11.2.18

Império do dentro (I)

Tudo começa num sonho; ou antes, numa tentativa de compreendê-lo. Porventura será melhor irmos um pouco atrás, ao momento em que a realidade acelera, ao teatro escuro e aos telhados caindo, e nós seguindo-lhes o movimento. Entramos pela alma adentro descobrindo um lugar sujo mal iluminado, escadarias velhas e paredes a desfazer-se. E quando olhamos de novo já não sabemos como foi possível o cabelo desgrenhado, as marcas de aspereza, nem sabemos reconduzir os passos indecisos e flácidos a uma explicação. Muito tempo passou, nunca percebemos se estivemos sempre acordados ou se ainda vamos a tempo da manhã. É que o sonho é tanto acção frenética que não admite intervalos como inércia interrompida no momento em que, finalmente, sentimos o mundo e as mãos. Tudo estava em ordem até que um certo cansaço nos convenceu da doçura da fatalidade, de como são inúteis as razões contra o abismo. E nós seguimos, olhando para trás, para os lados, e perdendo a vontade de falar.


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