19.7.18

Desejo, esquecimento e pântano

O desejo é um modo de a realidade dizer que existe. O que espera de ti, não sabes. Mas é claro que o melhor é continuares no mundo que bem conheces. Aí ninguém te pode acusar de nada, tornas-te o ser puro ainda que o teu mundo se parta em dois. Não corras o risco de seres quem não sabes, dizes. A salvo do que desconheces ainda tens hipótese de seres tu, pensas, essa castidade ilude-te quanto à santidade. Esquece as tuas referências, as memórias em que te julgavas de substância divina, tenta o inumano, o demónio que escolhe. É preciso que julgues, é preciso que julgues.

Danças para te salvares enquanto morres. Deve ser isso. Ou então vives próximo de uma máquina que esconde tudo com eficácia. Uma máquina como o cérebro, também capaz de tudo esconder ainda com mais eficácia. Porém, pensavas que o pântano, esse sim, é que era o mais eficaz no esquecimento.



(Fotograma de Psycho, Hitchcock)


18.7.18

Formas de digerir a desilusão, hey, children are the only ones who blush, dear Mark!

Standing on the corner,
Suitcase in my hand
Jack is in his corset, and jane is her vest,
And me Im in a rocknroll band hah!
Ridin in a stutz bear cat, jim
You know, those were different times!
Oh, all the poets they studied rules of verse
And those ladies, they rolled their eyes

Sweet jane! whoa! sweet jane, oh-oh-a! sweet jane!

Ill tell you something
Jack, he is a banker
And jane, she is a clerk
Both of them save their monies, ha
And when, when they come home from work
Oh, sittin down by the fire, oh!
The radio does play
The classical music there, jim
The march of the wooden soldiers
All you protest kids
You can hear jack say, get ready, ah

Sweet jane! come on baby! sweet jane! oh-oh-a! sweet jane!

Some people, they like to go out dancing
And other peoples, they have to work, just watch me now!
And theres even some evil mothers
Well theyre gonna tell you that everything is just dirt
Yknow that, women, never really faint
And that villains always blink their eyes, woo!
And that, yknow, children are the only ones who blush!
And that, life is just to die!
And, everyone who ever had a heart
They wouldnt turn around and break it
And anyone who ever played a part
Oh wouldnt turn around and hate it!

Sweet jane! whoa-oh-oh! sweet jane! sweet jane!

Heavenly wine and roses
Seems to whisper to her when he smiles
Heavenly wine and roses
Seems to whisper to her when she smiles
La lala lala la, la lala lala la
Sweet jane
Sweet jane
Sweet jane


17.7.18

Sweet sweet Jane

Anyone who's ever had a heart
Wouldn't turn around and break it
And anyone who's ever played a part
Wouldn't turn around and hate it
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

You're waiting for Jimmy down in the alley
Waiting there for him to come back home
Waiting down on the corner
And thinking of ways to get back home
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Anyone who's ever had a dream
Anyone who's ever played a part
Anyone who's ever been lonely
And anyone who's ever split apart
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Heavenly widened roses
Seem to whisper to me when you smile
Heavenly widened roses
Seem to whisper to me when you smile
Sweet Jane
Sweet, sweet Jane



Bartleby, Bloom, Ulisses, Ulrich, homens que só têm o chão

Bartleby é o Celibatário, aquele de quem Kafka dizia: «Só existe o chão que faz falta os seus dois pés, e que pode ser ponto de apoio às suas duas mãos» — aquele que se deita na neve no Inverno para morrer de frio como uma criança, aquele que apenas tinha de passear, mas que podia fazê-lo num lugar qualquer, sem se mexer. Bartleby é o homem sem referências, sem posses, sem propriedades, sem qualidades, sem particularidades: ele é demasiado liso para que lhe possamos pregar uma particularidade qualquer. Sem passado nem futuro, ele é instantâneo. I PREFER NOT TO é a fórmula química ou alquímica de Bartleby, mas podemos ler ao contrário, I AM NOT PARTICULAR, eu não sou particular, como o complemento indispensável. É todo o século XIX que será atravessado por esta procura do homem sem nome, regicida ou parricida, Ulisses dos tempos modernos («Eu sou Ninguém»): o homem esmagado e mecanizado das grandes metrópoles, mas de onde se espera, talvez, que saia o Homem do futuro ou de um novo mundo.

Deleuze, Crítica e clínica

16.7.18

O chão, a única propriedade

O chão não se derrota, aguenta toda a carga, não se queixa. Não se cansa de ver, é firme — ensina-te a mortalidade, és um peso, bem podes saltar de uma ponte que acabarás por cair. Ele espera-te, não conhece o fútil, apenas o urgente, seguros tanto os que estão num festa como os que se levantam com pressa. Podes perder tudo, depois de tantas traições, fadiga, falhanços, depois de estares cansado tanto porque trabalhaste muito, como porque se infiltra, não sabes de que forma, ferrugem nas juntas da vontade, depois de não teres mais nada nem ninguém a quem te possas ligar, serás sempre um peso ligado ao chão. O chão é a propriedade que reconheces depois de perdido o que tinhas por essencial. Mas ele esteve sempre ali, foi sempre a propriedade que mais consistência dava às tuas ligações. É ele quem te segura depois de observares os factos vezes sem conta, instigando o confronto com o fragmento. Depois da última emoção, da impossibilidade de somar mais uma embriaguez, quando te tornares paixão frenética sem ligação que te devolva o corpo e a sua energia, lembra-te do chão, da mentira de tantas emoções, de tanto amor.

13.7.18

A também justa homenagem ao chão


Chão

Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.

Gonçalo M. Tavares, 1


11.7.18

A partir de Agustina

O ponto máximo de perversidade é o pressentimento da força — a cumplicidade é só uma estratégia para enfraquecer, evitando-se obstáculos futuros. As almas muito inseguras que sem a caução alheia para cada passo — incluindo os que a própria consciência julga como perversos — são incapazes de fazer o mínimo. Uma insegurança que é sobretudo filha do ressentimento e da manha. Farejam os que estão em suspenso para o exercício do seu magistério mesquinho. Como sabemos, o poder ganha-se muitas vezes não no incremento da força individual, antes na subtracção da força dos que podem ameaçar. O pequeno ódio fomentado com astúcia, o acesso de febre fomentado por certas palavras, envoltas em celofane, são o necessário para conquistar mais um palmo de terreno, num mundo pequeno para pessoas com sapatos altos. A simpatia como técnica negocial, na expectativa de lucros futuros, e não propriamente entrega ingénua ou intencionalmente bondosa. No mundo existem carros longos e comentários aprazíveis. Hoje é mais um dia em que tudo se joga ao milímetro: uma achega, palavras doces como veneno, o uso ponderado do elogio, em busca da cumplicidade que caucione o mal, e, em consequência, alguém irá cair, mais ou menos devagar, receberemos essa energia com gáudio.

Caminham como se o mundo fosse revestido a alcatifa e dividem os homens entre os que pisam a terra e os que sobrevivem uns degraus acima do ar. 


6.7.18

O microscópio de Agustina


Custódio não bebia. Repugnava-lhe o vinho; o velho hábito das casas de lavoura, onde o criado mais antigo fica incumbido de descer à adega a encher a cântara para as refeições, era cumprido por ele. Quina sabia que ele não aproveitaria jamais aquele direito quase oficial dum gole extra à beira da pipa. Porém, não raro subtraía algumas canadas para Libória, que gostava de fazer pactuar consigo, pois tinha uma necessidade absoluta de angariar protecção na consciência dos outros, e, pela coacção da cumplicidade, fazê-los seus aliados, sobretudo quando os pressentia inimigos.

Agustina Bessa-Luís, A Sibila


5.7.18

Em busca de uma alegria equânime em tempos de decadência

Ouvi mais tarde o irmão Otão dizer sobre os nossos tempos mauritânios que um erro só se torna uma falta irreparável quando nele se persiste. Palavras que se me afiguraram tanto mais verdadeiras, quando pensava na situação em que nos encontrávamos na altura em que aquela ordem nos atraiu. Há épocas de decadência em que se esfumam os contornos da forma que permite a realização de uma vida mais plena. Quando elas nos cabem em sorte, vacilamos e andamos aos tropeções de um lado para o outro como seres que perderam o equilíbrio. Saímos de uma alegria conturbada para mergulharmos numa dor acabrunhante, ao mesmo tempo que uma consciência de perda, que nunca nos larga, nos faz ver o futuro e o passado como mais aliciantes. Movemo-nos em tempos remotos ou em utopias distantes, enquanto o momento presente se nos escapa entre os dedos.
Assim que nos apercebemos desta carência, esforçamo-nos por lhe pôr cobro. Sentíamos a nostalgia da presença, da realidade, e teríamos penetrado no gelo, no fogo e no éter para nos vermos livres do tédio. Como sempre acontece quando a dúvida se acasala a um excedente de energias, convertemo-nos à força — e acaso não é ela o eterno pêndulo que faz avançar os ponteiros, tanto de dia como de noite?

Ernst Jünger, As falésias de mármore


4.7.18

Uma certa humildade que é um certo esbanjamento

Orgulho e escárnio: a indiferença aos leitores, aos maus leitores, aos perseguidores, aos correctores. Orgulho e escárnio: armas de guerra. Humildade, fonte e regra, sem ela a coisa foge, escapa ao poeta. Como diz Clarice Lispector “Humildade como técnica é o seguinte; só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente” (A Descoberta do Mundo). A audácia está ligada à humildade e à reverência: “enriquecer com a sua própria plenitude” (Nietzsche, O Crepúsculo dos Ídolos). A um tempo, pobreza e esbanjamento. Já para instinto e estudo temos, por um lado, a embriaguez, a incapacidade em não reagir, a animalidade como um estar fora de si; por outro, o deter-se, refrear-se, resistir à tentação de reagir, inseparável do acto de idealizar como “um formidável acto de erosão”.

Maria Filomena Molder, Dia alegre, dia pensante, dias fatais 


1.7.18

Saúde como embriaguez longa

Saúde como embriaguez longa, constante. Eficazes sobre o caminho: os pés. Fortes: os pensamentos. O ferro é a alegria do ódio, mas cada estilhaço de metal não se lava com o mesmo entusiasmo com que se lava um filho. Quem perde foge. Quem vence, se for delicado, plantará flores.

Gonçalo M. Tavares, 1

30.6.18

A homenagem justa à mesa

MESA

A mesa tem uma qualidade: não deixa cair as coisas.
Não interfere no mundo: a mesa recebe, ampara.
Não julga, não dá instruções excessivas.
Recebe,
ampara,
não deixa cair.
Sobre ela as coisas claras permanecem claras, e não caem.
As escuras permanecem escuras, e não caem.

Gonçalo M. Tavares, 1


«O planeta é enorme mesmo nos dias em que usas sapatos altos»


Gonçalo M. Tavares, «Sobre os homens», 1


28.6.18

Sono un gran bugiardo

“Sono un gran bugiardo” declara Fellini no filme com o mesmo título. Na sua infância e na sua terra os artistas eram vistos como criaturas excêntricas, inadaptadas, vagabundas, canalhas. E assim os continua a ver, acentuando o instinto da rebelião. Ele sabe que é um combatente que tem medo e que sem medo não poderia defender-se e vencer, saltar para fora da arena. Mas a rebelião não é solteira, vive paredes meias com um gesto artesanal que se chama magia.
Quando lhe acontece ver um filme dele, coisa raríssima, pergunta sempre: “Ma chi è che a fatto questo?” Nas primeiras semanas, é ele a guiar o filme, nas semanas seguintes é o filme a guiá-lo a ele. O filme engendra o seu próprio tempo, passa de uma simultaneidade para outra, a série domesticada (primeiro, segundo, terceiro...) foi deixada de lado. Nele habita um obscuro habitante, “com quem convivo, mas que não conheço”, um sem nome que o faz seduzir, plagiar tudo o que vê e ouve, aquele que lhe dá autoridade, que o torna autor.
Claro que para Fellini isto nada tem a ver com improvisação nem com a liberdade sem limites (uma forma de superstição que se engana a si própria), mas com a espontaneidade, eis o segredo da arte e também o da vida (Leibniz diz que a liberdade é a espontaneidade do espírito, cf. Couturat). Sem arte só haveria a vida pura, um coração que bate, um estômago que digere, pulmões que respiram... diz ele, embora, essa vida pura, irreconhecível, penetre em todos os poros da arte: um coração que bate, um estômago que digere, uns pulmões que respiram: pulsação, mortificação ácida e regeneradora, sopro.
Eis o primeiro princípio: enterrar tudo o que jaz morto em nós, e a disposição-chave: estar “in attesa”. Quando não filma, sente-se um exilado, impreparado para a existência (Chillida diz que é um fora-da-lei, Clarice Lispector diz que está morta. E depois há os que já estão a morrer, já enquanto ainda escrevem). Por outras palavras, o exílio é queimado em praça pública.


Maria Filomena Molder, Dia alegre, dia pensante, dias fatais


27.6.18

Quando formos transporte, uma hipótese

DEPOIS DA MINHA MORTE

Fui transportado depois da minha morte, fui transportado, não a um lugar fechado, mas à imensidade do vazio etéreo. Longe de me deixar abater por essa imensa abertura em todos os sentidos e a perder de vista, em céu estrelado, congreguei-me e congreguei tudo o que eu tinha sido, e o que estivera quase a ser, e em suma tudo aquilo que no calendário secreto de mim mesmo me tinha proposto ser, e apertando tudo, e também as minhas qualidades, e por fim os meus vícios, derradeiro escudo, fiz de tudo a minha capa e arreio.
Sobre este caroço, animado pela ira, mas uma ira clara que o sangue já não sustinha, uma ira fria e integral, pus-me a fazer de porco-espinho, em suprema defesa, numa última recusa.
E então o vazio, as larvas do vazio que já cresciam tentacularmente para mim com os seus bolsos moles, ameaçando-me com a abjecta endosmose, essas larvas espantadas, após uns vãos tentames contra a presa que recusava render-se, recuaram embaraçadas e deixei de as ver, abandonando à vida aquele que tanto a merecia.
Doravante livre deste ponto, empreguei a minha força do momento, a exaltação da vitória inesperada, para pesar em direcção à Terra, e voltei a penetrar o meu corpo imóvel, que os lençóis e a lã felizmente não tinham deixado arrefecer.
Com surpresa, após este meu esforço ultrapassando o dos gigantes, com surpresa e alegria misturada em decepção, voltei a entrar nos horizontes estreitos e cerrados onde a vida humana, para ser o que é, tem de passar-se.

Henri Michaux, O retiro pelo risco (antologia)


25.6.18

O éter — uma introdução

O homem tem uma necessidade desconhecida. Tem necessidade de fraqueza. É por isso que a continência, doença do excesso de força, lhe é especialmente intolerável.
Desta ou daquela maneira, precisa de ser vencido. Cada qual arrasta em si um Cristo.
No auge de si mesmo, no cume da sua forma, o homem tenta ser derribado. Impaciente, parte para a guerra e a Morte por fim o alivia.
É ilusão crer que o homem senhor de uma grande força sexual terá, pelo menos ele, o sentimento e o sabor da força. Ai dele, porque mais ardorosamente ainda que um outro ansioso por desbaratar as suas forças, como se corresse o perigo de se ver asfixiado por elas, rodeia-se de mulheres, esperando delas a redenção. De facto aquilo com que sonha é cair de escantilhão na mais inteira fraqueza e de nisso se dispensar das suas últimas forças, e de si mesmo, por assim dizer, de tal maneira sente que a personalidade, caso lhe reste alguma, é ainda uma força de que precisa aliviar-se.
Ora, sendo com certeza provável que depare com o amor, já é menos provável, depois de o experimentar, que ele abandone este patamar por muito tempo. Acontece a um ou outro, todavia, desejar perder ainda mais o seu Eu, aspirando a despojar-se, a tiritar no nada (ou no todo). É verdade que o homem embarca em muitos navios, mas é para ali que quer rumar.
Obstinando-se ele na continência, como desfazer-se então das suas forças e atingir a calma?
Prostrado, recorre ao éter.
Símbolo e atalho do acto de partir e da aniquilação, ambos desejados.

Henri Michaux, O retiro pelo risco (antologia)


24.6.18

Onde se lê Manuel de Freitas deve ler-se António Maria Lisboa

RECUSA
I
É muito possível durante os primeiros meses
uma importante viagem à Ásia — essa
é uma das consequências
secretas
em que não se tomaram quaisquer resoluções finais
e ambas chegaram igualmente.
II
ainda um cu marinho de agonia onde eu
sou um copo de aguardente francesa e tu
uma gaivota que passa rente ao barco que me leva
III
— Eu sou uma coisa qualquer
Eu sou uma qualquer coisa
sou uma qualquer coisa eu
uma qualquer coisa eu sou
qualquer coisa eu sou uma
coisa eu sou uma qualquer
EU NÃO SOU UMA COISA QUALQUER
— eu sou uma cidade
— eu sou ZANONI de Bulwer Lyton
— eu sou uma errata
— onde está a minha vida deve-se ver a nossa vida
— onde está Deus deve-se ver o Diabo
— onde está o Amor deve estar o Grande Amor 
Mágico Amor Meu
— onde estou Eu deves estar Tu
— onde estão os lábios da nossa vida HÁ 
uma porta secreta minúscula
O-AMOR
MEU AMOR

António Maria Lisboa

ERRATA

Onde se lê deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
Onde se lê Manuel de Freitas deve ser com certeza um sítio mundo triste.

Manuel de Freitas


23.6.18

A salvo (por enquanto) graças a lençóis macios

Mais uma vez se sentiu dominado por um profundo desânimo e mesmo por um mal-estar físico. Ficou durante alguns minutos como que esvaziado pela náusea.
Mas depois voltou a tomar consciência de como o seu corpo era tocado em todos os pontos pelos lençóis macios e mornos da cama. Virou a cabeça com cautela, devagar, com todo o cuidado.

Robert Musil, As perturbações do pupilo Törless


22.6.18

Entre o começo e o fim do mundo

     Existia alguma coisa para denominar no alto desta sombria
     masculinidade. Era talvez um cego escorrer
     de sangue pelos anéis e flores do corpo.
     Sei unicamente que era a força da tristeza, ou a força
     da alegria da minha vida.

     Havia também outra coisa a que se deveria dar
     um nome belo e lento. Algo que se cercava de lágrimas
     como uma árvore se vai cercando de folhas
     inúmeras. Tudo isso começava
     a aparecer nas vozes e inspirações como uma ardente
     confusão. Era primeiro uma virtude.
     Depois, este vagaroso acender
     da noite. O sangue despenhava-se
     nas lagoas e grutas da carne. Hoje eu sabia
     que era a tristeza, a tristeza — um poder
     mais jovem que os demais. Esquecia de novo os nomes,
     e todo me circundava de uma torrente
     silenciosa, de uma cítara fortemente anunciadora.

     Nunca se deve dizer que um rosto perde
     as suas brasas quando se inclina sobre a penumbra
     de uma fonte, sobre um instrumento rápido.
     Porque o rumor ressalta na noite parada, e pode-se
     enlouquecer eternamente. Ou porque a colher
     pode ligar a terra à violência do espírito.
     — Lá estariam sempre as grandes arcadas de fogo,
     as portas, a loucura das pontes celestes
     aonde a invenção chega como um frio arrebatamento.
     Havia essa espécie de vocação implorativa, a doçura
     do corpo subtilmente preso por crateras e picos
     ao tumulto das sombras.

     Eu abaixava-me e tomava como nos braços
     essa criança ignota.
     E porões enchiam-se de água, eu seria em breve
     um afogado. Tudo me inspirava
     nessa noite abrupta, entre o começo e o fim
     do mundo. Como pode um coração absorver
     tanta matéria, tanta inocência da terra?
     Se era uma criança, sua vida circulava
     indecisamente; se eram os mortos,
     a distância tornava-se infinita. Apenas
     a minha força se dobrava um pouco, e um novo calor
     corria nas palavras adormecidas
     e degelava as mãos que se cobriam
     de um sentido impenetrável.

     — Essa forma amparava-se no sexo repleto
     de espinhos e espelhos,
     e era uma espécie de retrato sem névoas, um eixo, um grito,
     uma louca morte
     onde começassem a girar as inspirações misteriosas.

Herberto Helder, "O Poema (V)", A colher na boca


21.6.18

A rapariga que tem medo

Nas unhas mistura o pão e o ovo
com as carícias à cara do namorado.
Lição: das unhas sai afecto e sujidade. Nada é só
uma coisa, há vários lados.
Os dois murmuram palavras
que saem do pouco espaço deixado pela comida.
Como um entende o outro, ninguém sabe.
Os corpos entre si encontram equilíbrios por vezes estranhos.
Ele tem óculos redondos e cara e olhos
de quem não está em mais lado nenhum.
Ela não: vê-se que conhece a distância
que a alma deve guardar ao outro
para sobreviver em caso de tragédia.
Terá já conhecido o modo como toda a eternidade
terrestre termina.
Nas carícias os dedos não se encontram cheios.
O medo de ser de novo abandonada assustou a carne
até aos pulsos;
se o machado vier certamente sairá sangue,
porém a alma jamais será caçada.
Nessa rapariga não são claros nem corajosos os dias.

Gonçalo M. Tavares, «Observações», 1

20.6.18

A coluna ausente

Sopra um vento terrível.
É apenas um pequeno buraco no meu peito.
Mas sopra nele um vento terrível.
Tu não és para mim, pequena cidade de Quito.
Necessito de ódio, e de inveja, é a minha higiene.
O que me falta é uma grande cidade.
Um grande consumo de inveja.

É apenas um pequeno buraco no meu peito,
Mas sopra nele um vento terrível,
No buraco há (sempre) inveja, e também assombro e impotência,
Há impotência e o vento cheio dela,
Forte como os turbilhões.
Capaz de quebrar uma agulha de aço.
E é apenas um vento, um vazio.
Maldição sobre toda a terra, sobre toda a civilização, sobre todas as criaturas à superfície de todos os planetas, por causa deste vazio!

Disse um senhor crítico que eu não tinha ódio.
Este vazio é a minha resposta.
Ah! Como nos sentimos mal na minha pele!
Necessito chorar sobre o pão do luxo, da dominação e do amor, sobre o pão da glória que é exterior,
Necessito olhar através da vidraça da janela,
Vazia como eu, que não capta absolutamente nada.
Disse chorar, mas não, é uma perfuração a frio que fura, fura infatigavelmente.
Como furam um barrote de faia duzentas gerações de vermes legatárias dessa herança: «Fura... Fura.»
É à esquerda, mas não digo que seja o coração.
Digo buraco, não digo mais, é a raiva e eu nada posso.
Tenho sete ou oito sentidos. Um deles o da falta.
Toco-o e tacteio-o como se tacteia madeira.
Mas dir-se-ia antes uma grande floresta, dessas que já não se vêem na Europa há muito tempo.
E é a minha vida, a minha vida pelo vazio.
Se desaparece o vazio, busco-me, enlouqueço e ainda é pior.
Construí-me sobre uma coluna ausente.
Que diria Cristo se lhe tivesse sucedido o mesmo?
Há certas doenças que, se as curamos, nada mais resta ao homem.
Morre instantaneamente, era tarde demais.
Pode uma mulher contentar-se de ódio?
Então amai-me, amai-me muito, e dizei-mo
Escrevei-me, qualquer uma de entre vós.
Mas o que é esse pequeno ser?
Mal farei caso dele.
Nem duas coxas nem um grande coração podem preencher-me o vazio.
Nem dois olhos cheios de Inglaterra e de sonho, como se costuma dizer.
Nem uma voz canora que significasse completude e ardor.
Os arrepios acham dentro de mim o frio sempre a postos.
O meu vazio é um grande devorador, grande esmagador, grande aniquilador.
O meu vazio é algodão e silêncio.
Silêncio que tudo detém.
Um silêncio de estrelas.
Apesar de profundo, este buraco não tem forma.
As palavras não o encontram,
Patinham em redor.
Sempre me fascinou que aqueles que se julgam homens da revolução se sentissem irmãos.
Falavam uns dos outros com emoção: escorriam como sopa.
Isso não é ódio, meus caros, é gelatina.
O ódio é sempre duro,
Fere os outros,
Mas também dilacera continuamente o seu homem no interior.
É o avesso do ódio.
E não há remédio. Não há remédio.

Henri Michaux, «Nasci esburacado»



16.6.18

Avançar com a coluna ausente

Outra: Vais tornar-te um ser furioso, vais enganar, andar calado, vais tentar que a tua vida — ou pelo menos parte dela — se converta num laboratório. Vais precisar de astúcia, dureza de coração, desmedida — deixa correr essa lava, há-de queimar muita coisa, e tu bem mereces algumas cinzas: de tudo o que te apavora, de tudo o que sentes desde sempre no monte de Vénus da tua mão direita. Conheço-te. Conheço essas tuas fraquezas, essas paixões taciturnas.

Uma: Porque é que há uma dor em todos os lugares em que se viveu? Anos e anos açoitado por presságios, passou a correr por todas as coisas, mas nelas prendeu cabelos e roupa, ficou impregnado, marcado pelos seus sinais. Agora, eles, reunidos em sociedade plenária exigem a sua parte, pedem o pagamento de uma dívida que ele não poderá saldar.

Outra: O que estás a tentar fazer nem sempre tem bons resultados. Deita fora essa proximidade contigo, põe de lado esse feitiço da rememoração a quente. Põe o lamento na boca de outrem. Desfaz essa amizade com o teu próprio lamento. Deita pela borda fora os objectos sensíveis com os quais encheste a memória, alguns são surpreendentes, mas tens de te livrar deles e talvez te reapareçam desfigurados, macerados pelas ondas, transformados em pertenças do mar. Já não são mais teus, já não te protegem. Estão prontos para serem pasto das tuas chamas. Assim como os tens são refractários ao fogo, não consegues transformá-los em cinzas. E é isso por que anseias, sem saberes como fazê-lo. Tenta o que te disse. Requer uma disciplina feroz, uma frieza, um desprendimento, a que terás de obedecer sem teres de te decidir. Às vezes, sem dares por nada, já começaste a experiência que, também inadvertidamente, interrompes, e de novo te prendes amorosamente às tuas lembranças. Não encostes o ouvido à concha, o segredo que ouvias foi enterrado. Agora desce entre os mortos. Ao terceiro dia, ressurreição. Isso não sei.


Maria Filomena Molder, Dia alegre, dia pensante, dias fatais


15.6.18

Esperar

Mesmo no sofrimento a banalidade mete o dente. Qualquer um passa por ele, o que lhe fizeste? Puseste-o de molho à espera de melhores dias. Pode ser uma boa armadilha que acabará por prender os teus próprios pés.

Maria Filomena Molder, Dia alegre, dia pensante, dias fatais


13.6.18

Teoria de Bloom

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver…

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.

Álvaro de Campos


12.6.18

É actuando que devemos abandonar


Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: «Não faças isto, não faças aquilo. Renuncia. Domina-te...» Gosto, pelo contrário, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela durante a noite, e a não ter jamais outra preocupação que não seja fazê-la bem, tão bem quanto for capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupações que não têm nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância desaparecer hoje isto, amanhã aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da árvore; ou mesmo nem sequer se dá por isso, de tal modo o objectivo absorve o olhar, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, não se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. «É a nossa actividade que deve determinar o que temos de abandonar; é actuando que deixaremos», eis que eu amo, eis o meu próprio placitum! Mas eu não quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, não quero essas virtudes negativas que têm por essência a negação e a renúncia.

Nietzsche, A gaia ciência