2.3.18

O primo motore

«Uma máquina, um mero instrumento que necessariamente se deixa manipular e maltratar por mãos alheias; um feixe de palha que a qualquer momento pode pegar fogo por causa de uma única fagulha; uma pluma que se deixa levar, mudando de direcção à mais leve aragem — provavelmente, desde que existe o mundo, nunca terão sido consideradas imagens adequadas para designar a actividade de um ser racional: a elas se recorreu, isso sim, sempre que se tratava de expressar a forma como os seres humanos, em particular quando comprimidos em grandes massas, costumam movimentar-se e agir. Geralmente, o desejo e a repulsa, o medo e a esperança — impulsionados pelos sentidos e pela imaginação — não só são as principais forças motrizes de todas as acções quotidianas que não sejam obra de hábitos meramente instintivos: como também, nos casos mais frequentes e de maior relevância — quando o que está em jogo é precisamente a fortuna ou a desgraça de uma vida inteira, o bem-estar ou a miséria de povos inteiros: e sobretudo quando se trata do Melhor para a espécie humana na sua totalidade — são paixões ou preconceitos alheios, é a pressão ou o empurrão de umas poucas mãos, a língua afiada de um único fala-barato, o fogo intempestivo de um único fanático, o zelo hipócrita de um único falso profeta, a chamada de um único temerário, que se chega à frente — que põem em movimento milhares e centenas de milhares que não discernem nem a justeza nem as consequências: com que direito é que uma espécie de criaturas tão irracionais...» (antes de mais nada, respirar fundo).
Ora bem: «Esses fazedores de caretas, vigaristas, saltimbancos, prestidigitadores, alcoviteiros, carteiristas e embusteiros dividiram-se pelo mundo; — os carneiros baixaram as orelhas e deixaram-se tosquiar; — enquanto os bobos davam pinotes e cambalhotas. E os espertos, sempre que podiam, partiam e tornavam-se eremitas: a história do mundo in nuce, in usum Delphini.»
«O culpado?» — «É evidentemente o primo motore da coisa, o criador, que eu apelidei de Leviatã e cuja existência provei de forma exaustiva.» Durante o meu belo discurso — provavelmente num excesso de concentração — ela tinha fechado os olhos e apenas voltou a abri-los quando a roda do moinho parou de bater. «Enfim», disse devagar: «Ainda por mais tenho um pouco de dores de dentes.» «Nesse caso deve dirigir imediatamente as suas preces a Santa Apolónia», aconselhei, mas apenas recebi um olhar zangado de volta: «Graças à sua coronhada!» murmurou (numa fórmula elegantemente elíptica).

Arno Schmidt, Espelhos negros



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