27.10.16

Dylan, Deleuze & Parnet

Sim sou um ladrão de pensamentos
não um caçador de almas
construí e reconstruí
sobre o que espera
porque a areia nas praias
recorta muitos castelos
naquilo que foi aberto
no tempo que me antecedeu
uma palavra, uma brisa, uma história, uma linha
chaves no vento para o meu espírito vagabundo
que dá aos meus pensamentos uma corrente de ar fresco
não é coisa minha, sentar-me e meditar
perdendo e contemplando o tempo
para perder pensamentos que ainda não foram pensados
para perder sonhos que ainda não foram sonhados
ou ideias novas ainda não escritas,
ou palavras novas que rimariam…
e desprezo as regras novas
porque ainda estão por fabricar
e grito o que canta na minha cabeça
sabendo que sou eu e outros meus iguais
que as faremos, a essas novas regras,
e se as pessoas de amanhã
tiverem realmente necessidade das regras de hoje
então reúnam-se, procuradores gerais
o mundo não sendo o mundo mais que um tribunal
sim
mas conheço os acusados melhor que vós
e enquanto estiverem ocupados com inquisições
assobiamos com vagar
limpamos a sala de audiências
varrendo, varrendo
escutando, escutando
piscando o olho entre nós
cuidado
   cuidado
a vossa vez está a chegar.

«Orgulho e maravilha, modéstia também deste poema de Bob Dylan. Diz tudo. Como professor, gostaria de fazer um curso tal como Dylan compõe uma canção, assombroso produtor mais do que autor. E que comece como ele, num instante, com a sua máscara de clown, com uma arte que coloca cada detalhe no sítio exacto, e que, no entanto, pareça improvisada. O contrário de um plagiador, mas também o contrário de um mestre ou de um modelo. Uma longuíssima preparação, mas sem método nem regras ou receitas. Núpcias, e não casais nem conjugalidade. Ter um saco onde ponho tudo o que encontro, sob a condição de que eu também seja posto num saco. Descobrir, encontrar, roubar, em vez de resolver, reconhecer e julgar. Porque o reconhecimento é o contrário de um encontro. Julgar é a profissão de muitos, e não é uma boa profissão, mas é também o uso que muitos fazem da escrita. Antes varredor do que juiz.» 

Deleuze & Parnet, Diálogos


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