6.6.18

Um outro mundo

Aconteceu-me uma coisa incompreensível. Talvez não tenha qualquer significado. Sou muito pouco propenso a deixar-me atormentar por mistérios. A noite ia já avançada, e eu estava sentado sozinho na sala de aulas. De súbito, Fräulein Benjamenta estava atrás de mim. Não a ouvira entrar, pelo que deverá ter aberto a porta muito suavemente. Perguntou-me o que estava eu a fazer, mas num tom que dispensava respostas. Como se, ao dirigir-me a pergunta, soubesse já o que eu iria dizer. Nestas ocasiões, é claro que não se responde. Pousou a mão sobre o meu ombro, como se estivesse cansada e precisasse daquele apoio. Senti então com nitidez que eu lhe pertencia, digo que lhe pertencia? — Sim, simplesmente que lhe pertencia. Desconfio sempre dos sentimentos. Mas o sentimento naquela ocasião de quase pertencer à Fraülein era verdadeiro. Pertencíamos um ao outro. Claro que com uma certa diferença. Mas por uma vez sentíamo-nos muito próximos. Sempre, sempre com uma certa diferença. Odeio sentir apenas uma pequena diferença ou não sentir diferença alguma. Saber que eu e Fraülein Benjamenta éramos pessoas muito diferentes, em situações muito diferentes, saber isto era já para mim uma fortuna. Desprezar-me-ia se a este respeito mentisse a mim mesmo. Considero meus inimigos as distinções e os privilégios que não são realmente autênticos. Havia assim uma grande diferença. Mas então o que é isto? Não conseguirei sair de certas diferenças? Mas de repente a Fräulein disse: «Vem comigo, levanta-te e vem. Quero mostrar-te uma coisa.» — Saímos juntos. Os nossos olhos, ou pelo menos os meus (os dela talvez não) estavam envoltos numa escuridão impenetrável. «São os aposentos interiores», pensei eu, e não me enganava. Foi assim que aconteceu, e a minha querida professora parecia decidida a mostrar-me um mundo até então oculto. Mas tenho de ganhar fôlego. 

Robert Walser, Jakob von Gunten


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