27.1.18

Máquinas delirantes, a escrita, o corpo, o jazz

Mas Schafer não está a ouvi-lo.
— Sabe uma coisa? — diz impulsivamente. — Acho que vou voltar à cirurgia pura e simples. O organismo é escandalosamente ineficaz. Em vez de uma boca e de um ânus sujeitos a falhas porque é que não temos um único orifício polivalente para comer e defecar? Podíamos selar o nariz e a boca, entulhar o estômago e abrir um buraco de ventilação directamente nos pulmões... coisa que deveria ter sido feito desde o princípio...
Benwey — E porque não uma massa informe para todos os usos? Nunca lhe contei a história do tipo que ensinou o olho do cu a falar? Todo o seu abdómen se mexia para cima e para baixo pronunciando as palavras através de peidos. Nunca tinha ouvido uma coisa tão estranha. 
«Esse cu tinha uma espécie de frequência visceral. Captávamo-la directamente, como se estivéssemos à rasca para ir à casa de banho. Como quando o cólon nos dá cotoveladas e sentimos frio cá dentro... Só nos resta largar o lastro... Pois bem, esta conversa de cu fazia um som espesso, gorgolejante e surdo, um som que se podia cheirar.
«Este homem em questão trabalhava como ventríloquo numa feira. Ao princípio, era realmente divertido. Tinha um número que era de morrer a rir. Já não me lembro muito bem, mas era divertido. Do género, "ó pá, ainda estás aí em baixo?"
"Agora não me chateies. Estou a cagar", respondia-lhe o cu.
«Mas, a partir de dada altura, o cu começou a falar por conta própria. O tipo entrava em cena sem ter preparado nada e o cu respondia espontaneamente. Ao princípio, ele achou aquilo giro, mas, depois, o cu abriu-lhe um buraco nas calças e começou a falar em plena rua gritando que queria direitos iguais. Às vezes embriagava-se e desatava a chorar que ninguém gostava dele e que queria ser beijado como qualquer outra boca. Por fim, pôs-se a falar dia e noite. Ouvia-se o dono do cu a mandá-lo calar a quilómetros de distância. Dava-lhe grandes cargas de porrada e enfiava velas por ele próprio acima, mas não servia de nada. Um dia, o cu disse-lhe: "És tu quem vai acabar por se calar. Eu cá não. Já não precisamos de ti por estas bandas. Sou eu que posso falar, comer e cagar."
«Depois disso, o homem começou a acordar de manhã com uma espécie de girino gelatinoso à volta da boca. Essa gelatina é o que os cientistas denominam TND, tecido não diferenciado, o qual pode enxertar-se em qualquer parte do corpo humano. Ele arrancava-o da boca e os bocados colavam-se às mãos como gasolina a arder e voltavam a crescer; cresciam onde quer que caíssem. Ficou, finalmente, com a boca tapada e a própria cabeça teria caído se não fossem os olhos... A propósito, sabe que existe uma doença em certas regiões da África comum à raça negra em que o dedo pequenino do pé cai espontaneamente?
«A única coisa que o olho do cu não podia fazer era ver, está a perceber? E, por conseguinte, precisava de olhos. Mas o circuito nervoso encontrava-se bloqueado, invadido, atrofiado, e, assim, o cérebro já não podia transmitir ordens. Estava encerrado no crânio, selado. Durante uns tempos, ainda se vislumbrava o sofrimento desesperado e silencioso do cérebro por detrás dos olhos, mas, depois, o cérebro deve ter morrido porque os olhos apagaram-se... tinham tanta vida como os olhos de um caranguejo na ponta de um pedúnculo.

William Burroughs, Festim nu


E o igualmente chanfrado filme de Cronenberg:





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