Três bagatelas.
1. Uma criança de 8 anos dá um pontapé forte a um lutador profissional de MMA, o seu abusador sistemático. Esse lutador responde com vinte pontapés fortes à criança. São exatamente duas agressões, que devem ser classificadas do mesmo modo, ninguém seja doido ou extremista, esbraceja alguém muito moderadamente. Que a criança esteja em coma é um facto irrelevante e ideológico, jamais de consideração humana, acrescentaria a mesma pessoa.
2. Um negacionista de Holocausto promove genocidas e, como se só isso não bastasse, considera racistas aqueles que denunciam aquela atrocidade. Alguém decide afastar-se dele, abdicando de uma fonte de rendimento, sujeitando-se a receber menos propostas laborais no futuro e a ser posto em tribunal. É ainda atacado por todos os quadrantes políticos porque não foi disruptivo, isto é, não foi negacionista, não fez de conta que nada significativo acontece (à imagem do que toda a gente decente faz). Logo, essa pessoa, consciente, atuando contra os seus interesses, é infantil e oportunista.
3. Será que quem se opunha ao imperialismo português era a favor do lobolo, da poligamia e da mutilação genital feminina (que não existem em todos os contextos dos países africanos de língua oficial portuguesa, devo aclarar)? Vai-se a ver e os salazaristas eram, afinal, progressistas, assim se convalidando a propaganda do regime? Para certos 'moderados', parece que sim. E nada há de positivo nas culturas que são alvo do imperialismo americano? Talvez por isso até mereçam a 'ingerência' ocidental, quem sabe. São horríveis de uma ponta à outra, não têm ponta de sofisticação, logo ficam os crimes justificados? Os massacres, a fome? E é que as transformações a serem feitas são da sua exclusiva responsabilidade, com o apoio e as alianças internacionais que cada povo quiser formar. Por fim, julgo, tão-pouco pertencemos a uma cultura perfeita, ou superior...
Resumidamente, algumas posições ilustram bem o que é o centrismo nestes tempos 'polarizados': uma amálgama nebulosa cujo ponto de partida para o ‘pensamento’ são posições de extrema-direita. Mas Free Palestine é um slogan conservador que significa simplesmente 'cumpra-se o direito internacional' e dizê-lo não tem necessariamente nenhum pressuposto ideológico, religioso ou cultural. Tem a necessidade de cuidar e compaixão, e de não se ser uma besta racista. E implica o fim do colonialismo, do apartheid, do roubo de propriedades dos palestinianos, da limpeza étnica e do genocídio. Mas como isto não tem um fim, nem os crimes são julgados, aprofunda-se um lodo moral.
Gaza é mesmo um teste exigente que tudo está a pôr a nu, até as dicotomias. Porque falar-se em polarização é iníquo quando todo o espaço político está a ser ocupado pela direita ou pela extrema-direita.
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