desprezo.
Depois estou junto ao rio, onde turistas
fazem olhos velhacos e procuram
nos mapas a espanhol o que não há;
cheiro um resto de pó e fico vendo
nuvens no céu ali além das pontes
onde o corpo em pedaços me ficou.
Sonho, no fino fio em espiral do fumo,
as madeiras de pinho de outro barco
de âncora solta ao ar movendo o vento
e ao leme, sem culpa nem desejo,
o vigoroso eunuco cantador.


Quatro caprichos, António Franco Alexandre



12.11.16

Segundas moradas

ir ser como todos os outros era uma tarefa imprevisível, um labor
minuciosamente distraído,
precisávamos de armas, de bancos, de assaltos
a navios voando com as cores do panamá,
construímos casas, canais
por onde a água se levanta até
à boca dos antepassados,
castelos, moradas

onde as crianças desaparecem para nunca mais, e passam
a vestir bombazina, e a ter
amores perfeitos na gola do casaco, enquanto o ogre os saboreia.
ele dizia, estes são os mais belos animais, o presente a que aspiro
quando for rei, e quando se quebrar
a ânfora, que trouxe ao meu prazer
tão duvidosa eternidade,
serei feliz, generoso com a minha pobreza.

agora fico indeciso
entre um e outro, ou o fantasma de permeio,
o tédio de antigamente.
se vestir gabardine fico de pessoa completo,
civil, esguio, laico quanto baste.
o prazer possível não me deixa viver tranquilo.
vou deixar este negócio de acreditar, não acreditar,
vou ser todo igual, definitivamente outro.

António Franco Alexandre, As moradas 1 a 3



Máquina de segurar as coisas


Charles Ray, 1986, How a table works


11.11.16

Educação pelas coisas

A educação dada a um rapaz pelos objectos, pelas coisas, pela realidade física - por outras palavras, pelos fenómenos materiais da sua condição social - torna esse rapaz corporeamente o que é e o que será ao longo da vida. O que é educada é a sua carne como forma do seu espírito.

Pier Paolo Pasolini, Cartas luteranas



Prolegómenos da melancolia contemporânea


Internacional Situacionista, antologia



3.11.16

Em síntese, isto

Afinal, ninguém consegue que as coisas, incluindo os livros, lhe digam mais do que aquilo que já sabe. Para aquilo que, por experiência, não se tem acesso, também não se tem ouvidos.

Friedrich Nietzsche, Ecce Homo


28.10.16

Dylan, Deleuze & Parnet

Sim sou um ladrão de pensamentos
não um caçador de almas
construí e reconstruí
sobre o que espera
porque a areia nas praias
recorta muitos castelos
naquilo que foi aberto
no tempo que me antecedeu
uma palavra, uma brisa, uma história, uma linha
chaves no vento para o meu espírito vagabundo
que dá aos meus pensamentos uma corrente de ar fresco
não é coisa minha, sentar-me e meditar
perdendo e contemplando o tempo
para perder pensamentos que ainda não foram pensados
para perder sonhos que ainda não foram sonhados
ou ideias novas ainda não escritas,
ou palavras novas que rimariam…
e desprezo as regras novas
porque ainda estão por fabricar
e grito o que canta na minha cabeça
sabendo que sou eu e outros meus iguais
que as faremos, a essas novas regras,
e se as pessoas de amanhã
tiverem realmente necessidade das regras de hoje
então reúnam-se, procuradores gerais
o mundo não sendo o mundo mais que um tribunal
sim
mas conheço os acusados melhor que vós
e enquanto estiverem ocupados com inquisições
assobiamos com vagar
limpamos a sala de audiências
varrendo, varrendo
escutando, escutando
piscando o olho entre nós
cuidado
   cuidado
a vossa vez está a chegar.

«Orgulho e maravilha, modéstia também deste poema de Bob Dylan. Diz tudo. Como professor, gostaria de fazer um curso tal como Dylan compõe uma canção, assombroso produtor mais do que autor. E que comece como ele, num instante, com a sua máscara de clown, com uma arte que coloca cada detalhe no sítio exacto, e que, no entanto, pareça improvisada. O contrário de um plagiador, mas também o contrário de um mestre ou de um modelo. Uma longuíssima preparação, mas sem método nem regras ou receitas. Núpcias, e não casais nem conjugalidade. Ter um saco onde ponho tudo o que encontro, sob a condição de que eu também seja posto num saco. Descobrir, encontrar, roubar, em vez de resolver, reconhecer e julgar. Porque o reconhecimento é o contrário de um encontro. Julgar é a profissão de muitos, e não é uma boa profissão, mas é também o uso que muitos fazem da escrita. Antes varredor do que juiz.» 

Deleuze & Parnet, Diálogos


23.10.16

Infância, e depois

Quando penso na minha primeira infância, parece-me que nessa altura o dentro e o fora mal se distinguiam. Se gatinhava em direcção a alguma coisa, ela vinha ao meu encontro, voando; e quando acontecia alguma coisa importante para nós, não éramos só nós que ficávamos excitados, as próprias coisas começavam a vibrar. Não estou a dizer que éramos mais felizes do que fomos depois. Ainda não nos possuíamos a nós mesmos; no fundo, ainda não existíamos, a nossa condição de pessoa ainda não se distinguia da do mundo. Parece estranho, mas é verdade: os nossos sentimentos, as nossas vontades, e mesmo nós próprios ainda não estávamos inteiramente em nós. Mais estranho ainda seria eu dizer: ainda não nos tínhamos afastado suficientemente de nós próprios. De facto, se hoje, num momento em que julgas estar de posse de ti própria, te perguntares excepcionalmente quem és, farás esta descoberta. Ver-te-ás sempre a partir de fora, como uma coisa. Apercebes-te de que numa ocasião ficas irritada e noutra triste, como um casaco que ora está molhado ora é quente. A mais atenta observação permitir-te-á, quando muito, descortinar as motivações dos teus actos, mas nunca penetrar fundo em ti. Faças o que fizeres, ficas fora de ti própria – e as excepções são apenas aqueles poucos momentos em que todos dirão que estás fora de ti. A compensação encontrámo-la, já adultos, ao chegarmos ao ponto de podermos pensar, em cada ocasião e porque isso nos diverte: «eu sou». Vês um carro, e de algum modo vês também, como uma sombra: «Eu estou a ver um carro.» Amas ou estás triste, e vês que estás assim. Mas, em sentido estrito, nem o carro, nem a tua tristeza ou o teu amor ou tu própria estão inteiramente aí. Nada está da mesma maneira aí, inteiro, como esteve na infância. Pelo contrário, tudo aquilo em que tocas, até ao mais íntimo de ti, fica como que petrificado assim que chegas a ser uma «personalidade»; e o que resta, envolto numa existência totalmente exterior, é apenas o fio de névoa espectral da autoconsciência e de um indistinto amor-próprio.

Robert Musil, O homem sem qualidades, vol. II



14.10.16

Os prémios

"Não há nada a louvar, nada a amaldiçoar, nada a condenar, mas muito há de ridículo; tudo é ridículo quando se pensa na morte." Discurso de Thomas Bernhard ao receber o Prémio Nacional Austríaco de Literatura





1.10.16

Civilização, ersatz, instintos

«A história é sempre a mesma: a pretexto de civilização temos de viver no meio dos ersatz. E já se vai construindo uma teoria que explica a nossa perpétua solidão: se nos mantivermos sem companheiros entre os que nos disseram ser nossos semelhantes, é porque não encontramos nenhuma criatura espontânea. Ninguém que saiba dar-nos ocasião a estados primordiais, e a abafarmos com eles a nossa existência para uma magia ao mesmo tempo magnífica e brutal.»

René Crevel, O meu corpo e eu


8.9.16

Chapéu cabeça

O homem mal-educado

O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.
Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.
No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.
Todos aguardavam.
A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.
O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.
Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado. Mas não conseguiram.
Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.

Gonçalo M. Tavares, O senhor Brecht


4.9.16

Grande política e seus prejuízos


Tal como um povo não sofre os maiores prejuízos, que a guerra e a prontidão para a guerra acarretam, através das despesas de guerra, das estagnações no seu modo de viver, nem tão-pouco através da manutenção de um exército permanente — embora tais perdas sejam grandes também agora, quando oito Estados da Europa gastam com isso a soma de dois a três bilhões anuais —, mas sim com o facto de que ano a ano os homens mais capazes, mais vigorosos, mais trabalhadores são removidos em número extraordinário das suas ocupações e profissões, para se tornarem soldados: de igual modo, um povo que se dispõe a praticar a grande política e a garantir uma voz decisiva entre os Estados mais poderosos não experimenta as suas maiores perdas onde geralmente as encontramos. É verdade que a partir desse momento ele sacrifica muitos dos talentos mais eminentes no “altar da Pátria” ou da ambição nacional, quando previamente, antes de serem devorados pela política, esses talentos tinham outras esferas de acção diante de si. Mas além dessas hecatombes públicas, e, no fundo, bem mais tremendo que elas, dá-se um espectáculo que continuamente se desenrola em cem mil actos ao mesmo tempo: todo o homem capaz, trabalhador, inteligente, esforçado, pertencente a um povo ávido de glórias políticas, é dominado por essa avidez e não mais se dedica inteiramente ao seu próprio negócio: as questões e os cuidados relativos ao bem público, diariamente renovados, consomem um tributo diário do capital de coração e mente de todo o cidadão: a soma de todos esses sacrifícios e perdas de energia e trabalho individuais é tão gigantesca que o florescimento político de um povo quase necessariamente acarreta um empobrecimento e debilitação espiritual, uma menor capacidade para obras que exigem grande concentração e exclusividade. E enfim é lícito perguntar: vale a pena, então, toda essa prosperidade e esplendor do conjunto (que, no entanto, até só aparecem à luz do dia enquanto receio dos outros Estados perante o novo colosso e enquanto protecção, arrancada ao estrangeiro, da prosperidade nacional em matéria de comércio e comunicações), se a essa Flor da Nação, grosseira e cambiante, têm de ser sacrificadas todas as plantas e ervas mais nobres, delicadas e espirituais, de que, até então, o seu solo era tão rico?


 Friedrich Nietzsche, Humano, demasiado humano

O que é o contemporâneo? Por José Bragança de Miranda.




19.8.16

«Livro do desassossego» dialogando com «O sentimento dum ocidental»

«Nas vagas sombras de luz por findar antes que a tarde seja noite cedo, gozo de errar sem pensar entre o que a cidade se torna, e ando como se nada tivesse remédio. Agrada-me, mais à imaginação que aos sentidos, a tristeza dispersa que está comigo. Vago, e folheio em mim, sem o ler, um livro de texto intersperso de imagens rápidas, de que vou formando indolentemente uma ideia que nunca se completa.
Há quem leia com a rapidez com que olha, e conclua sem ter visto tudo. Assim tiro do livro que se me folheia na alma uma história vaga por contar, memórias de um outro vagabundo, bocados de descrições de crepúsculos ou luares, com áleas de parques no meio, e figuras de seda várias, a passar, a passar.
Indiscrimino a tédio e outro. Sigo, simultaneamente, pela rua, pela tarde e pela leitura sonhada, e os caminhos são verdadeiramente percorridos. Emigro e repouso, como se estivesse a bordo com o navio já no mar alto.
Súbitos, os candeeiros mortos coincidem luzes pelos prolongamentos duplos da rua longa e curva. Como um baque a minha tristeza aumenta. É que o livro acabou. Há só, na viscosidade aérea da rua abstracta, um fio externo de sentimento, como a baba do Destino idiota, a pingar-me sobre a consciência da alma.
Outra vida, a da cidade que anoitece. Outra alma, a de quem olha a noite. Sigo incerto e alegórico, irrealmente sentiente. Sou como uma história que alguém houvesse contado, e, de tão bem contada, andasse carnal mas não muito neste mundo romance, no princípio de um capítulo: «A essa hora um homem podia ser visto seguir lentamente pela rua de...»
Que tenho eu com a vida?»
 
 
Bernardo Soares, Livro do desassossego