4.3.18

Desvios intrínsecos à interpretação

«A espécie humana foi dotada pela natureza de Tudo o que é necessário para a percepção, observação, comparação e distinção das coisas. Para isso, não só dispõe de tudo aquilo que se encontra na sua imediata presença, e não só pode adquirir sabedoria a partir da própria experiência, como também tem à sua inteira disposição as experiências de todos os tempos passados e as observações e as observações dum determinado número de indivíduos de espírito aguçado que, pelo menos muitas das vezes, viram as coisas correctamente. De acordo com estas experiências e observações, há muito que se conhecem as leis da natureza pelas quais o Homem — independentemente do tipo de sociedade e de sistema político em que se encontre — deve reger o seu pensamento e as suas acções, de forma a alcançar a felicidade da sua espécie. Nessas leis encontra-se irrefutavelmente exposto Tudo aquilo que poderá ser útil ou nocivo em todos os tempos e circunstâncias, para a totalidade da espécie; as regras cujas aplicação nos poderá poupar equívocos e falácias já foram encontradas; podemos saber com certeza satisfatória o que é bonito ou feio, justo ou injusto, bom ou mau, porque é como é, e em que medida o é; ou seja, não há nenhuma estupidez, vício ou maldade cuja insensatez ou nocividade não possa ser provada com o mesmo rigor de um teorema qualquer de Euclides. E ainda assim! Apesar de Tudo isto, os seres humanos continuam à deriva no mesmo círculo de estupidezes, equívocos e abusos, não se tornam mais inteligentes nem pela própria experiência, nem pela de outrem, ou seja, resumidamente, na melhor das hipóteses, um indivíduo poderá tornar-se mais versado, mais sagaz, mais erudito, mas nunca mais sábio.»
«Porque os seres humanos geralmente não raciocinam de acordo com as leis da razão. Pelo contrário: a forma inata de se armarem em racionais é a seguinte: partir de casos particulares para o geral, derivar conclusões erróneas de acontecimentos fugazes ou de observações unilaterais, e a toda a hora confundir palavras com conceitos e conceitos com coisas. A grande maioria — o que na estimativa mais razoável dá 999 em cada 1000 — julga os acontecimentos mais frequentes e mais importantes da vida baseando-se em primeiras impressões sensoriais, preconceitos, paixões, caprichos, fantasias, humores, combinações aleatórias de palavras e de conceitos nos seus cérebros, semelhanças aparentes e inspirações secretas de parcialidade a seu próprio favor, de maneira que constantemente tomam o próprio jumento por cavalo e o cavalo de outro por jumento. Entre os mencionados 999 existem pelo menos 900 que, para chegarem a este ponto, nem sequer sentem a necessidade de recorrer aos seus próprios órgãos, preferindo, numa preguiça inexplicável, discernir erroneamente através dos olhos de outros, ouvir mal através de ouvidos de outros, fazer figura de palhaço em nome da ignorância de outros, em vez de quererem fazê-lo por conta própria. Para não falar duma parte considerável destes 900 que se habituaram a falar de mil coisas importantes num tom importante, sem sequer saberem o que dizem e sem se preocuparem por um único instante se aquilo que dizem faz sentido ou não.»

Arno Schmidt, Espelhos negros


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