12.2.13

Rui Pires Cabral, Biblioteca dos Rapazes


Cada poema deste livro é constituído por colagens de palavras ou expressões provenientes de livros juvenis. Desde já, apraz-me registar que as palavras serão mais importantes se estiverem bem acompanhadas. O estranhamento é provocado pela combinação insólita de palavras. Nesse sentido, a título de exemplo: é impreciso falar-se de uso metafórico de uma palavra. Deve-se contrastivamente falar-se de enunciação metafórica. Isto é, a metáfora é o resultado da tensão entre dois termos numa enunciação metafórica, como dizia Paul Ricoeur. Ao inventar outro contexto, Rui Pires Cabral dá, assim, outros sentidos às mesmas palavras. Também o resgate das imagens, de proveniência diversa, subpostas aos recortes das palavras, diz da melancolia do que é assistir-se ao esboroamento de um mundo.

Um poema, embora não saiba se posso citá-lo assim:

Os sonhos são
a memória
emendada
por três mãos:
medo, desejo
e remorso.

Talvez este livro seja afim do sonho e também ele procure emendar a ruína do tempo que passa.