Escutai as pessoas que suspiram! Suspirar é apagar uma vela no fundo da alma.
Freud escreveu: A tendência dominante da vida psíquica visa a supressão da tensão da excitação. Freud usa então, sem grande razão, no seu gabinete de Viena, uma palavra sânscrita: nirvana. Extinção. Esta palavra pertence ao budismo. Abafar a chama. Suprimir sofrimento, ilusão, desejo. Mas o que Freud afirma é verdade?
Não tenho a certeza.
A busca da tensão é também ela uma paixão verdadeira. Pode detestar-se o prazer, a sua morte, a inexplicabilidade, a náusea onde a volúpia mergulha o corpo saciado. Pode-se fazer deuses da erecção, da fome, da vigilância, do desejo, da tensão extremas. Os gatos gostam da tensão nervosa. Esta atrai-os como um calor, como um movimento de ondas, como uma electricidade. Os gatos aproximam-se irresistivelmente dos seres imóveis, inquietos, apreensivos — ou até dos seres que se aproximam eles próprios da morte no maior dos estupores. Sobem para aqueles que buscam intensamente as suas palavras no silêncio, a sua ordem na frase, de dedos crispados num pedaço de lápis. Instalam-se com todo o seu comprimento nos corpos que pensam em qualquer coisa que ainda não sabem articular. O aumento dessa tensão, do desejo, dessa concentração da energia apaixona tanto a vida psíquica que magnetiza os gatos para a carne que os experimenta e que os convoca no seu silêncio. Tal como o raio de sol os magnetiza na estante onde pousa e que eles depressa alcançam para aí se enroscarem. Ou no pedaço de telhado que este ilumina entre as folhas das árvores. É bom repousar aí o corpo como junto de um fogo de lareira que de repente ganha, curiosamente, a aparência de uma telha, de uma ardósia, de uma página ou de um homem. Pois não é o escritor que ama os gatos nem os gatos que amam os escritores. Os gatos amam o pensamento.
Pascal Quignard, Morrer de pensar, trad. Diogo Paiva

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