26.4.26

Requintados constrangimentos, sapatos apertados, etc.

Em Julho de 71, um deputado fascista, Aguiar e Silva, na Assembleia Nacional, cita o Elogio da Censura, de Paul Morand:
«Se, através dos tempos, o regime de censura teve inconvenientes nem por isso deverá ser esquecido o reverso da medalha, que é o de ter constituído para os escritores um dos "requintados constrangimentos" de que falava Paul Valéry (...). Acrescentava, em linguagem primorosa, que a censura obrigou o escritor a fazer da sua pena uma arma de subtileza, de acutilante subtileza. Por outro lado, sob o ângulo do leitor, obrigou-o a ler com atenção, forçando-o a ler nas entrelinhas, nas meias palavras, a esforçar-se por apreender aquilo que o escritor quis mas não pôde dizer à vontade».
Outro deputado:
«Aproveito para lembrar as palavras, dignas de ponderação, de um dos grandes pensadores do início do século XIX, Xavier de Maistre: "Os sapatos apertados fazem descobrir danças novas!"»
Aí está: o mal politicamente necessário transforma-se agora num mal culturalmente útil. As fogueiras da Inquisição tiveram afinal o «mérito» de iluminar para a posteridade a obra do judeu António José da Silva, a Guernica, de Picasso, passou a ser o benefício cultural do massacre de uma povoação indefesa... e assim por diante. Invocando a objectividade histórica, os «independentes instalados» na ordem repressiva deslocam os resultados da repressão para um plano menos imediato, menos local, e mais universal. Comentário de um coleccionador de arte e beneficiário do Regime, numa exposição de Júlio Pomar: «Se não fosse o Fascismo, talvez toda esta imaginação de protesto tivesse sido perdida.»

José Cardoso Pires, E agora, José?, «Técnica do golpe de censura»


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