2.8.26

Nenhuma revolta, nenhum ritual

Domingo, tocam os sinos — não tens vergonha
Das muitas missas a que faltaste? Em vez disso
A leitura de Maldoror: polvos alados no céu.
Ou cinema e as belas artes. Não foste tu
Que encontraste velhos chicletes debaixo dos bancos do museu
Que os alunos da escola ali tinham colado em honra de Watteau?

Maneirismo de vida urbana — deixemo-nos levar
Por um soneto. Crónica sem princípio nem fim,
A passar por hotéis onde senhoras da limpeza fazem o seu trabalho.
Como é ser turista na sua própria cidade?
Sentimo-nos como o público diante das vistas
Nas salas de pintura. As câmaras registam-te
Enquanto cruzas pela imagem à procura, potencial terrorista.
Falso alarme: não precisas de nenhuma revolta, de nenhum ritual.

Durs Grünbein, Velas de ignição, trad. Maria Teresa Dias Furtado


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