20.6.18

A rapariga que tem medo

Nas unhas mistura o pão e o ovo
com as carícias à cara do namorado.
Lição: das unhas sai afecto e sujidade. Nada é só
uma coisa, há vários lados.
Os dois murmuram palavras
que saem do pouco espaço deixado pela comida.
Como um entende o outro, ninguém sabe.
Os corpos entre si encontram equilíbrios por vezes estranhos.
Ele tem óculos redondos e cara e olhos
de quem não está em mais lado nenhum.
Ela não: vê-se que conhece a distância
que a alma deve guardar ao outro
para sobreviver em caso de tragédia.
Terá já conhecido o modo como toda a eternidade
terrestre termina.
Nas carícias os dedos não se encontram cheios.
O medo de ser de novo abandonada assustou a carne
até aos pulsos;
se o machado vier certamente sairá sangue,
porém a alma jamais será caçada.
Nessa rapariga não são claros nem corajosos os dias.

Gonçalo M. Tavares, «Observações», 1

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