12.12.19

A vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam

Enquanto isso — delicada, delicada — o Ele-ela usava um timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em abundância e trairia o meu melhor amigo em troca de mais vida do que se pode ter. Essa procura, essa ambição. Eu desprezava os preceitos dos sábios que aconselham a moderação e a pobreza de alma — a simplificação de alma, segundo minha própria experiência, era a santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.
Sim. Sim: cair até a abjecção. Eis a ambição deles. O som era o arauto do silêncio. Porque nenhum poderia se deixar possuir por Aquele-aquela-sem-nome.
Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.
— Que é que eu faço para ser herói? Porque nos templos só entram heróis.

Clarice Lispector, "Onde estivestes de noite"

2.12.19

A cão mordido todos mordem — mas há um ou outro que cura

Sobre a multidão

2. A cão mordido todos mordem.
- Pois, é isso.
- A mordedura liberta sinais visuais, mas não só.
- Se estiver próximo, toda a gente vê que alguém foi mordido. Isso é evidente.
- Mas também devem existir sinais olfactivos.
- Uma mordedura deve cheirar ao longe, estou certo disso.
- E deve ainda libertar sinais sonoros.
- Certamente.
- É isso mesmo.
- Há tanta gente que aparece quando alguém é mordido que a mordedura só pode ter sido anunciada por mil meios.
- A irrecusável atracção da mordedura nos outros.
- Dava um belo título: a irrecusável atracção da mordedura nos outros.
- Torna-se atracção quase turística. Venham ver a mordedura nos outros! Bem bonita!
- Uma exibição. Um museu vivo.
- A mordedura nos outros...
- Uns apontam a mordedura, outros comentam. O tamanho da mordedura, as causas, os efeitos, o contexto.
- Mas claro que quem vê não se contenta em ver apenas e comentar.
- Diante de uma mordedura, muitos pensam: por que não também eu?
- Uma mordidelazinha?
- Hummm, que tentação.
- E não se trata de fome.
- Não.
- Ninguém se alimenta de mordeduras.
- Uma mordedura ou mesmo mil não satisfazem o velho estômago humano - que precisa de alimento concreto e substancial e não de pequenas lascas de carne.
- Mas há vários estômagos, excelência, e um deles, eu diria, é o estômago da maldade.
- E esse...
- E esse alimenta-se, sim, de mordeduras nos outros e não de comida concreta.
- E, portanto...
- E, portanto: eis que quem rodeia o cão mordido não resiste à tentação e dá uma mordidela só para sentir o sabor.
- E depois outro faz o mesmo. O difícil é começar, já se sabe.
- É como quem faz a primeira pergunta depois de uma conferência.
- Isso.
- E depois ainda outro avança para mais uma mordedura.
- E outro.
- E outro.
- E não acaba.
- A cão mordido todos mordem.
- Um cão mordido, duas hipóteses: ou se abre em redor dele uma clareira e ele fica sozinho a desembaraçar-se da sua mordedura ou em volta dele aparece uma multidão.
- Se fizéssemos um inquérito à multidão à volta...
- Sim.
- Você está aqui para quê?
- Para morder!
- E você?
- Morder.
- E você?
- Morder.
- E você?
- Morder, morder, morder!
- Ok. Percebi. E você aí atrás?
- Para curar e tratar a mordedura.
- Ups, uma novidade.
- Meu caro, um extraterrestre moral! Faça favor de passar. A mordedura é sua.
- A cão mordido todos mordem - mas há um ou outro que cura.
- Eis o acrescento necessário, excelência.
- Por vezes, sim, surge no meio da multidão que quer morder mais um pouco, um extraterrestre moral; alguém que quer curar.
- Que se deixe passar esse sujeito precioso.
- Sim, que se deixe passar.

Gonçalo M. Tavares, in A Bola, 01/12/2019


27.11.19

No cerne do niilismo

Eu, dizia-me ele, amo a humanidade mas espanto-me comigo mesmo: quanto mais amo a humanidade em geral, menos gosto das pessoas em particular, ou seja, em separado, como indivíduos.

Fiódor Dostoievski, in Os Irmãos Karamázov, trad. António Pescada

14.11.19

Temas angélicos

É uma coisa minha. Fala-se para estar só, ser contra os outros, limitar a invasão do mundo — dessas ruas e casas, dessa população de funcionários angélicos. Não me venham com inocências nem sabedorias.

(...)

É o desemprego por toda a parte. Percebem? A nota autobiográfica é: desemprego por dentro e por fora como um pai ou como um filho. O mundo não está para futuros.
Quanto ao comércio e à indústria, enfim: faz-se um objecto, é bonito, prático, oferece-se nos aniversários; vende-se para isso. E o mundo lá vai, chega cada vez mais longe. Ganhamos espaço para o vazio; gostamos muito da nossa morte; trabalhamos esplendidamente por conta dela. Vai haver uma festa com discursos, ramificações. Também isto é um tema angélico.

Herberto Helder, Photomaton & Vox
"(ramificações autobiográficas)"


Ora, estas mesmas pessoas não só estão atemorizadas, como são ao mesmo tempo temíveis. O estado de espírito passa da angústia para o ódio declarado, quando vêem enfraquecer aqueles que eles precisamente agora temiam. E não é só na Europa que se encontram refugos desta espécie. O pânico condensa-se, no momento em que o automatismo aumenta e se aproxima de formas perfeitas, como na América. É nestes casos que ele encontra o seu melhor alimento; expande-se através de redes que competem em rapidez com o relâmpago. Já a necessidade de receber informações várias vezes por dia é um sinal de angústia; a ilusão cresce e paralisa-se em rotações aceleradas. Todas estas antenas das cidades-cogumelo assemelham-se ao cabelo eriçado. Elas desafiam os contactos demoníacos.
(...)
Nestes remoinhos, a questão fundamental é a de saber se se pode libertar o humano do medo. Isso é muito mais importante do que armá-lo ou enchê-lo de medicamentos. O poder e a saúde estão vivos naquele que é intrépido. Em contrapartida, o medo sitia até aos dentes os esqueletos — e sobretudo eles. Pode dizer-se o mesmo daquele que nada na abundância. Não é com armas nem com tesouros que e erradica a ameaça. Eles são apenas expedientes.
O medo e a intimidação estão numa relação tão íntima, que é difícil dizer qual dos dois poderes gera o outro.
(...)
Escolher entre ter um destino ou valer tanto como um número, é essa a decisão a que cada um se vê, na verdade, forçado hoje em dia e que cada um tem de pronunciar sozinho.

Ernst Jünger, O passo da floresta

12.11.19

Watch the boats come in can do something to you Bloom-barco-Bloom-Bloom-dia there are no choices needed to be made at all not even the choice of having to choose



Here I sleep the morning through
'Til the wail of the call to prayer awakes me
And there ain't nothing at all to do but rise and follow
The day wherever it takes me
I stand at the window and I look at the sea
And I am what I am, and what will be will be
I stand at the window and I look at the sea
And I make me a pot of opium tea
Down at the port I watch the boats come in
Watch the boats come in can do something to you
And the kids gather around with an outstretched hand
And I toss them a diram or two
Well, I wonder if my children are thinking of me
Cause I am what I am, and what will be will be
I wonder if my kids are thinking of me
And I smile and I sip my opium tea
At night the sea lashes the rust red ramparts
And the shapes of hooded men who pass me
And the moan of the wind laughs and laughs and laughs
The strange luck that fate has cast me
Well, the cats on the rampart sing merrily
That he is what he is and what will be will be
Yeah, the cats on the rampart sing merrily
And I sit and I drink of my opium tea
I'm a prisoner here, I can never go home
There is nothing here to win or lose
There are no choices needed to be made at all
Not even the choice of having to choose
Well, I'm a prisoner here, yes, but I'm also free
Cause I am what I am and what will be will be
I'm a prisoner here, yeah, but I'm also free
And I smile and I sip my opium tea.

9.11.19

A tranquilidade

Um homem, constantemente preocupado com os seus problemas e o modo de resolvê-los, caminhava na rua quando encontrou uma moeda. “Com ela vou resolver um problema”, disse, satisfeito. Andou mais uns passos e encontrou outra moeda: “com ela vou resolver outro problema”, disse. Mais uns passos e outra moeda no chão. “É o meu dia de sorte!”, exclamou: “Assim vou resolver o meu terceiro problema.” Continuou a andar e de quando em quando lá encontrava outra moeda. A cada uma rejubilava: “Mais um problema que vou conseguir resolver!”
Algum tempo mais tarde, depois de apanhar mais uma moeda e de colocá-la no bolso, exclamou: “Não cabem mais moedas no bolso, mas já tenho o suficiente para resolver todos os meus problemas! Finalmente” – murmurou, aliviado – “vou ficar tranquilo.”

Metros mais à frente, no entanto, estava outra moeda.

Gonçalo M. Tavares, O senhor Brecht


14.10.19

Altitude interior

Sobre falar antes de pensar


- Em que sítio deve estar a cabeça?
- Como?
- Em que sítio deve estar a cabeça de um sujeito?
- Por mim, em cima.
- Em cima. Onde? Aqui?
- Exacto.
- Acima do coração?
- É uma bela posição relativa, parece-me.
- Mas se vossa excelência fizer o pino...
- Sim?
- O coração fica acima da cabeça. Se continuarmos a considerar o solo como referência.
- Exactamente, pelas minhas contas é isso mesmo.
- Chão, cabeça, coração, tronco, pernas e pés.
- Pés lá em cima.
- Sim. Up.
- Portanto, não devemos fazer o pino...
- Não.
- ... se queremos manter a racionalidade.
- Isso.
- Por mim, não faço o pino por razões bem mais práticas: não me quero partir todo.
- Pois. Mas dizia: a cabeça sempre acima do coração. Uma questão de hierarquias, excelência.
- Podemos ter instintos e raiva, mas acima disso: o pensamento, a racionalidade. É isso?
- Isso mesmo.
- Porém há uma parte significativa dos humanos que parece andar com a cabeça e os pés trocados.
- Sim?! Porquê?
- Falam antes de pensar.
- Oh, mas isso...
- Falar antes de pensar: sai ar da boca e produz linguagem antes de ser activado o funcionamento do cérebro.
- Uuu, que horror. Parece a explicação do funcionamento de uma máquina.
- E é isso mesmo. O cérebro ainda está desligado e o sujeito já está a dizer uma quantidade enorme de frases.
- É como querer café antes de ligar a máquina que faz café.
- Exactamente, é isso mesmo, excelência.
- Falar antes de pensar.
- Querer café antes de ligar a máquina que faz café.
- Que síntese.
- Posso dar outra imagem?
- Pode, excelência.
- É como ter os pulmões, a máquina de produção do ar, acima da cabeça.
- Como? Explique lá isso, excelentíssimo.
- Repare, excelência, a linguagem oral não é mais do que ar que sai da boca numa forma mais ou menos organizada... alfabeticamente. Mas é ar.
- Ar, excelência, sem dúvida. Ar. Ar alfabetizado, mas ar.
- Ar, vapor, substâncias em estado gasoso.
- Isso.
- Portanto, excelência, falar antes de pensar é colocar o ar antes do raciocínio e é, no fundo, uma forma mental de fazer o pino.
- Uma forma mental de fazer o pino?
- Exacto. Vossa excelência pode não fazer o pino fisicamente, mas se fala antes de pensar está a fazer psicologicamente o pino. Está a fazer intelectualmente o pino.
- Ou seja...
- Ou seja, vossa excelência está a pôr a sua cabeça quase ao nível dos pés dos outros.
- Uns centímetros acima do nível dos pés dos outros, mais exactamente.
- Isso mesmo.
- Há quem pense um metro e setenta, um metro e oitenta, acima do nível do solo. E há quem pense apenas uns centímetros acima do chão.
- Há o nível do mar como referência para as altitudes...
- ... E há o nível dos sapatos, como referência para a qualidade de um discurso.
- Abaixo e acima do nível do mar.
- Abaixo e acima do nível dos sapatos.
- Pois. Deixe-me pensar numa personagem...
- Pense, excelência.
- Numa personagem que sobe a uma alta montanha.
- Sim.
- Um enorme esforço para chegar até lá e depois, lá em cima, eis que o sujeito começa a falar e só diz banalidades.
- O corpo está mil metros acima do mar, mas o pensamento apenas dois centímetros acima dos sapatos. É isso, excelência.
- Exactamente.
- Não é uma questão de altitude exterior, mas de altitude interior.
- Um discurso rasteiro, portanto, é isto mesmo: um discurso ao nível dos sapatos do chão.
- Isso.
- Se queres subir o nível do discurso, não vale a pena subires a uma montanha, eis um conselho.
- Sim, não vale a pena um sujeito cansar-se.


Gonçalo M. Tavares, in A Bola, 13/10/2019


7.10.19

Dedicatória & alma individual



Vera Chytilová, Margaridas (Sedmikrásky), 1966



Pier Paolo Pasolini, O evangelho segundo Mateus (Il vangelo secondo Matteo), 1962

23.9.19

Musiquinha

usar palavras sem nenhum sentido apenas um outro sentido quando não existe mais nada o falso sentido humano isto é a beleza melhor o kitsch coisa de sons bonitos e ar de profundidade um certo sentido que é efeito de beleza do que sei lá qualquer coisa com mínimo de sentido ou seja qualquer coisa abjecta como a indiferença uma aparência de qualquer coisa que é mentira uma aparência que é falsa por simular uma profundidade não por ser aparência mas por indiciar qualquer coisa que não está lá lá apenas está a repetição inócua do mesmo cheio o espaço com o sentido simulado um sem-sentido disfarçado de qualquer coisa talvez seja isso a grandeza talvez seja esse delírio de palavras talvez seja isso o humano o ponto onde começamos a sentir nojo a alguns nem sequer a mentira salva alguns são devorados pelo vazio e já está não à mentira a insídia do vazio é tudo não lhes sobra força para manipular enganar encher o peito de coisa nenhuma ficam parados diante de tanto vazio a outros não lhes chega o vazio se não puderem atirá-lo para cima dos outros vendê-lo enriquecer alardeá-lo no fundo é isso ter força para enganar ou então sucumbir à impossibilidade do verdadeiro e do previsível antes o esgoto que isso antes o homem que se sente tão mal que o homem que está tão mal no fundo retira-se os sons bonitos e muitos homens são todos iguais um esburgar em torno do não-sentido e talvez retires o comércio a mentira da profundidade a certos homens e o que lhes sobraria seria o mesmo que a tantos outros o comboio a ponte o prédio alto ou então claro o esforço de criar sentido a síntese o insosso o desejo

15.9.19

Natureza e humano II

Sais de um quadro de sentido. Elas passam mas se tens um sentido avanças. Os novos heróis afinal são como os antigos. E avanças outra vez, mas duplicaste a decepção com a consciência disso, mas enquanto não deixares ir a segunda nunca a primeira ficará digerida, multiplicada por gestos e algum futuro. Olhas à volta e como nada de novo debaixo de sol, convences-te de que, afinal, a coisa era só não ver tudo, não ver exactamente. Cego decides não avançar, mas recusar. No entanto, volta a ser ultrajante o que havias deixado para trás, ninguém te convence que a abstracção não possa salvar. De quê? O que salvava ficou para trás, o essencial, o modo como as pernas volteiam no infinito sem olhar para o lado. O intocável, o que atravessa incólume noites e dias sujos — e quando não, exasperação, a vida não cabe num pensamento. Um anjo, pois, quando a vida é um anjo e uma pedra, até os santos o aceitam. Deita tudo fora, o erro básico de viver com todos os cangalhos atrás, come a barata de uma vez, a coisa é assim, nenhuma máquina é feita para trair.


Natureza e humano

a. Na natureza há tudo o que no sujeito há
y. e ainda alguma coisa mais.
b. No sujeito há tudo o que há na natureza
z. e ainda alguma coisa mais.
b. pode conhecer a, mas y só pode ser pressentido através de z. Daqui procede o equilíbrio entre o mundo e o círculo da vida a que estamos votados.

Goethe, citado por Maria Filomena Molder em As nuvens e o vaso sagrado


26.8.19

Palavra aceita tudo

SEM TÍTULO

Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que
apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese
o acalmou.)

As antíteses congraçam.


Manoel de Barros, Livro sobre nada (1996)


18.7.19

Quando as frases são literatura

E Bloom finalmente deixou de os ver, o que não significa
que eles tenham deixado de existir,
pois se fosse obrigatório a cada momento
ver-se tudo o que existe, o mundo não seria mundo
mas concentração de todas as coisas
no mais pequeno espaço.
Não existiriam planeta nem países
mas apenas um armazém com tudo.
Um armazém geral, bem se poderia chamar,
um armazém metafísico.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia


Não o mundo, mas o corpo — armazém metafísico, ainda que menos entusiasmante, íntimo, ou seja, pouco grandiloquente. A pele que é passado, movimento, às vezes espera. O nariz que é dias longos, quando passam esses corpos breves que queimam com tal intensidade que nos enchem de alegria e de pavor. Na esquina do movimento, o pavor é a última memória da alegria. De que fala um texto quando apenas é literatura? Ou os ouvidos que adivinham uma queda fatal? As horas tartamudeiam sono de tardes vãs, a boca aberta porque o mundo escapa inapelavelmente. Os olhos já são abertos a plenitude, enquanto a respiração não hesita por um momento a luxúria. A respiração quer ser salva pela alegria — uma respiração lúcida são dias de exercício. Não me esqueço de ti, Jerusalém, sei-o agora, que o agora está aqui, vida plana e plena, outra evidentemente. Oferecem-me mel mas enjeito enegrecer e segregar um crepúsculo e a rua sem ninguém é a única saída e o corpo é um vestígio com outro vento outras mãos outras palavras. O corpo não seria mundo, o corpo-corpo, corpo-noite, corpo-concentração, das memórias que ensinam o humano, hipótese de construir um corpo e alguma bondade. Memórias que também desaprendem o corpo, o atascam em metafísica doméstica. O corpo com todas as suas tralhas de armazém com idade, mãos ansiosas por pensar, acabrunhadas, com medo de desconhecer uma função. Nada mais do que este minuto, apenas a mais grossa indiferença.


24.6.19

Um valoroso lugar incerto



Muito me honra fazer parte desta coleção académica com grandes ensaios.

Este livro saiu pouco tempo antes da morte do Luís Mourão. Agradeço-lhe para sempre o exemplo e o estímulo humano e intelectual. Ele foi meu orientador, os seus textos continuarão a fazer-me pensar e escrever.

Agradeço também muito a amizade e a inteligência de Eunice Ribeiro, minha orientadora.

Agradeço por fim à Direção do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (CEHUM), em especial a Orlando Grossegesse, pelo incentivo e pela decisão de publicar este ensaio.


21.6.19

Luís Mourão (1960-2019): memória



Ao Luís Mourão devo muito.
Comecei a trabalhar em 2009, ano de conclusão da licenciatura, a seu convite, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Tive o privilégio de ensinar várias disciplinas de Literatura com ele, em Licenciaturas e Mestrados. Nunca foi aquela pessoa vigiando o estrito cumprimento das minhas tarefas profissionais. Falava, perguntava se tudo estava bem, esclarecia, apontava calmamente soluções para os problemas com que nos deparávamos.
Comecei o doutoramento em 2013. O Luís foi meu orientador: reviu criticamente todos os meus ensaios, aconselhou, pôs-me a pensar e a organizar melhor o que queria dizer (numa fase para ele muito difícil). Devo-lhe muito pelo que tenho escrito.
Em setembro de 2017 vivi um período complicado. Terminou em agosto o período de vigência da minha bolsa de doutoramento, a minha esposa não tinha trabalho, o nosso filho tinha dois anos. A minha esposa foi com o meu filho para o país-natal dela. Eu fiquei em Portugal, foi uma fase difícil (e vários outros problemas se juntaram) do ponto de vista económico e emocional.
Nesta fase, poucos meses depois da morte de Laura Ferreira dos Santos, o Luís deu-me ajuda financeira e confortou-me. Vivi uns meses em casa dele: a sua calma, a sua boa disposição, a sua lucidez, a sua generosidade, fizeram-me solucionar os problemas um a um. Foi um período que jamais esquecerei, um gesto que me comoverá enquanto viver. Tentarei retribuir o que me foi dado.
Em março de 2018 emigrei. Ia falando com o Luís com frequência, nos últimos meses falávamos muito sobre a vida. Ouvia-me, antecipava a circunstância e os meus medos. Sempre o senti calmo e lúcido; mesmo doente, era o Luís de sempre. Em maio de 2019 chegou um silêncio de dias que não julguei que pudesse tornar-se tão violento. Não pude rever o Luís e tanto queria abraçá-lo. Tentarei que o seu exemplo esteja sempre vívido nas minhas ações e nos meus pensamentos.
O mundo não é um lugar terrível, é um lugar terrível e bom, ao mesmo tempo ou em alternância. Tive o privilégio de me cruzar, num momento muito duro, com o Luís, homem desprendido e bom. A bondade, dizia Manuel António Pina, citando Beethoven, é a única forma de superioridade (talvez ‘superioridade’ não seja a melhor palavra, mas a ideia parece-me fazer jus a quem foi o Luís Mourão).
É muito triste o seu desaparecimento.



10.6.19

Luís Mourão (1960-2019)



A TARDE DE UM ESCRITOR *


O meu obituário termina aqui. Cada começo como o 8 sem princípio nem fim do título do poema sobre o arado de Ruy Belo, indo pela morte dentro como quem regressa, a equívoca sensação de se estar a fazer uma grande travessia quando afinal se realiza o demorado adeus da nossa condição. Estamos sempre a meio, até à última palavra que não é dita por nós. O futebol, o basquetebol, eram meios de estar no meio dos outros, como escreveu ter sido assim na sua infância. (Só um parêntese, caros leitores, isto é uma carta para longe, para a criança que inevitavelmente seremos, para a construção do mundo e do outro que é nossa escolha mortal — será isso, caro Luís?) Em momentos como este, o abandono que somos solta a mão que o agarra, corre desalmadamente como criança que sente que ninguém a entende, não a deixam em paz, porque tem medo de amar, tem medo de ser amada, tem medo que o medo a transforme.

Tentei durante o dia fazer as minhas tarefas de mortal, mas, já quase noite, não sei por que prego no coração, por que desejo absurdo, é inevitável estar frágil perante o cosmos, digo-o aludindo a um livro de Peter Sloterdijk, de que aliás o Luís teria gostado, gostou, estou certo, porque toca no fundo da deficiência congénita humana e da necessidade de acrobacia ética. É isso o modo de viver gregamente? Somos nós que, a cada instante, escolhemos, porque não é possível experimentar indefinidamente, é perigosa a arrogância da imortalidade. Escolher eticamente confere importância e peso ao existir. Citando um poema de que gostava, de Herberto Helder: “porque nada tem retôrno e tudo é dificílimo / (não só o máximo mas também o mínimo)”. É só reconhecendo o difícil ao máximo e ao mínimo que seremos sóbrios, uma linha na existência, uma linha irrequieta, grega, combativa com as manhãs.) Sem psicanalisar muito, toda a criança sente em algum momento esse abandono, como observou ao ler o último romance vergiliano, Na tua face, o outro que somos e se nos apresenta na sua deficiência, largado pela mãe, pelo amor do absoluto entrado nas brumas do mar. Este sentimento de abandono perdura pela vida e agudiza-se em certas circunstâncias quando a tragédia se torna destino e, em certos casos, bem mais violentamente, desistência. A melancolia daí proveniente é atraso em relação ao mundo, salvaguarda de alguma distância por pudor, medo, ou ainda desejo, mas melancolia que é um modo de observar o humano (e o Luís percebia rapidamente o outro) e de entender, aceitar e amar a finitude, sendo esta a tarefa para uma vida inteira, necessariamente inconclusa, mas a única hipótese da ternura, o dever de nos fazermos ao mesmo tempo que fazemos mundo.

Os trâmites dos dias eram também exercidos pelo Luís com sabedoria, olhando os outros nos olhos, não descurando os formalismos em que estarmos em sociedade exige, negociando, procurando melhorar o que é público e de todos para que nunca deixe de o ser com qualidade. Porque “tudo poder ser de todos, tudo mesmo” (lê-se no blogue Manchasdevia ser uma utopia inscrita microscopicamente nos dias, mas nem sempre o é e menos nestes dias de pão curto em reinos salgados. Sabem-no todos os que trabalharam consigo em Viana do Castelo, dedicando-se muitas horas ao bem comum. Na Escola Superior de Educação do IPCV deixa muitas histórias bonitas e engraçadas a todos os amigos, todos gostavam muito de si.

Com a doença, o Luís entendeu claramente o que já sabia, que não se pode negociar com o destino, nem se pode pedir à vida mais do que ela pode dar. Não devolveu o bilhete, há jogo até ao fim, até ao ponto que o corpo permita, assumindo até então as despesas do ataque por sua conta, risco e incerteza. (A incerteza, ingenuamente tão vilipendiada, tão detonador de irritação e metafísica, afinal é salvaguarda do desespero, da obsessão, da maldade: “A incerteza é uma conselheira sábia, pede discernimento e isso protege-nos da alucinação da nossa verdade”, como escreveu também no Manchas). Então acordava cedo e sentava-se, não antes dos gestos exactos preparando o pequeno-almoço com o cuidado que merecem as coisas pequenas (nunca menos do que merecem as grandes), levanta as persianas para que a primeira luz inunde a casa com o entusiasmo do começo não isento da névoa daquilo que ainda não tem forma. Avançava pelo desconhecido de si como quem não se quer queixar nem acusar, pois enquanto deseja não calunia a vida e esse modo exacto de agir, ver e escrever mantinha-o na realidade, recusando-se negá-la pura e simplesmente, e era ainda um modo sóbrio de cair, como o deve tentar todo aquele que se sabe mortal. E isto é bem mais fácil de dizer do que de viver — e o Luís viveu-o. O estardalhaço, o modo inexacto de pôr as coisas, é só um momento mais da mentira que muitos não desejam confrontar. Mas, ó mortal, administra a tristeza sabiamente, talvez seja essa a ciência do mortal.

Mas tudo é ridículo quando se pensa na morte. Pesem embora essa alegria calma, o Deleuze dos jogos de futebol na infância, das tardes a tentar manter o jogo equilibrado, intenso (porque um corpo é a sua potência se se torna deserto, se é tudo o que pode em sentido ético-atlético, se é concentração), na confrontação com a morte, não se evita a metafísica. Em palavras suas: experimentamos “a melancolia insuportável de que o mundo também é feito”. E então há que reconhecer o nosso abandono, abraçá-lo, cuidá-lo — eram isso os seus gestos calmos? O modo sábio, porque vivido, e alegre como não criava uma relação angustiadamente dominadora com a realidade?, atento às tantas formas de que a negação do abandono se reveste (como sucede ao possidente ou ao vaidoso). E se se levantava e escrevia, como a criança que era jogava até não haver mais tempo, era porque o que sabia não interessava tanto saber, se não viver.

Quem fará justiça ao que eram as suas comunicações?, o rigor científico e ascético com que definia o fio da sua argumentação, que depois ia sendo apurado com calma, ao ritmo de um pathos metafísico e irónico — vergiliano? — de que o Luís inolvidavelmente imbuía certas palavras e exactos silêncios?

A ética tem a oportunidade de se manifestar diante da fragilidade, escreveu Gonçalo M. Tavares. Saint-Exupéry afirmou que somos responsáveis por aqueles que cativámos. O Luís exerceu exemplarmente a ética diante de quem se mostrava frágil e esteve disponível para os muitos que cativou. E estou longe de ser o único a afirmá-lo com conhecimento de causa. A sua boa acção importava menos pela razão que a pudesse justificar, mas pelo espaço de construção e ligação que efectivamente permitia. Era afável e generoso — admiro-o muito, farei por não me esquecer do seu exemplo, para não rebaixar a existência, para que com ela possa fazer alguma coisa.

Uma das grandes felicidades da minha vida foi ter sido seu amigo e interlocutor. Faz-nos muita falta, agradeço-lhe por tudo.



* Título inicialmente previsto para a sua tese de mestrado, como o título homónimo do romance de Peter Handke.