31.1.17

Um poeta que escreva como um grego, como um homem

Em qualquer sociedade, e em qualquer época, há três sociedades e três épocas. Há, em primeiro lugar, e subjacente a tudo, a humanidade e esse tempo indefinido da sua duração a que a nossa linguagem contingente chama eternidade. «O Homem tem a eternidade» diz Browning, embora seja possível que ele tenha querido dizer algo diferente. Há, depois, e acima dela, a civilização a que essa sociedade e essa época pertencem. Há, por fim, as pequenas coisas específicas do aqui e agora (...)
Estes três níveis podem ter uma estrutura semelhante ou diferente.

Na Grécia antiga, eram praticamente contínuos. A Grécia e a civilização eram coextensivas, ou consubstanciais. A Grécia antiga e a sua civilização, sendo o início da sociabilidade crítica, ou seja, da própria civilização, eram idênticas à substância da humanidade civilizada. Assim, quando um poeta escrevia como um grego, escrevia como um homem. Este Paraíso não foi recuperado. Os arcanjos expulsaram dele o Homem e guardam eternamente as suas portas inúteis.
Um poeta grego, para ser célebre, tinha de adaptar-se a um ambiente. Nós temos três ambientes à escolha. Para nos adaptarmos a todos eles, cada um de nós tem de ser uma trindade, o que é demais até para a loucura.
Fernando Pessoa, Heróstrato


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