13.11.18

E Camões, já o lemos?



A comédia de Deus, João César Monteiro (1995)

Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

Camões, Lírica


12.11.18

Um olhar calmo sobre a maldade e a inocência

Mas agora, ao aperceber-se do estado de alma de Eduard, esta proposta transformou-se para a baronesa em projecto firme, e quanto mais depressa esta decisão ganhava vulto dentro dela, mais lisonjeava exteriormente os desejos de Eduard, pois ninguém se dominava tanto como esta mulher, e um tal domínio sobre nós próprios, em casos excepcionais, habitua-nos a tratar com dissimulação até mesmo um caso normal, inclina-nos, já que exercemos uma tal força sobre nós próprios, a estender o nosso domínio sobre os outros, de modo a compensar-nos, em certa medida, com os nossos sucessos exteriores, aquilo que nos falta interiormente.
A esta maneira de ser associa-se geralmente uma espécie de secreto prazer malévolo em constatar a cegueira dos outros, a inconsciência com que se lançam numa armadilha. Não nos regozijamos somente com o sucesso presente, regozijamo-nos também com a vergonha que os há-de surpreender. E, assim, a baronesa foi suficientemente maliciosa para convidar Eduard, juntamente com Charlotte, a assistir às vindimas nas suas propriedades e para responder à pergunta de Eduard, que pretendia saber se podiam levar Ottilie, de uma forma que ele poderia interpretar, se lhe aprouvesse, em seu favor.
Eduard falava já deleitado da região maravilhosa, do grande rio, das colinas, dos penhascos e das vinhas, dos velhos castelos, dos passeios de barco, das alegrias da vindima, do lagar, e assim por diante, ao mesmo tempo que, na inocência do seu coração, se regozijava já antecipadamente bem alto com a impressão que tais cenas iriam provocar na alma pueril de Ottilie. Nesse momento, viram Ottilie aproximar-se, e a baronesa disse rapidamente a Eduard que era melhor ele não dizer nada sobre este projecto de viagem no Outono, pois, normalmente, aquilo com que nos alegramos com muita antecedência acaba por não se realizar. Eduard prometeu, obrigou-a, no entanto, a ir mais depressa ao encontro de Ottilie, e acabou por se lhe adiantar, com alguns passos de avanço, ao encontro da encantadora jovem. Uma profunda alegria transparecia de todo o seu ser. Beijou-lhe a mão, na qual colocou um ramo de flores campestres que colhera pelo caminho. Ao observá-lo, a baronesa sentiu no seu íntimo quase uma amargura, pois, ainda que não pudesse aceitar aquilo que nesta inclinação podia haver de culpável, de modo algum lhe era possível perdoar àquela rapariguinha novata e insignificante o que nessa inclinação havia de delicado e encantador.

Goethe, As afinidades electivas


11.11.18

Abstractos como os cimérios

Envueltos en una noche devastadora

El curso de la abstracción se configura como un impulso irrefrenable y cósmico, que no afecta únicamente a la reflexión interior y mental, sino que forma los objetos a nuestro alrededor y nos forma a nosotros como objetos. La acumulación, extensión y ramificación de los entes y de los nexos abstractos es algo irreversible, que pesa sobre las generaciones humanas y las extenúa. La red de la abstracción atrapa todo, constituye todo, obnubilando, debilitando, ofuscando, sin modo de liberarse de ella. Estamos en el país de los cimerios, donde el sol no brilla, junto a la tierra de los muertos. Envueltos en las tinieblas, únicamente recordamos, y creemos que un exangüe y mediado recuerdo sea vida. Se llama real y existente a algo que en sí es apariencia: así es el hombre. Nosotros, últimos hombres, los más recientes, los más abstractos, ya ni siquiera existimos, somos fantasmas. No hay más que compararse con los hombres del Renacimiento, sobre los que el tejido de la abstracción era más fluctuante.

Giorgio Colli, Dopo Nietzsche


10.11.18

Grandes são os desertos

Mas, nele, era tal o tédio e a inquietação, que se limitou a encaminhar-se para a morte como para um pudor terrível e fatal.

Rimbaud, "Os desertos do amor"

4.11.18

Arte e impostura


Fotograma de Close-up de Abbas Kiarostami

A arte como impostura, está certo, mas esquecer o que comove seria terrível. Falsário, claro, o cinema ensina a vida, mostra também o essencial, isto é, o combate contra a impostura? Talvez no início estivesse a lição de cinema mas depois a personagem ganha vida — relutantemente falsário, consciente da sua intrujice para não tirar proveito dela. Responde com calma a todas as acusações e suspeitas provindas das costas. A ficção pela ficção, não ao preço da honestidade, ainda menos da usura. Mas como pesa o impoder, como é dura e insinuante a pequena necessidade de controlo, de infundir respeito e obediência! Depois de tudo, persiste uma identidade debaixo de linhas duras, quando nem ao seu nome nem à sua afonia correspondem acções ou reverências. O que fazer: com o vazio que se pode?

O que se vê, apesar do close-up? Vemos melhor mais de perto? Que banha da cobra é essa, tantas vezes vendida ao preço da honestidade, e ainda da usura? Há um mundo íntimo de que nem o máximo close-up se aproxima, a que toda a lente é cega. Essa dor escondida apenas o olhar próprio sente.


27.10.18

Compaixão pelo tonto entre o diverso

(…)

As viagens, os viajantes — tantas espécies deles!
Tanta nacionalidade sobre o mundo! tanta profissão! tanta gente!
Tanto destino diverso que se pode dar à vida,
Ë vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!
Tantas caras curiosas! Todas as caras são curiosas
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente.
A fraternidade afinal não é uma ideia revolucionária.
É uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo,
E passa a achar graça ao que tem que tolerar,
E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou!

Ah, tudo isto é belo, tudo isto é humano e anda ligado
Aos sentimentos humanos, tão conviventes e burgueses.
Tão complicadamente simples, tão metafisicamente tristes!
A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano.
Pobre gente! pobre gente toda a gente!

(…)
Álvaro de Campos, "Ode marítima"


23.10.18

Fantasia e corpo — filme negro

Podes estar na cidade mais aérea entre todas mas a pequenez da existência pode resultar da desmesura da fantasia. Roupas extravagantes mas não menos as exigências. Entras num domínio técnico por força da inteligência, a fantasia convence-te de que não estás à altura. E a vaidade, claro, de não correspondência com o mortal. Que fazer com esse instinto — resvalas, até onde? Uma civilização tão extensa e bela na cabeça. 

Elaboras com a minúcia que a inteligência permite os meios por que deves sofrer. Quem não merece severamente ser castigado por não ser mais do que humano? Um erro pode ser bem melhor do que uma emenda, ou menos mau que ela; talvez nunca chegue o erro à terribilidade da emenda. Desesperadamente esquecer de que se está sempre perto do abismo.

Da teoria à brutalidade vai uma distância, que o homem experimentou — melhor teria sido deixar a fantasia no papel. Que juvenil pode ser a paixão pela erudição! O juiz, as vozes, não se calam e como és competente quem poderia suspeitar. Etéreo como música, jaz o corpo sepultado debaixo de um piano, suspirando por tudo o que continua a faltar. Como se aprende, o amor, que página de que manual detalha a sua técnica, supondo que mereceria ter nascido e que o meu corpo ainda será capaz de afecto? Em que faca sem cabo a que falta a lâmina se encontrará, agora, a morte?



Isabelle Huppert, Fotograma de A pianista de Michael Haneke (2001)


21.10.18

De madrugada

Fantasma da madrugada: durante toda a minha vida sonhei levantar-me cedo (desejo de classe: levantarmo-nos cedo para «pensar», para escrever, não para apanhar o comboio dos subúrbios); mas essa madrugada do fantasma nunca eu a veria, mesmo que conseguisse levantar-me cedo; pois para ela ser conforme com o meu desejo seria necessário que, mal me levantasse, eu pudesse, sem perda de tempo, vê-la no despertar, na consciência, na acumulação de sensibilidade que se tem à noite. Como conseguir estar bem disposto à minha vontade? O limite do meu fantasma é sempre a minha in-disposição.

Roland Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes

Um olhar sobre utopias do século XX











JLG por JLG. Autorretrato de dezembro


19.10.18

Ver ou talvez melhor não

COMO EU VOS VEJO

Aqueles que me vêem chegar.
Também eu os vejo chegar.
Um dia o frio falará,
O frio ao empurrar a porta mostrará o Nada.
E então, meus gozões?
Pequenos cobardolas que ainda se pavoneiam.
Inchados pela voz dos outros e pelos pulmões da época, vejo
o rebanho inteiro coberto com a mesma forra.
Trabalhais? A palmeira também agita os braços.
E vós guerreiros, soldados de bom coração, benevolentes vendidos.
A vossa bela causa é mesquinha. Ela congelará nos corredores da história.
Ah! como terá frio!
Vejo-vos num tabuleiro, eu, que curioso!
Também vejo o Cristo — porque não? —
como ele era há cerca de 1940 anos.
A sua beleza já a desaparecer, a cara corroída pelos beijos dos futuros cristãos.
Então, o negócio ainda rende, a venda de bilhetes para
o outro lado?
Vamos lá, até breve a todos, não tenho senão um pé no elevador.
Adios!

Henri Michaux
1934
Tradução: Ricardo Norte


16.10.18

Venerar, porquê?

Desde o início que estas palavras foram acompanhadas por um sentimento particular de afinidade, a veneração, que tem a ver, por um lado, com o amor da imortalidade (Platão é o mestre desta afinidade) e, por outro, com a necessidade de nos protegermos daquilo que é grande, mais elevado do que nós. Sem o sentimento da veneração, como nos ensina Goethe na Viagem a Itália, poderíamos sucumbir. Ora, nós temos de continuar.

Maria Filomena Molder, Símbolo, analogia e afinidade

14.10.18

O que os outros sabem de nós

O que sabemos de nós próprios, o que a nossa memória reteve, é menos decisivo do que se pensa para a felicidade da nossa vida. Chega um dia em que surge nela aquilo que sabem os outros (ou julgam saber) de nós: damo-nos então conta de que a sua opinião é poderosa. Arranjamo-nos melhor com a má consciência do que com a má reputação.

Nietzsche, A gaia ciência, 52

10.10.18

Afinidade, pessimismo, morte, afecção, beleza, contemporâneo: sublinhando Maria Filomena Molder

(…)
A seguirmos Goethe, teríamos de entender as afinidades electivas no interior de um jogo de pertenças fatais, que surgem contra todas as regras da moral da época e são hostis mesmo a algumas convicções alheias à moral estabelecida. Os protagonistas desse jogo são sujeitos a sofrimentos vários sem vislumbre de consolação. Mas, habitualmente, não é assim que as coisas se passam, no momento em que se responde a uma pergunta como a sua e se revelam os nossos gostos e amores. E, no entanto, parece que teremos sempre de pagar a dívida a Goethe, pois o sentimento de familiaridade imprevisível que nos assalta quando conhecemos alguém, seja real seja personagem de um livro ou de um filme, revela qualquer coisa que estava oculto ou adormecido e foi despertado. Por ser inelutável tem qualquer coisa de angustiante. Aí temos a sensação que acabámos de nascer para a vida ou que começámos a viver num mundo que acaba de nascer.

(…)

A tendência maior é a de recolher as cinzas do dia. Nela se inscreve a outra tendência, o desejo de fazer frente ao dia. Sou uma contemplativa pessimista, evitando fazer do pessimismo um caderno de encargos. É um combate sem fim.

(…)

Tende-se a acreditar que a morte é um acidente e que poderíamos viver para sempre, se os tubos não entupissem & etc. Isto é uma forma de ideologia que atacou a medicina e transborda todos os dias para os jornais. Por outro lado, a obsessão com a segurança, isto é a confusão entre estar vivo e sentir-se absolutamente seguro é outra forma ideológica que tomou conta de todos os campos da nossa cultura, passando por cima da compreensão precoce em qualquer criança do risco que é viver (aventura, desconhecido, perigo). O medo aumenta exponencialmente e quanto dinheiro se ganha com isto!

(…)

Àquela lista dos meus autores que há pouco apresentou, e que nunca estará completa, acrescento apenas mais um nome: Nietzsche. E bem a propósito, pois é ele que sublinha o perigo de estar sempre a responder aos estímulos (uma vida que se limita a reagir é uma vida doente, dirá Deleuze, muito nietzscheanamente). Sendo o estímulo, não uma coisa que nos afecta, ser afectado é o coração da nossa vida, mas uma agressão que interfere, interrompe, domina e corrompe essa possibilidade de ser afectado. Resistir aos estímulos é uma condição para a saúde da nossa espontaneidade criativa.

(…)

E a beleza? Baudelaire imaginou-a de duas maneiras. Por um lado, como um esgrimista com o qual o ele trava todos os combates possíveis. Se nesse combate o poeta ganhar, não há poema; se ganhar o seu adversário, o poeta sucumbe, gritando de susto, e temos poema. Leia-se o terceiro poema dos Pequenos poemas em prosa, “O confiteor do artista”. Por outro lado, a beleza apresenta-se a si própria como uma mulher incapaz de emoções: “E nunca choro e nunca rio”, inspirando ao poeta “um amor eterno e mudo como a matéria”. É nos “estudos austeros” que lhe dedicam que os poetas “consomem os seus dias”. Leia-se “A beleza” das Flores do Mal. Austeridade, frieza e mudez, eis os atributos da beleza moderna. Em rigor, nos poetas antigos, medievais e renascentistas, não se poderá reconhecer uma tal visão. Esses poetas que menciona são herdeiros de Baudelaire, mesmo que não possam deixar de fazer parte da série dos antigos. Em todos eles a beleza é uma promessa, é um olhar vazio, uma fatalidade. Eles já sabiam que o belo era o fim da belo, quer dizer, já tinha ocorrido esse paradoxo do belo se tornar relativo ao gosto privado de cada um. E os poetas desembaraçaram-se como puderam desse desastre. Por exemplo, que o belo seja tido como uma promessa impede a sua submissão ao desbarato do gosto privado, ao mesmo tempo que há sempre o risco da promessa não ser cumprida.
(…)
Convém aqui aplicar a fórmula de Aldo Rossi: “A cidade é um acampamento de vivos e mortos”. A arte também. Se formos à etimologia, contemporâneo vai dar no mesmo que moderno. Curioso, não é? Pois os exercícios acrobáticos que se fizeram para estabilizar, até ao anquilosamento, as suas diferenças e mesmo a sua oposição, foram de monta. Deram para vários circos. 
Benjamin afirma que, num sentido excêntrico, em todas as épocas os homens foram modernos, isto é, todos eles estiveram diante de um abismo. Sentido excêntrico significa não-historicista, o mesmo sentido que faz com cada poeta e cada artista descubra a sua própria tradição, a sua própria história da poesia ou da arte, onde poderão estar, lado a lado, uma maquete suméria de um túmulo e uma escultura do Chillida; um verso de Homero e outro de António Reis.


6.10.18

A morte vem antes do então

Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas…
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (…) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis,
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando de vez, para sempre, irremediavelmente,
(…)

Álvaro de Campos, "A Partida" (h) 


Quando isto cessar, quando o irremediável se impuser, quando os nervos e a incompreensão terminarem, quando a ficção dos possíveis for impossível, quando os quandos não mais se puserem e o tempo se estreitar até não ser mais do que um, quando isto humano, então… Provavelmente, o sem-hipótese do imaginar da morte, quando o imaginar da vida for passado, quando tanto passado, como futuro, melancolia e alegria, se submeterem ao ponto passivo em que somos matéria agida. A morte vem antes do então.


23.9.18

17 anos

Canção da torre mais alta


De ócios jovem presa
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah que o tempo avance
Que encanta os amantes.

Eu disse-me: esquece,
Não sejas ninguém.
E deixa a promessa
De mais altos bens.
Que nada te frustre
O retiro augusto.

Ó viuvezes várias
Da pobre alma agora
Que só tem a imagem
De Nossa Senhora:
Rezar dever-se-ia
À Virgem Maria?

Esperei tão paciente
Que para sempre esqueci.
Medo e sofrimento
No céu os perdi.
E uma sede langue
Escurece o meu sangue.

Tal a pradaria
Que o olvido vence,
Crescida e florida
De joios e de incenso,
Ao zoar furibundo
Das moscas imundas.

De ócios jovem presa
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah que o tempo avance
Que encanta os amantes.

Rimbaud, Obra completa

22.9.18

Um conselho lúcido

No prefácio a 70 poemas para Adorno, escreve Gonçalo M. Tavares: “Falar: uma forma de venda parcial, um modo de jogar tragicamente à cabra-cega. A linguagem verbal suspende a visão forte e exaustiva. Fala para não veres tudo.” Falamos porque não nos dói o suficiente — e podemos falar para que não nos doa. Entre a cegueira ou algo ainda pior, é preferível falar, uma auto-mutilação suave: “Um animal cego e bípede é, afinal, o ser humano – esse falador. Diante do terrível, falas, e assim vês apenas metade ou um quarto ou um milésimo. Falas por pudor. E gritar é ainda uma expressão informe de pudor”. Não queremos ver, não suportamos, nem queremos incomodar demasiado com uma “visão forte e exaustiva”. Falar para ver menos, jogar tragicamente à cabra-cega — assim nos vamos salvando.


21.9.18

Anexo do corpo

Falar, cantar, fazer barulho disforme,
tudo faz parte de um anexo do corpo,
pois tu és um organismo interior, caro Bloom,
bem como todos os humanos. Sentir não tem som,
isso é mais que evidente.

Gonçalo M. Tavares, Uma viagem à Índia, II.90


8.9.18

Quando fala de desenho, Michaux fala, muitas vezes, da criança

Amuo de criança, arma para quem dispõe de tão poucas, que muitos miúdos e miúdas acabam por descobrir mais cedo ou mais tarde, e contra a qual não haverá defesa fácil.
Recusa. Não à participação, à comida, ao falar, ao andar, às próprias brincadeiras.

Mais vigorosamente do que se julga, a criança sente a tentação de parar, de impedir que a encaminhem para o desenvolvimento, por onde sempre a levam rumo aos esforços que nunca mais acabam, à aprendizagem cada vez mais complicada... Irá ela continuar? Ou parar?

Henri Michaux, O retiro pelo risco (antologia)


2.9.18

Cristão e anarquista (ainda nem começamos a entender, nem nunca acabaremos)

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os
outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

Alberto Caeiro, in «O Guardador de Rebanhos — Poema XXXII»


26.8.18

Quando se lê Herberto como quem lê Mário-Henrique

No gracioso ano de 1951, fomos todos ver um Académica-Benfica, em Coimbra. Éramos um grupo que se tinha vindo a preparar desde muito cedo, com copos de tinto e pasteizinhos de bacalhau. Foi uma boa preparação, porque, quando chegámos lá, estávamos prontos para uma quantidade de coisas. Para gritar, por exemplo. Começámos a gritar. De repente, alguém achou que era necessário as pessoas darem porrada umas nas outras. E então demos porradas umas nas outras. Depois, acabou. Nunca mais fui ao futebol. Tinha sido divertido de mais, e eu receava dedicar o resto da minha vida às fascinações do tinto, do grito e da batatada no meio da cabeça.

Herberto Helder, em minúsculas, “Um passeio no campo”


21.8.18

Isto, mil vezes isto

Ele suporta mal qualquer imagem de si próprio, sofre ao ser citado. Considera que a perfeição duma relação humana depende dessa ausência da imagem: abolir entre si, de um para o outro, os adjectivos; uma relação que é adjectivada está do lado da imagem, do lado da dominação, da morte.

Roland Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes

20.8.18

Sedativo moral, sedativo moral

E vê que, ao fundo, algures num grupo de gente obscena,
um líquido passa pelas bocas
de todos. Líquido que acalma e une, transformando
fortes inimizades em aproximações neutras.
Com os efeitos de um álcool manso, um grupo arruma, assim,
discretamente, a violência, apertando as mãos,
dobrando as costas, sorrindo sorrisos.

Uma viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares

19.8.18

Amor e depois

Cada um tem o privilégio de sentir tudo, um com o mundo, até ao fechamento da noite. Ela não é eterna, como nenhum desencanto, vem a manhã de um destino particular a cumprir, havendo disciplina e entusiasmo. Um destino particular é o que se tem a cumprir depois do destino comum. Depois da totalidade, a melancolia do fragmento.

Poucos como Char dizem o impossível.