17.2.18

Sou louco porque consisto


Há uma estrada que termina sempre no medo masculino — a mulher goza, o homem não sabe como esse gozo funciona (leitura psicanalítica que, cinematograficamente falando, convocaria o film noir e a femme fatale). Mas há múltiplas estradas muito importantes.

A bizarria muitas vezes é só humildade: o retirar-se quando o terror aparece. Só isso, melhor não explicar.

Entender a cabeça que chega a um crime, a cabeça que tem medo, que o realiza tantas vezes lá dentro. As suposições, os tremores em que a energia se escoa. Como se chega a um crime pelo pavor de consistir:

«Desde há cem anos que a loucura (literária) tem fama de consistir nisto: ‘Eu é um outro’: a loucura é uma experiência de despersonalização. Para mim, sujeito apaixonado, é exactamente o contrário: é o tornar-me um sujeito, sem poder deixar de o ser, que me torna louco. Eu não sou um outro: é o que noto com pavor. 
(...)
Sou indefectivelmente eu próprio e é nisso que sou louco: sou louco porque consisto.»
(Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso, p.187)

Quer dizer, ama-se e descobre-se que se é. Consisto, sou um, ser-menos, mortal, o terrível. Mas antes disso, experimenta-se com angústia a hipótese, quase niilista, de ser por osmose:

«Eu não possuo o meu corpo como posso eu possuir com ele? Eu não possuo a minha alma — como posso possuir com ela? Não compreendo o meu espírito como através dele compreender?
As nossas sensações passam — como possuí-las pois — ou o que elas mostram muito menos. Possui alguém um rio que corre, pertence a alguém o vento que passa?
Não possuímos nem um corpo nem uma verdade — nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões e a minha vida é vã por fora e por dentro.
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer — eu sou eu?
Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.
Quando outro possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.
Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?»
(Bernardo Soares, Livro do desassossego, 1982, p. 171).

Nem o corpo nem a alma possuímos — é fantasmático esse terror juvenil de possuir. Aquele medo que precipita o estúpido, a vertigem da antecipação da perda. A descoberta da consistência é a da subjetividade, a da liberdade que questiona o aconchego. Consistência inconsistente, somos mas não sabemos: a cognoscibilidade e a possessão dependeriam da anulação do devir. Não seria possível ser, sem ter que ser um, mesmo quando esse um não é sempre o mesmo? Resta sentir, quando não se possui nem compreende, sem saber quem se é. E é isto o que sobra dos filmes de Lynch: o sentir de quem volta a atravessar o que doeu e não se compreende. E como parecemos próximos de tudo o que ficou por explicar no vivido, até que esse conhecimento escapa entre os dedos como água. Como quando num sonho se tenta muito fazer alguma coisa grandiosa, sexual ou outra, e, quando se está prestes a fazê-lo, no instante imediatamente prévio à ação, acorda-se.


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