24.5.26

As parecenças do ovo com o espeto

Ciganinha e Zito nem muito um do outro se aproximavam, antes paravam meio brigados, de da véspera, de uma briguinha grande e feia. Pele é que era a morena, com notáveis olhos. Ciganinha, a menina linda no mundo: retrato miúdo da Mamãe. Zito perpensava assuntos de não ousar dizer, coisas de ciumoso, ele abrira-se à espécie de ciúmes sem motivo de quê ou quem. Brejeirinha pulou, por pirueta. — «Eu sei por que é que o ovo se parece com um espeto!» —; ela vivia em álgebra. Mas não ia contar a ninguém. Brejeirinha é assim, não de siso débil; seus segredos são sem acabar. Tem porém infimículas inquietações: — «Eu hoje estou com a cabeça muito quente…» — isto, por não querer estudar. Então, ajunta: — «Eu vou saber geografia.» Ou: — «Eu queria saber o amor…» Pele foi quem deu risada. Ciganinha e Zito erguem olhos, só quase assustados. Quase, quase, se entrefitaram, num não encontrar- se. Mas, Ciganinha, que se crê com a razão, muxoxa. Zito, também, não quer durar mais brigado, viera ao ponto de não aguentar. Se, à socapa, mirava Ciganinha, ela de repente mais linda se envoava.
– «Sem saber o amor, a gente pode ler os romances grandes?» — Brejeirinha especulava. — «É, hem? Você não sabe ler nem o catecismo…» Pele lambava-lhe um tico de desdém; mas Pele não perdia de boazinha e beliscava em doce, sorria sempre na voz. Brejeirinha rebica, picuíca: — «Engraçada!… Pois eu li as 35 palavras no rótulo da caixa de fósforos…» Por isso, queria avançar afirmações, com superior modo e calor de expressão, deduzidos de babinhas. — «Zito, tubarão é desvairado, ou é explícito ou demagogo?» Porque gostava, poetista, de importar desses sérios nomes, que lampejam longo clarão no escuro de nossa ignorância. Zito não respondia, desesperado de repente, controversioso-culposo, sonhava ir-se embora, teatral, debaixo de chuva que chuva, ele estalava numa raiva. Mas Brejeirinha tinha o dom de apreender as tenuidades: delas apropriava- se e refletia-as em si — a coisa das coisas e a pessoa das pessoas. — «Zito, você podia ser o pirata inglório marujo, num navio muito intacto, para longe, lo-õ-onge no mar, navegante que o nunca-mais, de todos?» Zito sorri, feito um ar forte. Ciganinha estremecera, e segurou com mais dedos o livro, hesitada. Mamãe dera a Pele a terrina, para ela bater os ovos.

João Guimarães Rosa, Primeiras estórias, «Partida do audaz navegante»


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