17.3.19

Ordem, desordem, concentração e surpresa

1. Dois perigos

Paul Valéry escreveu que «dois perigos ameaçam constantemente o mundo: a ordem e a desordem». Esses dois perigos ameaçam também uma equipa. Sem ordem e hábitos de treino nada feito. Mas o problema da ordem é que se torna, de facto, previsível. Ordem e disciplina, portanto, não bastam.
Podemos então pensar, em alternativa, numa ordem com surpresas. Tornar a estratégia de uma equipa previsível até ao momento em que, subitamente, aparece a surpresa decisiva.
Porém, podemos dizer que há uma dose máxima de surpresa recomendada. Se o treinador planeia uma surpresa a cada cinco minutos talvez a surpresa deixe de ser surpresa. É preciso adormecer antes o adversário, e durante muito tempo.
O filósofo Wittgenstein dizia precisamente o seguinte:
«Se disseres a alguém que quando chegar a casa vai ter uma surpresa, se ele chegar a casa e não tiver uma surpresa, vai ficar surpreendido.»
E sim, no jogo funciona da mesma maneira: por vezes o mais surpreendente é não haver surpresa. Só assim, por exemplo, será possível vencer um adversário que se preparou para muitos imprevistos.
Se alguém se prepara apenas para o imprevisível será vencido pelo previsível, eis uma regra básica de bom senso.

2. Dois modos opostos de ser o melhor

Há dois modos de vencer bem distintos. Dois exemplos, materializados em dois jogadores que, mais uma vez, nesta semana, foram essenciais.
Messi, a desordem colocada em cheio no centro do adversário. A surpresa: no meio do que se compreende aparece o movimento que ninguém espera.
E Ronaldo, não tanto a surpresa, mas sim: a ordem mais eficaz, mais potente do que todas as outras. Salta previsivelmente mais alto, chega previsivelmente mais cedo.

3. Concentração

Eu estava concentradíssimo em ir o mais alto e o mais para a frente possível. Esta é uma frase ouvida enquanto esperava pelo metro. Por vezes agradeço os atrasos constantes dos transportes públicos.
Ver um atleta concentrado, antes de um pénalti ou de um salto em altura, é assistir a um momento de anulação completa do exterior. Não há tempo antes nem depois. Quem está concentrado num gesto não tem futuro, nem memória; não há tempo nem espaço em redor. O que há é apenas corpo e tarefa.
Concentração significa etimologicamente: com um centro. Estar concentrado é ter um único centro. E por isso é sempre divertido escutar alguém dizer que está concentrado em três ou quatro projectos. É assim, no mínimo que nascem os torcicolos, físicos e mentais.
É como pensar num atleta que queira ao mesmo tempo, no mesmo movimento, saltar em altura e em comprimento. A coisa não vai correr bem.

4. Jogador-lupa

A potência da concentração bem evidente na lupa que concentra os raios do sol num pequeno espaço, atirando o calor para uma folha de papel. Aquilo que espalhado nada faz, quando concentrado queima.
O que é um atleta de alta competição? Isto: em cada lance de jogo concentra toda a energia na decisão da situação. Jogador-lupa, jogador concentrado, em oposição ao jogador-janela — este distrai-se com tudo o que acontece (está sempre a olhar para o lado de fora).

5. Dietas

A loucura das dietas continua. Sem x, sem y, sem z. Trata-se de tirar o prazer do prato, como quem diz soberanamente: por que razão os vivos, além de estarem vivos, ainda querem prazeres gustativos?
As restrições alimentares são uma invenção claramente do campo da maldade.
O actor americano Joe E. Lewis é bem claro em relação a isto:
«Iniciei uma dieta, abstive-me de beber, comi o mínimo — e em quinze dias, perdi duas semanas.»
Uma tomada de posição.

Gonçalo M. Tavares, A Bola, 17/03/2019


11.3.19

Relax inside my shiny blueness



I woke up to it
Heavy, alight with trueness
Always aware of losing
Compelled to knew it
My body traveled
My mind waits behind the music
My crime bemuses
Relax inside my shiny blueness

Time: I understand it
But I never choose it
I can't explain it with words
I have to do it
The ship I came here on vanished
We automatic
Don't try to plan it
But chyeah, just when it comes, handle it
Behind the lessons
Miles beneath the slick dressing
Niggas is stressing
Bout shit they should be sure they guessing
I twirl and cool and peel the rear view cause they are arresting
But wear jumpsuit and Chinese slippers, I'm still impressive

(…)

I slowed it down once
Everyone was going fast
So I sped up cause I ain't one to reach the end last
To where the grimy sparkles
Amongst the shiny talkers
The pistol-poppers that make pretty noise and get them dollars

(…)

And what heat cost us
And what loss gave us

(…)

You can't lie to yourself

(…)

8.3.19

'No hablo inglés'


50%

1. O jogo, de futebol e de outras modalidades, balança entre uma análise estatística, que parece vinda da mais definitiva das matemáticas, e os gestos de treinadores e atletas que entram com um pé direito bem direito, fazem a cruz de Cristo na testa e no peito, ajoelham-se e levantam os olhos para o céu, parecendo por vezes agradecer ali, em directo, 50% aos treinos, 50% a Deus, a potência e a precisão do remate decisivo. A ciência do treino e a crença.

Tabuada

2. Sempre gostei de uma personagem de Hans Christian Andersen que, a certa altura, diz: «Pediram-me para rezar, mas só me lembrava da tabuada».
De facto, aí está o jogo moderno: há quem, diante de um pedido de oração ou, pelo menos, diante da mais simples crença ou fé, atire, ao rosto do outro, estatísticas num quadro de excel. E há depois aqueles outros que, quando lhes é pedida a tabuada, a racionalidade, a ciência — só se lembram de rezar.
Uns e outros são tontos e quase inimigos, claro. Mas por vezes têm de se entender.
O que é a crença, no fundo, qualquer que ela seja? É uma energia a mais, um excesso de vontade que ali está para auxiliar tudo o que de humano se fez e treinou.
Se traduzirmos crença por auto-confiança os cépticos do 2x2=4 ficam mais tranquilos. Transforma a crença em conceitos da psicologia e tudo parecerá racional e quase exacto.

Estética e estatística

3. Estatística como forma de transformar a estética, e a beleza, numa contabilidade de armazém. Quantos remates e passes certos e errados e etc.?
Um passe feio é igual a um passe extraordinário, 1=1 na matemática dos cegos pela eficácia: 1 é 1, e nem mais nem menos. Mas claro que não.
É como se a pintura, por exemplo, se avaliasse pelas quantidades de pinceladas e não pelo desassossego e entusiasmo que colocam nos olhos do espectador. Fazer a estatística de um jogo é útil, mas é como fazer a estatística do Museu do Louvre contabilizando o número de quadros com as dimensões 50x30 e 1,5 metrosx70cm, ou o número de quadros em que a cor predominante é o azul ou o amarelo.
Um humano que diga:
— Que me importa a beleza? Que me importa a beleza de um jogo?
merece passar o resto dos dias num qualquer inferno de fealdade e monotonia.
Sem competição, o jogo é um passatempo. Sem beleza, um jogo pode ser visto por cegos artificiais: só lhes importa ouvir o resultado; um jogo, no limite, reduzido a dois números. O resultado final.

A importância do aparelho auricular

4. No desporto, no meio de inúmeros psicólogos, uma ou outra vez ali estão os psiquiatras, tentando ajudar a resolver problemas mais complicados. Falemos dos psiquiatras.
Respeito, claro, este mui nobre trabalho, mas lembro-me por vezes da história de um actor norte-americano que contou que, ao fim de doze anos de terapia, o seu silencioso psiquiatra finalmente abriu a boca e murmurou: «yo no hablo inglés».
Para além do divertido, está aqui a essência. No fundo, um terapeuta é um bom escutador, mesmo que não entenda nada. Talvez se deva até garantir que quem nos vai ouvir não entenda a nossa língua para podermos falar sem qualquer inibição.
A terapia é, muitas vezes, uma forma de espelho sonoro: é a própria pessoa, com as suas palavras, que descobre o problema e o resolve. Quem não se cura é porque se escuta mal a si próprio.

Gonçalo M. Tavares, A Bola, 03/03/2019


3.3.19

É preciso que continues a julgar

Repugna-me tanto a possibilidade de ter má consciência como a de ser a má consciência dos outros.

Gilles Deleuze, «Carta a um crítico severo», Conversações


25.2.19

Próximo e íntimo, desse mesmo medo

Emendar o erro como insistência em não compreender, em não aceitar a possibilidade da cegueira.



Rosa Maria Martelo, A porta de Duchamp


24.2.19

Dinosaur



Long ago and far away in a different age
When I was a dumb young guy
Fossilized photos of my life then
Illustrate what an easy prey I must have been

Standing in the sun, idiot savant
Something like a monument

I'm a dinosaur
Somebody is digging my bones
I'm a dinosaur
Somebody is digging my bones

Ignorance has alway been something I excel in
Followed by naivety and pride
Doesn't take a scientist to see how
Any clever predator could have a piece of me

Standing in the sun, idiot savant
Something like a monument

I'm a dinosaur
Somebody is digging my bones
I'm a dinosaur

Ooh, when I look back on the past
It's a wonder I'm not yet extinct
All the mistakes and bad judgments I made
Nearly pushed me to the brink

It doesn't pay to be too nice
It's the one thing I have learned
Still, I made my fossil bed
And now I toss and turn

I'm a dinosaur
Somebody is digging my bones
I'm a dinosaur
Somebody is digging my bones
I'm a dinosaur
Somebody is digging my bones
I'm a dinosaur
Somebody is digging my bones

23.2.19

Tudo se aproxima e se esvai no mesmo pânico confuso

POEMA 16
[de Dos Jogos de Inverno]

Omnis creatura est vertibilis in nihil
  Tomás de Aquino, Summa Theo. III

vou tirar de mim todas as imagens Primeiro o redondo panorama do mundo
completo em repouso na obscura água transparente como um autêntico paradoxo Depois
o resultado sobre a tela: linhas perfeitas dividindo o intenso
clarão da terra, tão semelhantes são inferno e paraíso. E em seguida 
não mais verei, lançado na pista desmesuradamente branca, as árvores
erguendo-se móveis na memória do corpo,
e as palavras, que são o efémero hálito no instante da partida, e o intervalo das palavras,
ficarão mordendo a pele inteira do espaço Assim pouco a pouco

esquecerei quem fui, a inumerável espera de gerações e desencontros,
o céu muito claro e indiferente como um chão ao contrário amparando a queda das águas,
e no grande vazio fixarei os pequenos pontos luminosos porventura estrelas restos de nebulosas
Tudo se aproxima e se esvai no mesmo pânico confuso Agora perdi um braço ao passar pela ponte
a tua boca tem um calor misterioso e banal que me vem à memória no momento do salto
Fecho os olhos a tempo de não ver como cresces
ficarás crescendo dentro de mim como uma carne indecisa
uma coisa que se não vê e alimenta o olhar
Encontrarei esse lugar preciso que nada anuncia E no vasto painel electrónico
brilhará por instantes uma hora ao centésimo de segundo «este teve sorte/azar no seu tempo»
Agora a chuva abre minúsculos infinitos buracos na precária brancura luminosa
cairei pela certa antes de chegar à beira dos abismos Vertido
no áspero lugar de coisa alguma Basta virar a folha e nada aconteceu
a lisa pista intacta espera E os corredores, atentos à partida,
compactos se misturam vibrantes velozes alheios como quem se ignora
como quem nunca conheceu o limite redondo da paisagem

António Franco Alexandre


15.2.19

Lucidez, lucidez

ANTÓNIO:
O perigo, querida amiga, está aí!
Com os estranhos temos mais cuidado,
Observamos, procuramos ganhar
Os seus favores, deles tirar proveito;
Com os amigos deixamo-nos levar,
Confiamos na amizade, arriscamos
O mau humor, deixamos as paixões
À solta, e assim ofendemos primeiro
Aqueles por quem temos mais afecto.

Goethe, Torquato Tasso

4.2.19

Quando o velho é, afinal, o mais novo

TASSO:
Obedeci-te. Se de mim dependesse,
Ter-me-ia afastado logo dela.
Por mais amável que pareça ser,
Não sei porquê, com ela raramente
Me pude abrir. Talvez a intenção
Seja a de fazer bem aos seus amigos —
Mas sente-se a intenção e recuamos.

PRINCESA:
Por esse andar, não encontraremos nunca
Companhia que nos sirva! É um atalho
Que nos leva para bosques solitários,
Vales perdidos, e a alma, a pouco e pouco,
Cria maus hábitos, e busca construir
Dentro de si a idade de ouro que o mundo
Lá fora não lhe oferece, e o resultado
Será sempre o fracasso, podes crer.

TASSO:
Ah, que palavra, Princesa, que palavra!
A idade de ouro: foi para onde, essa idade
A que as nossas almas em vão aspiram?
Quando, como os rebanhos, pela terra
Livre se aventuravam homens livres,
Quando no prado em flor a velha árvore
Ao pastor e à pastora sombra dava
E os ramos tenros do bosque se entrançavam
Para dar abrigo aos suspiros dos amantes;
Quando o rio coleante e claro, na areia
Pura, abraçava a ninfa docemente;
Quando, na erva, a serpente assustada
Sem perigo se perdia, e a coragem
Do mancebo punia o fauno ousado;
Quando os pássaros no ar livre, e todos
Os animais, por monte e vale errando,
Diziam: «Farás o que te agradar!»

PRINCESA:
A idade de ouro, amigo, já passou;
E só os bons a farão regressar.
E se quiseres saber o que acho disso:
A idade de ouro, essa com que o poeta
Nos lisonjeia, esse tempo feliz
Nunca existiu, tal como hoje não existe.
E se existiu, então foi certamente
Aquilo que para nós sempre será.
Ainda hoje almas gémeas se encontram
Para partilhar a beleza do mundo;
No teu lema mudo uma só palavra:
«Farás aquilo que é conveniente!»

TASSO:
Se houvesse um tribunal universal
Composto de homens bons que decidisse
O que convém, em vez de cada um
Pensar que o que convém é o que lhe serve!
Não vês como aos poderosos, aos espertos,
Tudo se ajusta, e eles tudo podem!

Goethe, Torquato Tasso


14.1.19

Um idioma chamado Manoel de Barros

NO SERVIÇO (voz interior)

O que eu faço é servicinho à toa. Sem nome nem dente. Como passarinho à toa. O mesmo que ir puxando uma lata vazia o dia inteiro até de noite por cima da terra. Mesmo que um caranguejo se arrastando pelo barranco à procura de água vem um boi e afasta o rio dele com as patas para sempre. O que eu ajo é tarefa desnobre. Coisa de nove noves fora: teriscos, nhamenhame, de-réis, niilidades, oco, borra, bosta de pato que não serve nem pra esterco. Essas descoisas: moscas de conas redondas, casulos de cabelo. Servicinho de pessoa Quarta-feira que sai carregando uma perninha de formiga dia de festa. De modo que existe um cerco de insignificâncias em torno de mim: atonal e invisível. Afora pastorear borboletas, ajeito éguas pra jumento, ensino papagaio fumar, assobio com o subaco. Serviço sem volume nem olho: ovo de vespa no arame. Tudo coisinhas sem veia nem laia. Sem substantivo próprio. Perna de inseto, osso de morcego, tripa de lambari. Serviço com natureza vil de ranho. Tudo sem pé nem cunhado. Tem hora eu ajunto ciscos debaixo das portas onde encontro escamas de pessoas que morreram de lado. Meu trabalho é cheio de nó pelas costas. Tenho de transfazer natureza. À força de nudez o ser inventa. Água recolhendo-se de um peixe. Ou, quando estrelas relvam nos brejos. No meu serviço eu cuido de tudo quanto é mais desnecessário nessa fazenda. Cada ovo de formiga que alimenta a ferrugem dos pregos eu tenho de recolher com cuidado. Arrumo paredes esverdeadas pros caramujos foderem. Separo os lagartos com indícios de água dos lagartos com indícios de pedra. Cuido das larvas tortas. Tenho de ter em conta o limo e o ermo. Dou comida pra porco. Desencalho harpa dos brejos. Barro meu terreiro. Sou objeto de roseiras. Cuido dos súcubos e dos narcisos. E quando cessa o rumor das violetas desabro. Derrubo folhas de tarde. E de noite empedreço. Amo desse trabalho. Todos os seres daqui têm fundo eterno. 

Manoel de Barros, Livro de pré-coisas. Roteiro para uma excursão poética no Pantanal



31.12.18

No fecho de um 2018-Bloom

Com os olhos húmidos, olha para o céu e implora ajuda àquele lugar no qual um coração terno espera encontrar a maior abundância, quando ela não existe em qualquer outra parte.

Goethe, Afinidades electivas

13.12.18

Essa clareira

Como avançar sem apoios, com o nada por baixo dos pés?, nada de voos, anjos, suspensões de gravidade, aqui tudo é caminhada: o céu está lá ao fundo, como um cemitério de elefantes, um local escondido, uma clareira no meio da floresta negra onde todos dançam ou bebem ou fornicam, ou então nada fazem e o céu terreno é esse nada fazer, estar contente no tédio, talvez seja isso, essa clareira, estar muito tempo sem fazer nada, sem expectativas e sem medo e mesmo assim aguentam, não ficam loucos, não matam, um tédio excelente, o tédio que nos salva, e talvez seja este o segredo do Cristo dos animais, só te salvarás pelo tédio, pela falta de vontade, estás sentado e sentado ficas, levantas-te e levantado ficas, olhas para o fundo por olhar e não por quereres ir para lá, estás bem onde estás e isso é deixar de ser humano, é passar a ser animal de quatro patas, mas é isto que o Cristo dos animais quer, humanos de quatro patas que estejam contentes

Gonçalo M. Tavares, animalescos


4.12.18

Naufrágio com coração

Passar da água à terra firme, da morte à vida, do círculo da família a um deserto, do desespero ao êxtase, da indiferença ao amor, à paixão, e tudo isto num momento — a cabeça não chegaria para abarcar tudo isto: ela rebentaria ou perderia o senso. É ao coração que cabe, neste caso, fazer o que for melhor para suportar uma tal surpresa.

Goethe, As afinidades electivas

2.12.18

Viver em campo de tiro

Eu tinha o sentimento de estar de pé, ao crepúsculo, num campo de tiro abandonado…

Fitzgerald 
citado por Deleuze & Parnet, Diálogos

28.11.18

O torpor!

— O Krokowski! — exclamou Settembrini. — Ali vai quem detém todos os segredos das nossas damas. Atentemos no simbolismo subtil do seu vestuário. Escolhe o preto como alusão à área de investigação que lhe é mais cara: a noite. Este homem só tem um pensamento na cabeça e esse pensamento é sórdido. Caro engenheiro, como é possível que a nossa conversação não tenha ainda recaído sobre este tema? Mas ele já lhe foi apresentado?
Hans Castorp respondeu afirmativamente.
— E então? Não me diga que também simpatizou com ele!
— Não sei como lhe responder, senhor Settembrini. Cruzámo-nos apenas de passagem. Para além de que não sou muito rápido a fazer juízos. Olho para as pessoas e penso: ah, então és assim! Está bem!
— A isso chama-se torpor! — respondeu o italiano. Aprenda a julgar! Foi para isso que a natureza o dotou de olhos e de inteligência. Viu há pouco alguma maldade nas minhas palavras, mas decerto que isso não sucedeu sem um propósito pedagógico. Nós, humanistas, temos todos uma veia pedagógica... Meus senhores, o laço histórico que liga o humanismo à pedagogia faz prova da sua afinidade psicológica. Ao humanista não deverá ser subtraída a cátedra da educação – não poderá ser subtraída, pois só ele dá testemunho à tradição da dignidade e da beleza do homem. O humanista tomou outrora o lugar do sacerdote que, em tempos sombrios e misantrópicos, se arrojara o direito de servir de guia à juventude. Desde essa altura, meus senhores, que não se viu nascer qualquer novo tipo de educador.

Thomas Mann, A montanha mágica


26.11.18

Para acabar (de vez?) com o juízo de Deus

Ninguém falaria em sociedade, se estivesse consciente da frequência com que compreende mal os outros.

Goethe, As afinidades electivas


E, ainda, em registo satírico e truculento, num cenário mitológico:



João César Monteiro, As bodas de Deus (1999)

24.11.18

Devagar, s/z: leitor, mundo, Deus

PARA O LEITOR LER/DEVAGAR

(…)

Leitor acentuado, redobrado leitor moroso.
Que entende o relato sem poros,
o mês arroz dealbado sobre a pedra
sem orelhas, pedra sem boca. E que desce os dedos
sobre. Meus dedos pelo ar. E toca e passa.
Pelas pálpebras paradas. Pelos
cerrados lábios até às raízes.
E cai com seus dedos em meus dedos.
E espera devagar.
Leitor que espera uma flor atravancada,
balouçando baixa
sobre. Mergulhados
filamentos no terror
devagar.

Mas que espera. Doce. Contra o hermético
movimento do mundo.
E que o mundo movimenta contra.
As de Deus auxiliado
auxiliar. E que Deus movimenta contra. Suas ondas
muito lentas, amargas ondas muito.
Antigas, ignoradas, corridas. Sobre
a primeira face do poema. Leitor
que saberá o que sabe dentro. Do que sabe
de mais selado. E esperará
dias e anos dobrado, leitor. Varrido
pelo movimento dos dias.
Contra o movimento nocturno do. Poema devagar.

E que espera.
E para quem volto. Muitas coisas sobre
Uma coisa. Volto
uma exaltante morte de Deus. Auxiliado
auxiliar. O espírito, a pedra.
Do poema.
Leitor à minha frente. Vindo
do mais difícil lado
das noites. Ainda tocado e molhado
de suas flores aniquiladas.
Rodo. Para esse rosto difuso e vagaroso
Meu sono.
A fantasia minuciosa. A oblíqua inovação.
A solidão. Trémula devagar.

(…)

Herberto Helder, Ofício cantante


Contra a trapaça universal — o meu gelado!




João César Monteiro, A comédia de Deus (1995)


23.11.18

Quando a intuição interrompe o raciocínio dedutivo: estilo


Fisiología intelectual de Nietzsche

En Nietzsche se descubre la extrema versatilidad de su capacidad de juicio, y una voracidad insaciable de conectar las representaciones más distantes entre sí. En cambio posee una escasa disposición al análisis categorial, a discernir los universales indagando sus derivaciones. No se detiene en la crítica del dato; como dato, cualquier representación le parece válida, siempre que sea asumida vinculada a una apariencia de concreción, a través de una apropiación clarificadora. Su curiosidad por descubrir nuevas conexiones es incansable, pero los juicios que pertenecen a alguna tradición, que exigen cierto conformismo, le son extraños. Hay una considerable inquietud en esta búsqueda, una acuciante impa- ciencia, como por temor a que se le escapen nuevas perspectivas por tierras desconocidas. Pero el desasosiego cede ante la rectitud: donde el juicio, por tajante que sea, no le convence hasta el fondo, se empecina durante años en investigaciones que parecen repugnantes. Y al hacerlo amontona indistintamente toda clase de material histórico, asimilando su sustancia con una rapidez prodigiosa, aunque algún paso en falso sea inevitable. Cuando en cambio quiere realizar un proyecto, un libro por ejemplo, alguna vez se descorazona frente a la necesidad de una aplicación prolongada, y no duda en cambiar de proyecto. Esto depende de la fragilidad de su fantasía, porque la pereza intelectual le es ignota. Le falta la consciencia de una relación precisa entre el componente intuitivo del pensamiento y el deductivo. Cuando intuye salta a la conclusión, y mientras está deduciendo le invade la intuición.

Giorgio Colli, Dopo Nietzsche


21.11.18

Sobre a hipótese do pensamento, do múltiplo — sublinhando Hélia Correia

(…)

Foi como se apadrinhasse a ideia do bailarino na batalha, que, para mim, é sempre, primeiro do que tudo, o cavalo. É a imagem que tenho de um ser que, no meio da batalha, surge como músculo, movimento e graciosidade aterrorizada. Não é o guerreiro, é o cavalo. Mas o guerreiro também se cola ao cavalo, e tudo é animal em agonia, em terror.

(…)

A Europa perdeu a inocência. E esta já nem era assim tão pura… Tenho a sensação de que chegámos, com a fanfarra dos nossos progressos civilizacionais — nós, o Ocidente —, a uma espécie de júbilo pelo que somos, de auto-comprazimento. O bem-estar económico, seja real ou percepcionado, parece estar a rebentar pelas costuras. E não sei ao certo que fenómeno é este, que parece menos humano do que diabólico ou divino, mas de repente as coisas acontecem… Assim, depois do período de conquistas, o Ocidente parece ter alcançado esse regozijo com a sua perfeição: atingiu a sua própria beatitude. E sente que, para completar essa sua felicidade, tem de ser bondoso. Bondoso a todos os níveis, até ao nível da linguagem. Daí o politicamente correto. Estávamos, assim, a banhar-nos na nossa própria perfeição… Que não podia durar muito. Como as placas tectónicas estão em movimento também as sociedades estão em movimento.

(…)

Creio que nunca se tinha alcançado um período tão duradouro de bem-estar e de felicidade, além, é claro, de um sentimento de absoluta superioridade em relação às outras civilizações. E na tendência que há nos fenómenos civilizacionais para definharem ou implodirem ou são as ameaças que vêm de fora ou são os impérios que se destroem a si mesmos porque se abatem sobre o vazio que está no seu interior, e que vai aumentando.

(…)

Vejo a construção da bela civilização ocidental a abater pela força do seu próprio peso. Porque há abundância a mais, estamos doentes de abundância. Não era preciso mais nada. Essa abundância seria o suficiente para que perecêssemos. Claro que a acicatar isso há este passo que causa uma vertigem de mil anos em vinte anos de cronologia e que é dado com a chegada das novas tecnologias. Isso sim provocou uma grande revolução, que é aterradora porque não é acompanhada pela matéria humana. E quando falo de matéria falo também de espírito, porque as próprias faculdades mentais não estão aptas a acompanhá-la. Ora, isto cria um rasgão tremendo nas nossas sociedades.

(…)

A civilização é uma camada muito fina e rebenta quando está diante de uma ameaça. E julgo que o primeiro passo para se trabalhar sobre isso é encarar as coisas como elas são. Ora, a maior parte dos ocidentais não quer sequer encarar as coisas na sua verdade. As pulsões, os medos, os pensamentos primitivos, que estão latentes em tudo isto.

(…)

No fundo, estamos divididos em clãs, pequenas tribos, pequenas fações que acordam e começam a rugir. E o que é que penso depois de me atrever a olhar assim? Penso que depois de me despir de todos os pré-conceitos que fizeram a minha vida, e a vida de todos os — digamos — progressistas ocidentais, ao olhar para o mundo com olhos de hoje e não com o nosso antigo desejo, que oculta as coisa (ocultou sempre, e continua a ocultar), depois de ver exatamente o que se passa, então há que chamar pela outra coisa que faz parte do humano.

(…)

Quando digo que os deuses se retiraram, isso aconteceu, em primeiro lugar, para dar lugar ao monoteísmo. Foi uma passagem muito flagrante, com aqueles imperadores romanos cristãos a destruírem todas as marcas da antiguidade clássica. A deitar abaixo, a incendiar, a aniquilar tudo. Esse foi o primeiro passo, foi o passo que levou a que uma pluralidade encantadora de textos produzidos pelos humanos fossem proscritos. E o monoteísmo dali em diante passa a ser o quê? Uma história da luta pelo território. As grandes histórias religiosas que hoje se disputam são lutas pelo território. Foi então que toda aquela pluralidade se viu destruída a favor de uma unicidade do olhar, de um texto único, que determinou tudo durante séculos e séculos. A arte, a literatura, tudo estava submetido àquele texto único e continua submetida a outros textos que procuram imperar, como é o dos muçulmanos, o dos judeus… e lá continuam eles a matar em nome da fé. Alucinados pela leitura dos seus textos.

(…)

Tudo isto deriva de um enlouquecimento pelo texto. Tudo isto é humano. O que se forma é um vazio, e isso está patente nos movimentos new age, e nas diversíssimas derivações religiosas. Provavelmente, o homem não consegue viver só no plano da objetividade, nem das ilações científicas, que são tão pobres ainda. Ainda estamos no início do conhecimento científico. O homem não pode viver sem isso, e mesmo que o tenha substituído pela ideologia — e é evidente como o comunismo era uma religião, o fascismo era uma religião, e tudo isso deu os resultados que deu... Portanto, estas religiões não transcendentalistas não deram bom resultado. O que se vê é como essa aspiração se transforma em algo caricato. Esta coisa dos fãs e da celebridade, destes cultos laicos que têm ganho cada vez maior expressão. Tudo isso é humano e eu costumo parafrasear a célebre frase de Terêncio - «Nada do que é humano me é estranho» - mas tomando-a do avesso: «Tudo o que é humano me é estranho». Porque acho que ninguém entende realmente o ser humano.