16.10.23

No limite da desaparição

E agora vinga-se o profundo desprezo do tempo. O seu curso jamais existiu para mim. Nunca o senti como um rio que pudesse secar. Era inesgotável ao meu redor; um mar em que eu flutuava à deriva em direcção a todos os lados, e parecia-me natural deixar-me arrastar sempre para mais longe. O meu tempo não podia chegar nunca ao fim. Tudo o que me propunha era para a eternidade e tinha à minha disposição eternidades para o projecto mais ínfimo.
Fui em busca de todos os deuses antigos disposto a reconciliá-los dentro de mim. Com todos os povos fui enchendo o meu espírito: assim expiei a presunção dos meus antepassados. Não procurei direcção alguma na história. Por me encontrar no limite da desaparição, o mais pequeno tinha para mim mais validade que o maior. Não aceitava o sacrifício de nenhuma vida. Acolhia no meu interior tudo o que já não fosse acolhido neste denso mundo. E agora não sou menos largo do que o mundo e sinto como alcanço todas as suas partes. A arrogância de quem só existe para si mesmo afigurava-se-me a cada ano mais estranha. Hoje em dia conheço o pouco que sou pela minha origem e o muito que sou no vasto alento do espírito.
Mas uma vez alcançado tal objectivo, reconheço o vão da minha empresa. Escarnecia-me ao mesmo tempo e agora isso esgota-me.

Elias Canetti, Apontamentos

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