31.1.17

Decência, envelhecer, ordem

Esch, sentado na borda da cama, examinou-a à luz vacilante da vela. Em cima da colcha, desenhou com um dedo um três e um sete. Devia ter-lhe trazido um bolo com trinta e sete velas; ou antes, não, ela gostava de esconder a idade, ter-se-ia zangado. Fitou-lhe as feições espessas e inertes e, de súbito, desejou vê-la muito mais velha ainda. Sem que ele soubesse porquê, isso ter-lhe-ia parecido muito mais seguro. Se porventura um toque de varinha mágica a remoçasse, de súbito, se ela ali estivesse no seu vestido de lantejoulas da juventude, o sacrifício desapareceria. E ele precisava daquele sacrifício, era mesmo necessário envelhecer, com a sua dedicação àquela mulher muito mais velha, para que a ordem reinasse no mundo e para que Ilona não tivesse de recear mais as facas, para que o estado de inocência fosse dado a tudo que é vivo e para que mais ninguém fosse condenado a apodrecer na cadeia. Pois bem, podiam estar sossegados, a Sr.ª Hentjen não tardaria a ficar muito velha e muito feia. E o mundo apareceu-lhe então como um corredor sem fim, liso e polido como um espelho. E disse sonhadoramente:
— Devíamos forrar a sala de oleado escuro. Ficava muito bonita.

Hermann Broch,
Os sonâmbulos. Esch ou a anarquia



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