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13.6.26

Cem anos do 28 de maio

O desespero é a ausência de perspectivas materiais para se existir no imediato. Esta chaga desencadeia o seguinte efeito: acredita-se na primeira explicação para o desespero, a que se consiga entender clara e imediatamente. Pode ser incoerente e infundada, mas mais vale uma explicação qualquer à ausência de explicação (como argumentou Nietzsche). Entender a incoerência e a ausência de fundamentação da explicação requer tempo e paciência, precisamente aquilo cuja ausência o desespero havia provocado. E porque o genocida império americano tem, ou extrai, cada vez menos recursos aos países do Sul Global (fora o esgotamento que resulta de problemas ambientais), nós, em Portugal, no cu do império, com ainda menos sobras dele vivemos, ficamos ainda à mercê de elites locais que não querem ficar atrás das internacionais, cujo 'desespero', o de ambas, não se mede no imediato, mas com a eternidade por referência, e se concretiza no incremento inclemente e descarado da pilhagem ao desgraçado, com o inexorável fomento da desigualdade económica (vulgo, sofrimento atroz). Vai daí cresce o desespero geral e, nessa medida, a expectativa – o desejo? – de se ser enganado. E quanto mais rápido, melhor, com as soluções apensas, finais, também elas rápidas, fáceis e óbvias, porque o mais rápido, fácil e óbvio é desde sempre atacar quem não se pode defender: deportação de imigrantes, fim de subsídios às pessoas mais vulneráveis, pogroms, genocídios em todo e qualquer continente, a qualquer povo, de antemão terrorista, para o justificar há programas de tv de diálogo sintaticamente refinado, mas inane e sádico, tal como o aleijado, o deprimido, o deficiente, o doente mental, o ocioso, o digno, o pura e simplesmente fustigado por existir neste vil antro de credo na boca é desde logo um chulo doméstico a quem é urgente punir por querer esmifrar o tão caro suado e honesto pão deste nosso rosto desumano e besta como nenhum animal consegue ser, muito menos argumentar com botões de punho, que, além da bestidade, também do cinismo as ditas-bestas estão livres.

A bestidade do fascismo doméstico, da casa portuguesa: lei da imigração, da nacionalidade, PSU, pacote laboral, reclusos a limpar matas. De supetão, com quase nulo escrutínio, bruto e besto fascismo: violento com os fracos, serviçal com os fortes, curvado, titubeante e lesto. A ser tudo aprovado, para formalizar a mudança de regime, só faltará o golpe constitucional. Seria a melhor forma de a direita prestar homenagem, cem anos depois, ao golpe militar de 28 de maio de 1926.

1.6.26

Sarah Rajab


Martha Rosler, House Beautiful: Bringing the War Home 
1967–72

O trabalho de Martha Rosler é muito claro: o bem-estar só é possível porque noutro lado do mundo um pai carrega o seu filho assassinado nos braços. A ordem ocidental, o kitsch, são possíveis graças ao horror; por conseguinte, a má-fé é intrínseca ao modus vivendi imperial e capitalista. Jacques Rancière, em O destino das imagens, explica como a mistura destes dois mundos, na imagem de Rosler, tem um efeito revelador: «Trata-se de organizar um choque, de pôr em cena uma estranheza do familiar, para fazer aparecer outra ordem de grandeza que só se descobre mediante a violência de um conflito. A potência da frase-imagem que une as heterogeneidades é então a da separação e do choque que revela o segredo de um mundo, ou seja, o outro mundo cuja lei se impõe por trás das suas aparências anódinas ou gloriosas».

Evoco esta série a propósito de mais um massacre perpetrado por Israel, em Gaza, no dia 27 de maio. Entre as vítimas encontrava-se Sarah Rajab, de 9 anos, transportada em braços por um adulto aterrado com o pequeno corpo carbonizado e desconjuntado. Um horror a que um Conrad teria dificuldade em dar voz. Ela havia perdido a mãe, a avó e dois irmãos num ataque aéreo israelita em dezembro de 2023. Há uns meses, perdeu o pai; órfã, foi executada pelo exército de Israel. É liquidada, no espaço de meses, toda uma linhagem familiar.

Decepar a inocência, a inteligência, a graça, a criatividade, é a finalidade do poder. Também a chacina de Sarah — essencialmente anónima — está nas nossas salas de estar.


18.5.26

La mato y aparece una mayor


Sueño con serpientes

                  Hay hombres que luchan un día
                  y son buenos.
                  Hay otros que luchan un año
                  y son mejores.
                  Hay quienes luchan muchos años
                  y son muy buenos.
                  Pero hay los que luchan toda la vida:
                  esos son los imprescindibles.
                                               Bertolt Brecht
 
Sueño con serpientes, con serpientes de mar,
con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo.
Largas, transparentes, y en sus barrigas llevan
lo que puedan arrebatarle al amor.
 
Oh, la mato y aparece una mayor,
oh, con mucho más infierno en digestión.
 
No quepo en su boca. Me trata de tragar
pero se atora con un trébol de mi sien.
Creo que está loca. Le doy de masticar
una paloma y la enveneno de mi bien.
 
Oh, la mato y aparece una mayor,
oh, con mucho más infierno en digestión.
 
Esta, al fin, me engulle. Y mientras por su esófago
paseo, voy pensando en qué vendrá.
Pero se destruye cuando llego a su estómago
y planteo con un verso una verdad.
 
Oh, la mato y aparece una mayor,
oh, con mucho más infierno en digestión.

Silvio Rodriguez


22.1.26

Res nullius


Branqueamento de um genocídio através de empreendimentos projetados sobre dezenas de milhares de cadáveres do povo da Palestina. O fascismo, tão bem intencionado, cute, assente em projetos de controlo e vigilância através de dispositivos biométricos. Este colonialismo clean, este pragmatismo económico, esta uniformidade sintática são o fascismo. Desde a doação do Congo ao Rei Leopoldo II, nas Conferências de Berlim, que não havia nada semelhante à aprovação da resolução 2803, no Conselho de Segurança da ONU, a 17 de novembro de 2025, a qual, em termos práticos, faz com que Trump, presidente pedófilo (cf. página 8), presida indefinidamente a Gaza sem ter a obrigação de prestar contas a nenhum órgão. Bater palmas aos predadores, que bom, que nos alertam para a perda de tempo e energia que seria condenar os genocidas e enterrar os mortos com a mínima dignidade. Mas não, bulldozers limparam-nos com toneladas de entulho à mistura, eles são parte daquele tóxico monturo, ativos financeiros que requerem saneamento. Uma limpeza não menor do que a de tantas e tantas pessoas com deficiência, tantos ciganos, dissidentes e judeus por vários campos de concentração ao longo do último século. Nem parece que estão em causa ainda mais crimes de guerra, a mais baixa imoralidade, não enterrar os mortos, não: olhemos para a frente, meus meninos. Foco. Estamos a preparar o terreno da vossa vida sem vos consultarmos. Hoje é tudo explícito por virtude mediática e sobretudo de inúmeros e valentes ativistas, mas a maioria da população recusa-se a entender apesar de tanta evidência. Séculos de censuras e inquisições fizeram com que nos tivéssemos tornado em especialistas no ocultamento de tudo o que é nítido. Somos inundados por propaganda indolente e retorcida através dos media e governos ocidentais. Estes novos nazis, praticamente iguais aos mais antigos, de dentes rútilos, silhueta elegante, com aquela curvatura de pescoço tão sensível que séculos de escravos moldaram, vendem a morte massiva como uma iniciativa económica irrecusável. E nada nem ninguém pode tornar a Europa mais fascista do que o apoio a esta abjeção. Um fascismo investido de ultra-capital, para o qual a liberdade é ir ao McDonald's, viver numa Trump Tower e fazer revoluções onlyfans (que, afinal, consiste em massacrar crianças antes que se tornem adultos). Os países árabes que apoiam isto, governados por puppets autoritários, são igualmente rapaces. Enfim, o velho princípio de estar do lado de quem vence, o cerne da servidão voluntária e da vontade de poder. Quem tem força só escuta palavras de contenção por vontade própria, como referia Carl Schmitt. E isso é tão válido para os anos 30 do século XX como para o ano de 2026. Embora se duvide que hoje alguém ainda as pronuncie, a não ser em desespero quando o império lhes bata à porta. Veja-se o caso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, banqueiro, ex-gestor da Goldman Sachs, cujo discurso em Davos recupera duas referências históricas. Uma, A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, permite a Carney esgrimir o seguinte argumento: tal como os Atenienses canibalizaram a Liga de Delos após terem derrotado a ameaça que os Persas representavam, assim os Estados Unidos da América exploram os seus aliados depois de terem derrotado o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Ou seja, tanto Atenas como a América se converteram em máfias especializadas na extorsão dos seus vassalos (em toda esta história, os russos cumprem o papel de malvados fascistas, ainda que mais de 20 milhões de soviéticos tenham morrido durante o conflito). Basicamente, esta referência permite a Carney chorar lágrimas de crocodilo, ao mesmo tempo que, nas entrelinhas, faz da China a nova Esparta. A segunda referência, A potência dos impotentes, de Vaclav Havel, é também sintoma de uma hipocrisia gritante: enquanto se beneficiou dos atropelos à lei internacional do grande império, tudo bem; agora que ele se volta contra nós, é preciso dizer a verdade ao poder. Neste ponto atarantado também se encontra a Europa. Sobre o Canadá, o mais provável é que Carney, na sua visão neoliberal, conceba o seu país como um ativo tóxico e o queira tentar vender à China, na expectativa de consolidar um outro multilateralismo quando o America First e a National Security Strategy fizeram estilhaçar a aparência daquele que (ainda) vigora a Ocidente. Mas é certo que o Ocidente continua a pôr o letreiro 'democracia liberal' à sua porta. Tão bom.



11.1.26

Efeitos da sublimação do Mal

Novick argumenta também que «pretender que o Holocausto faz parte da memória da América» é uma evasão moral, porque faz-nos «desresponsabilizar de coisas que de facto dizem respeito aos americanos quando se confrontam com o seu passado, presente e futuro.» (Sublinhado no original.) Nisso tem toda a razão. É muito mais fácil deplorar os crimes dos outros do que olhar para os nossos. No entanto, também é verdade que, se quiséssemos, poderíamos aprender muito sobre nós mesmos a partir da experiência nazi. O Destino Manifesto foi a pedra basilar de quase todos os elementos ideológicos e programáticos da política de Lebensraum de Hitler. Na realidade, Hitler modelou a sua conquista do Leste pela conquista americana do Oeste. Durante a primeira metade deste século, a maioria dos estados americanos aprovou leis autorizando a esterilização e dezenas de milhares de americanos foram esterilizados à força. Os nazis evocaram explicitamente este precedente americano quando aprovaram as suas leis de esterilização. As famosas Leis de Nuremberga de 1935 privaram os judeus do direito de voto e proibiram a miscigenação entre judeus e não judeus. Os negros do Sul americano sofreram dos mesmos entraves legais e foram alvo de uma violência popular espontânea e consentida muito maior do que a exercida contra os judeus na Alemanha de antes da guerra.
[...]
Mas antes de Wiesel ir chorar por encomenda a sorte dos kosovares, o regime indonésio apoiado pelos Estados Unidos retomara o trabalho que deixara inacabado nos finais dos anos 70, perpetrando novos massacres em Timor-Leste. Apesar disso, o Holocausto varreu-se da memória da administração Clinton, que consentiu o banho de sangue. Como explicou um diplomata ocidental, «A Indonésia conta, Timor-Leste não.»
Novick salienta a cumplicidade dos Estados Unidos em desastres humanos que, embora diferentes do extermínio nazi, têm a mesma dimensão. Recordando, por exemplo, um milhão de crianças mortas na Solução Final, observa que os presidentes americanos pouco fazem além de balbuciar palavras piedosas quando, em todo o mundo, todos os anos «morrem de fome e doenças evitáveis» muitos milhões de crianças. Também podemos considerar um caso pertinente de cumplicidade americana activa. Depois de uma coligação dirigida pelos Estados Unidos ter devastado o Iraque em 1991 para castigar «Saddam-Hitler», os Estados Unidos e a Grã-Bretanha impuseram sanções criminosas através das Nações Unidas a esse desgraçado país, com o objectivo de provocarem a deposição do seu ditador. É provável que tenham morrido um milhão de crianças, como no holocausto nazi. Interrogada na televisão nacional sobre essa hecatombe terrível, a secretária de Estado Madeleine Albright respondeu que «o preço justifica-se». 
Novick afirma que «o próprio carácter extremo do Holocausto limita seriamente a possibilidade de dele retirarmos lições aplicáveis ao nosso mundo de hoje.» Como «bitola máxima de opressão e atrocidade», tende a «banalizar crimes de magnitude inferior». Mas o holocausto nazi também pode sensibilizar-nos para estas injustiças. Visto através do prisma de Auschwitz, o que dantes se considerava como aceitável — por exemplo, os preconceitos racistas — deixou de o ser. Na realidade, foi o holocausto nazi que desacreditou o racismo científico que era uma característica tão presente na vida intelectual americana antes da Segunda Guerra Mundial.

Norman Finkelstein, A indústria do Holocausto. Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus



4.12.25

Depois da paciência

A tirada mais importante de todos os tempos

A Grã-Bretanha foi derrotada.
Vocês também serão derrotados!
Rifqa El-Kurd

Rifqa tirou-me os meus molotovs.
Se não uma metáfora
dariam uma boa jarra para jasmins,
uma boa animação à mesa de jantar,
onde a revolução consiste em baixar o volume da TV
para permitir a conversa.

Com o passar dos anos    os dedos dela emagreceram,
veias como videiras.
As varandas exigiam menos deambulações
e a Teta desistiu do telecomando.

Um xeque no ecrã tagarela acerca da libertação.
É o que vem depois da paciência. Depois da paciência
existe apenas um túmulo, diz a Teta.

Para quê embalar uma mulher com cem anos
cujas tiradas permanecem intactas? 

A minha mãe
é a sua bengala.
Quando não uma metáfora, a sua bengala é
o fim de uma cama ou de uma frase.
Ela agarra-se à física e à sua perspicácia.
A sua bengala nunca
é um bastão para os idosos. Ela que em tempos conheceu
sudários roxos, que em tempos conheceu
nuvens como fiapos do seu cabelo,
não baixará a cabeça. É uma luta na verdade
quatro da manhã e os meus pais gritam por hospitais.
A Teta voltou a cair.

Ela está bem. Alhamdulillah. Há cem anos
numa corda bamba entre o orgulho e a auto-estima.
Cresci num circo. Cresci em serviços de urgência
e a morte após os serviços de urgência
era incomum, pelo que nunca estive de fôlego sustido nem
                                                                              de mão dada.
                                                A esperança para mim
era um resultado inesperado, sempre.
A Teta caminha debilmente.
Tem uma coluna direita, em teoria.
Herdei dela        a sua corcunda
e a sua intuição profunda.

Em Julho passado, perguntou-me como voltaríamos para casa.
Nas nossas bicicletas, disse eu, rindo-me.
Vai na tua bicicleta, que eu vou no meu cavalo.
As suas tiradas intactas               o seu sorriso inquebrantável.

Atribuo imaginação à memória:
molotovs em malas Fendi,
                                        panfletos em sapatos de pele de cobra,
lenços de seda dissimulando a violência,
um neto fascinado por ambas as rebeliões.
A Teta lembra-se do que é preciso:
espingardas em sacos de arroz,
barrigas abertas ao meio,
mulheres confundindo almofadas e descendentes,
homens tocando sirenes na rua, actuando com fervor,
mulheres cujos deuses já não respondem,
homens emasculados pelo estatuto de refugiados.
Ela não se lembra do meu nome;
a indelicadeza é muito mais memorável          do que o sangue.
Sete décadas depois ainda se lembra
do que martirizou a sua pátria pela primeira vez.

A convicção política mantém-se.
Cantos de protesto como candelabros no seu subconsciente.

Habibi? Porque estás na América?
Escola.
Deus te abençoe. Mohammed quem?
Porquê a América? Tem cuidado! Diz-lhes:
«A América é a razão.» Diz-lhes: «Bebam o mar.»
Deixa-os montar os seus cavalos altivos.
Jerusalém é nossa.

A tirada mais importante de todos os tempos.

Mohammed El-Kurd, Rifqa

3.12.25

Bisonte

1.
Uma manada de búfalos avança para a cidade de Billings,
            no Montana.
Bisontes machos pesam uma tonelada, e até mais,
e podem ter a altura doida de um metro e oitenta.
Veem, portanto, do mesmo ponto dos olhos humanos
mas, claro, não têm o mesmo critério nem as mesmas propriedades.
Do focinho à cauda podem ter quase três metros,
mas tal como usar animais como referência na medição
            de coisas artificiais talvez não faça sentido
— uma casa não tem o comprimento de sete búfalos — também na
natureza as medidas não deveriam resultar dessa referência
                                                                     abstrata, neutra,
e demasiado higiénica que é o metro.
Coisa abstrata nunca acalmou fome ou fúria de bicho.

2. 
O que é o metro, na natureza, senão nada que se coma,
sem carne nem utilidade imediata;
um little deus para os humanos em transações
                        envolvendo espaços,
porém, na grande pradaria do velho oeste americano,
tudo se media a tamanho de pés ou botas de couro —
            ou a dorso gordo de animais
como se fazia com o bom do búfalo quando não o aborreciam.
Quantos búfalos cabem numa planície?, eis a questão,
eis a forma natural de medir, meio a olho, meio a quilo.
Mas diga-se: um animal furibundo talvez não meça exatamente
o mesmo que o mesmo animal quando sonolento
ou calmo. A fúria faz no organismo o milagre do aumento de 
                                                                        comprimento,
                        largura, altura e volume;
a fúria faz animais altos e fortes. A mansidão ou o abrochar,
que toda a proximidade à casa humana exige,
pelo contrário, faz do leopardo, gatinho; do lobo, caniche; da
águia, galinha piu-piu ou papagaio de três palavras,
bichos obedientes e patarocos:
sim senhor, sim senhor — sim, minha senhora.

3. 
Não se trata apenas, pois, de fazer mais pequeno o que nasceu 
para ser maior; trata-se de enfiar pela goela abaixo
hábitos urbanos no estômago mortinho por ser boçal
                                          ou até selvagem.
Os animais passam a ter quatro patas mas como as mesas;
são transformados em acompanhantes, diz Bloom a Creonte,
em funcionários afetivos, calada mobília que ladra e caga.
Os animais não têm, pois, medida: a fita métrica é,
diante da biologia, uma impostura;
um animal muda de tamanho só pela respiração:
mais ou menos oxigénio no tórax e eis que o rigor da balança
             ou do milímetro se tornam obsoletos.
Nenhum animal vivo tem medidas certas
e se queres ser alto e largo, sê feroz;
manso cabes no buraco de uma agulha, bravo e revoltoso
            não há cadeira que trave a tua pressa.

Gonçalo M. Tavares, O fim dos Estados Unidos da América

30.11.25

Apocalipse Left Wing

1.
Jukebox junto aos passeios, na rua, os transeuntes bailam à
                                                          moeda;
velhos objetos parecem resistir melhor ao contágio,
revivalismo vem como se viesse afinal do futuro,
tudo indica que objetos antigos estão imunes ao novo vírus.

2. 
Em certas ruas, antiguidades sobre mesas
agitam leilões de gringos pobretanas;
            talvez no apocalipse, pensa Left,
os preços das casas e das coisas finalmente desçam.

3.
No fim do mundo a inflação perde vigor e firmeza,
treme do terço inferior das pernas,
vende setenta pelo preço de sete;
tudo fica ao preço da chuva e da uva mijona;
só na manhã antes do apocalipse tudo será de todos, pensa Left;
aí acabou o negócio e o Estado comunista finalmente funciona.
Televisões smarts substituídas por martelos crash.
Left Wing prescinde do presente, prefere o apocalipse.

Gonçalo M. Tavares, O fim dos Estados Unidos da América