10.6.18

Concentrar-se na própria vertigem

Na terrível imagem de Marina Tsvetaeva, em L’arte à la Lumière de la Conscience, se não houver vontade, a inspiração é “uma bolha de ar por cima de um afogado”, uma vontade que (segundo diz Hoffmannsthal) não quer, mas é (re)querida. “Saber regular a inspiração”, eis a vontade, “graças à qual a inspiração se torna infinita”. Aqui não se aplica: “querer dizer e não lhe chega a boca”, aqui a boca tem de chegar. Trabalhar os seus dons, transformar em difícil uma vida fácil, é isso a vontade: o que é próprio do grande artista. Desconfiar da habilidade, mortificar os talentos, trocar de mão, se for preciso. A graça transforma-se assim em maldição. 

Maria Filomena Molder, Dia alegre, dia pensante, dias fatais


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