6.1.18

Heloísa e Abelardo

Mas por que transes, por que sobressaltos, por que sucessivos deslizares ele chega a esta ideia da fruição do seu espírito? A verdade é que ele, Abelardo, frui agora do seu espírito. Frui ao máximo. Deixou, neste ou naquele lado, de pensar em si próprio. Está ali. Tudo o que se passa nele é dele. E nele, neste momento, passam-se coisas. Coisas que o dispensam de procurar-se. É este o principal ponto. Já não tem de estabilizar os seus átomos. Eles voltam a juntar-se sozinhos, estratificam-se num ponto. Todo o seu espírito se reduz a uma série de subidas e descidas, mas sempre com uma descida no meio. Ele tem coisas.

Os seus pensamentos são formosas folhas, superfícies planas, sucessões de nódulos, aglomerações de contactos entre os quais a sua inteligência se intromete sem esforço: lá vai ela. Porque a inteligência é isto: encontrarmo-nos. Já não se põe o problema de sermos finos ou débeis e nos juntarmos de longe, de abraçar, repelir, separar. 

Ele mete-se por entre os seus humores.
Vive. E as coisas rodam nele como sementes no crivo.


Antonin Artaud, A arte e a morte



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