A bestidade não é o forte dos animais. Os animais não são bestas. São uma tal imediação, uma tal motricidade, uma tal reactividade, uma tal dança que nenhuma distância poderia fazer aparecer a sua bestidade acima do seu instinto, nem opô-la a este. A bestidade define a fonte hominizante dos animais que desejariam já não ser bestas. A bestidade é o residual infundável que trai os homens perante a sua ascendência. A bestidade é incessante: é ao mesmo tempo um resto contínuo vindo do passado e o testemunho indelével de uma traição. A bestidade assombra a humanidade. É aquilo de que os homens se querem distinguir a todo o custo. É a vergonha grosseira e sangrenta e selvagem e animal e faminta e assassina da sua origem inconsolável.
Pascal Quignard, Morrer de pensar, trad. Diogo Paiva
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