29.12.25

Não herdar, desconectar a situação

Ph. P. — É também a paródia da emancipação política. Na sua opinião, o capitalismo será esse «monstro frio» de que falava Simone Weil a propósito do Estado?

J. B. — É um monstro que inverte os dados da libertação social: é o capital que se emancipa dos trabalhadores! São os pais que se libertam dos filhos! É o fim do complexo de Édipo, o fim da luta de classes, à sombra dos quais tudo funcionava tão bem. Todos os movimentos se invertem. Só se falava de liberdade, de emancipação, de transformar a fatalidade no máximo possível de liberdade. Apercebemo-nos hoje de que a onda libertadora não é mais do que a melhor forma de oferecer aos escravos o fantasma do poder e da liberdade. 
É uma interacção forçada: a partir de agora a massa intervém directamente nos acontecimentos através dos Audimat e de outros modems interpostos. A massa tornou-se interactiva! Nas sondagens, somos todos implicados estatisticamente: a cumplicidade forçada. De qualquer modo, e sem o querermos, há muito que somos interactivos em todas as áreas, através de todos os sistemas de respostas automáticas aos quais estamos escravizados. E a interactividade que nos propõem nunca igualará aquela que nós já suportamos — a interpassividade colectiva que a outra põe em funcionamento apenas através das técnicas de informação e de comunicação. 
Daí que, na esfera interactiva, se assista à impossibilidade de colocar o problema da liberdade e da responsabilidade. As pessoas quase se espantam por terem filhos (alguma vez as crianças se espantam por terem pais?) e espantam-se por serem responsáveis por eles, como por muitas outras coisas. Espantam-se por terem de tomar conta da sua própria vida. Já não possuem convicções, já não estão persuadidos de nada. Espantam-se por terem um corpo. Nada disto conserva um verdadeiro fundamento. Nada se impõe já como valor ao imaginário nem à consciência, nem sequer como fantasma ao inconsciente. Neste contexto, qualquer responsabilidade ou atribuição de responsabilidade revela-se surrealista. As pessoas bem poderiam espantar-se por terem de procurar trabalho, por serem os instrumentos de ligação de uma quantidade de redes insignificantes, os actores involuntários de uma comédia geral interactiva, o alvo de exigências e de perguntas das quais são apenas os respondedores automáticos.

Ph. P. — Será que eles se espantam, ao menos, por viverem em surda cumplicidade com os poderes?

J. B. — Nem isso, porque são cúmplices de um poder que, a falar verdade, já não existe, o que é pior ainda. De um poder que é investido e desinvestido ao mesmo tempo por toda a gente, como se fosse um palco giratório ou uma geometria variável de soma nula. Toda a gente se permite a comédia do poder (como a de tantas outras coisas, de resto: do social ou da cultura). Mas mantenho a esperança de que exista aí um jogo duplo, individual e colectivo. Seria necessário poder não herdar, desconectar a situação, quebrar o encadeamento consensual. Mas não podemos de forma alguma alimentar ilusões sobre a tomada de consciência nem sobre o encadeamento da revolta. Numa História in progress, provoca-se um acontecimento se se antecipar ou criar condições de evolução mais rápidas, ou seja, um diferencial explosivo. Numa curva involutiva como a nossa, contribui-se para a involução ao tentar acelerar ou corrigir o sistema. Estamos presos na armadilha, na escrita automática dos sistema. Mas existem formas inconscientes de convulsão social e de revolta latente contra esta participação forçada.

Jean Baudrillard, O paroxista indiferente. Conversas com Philippe Petit 


28.12.25

Mostrar a vida como aparece no sonho

A vida em sonho

Muitos de nós inventam as pessoas e apaixonam-se não por uma pessoa real, mas pela ideia com a qual envolvemos essa pessoa, como um vestido que geralmente não lhe fica bem. Que desencanto, quando nos apercebemos disso! Ou melhor, apercebemo-nos disso quando surge o desencanto, quando deixamos de amar. Muitas das personagens de Tchékhov funcionam assim, sonhadores que não reagem segundo a realidade, mas segundo a sua própria imaginação. Se não fosse assim, a jovem Sacha ter-se-ia apaixonado por aquele homem gasto, prostrado, que é Ivanov? «Ela ressuscitará aquele que caiu... Não é Ivanov que ela ama, mas essa tarefa», observa Tchékhov.
Para representar o escritor Trigórin, em A Gaivota, Stanislávski vestira-se com elegância. Tchékhov diz-lhe que não pode ser assim: «Ele veste umas calças aos quadrados e sapatos esburacados.»
Isto significa que Nina fica apaixonada não pelo verdadeiro Trigórin, personagem bastante mesquinha, mas pela ideia que ela tem de um escritor. Está apaixonada pelos seus próprios sonhos.
Numa réplica da mesma peça, Tchékhov diz-nos do modo mais claro possível como evita a alternativa proposta pelo velho Sófocles: «Temos de mostrar a vida não tal como ela é, nem como ela deveria ser, mas tal como ela nos aparece em sonho».

Roger Grenier, Olhai a neve a cair. Impressões de Tchékhov


25.12.25

Não somos fantasmas

A 18 de agosto de 1818, o capitão John Ross descobriu, na Gronelândia, homens que ali viviam desde o paleolítico e que gritavam aos seus marinheiros: «Não nos matem! Não nos matem! Não somos fantasmas!». Mas eram fantasmas de sessenta mil anos. Os dinamarqueses aliaram-se aos norte-americanos, que já haviam demonstrado as suas faculdades exterminadoras, e sob cujas armas e cuja piedade haviam perecido nações inteiras de negros das costas africanas e de indígenas das pradarias americanas. E, de facto, exterminaram-nos. Os poucos Inuit que sobreviveram, porque as suas caçadas de focas com arpões de osso se realizavam no território europeu, converteram-se em membros da CEE.

Pascal Quignard, Vie secrète


23.12.25

Gaza e a consciência funcional

Há um impulso, em momentos como este, de apelar ao interesse próprio. De dizer: estes horrores que estão a permitir que aconteçam um dia bater-vos-ão à porta; de repetir a famosa frase sobre quem eles vieram buscar primeiro e quem virão buscar a seguir. Mas este apelo não pode, de facto, funcionar. Se as pessoas que beneficiam de um sistema que tolera tal carnificina acreditassem verdadeiramente que a mesma carnificina lhes poderia ser infligida um dia, deitariam o sistema abaixo amanhã. E, seja como for, quando tal coisa acontecer, o resto de nós já estará morto.
Não, não há nada de terrível à vossa espera num futuro distante, mas saibam que algo de terrível vos está a acontecer agora. Estão a pedir-vos que matem uma parte de vós que, de outra forma, gritaria em oposição à injustiça. Estão a pedir-vos que desmantelem a maquinaria de uma consciência funcional. Que importa se a conivência diplomática prefere que se ignore a imagem de crianças desmembradas? Que importa se a grande distância do lugar ensanguentado permite a indiferença? Esqueçam a piedade, esqueçam até os mortos se for preciso, mas lutem pelo menos contra o roubo da vossa alma.

Omar El Akkad, Um dia, quando for seguro, quando não houver consequências pessoais por chamar as coisas pelos nomes, quando for demasiado tarde para responsabilizar seja quem for, sempre teremos sido contra isto.


8.12.25

Dobra implosiva: o modernismo

Quero eu dizer que os seus vapores — a sua presença, o seu modo de presença — vêm mais ao de cimo e que então essa «coisa» não sou «eu» mas a minha «aura» negativa, de que eu constituo o «corpo morto», o suporte compósito, anfíbio. Lembro-me de Lovecraft. Dos monstros do ciclo de Dunwich. Mas não me quero sequer explicar... Lembro-me de que há alguns anos vi um filme com Vincent Price, extraído de um conto de Maupassant: o Horla. Mas também não é isso. Fui fã dos filmes da série-Poe, do Corman, mas também não é bem isso. Aproxima-se mais do Scanners, de Cronenberg, mas, tal como em Aliens, de Ridley Scott (ou The Thing, de Carpenter), é preciso compreender que a «coisa» está lá dentro, mas morta, sem nunca ter explodido. Como se recusasse manifestar-se, ser tão evidentemente monstruosa. Um monstro que dissesse: desisto. Prefiro ser esta «coisa» interior que cada um — neste caso «eu» (?) — traz consigo (ou será «ele» que me traz consigo?). Um «monstro», assim, morto. Consigo e comigo próprio cozido. Um processo, portanto, de reclusão interior: um volvo íntimo, implosivo. Não há histórias que tratem suficientemente disto (talvez o que eu aqui escreva não passe, afinal, do argumento para uma série-B ou para um filme medíocre?!...). Sobretudo, não se trata de uma história de «duplos». Não sou nenhum estudante de Praga. William Wilson não é meu amigo. Não se trata disso. Trata-se, isso sim, da própria impossibilidade do «duplo». Uma espécie de dobra de si, mas ao mesmo tempo ausente, nociva (negativa).

Fernando Guerreiro, A sagrada família

Pés-feridos

Escolher um nome é já escolher um sentido. Todo um programa de sinais, sentidos, numa palavra: um destino. Não refiro, nem vos vou falar de novo de Édipo. Já se sabe que, etimologicamente, esse nome significa «pés-feridos». O que nos remete tanto para um incansável andar — de Édipo pode-se dizer que ele tem o nome (e o destino) inscrito na sola dos pés —, como para o curso desse percurso: o reavivar das marcas e dos sintomas das antigas feridas. No caso de Édipo, os pés não sangrarão de novo, mas, quando ele for suspenso — como um anti-Cristo, na posição invertida —, eles incharão, magoadamente, Mas deixemos Édipo e as suas feridas. É de um nome, hoje, que se trata. Porque o escolhi? E com que intenção? A de adivinhar um projecto — ou a de traçar, antecipar um destino? Trata-se, é claro, do nome do meu filho.
Lembro-me vagamente de o ter lido em Dante. Com efeito, num opúsculo em que defende a poesia românica, em língua vulgar (De vulgari eloquentia), referindo-se ao modo de comunicação dos Anjos, Dante afirma que estes não precisavam sequer de falar (de pronunciar uma palavra), já que, sendo transparentes, comunicavam entre si, por antecipação — de uma forma imediata —, os sentidos. Os Anjos assemelhar-se-iam, assim, a espelhos invisíveis.

Fernando Guerreiro, A sagrada família

7.12.25

Carta de Europa

Querido pai,

alguma vez se deparou com a morte? Posso dizer que a vi desde o primeiro dia em que nasci. Não à maneira dos poetas barrocos espanhóis que o pai me leu ou dos memento mori da pintura. Nesses casos, a morte era ainda uma coisa que se anunciava. A vida era a espera e a esperança dessa vinda aguardada e reconhecida. Santa Teresa, aliás, não pensou outra coisa, só que deu o nome de desejo (por vezes «ardente») a essa «espera», vivida como clímax. Percebeu que a única maneira de ultrapassar a morte consistia em antecipá-la, desejando-a e construindo-a ainda em vida. Mishima também fez isso. No famoso dia 25 de novembro de 1970. Fê-lo como uma coisa ou uma forma apetecida. Ficcionalizou a «morte», construiu-a como um dos capítulos ainda da vida. Escreve-se, não é?, para antecipar a morte. A pequena morte. Para a usar em doses pequenas como uma anfetamina — ou morfina. Não falo propositadamente em heroína. Aí, trata-se da espiral alucinatória da morte, ignorando-se, iludida, mas ainda acreditando constituir uma forma entusiástica (nalguns casos orgástica), ou desértica, de vida. Sei que na tua farmácia tens muitas lâminas pequenas e algumas drogas duras. Mas a morte, tal como a queremos, é sempre uma morte pequena. E quando vem, só então é como the last shot, uma droga dura. Em pequena, espetavas-me com as tuas seringas. Dizias-me: «aí tens os teus castelos de espuma — o bosque onde o touro te pode vir surpreender e ferir sonho dentro, como a uma bela adormecida». Eram estes os teus contos de embalar. Entrecortados com veias mortas, facas d'ónix e seringas, lâminas curtas. Os cutelos, manejo-os desde pequena. Foi essa, mesmo, a primeira iniciação que me deste — e onde deve ser, na cozinha. Entre frangos e coisas pequenas: rodelas de fiambre e flores de farinha... O sangue jorrava das pernas e era um caldo morno onde todos, depois — a nossa mãe ausente —, nos banhámos e lavámos as feridas. Foram umas férias — e uma infância — sangrentas. Mas habituou-nos à vida. A reconhecer o sangue onde as pessoas, com as roupas, com todo o cuidado o escondem e dele se defendem. Disseste-nos: as pessoas, se se vestem, as roupas usam-nas como ligaduras: para estancar o sangue ou cauterizar as feridas. De outro modo, não andariam nuas, não é bem isso, mas comportar-se-iam como se o seu estado natural fosse o da transparência. Usariam apenas as roupas que as dessem melhor a ver: translúcidas. Assim não, desculpam-se com o inverno ou a chuva... Por vezes, contudo, há recaídas (como grandes fendas, grandes aberturas no tempo) e então as pessoas cruzam-se como pessoas de novo nuas, feridas. Sobretudo as raparigas. Lembro-me como foi para ti épica essa época dos finais dos anos setenta. Needles and pins. Ou seja, as pessoas finalmente vestiam-se como alfinetes. Como coisas ácidas, duras drogas felinas. A mini-saia voltou a ser, durante algum tempo, um rasgão, um clarão que incendiava o ar e o espaço. Uma ranhura (rasura) no bom-gosto. As meias violácias ardiam no ar, faziam andar o espaço e, quando elas passavam, era como grandes bandos de estorninhos, de súbito mudos; que sobre tudo pousavam e caíam, feridos. Marcel Lecomte comparava-nos às Amazonas — e a tua vontade era que eu fosse a primeira delas, aquela sobre quem Kleist escreveu, Pentesileia, a opositora de Aquiles. Por isso nascemos no dia em que, para os outros, morremos. Não somos zombies dos outros mas vampiros de nós mesmos.

Fernando Guerreiro, A sagrada família



[foto de Diane Arbus]

O silêncio de Nan Goldin


4.12.25

Depois da paciência

A tirada mais importante de todos os tempos

A Grã-Bretanha foi derrotada.
Vocês também serão derrotados!
Rifqa El-Kurd

Rifqa tirou-me os meus molotovs.
Se não uma metáfora
dariam uma boa jarra para jasmins,
uma boa animação à mesa de jantar,
onde a revolução consiste em baixar o volume da TV
para permitir a conversa.

Com o passar dos anos    os dedos dela emagreceram,
veias como videiras.
As varandas exigiam menos deambulações
e a Teta desistiu do telecomando.

Um xeque no ecrã tagarela acerca da libertação.
É o que vem depois da paciência. Depois da paciência
existe apenas um túmulo, diz a Teta.

Para quê embalar uma mulher com cem anos
cujas tiradas permanecem intactas? 

A minha mãe
é a sua bengala.
Quando não uma metáfora, a sua bengala é
o fim de uma cama ou de uma frase.
Ela agarra-se à física e à sua perspicácia.
A sua bengala nunca
é um bastão para os idosos. Ela que em tempos conheceu
sudários roxos, que em tempos conheceu
nuvens como fiapos do seu cabelo,
não baixará a cabeça. É uma luta na verdade
quatro da manhã e os meus pais gritam por hospitais.
A Teta voltou a cair.

Ela está bem. Alhamdulillah. Há cem anos
numa corda bamba entre o orgulho e a auto-estima.
Cresci num circo. Cresci em serviços de urgência
e a morte após os serviços de urgência
era incomum, pelo que nunca estive de fôlego sustido nem
                                                                              de mão dada.
                                                A esperança para mim
era um resultado inesperado, sempre.
A Teta caminha debilmente.
Tem uma coluna direita, em teoria.
Herdei dela        a sua corcunda
e a sua intuição profunda.

Em Julho passado, perguntou-me como voltaríamos para casa.
Nas nossas bicicletas, disse eu, rindo-me.
Vai na tua bicicleta, que eu vou no meu cavalo.
As suas tiradas intactas               o seu sorriso inquebrantável.

Atribuo imaginação à memória:
molotovs em malas Fendi,
                                        panfletos em sapatos de pele de cobra,
lenços de seda dissimulando a violência,
um neto fascinado por ambas as rebeliões.
A Teta lembra-se do que é preciso:
espingardas em sacos de arroz,
barrigas abertas ao meio,
mulheres confundindo almofadas e descendentes,
homens tocando sirenes na rua, actuando com fervor,
mulheres cujos deuses já não respondem,
homens emasculados pelo estatuto de refugiados.
Ela não se lembra do meu nome;
a indelicadeza é muito mais memorável          do que o sangue.
Sete décadas depois ainda se lembra
do que martirizou a sua pátria pela primeira vez.

A convicção política mantém-se.
Cantos de protesto como candelabros no seu subconsciente.

Habibi? Porque estás na América?
Escola.
Deus te abençoe. Mohammed quem?
Porquê a América? Tem cuidado! Diz-lhes:
«A América é a razão.» Diz-lhes: «Bebam o mar.»
Deixa-os montar os seus cavalos altivos.
Jerusalém é nossa.

A tirada mais importante de todos os tempos.

Mohammed El-Kurd, Rifqa

Como uma canção

O homem diz que o andar do rapaz se parece muito com uma canção e pouco com um homem a andar.

Mohammed El-Kurd, Rifqa

3.12.25

Bisonte

1.
Uma manada de búfalos avança para a cidade de Billings,
            no Montana.
Bisontes machos pesam uma tonelada, e até mais,
e podem ter a altura doida de um metro e oitenta.
Veem, portanto, do mesmo ponto dos olhos humanos
mas, claro, não têm o mesmo critério nem as mesmas propriedades.
Do focinho à cauda podem ter quase três metros,
mas tal como usar animais como referência na medição
            de coisas artificiais talvez não faça sentido
— uma casa não tem o comprimento de sete búfalos — também na
natureza as medidas não deveriam resultar dessa referência
                                                                     abstrata, neutra,
e demasiado higiénica que é o metro.
Coisa abstrata nunca acalmou fome ou fúria de bicho.

2. 
O que é o metro, na natureza, senão nada que se coma,
sem carne nem utilidade imediata;
um little deus para os humanos em transações
                        envolvendo espaços,
porém, na grande pradaria do velho oeste americano,
tudo se media a tamanho de pés ou botas de couro —
            ou a dorso gordo de animais
como se fazia com o bom do búfalo quando não o aborreciam.
Quantos búfalos cabem numa planície?, eis a questão,
eis a forma natural de medir, meio a olho, meio a quilo.
Mas diga-se: um animal furibundo talvez não meça exatamente
o mesmo que o mesmo animal quando sonolento
ou calmo. A fúria faz no organismo o milagre do aumento de 
                                                                        comprimento,
                        largura, altura e volume;
a fúria faz animais altos e fortes. A mansidão ou o abrochar,
que toda a proximidade à casa humana exige,
pelo contrário, faz do leopardo, gatinho; do lobo, caniche; da
águia, galinha piu-piu ou papagaio de três palavras,
bichos obedientes e patarocos:
sim senhor, sim senhor — sim, minha senhora.

3. 
Não se trata apenas, pois, de fazer mais pequeno o que nasceu 
para ser maior; trata-se de enfiar pela goela abaixo
hábitos urbanos no estômago mortinho por ser boçal
                                          ou até selvagem.
Os animais passam a ter quatro patas mas como as mesas;
são transformados em acompanhantes, diz Bloom a Creonte,
em funcionários afetivos, calada mobília que ladra e caga.
Os animais não têm, pois, medida: a fita métrica é,
diante da biologia, uma impostura;
um animal muda de tamanho só pela respiração:
mais ou menos oxigénio no tórax e eis que o rigor da balança
             ou do milímetro se tornam obsoletos.
Nenhum animal vivo tem medidas certas
e se queres ser alto e largo, sê feroz;
manso cabes no buraco de uma agulha, bravo e revoltoso
            não há cadeira que trave a tua pressa.

Gonçalo M. Tavares, O fim dos Estados Unidos da América

2.12.25

Cães num presépio

Até que ponto acha que a sua experiência familiar e pessoal ajuda a compreender o que se passa hoje em dia?

Esta não é uma autobiografia convencional. Os três mundos do título são o Iraque, onde vivi até aos 5 anos; Israel, onde vivi dos 5 aos 15; e Inglaterra, onde estudei dos 15 aos 18. O livro tenta entrelaçar uma história familiar com uma história mais ampla — a da comunidade judaica no Iraque na primeira metade do século XX. Gosto de pensar nele como uma autobiografia impessoal — o que, claro, é uma contradição nos termos. Mas há certos temas subjacentes. O sionismo era um movimento de judeus europeus para judeus europeus. Um dia perguntei à minha mãe — que falava sempre dos maravilhosos amigos muçulmanos que tínhamos em Bagdade — se tínhamos algum amigo sionista. Ela olhou para mim como se fosse uma pergunta bizarra. E disse: “Não, não, o sionismo é uma coisa asquenaze. Não tem nada a ver connosco.” Essa visão era bastante representativa, típica da maioria dos judeus no Iraque. Estavam lá há dois milénios e meio, quase mil anos antes do surgimento do Islão. Além disso, os líderes sionistas não tinham interesse nos judeus das terras árabes. Tinham uma visão eurocêntrica. Olhavam de cima para os árabes e também para os judeus árabes, como a minha família — apenas um pouco menos “primitivos” do que os outros árabes.

[...]

Até que ponto acha que o racismo esteve por detrás de tudo isto em 1917 e ainda hoje?

O racismo está no ADN das potências coloniais. Arthur Balfour, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, era na verdade um antissemita. Aprovou a Lei dos Estrangeiros de 1905, a primeira legislação anti-imigração na Grã-Bretanha, destinada a impedir que judeus perseguidos na Europa de Leste viessem para o país. Os antissemitas apoiavam o sionismo — a cria­ção de um Estado judaico — precisamente porque não queriam judeus nos seus próprios países. As potências coloniais viam os povos nativos como primitivos, inferiores e atrasados, mas os judeus num nível de civilização superior. Em 1937, Winston Churchill comparou os árabes locais, os nativos, a cães num presépio, dizendo que o facto de o cão ter estado deitado no presépio durante muitos anos não lhe dava direito a ele. Acrescentou que os árabes deviam dar lugar a outra raça, uma raça mais experiente e superior — os judeus. É um exemplo extremo do racismo britânico.

“Israel é um Estado de supremacia judaica”: entrevista ao historiador Avi Shlaim por Luís Faria, Expresso, 27.11.2025

30.11.25

Apocalipse Left Wing

1.
Jukebox junto aos passeios, na rua, os transeuntes bailam à
                                                          moeda;
velhos objetos parecem resistir melhor ao contágio,
revivalismo vem como se viesse afinal do futuro,
tudo indica que objetos antigos estão imunes ao novo vírus.

2. 
Em certas ruas, antiguidades sobre mesas
agitam leilões de gringos pobretanas;
            talvez no apocalipse, pensa Left,
os preços das casas e das coisas finalmente desçam.

3.
No fim do mundo a inflação perde vigor e firmeza,
treme do terço inferior das pernas,
vende setenta pelo preço de sete;
tudo fica ao preço da chuva e da uva mijona;
só na manhã antes do apocalipse tudo será de todos, pensa Left;
aí acabou o negócio e o Estado comunista finalmente funciona.
Televisões smarts substituídas por martelos crash.
Left Wing prescinde do presente, prefere o apocalipse.

Gonçalo M. Tavares, O fim dos Estados Unidos da América

28.11.25

Sinto-me frequentemente comovido sem me mover

Piolhos

Suheir Hammad disse-me      a dor esse professor.
                                  Eu respondi        a dor esse ladrão.
Ensinou-me a desejar ser um macaco
a catar piolhos na cabeça do meu irmão
em vez        disto aqui        smokings e conversa.

Desfaço-me em desculpas,
                arrependido em geral.

A culpa é muitas vezes minha
por ter uma dúzia de cavalos mortos sob a cama,
poemas cheios de remorsos para os analfabetos em remorsos.
Isto não é sequer                                    uma metáfora
              nem sequer uma facada               nem uma pedra.

Os meus amigos dizem-me que preciso de falar,
explicando o assassino ao assassinado — Doutor,
e se eu lhe dissesse que desconfio
da civilização e dos civilizados,
que prefiro        catar piolhos na cabeça do meu irmão
          a catar        a sanidade na minha?

A dor esse professor, e a vergonha uma bússola.
          Sinto-me frequentemente comovido sem me mover.
Preferia arrancar a maçã
da minha própria garganta        Quero
                            arrancar a maçã
da minha própria garganta. Quero a minha voz
sem voz. Ponham jóias nas minhas órbitas
e fingirei que consigo ver.

O inglês considera o sentimentalismo piroso,
                        raramente deixa as sirenes respirar,
e eu insisto neste oxigénio.

Só posso descrever esta culpa
com comparações que a invalidariam.
Já não quero usar a linguagem, já não
                        quero usar a língua.

Nos últimos anos encarei os aeroportos
como casas funerárias —
levando a bordo os meus cavalos mortos
novas cidades                                            novos drones.
Gostava de ser um proprietário
dos inquilinos na minha cabeça. Gostava de poder
chular a minha dor                                 e endurecer.
A dor esse professor        e eu nunca aprendo.

Mohammed El-Kurd, Rifqa (traição Manuel de Freitas)


8.11.25

Tribunal universal

Se houvesse um tribunal universal
Composto de homens bons que decidisse
O que convém, em vez de cada um
Pensar que o que convém é o que lhe serve!
Não vês como aos poderosos, aos espertos,
Tudo se ajusta, e eles tudo podem?

Goethe, Torquato Tasso (trad. João Barrento)

1.11.25

Pasteurizado com merda

Elias, para o inspector Otero: Norah d'Almeida, mi hermana emputecida, de dia liceu, à noite chungaria. Cultura em sessões contínuas é o que isto quer dizer.
E Otero: Lavagem, Covas, quais cultura. Essas gajas vêm é lavar-se à má-vida das poucavergonhas dos paizinhos.
O inspector nunca foi ao Bolero mas conhece o Texas e o Grego, fenómeno semelhante. A mesma maltezaria de cineclube, as mesmas esgraçadinhas a contarem estórias ao taxímetro e se calhar até as mesmas estórias, admira-te. O que vale é que as putas dão para tudo, diz. Não houve aquela Madalena que depois de morta foi santinha?
Elias, pensativo: Também acho, o problema é de lavagem. Lavagem pela via do encardido, olhe o que disse a tal Norah, «este país precisava de ser pasteurizado com merda», foi o que ela disse em declarações. Com merda. E não julgue que se engasgou ou que pediu procuração.
O inspector fecha com uma gargalhada: Mães aos bordéis, que as filhas já lá estão. Verdade ou mentira, Covas?

José Cardoso Pires, Balada da praia dos cães


O que faz ejacular Netanyahu?

ATRAVÉS DE Althusser, a pergunta
— O que faz ejacular Netanyahu?

(Besta apocalíptica, cansalmas.)

(A Censura, em seu mutismo, bálsamo que dá o pó de talco
aos que grulham a Loucura de oiro espelhada no morticínio.)

A morte macabra sobre a aparência de espúrias razões!

José Emílio-Nelson, Púrpura senil




13.10.25

Shayma Abualatta


Viver desde sempre num campo de concentração constituído maioritariamente por refugiados. Aprender a resistir, a não apenas sobreviver. Sem poder falar, sem poder sair do lugar, sem conhecer senão a opressão do projeto nacional mais tresloucado deste tempo. A construir sentido apesar do exterior mais violento, o genocídio, ignorando-o. Construir sentido é o que se faz quando não se pensa em recursos, algo dificílimo quando os recursos são quase nada para todos. O estoicismo revisitado, não como teoria mas vida concreta, como é suposto, segundo Shayma Abualatta. A servidão é consentir a miséria que nos impõem, o poder é a tristeza sobre os corpos, quando não a morte a crédito americano e europeu.

Estórias por contar pela imprensa ocidental. Não a narrativa dos vencedores, daqueles que vão, ou pretendem-no, ficar para a História como os que expandiram os limites do seu império. Sair, bater, matar, regressar e narrar. Não isso, mas as estórias de debaixo dos escombros, os uivos soterrados. A única estória verdadeiramente e a política por que vale a pena pugnar.

5.10.25

Sionismo, origens

O sionismo surgiu no final da década de 1880 na Europa central e de leste como um movimento de restauração nacional, motivado pela pressão cada vez maior, naquelas regiões, sobre os judeus, seja em vista da assimilação total ou sob o risco de incessante perseguição (embora, como sabemos, a assimilação plena nem sequer tenha sido uma salvaguarda contra a aniquilação, no caso da Alemanha nazi). No início do século XX, a maioria dos líderes do movimento sionista associou esta revitalização nacional à colonização da Palestina. Outros, em especial Theodor Herzl, o fundador do movimento, eram mais ambivalentes; mas, após a sua morte em 1904, a orientação para a Palestina estava decidida e era consensual.
Eretz Israel, o nome da Palestina na religião judaica, foi venerada, ao longo dos séculos, por gerações de judeus como um lugar de peregrinação sagrada, mas nunca como um futuro Estado secular. A tradição e a religião judaicas ensinam claramente os judeus a aguardar a vinda do Messias prometido no «fim dos tempos», antes de eles poderem regressar a Eretz Israel como um povo soberano numa teocracia judaica, ou seja, como servos obedientes de Deus (eis porque, hoje, várias correntes dos judeus ultra-ortodoxos ou não são sionistas ou são antissionistas). Por outras palavras, o sionismo secularizou e nacionalizou o judaísmo. Os pensadores sionistas, em vez da materialização do seu projeto, reivindicaram o território, recriaram e, na realidade, inventaram-no como o berço do seu novo movimento nacionalista. A Palestina, tal como eles a concebiam, fora ocupada por «estrangeiros» e tinha de ser retomada. «Estrangeiros» significava aqui todos os não judeus que viveram na Palestina desde o período romano. Na verdade, para muitos sionistas, a Palestina nem sequer era uma terra «ocupada», quando lá chegaram pela primeira vez em 1882, mas sim uma terra «vazia»: os palestinos autóctones que ali viviam eram assaz invisíveis para eles ou, caso contrário, faziam parte das adversidades da natureza e, como tal, deveriam ser submetidos e deslocados. Nada, nem rochas nem palestinos, deveria impedir a «redenção» da terra, que o movimento sionista cobiçava.

Ilan Pappé, A limpeza étnica da Palestina



24.9.25

O sofrimento e o fim da democracia

Assista-se a este relato de uma médica australiana voluntária no Hospital Al-Shifa, de Gaza.


Agora compare-se com a notícia que é dada na RTP (35,17) que repete, ponto por ponto, a propaganda de Israel. O dano provocado na democracia portuguesa é tão ou mais extenso do que o que resulta da actividade dos partidos de extrema-direita, pois provoca a indiferença em relação ao sofrimento, semeia cobardemente o racismo e justifica crimes contra a humanidade e genocídio. A destruição, na sucessão de imagens da peça da RTP, parece nem incidir sobre humanos e ter sido provocada por alguma catástrofe natural, e não por um agente político e humano concreto: o exército de Israel. «As declarações de Israel são factos, as acções de Israel são justificáveis, desumaniza-se assim os palestinianos. As vítimas de genocídio têm que implorar ao mundo para que se acredite que são realmente vítimas», resumiu, numa entrevista, a jornalista Assal Rad.
Godard disse, sarcasticamente, que a objectividade é 5 minutos para os judeus e 5 minutos para os nazis. O que temos, em 2025, na Europa, é um desequilíbrio nestas contas (que já eram abjectas) em que nenhum minuto sobra para o uivo e a narrativa de quem sofre, tal o enquadramento opressivo que anula o sofrimento a que palestinianos concretos dão voz.

18.9.25

Velocidades diferentes

O supremacismo de Israel realiza, nos territórios ocupados da Palestina, aquilo que a extrema-direita imputa aos imigrantes (muitos deles árabes) no Ocidente. De acordo com a propaganda abjecta da extrema-direita europeia, os imigrantes beneficiam de elevados subsídios, apartamentos e outros bens oferecidos pelos Estados europeus. Ora, um imigrante americano ou europeu que adira ao sionismo sabe que não precisará de grande esforço para despossuir os palestinianos da sua terra, da sua casa e de outros recursos. Basta o assédio, a ameaça, a vandalização de propriedade, a agressão, o assassinato — com armas fornecidas pelo Estado de Israel. Imputa-se de algum modo aos imigrantes que vivem nas sociedades europeias as acções que os ocidentais realizam na Palestina. Território onde se operacionaliza um programa humanista que visa destruir e reconverter civilizações consideradas inferiores. Ao mesmo tempo, fomenta-se e normaliza-se a arabofobia, a islamofobia e o racismo, em geral, por cá, com base nos mesmos pressupostos políticos e metafísicos. De outro modo, retomando um argumento de Enzo Traverso, predomina uma visão conservadora segundo a qual o Ocidente estaria sob ameaça do Islamismo, o que legitimaria os actos mais hediondos. Daí que os partidos de extrema-direita europeus estejam do lado de Israel, que representa o modelo para os regimes pós-democráticos que se esboçam pela Europa. A social-democracia europeia ainda está dividida quanto a reconhecer a existência de um projecto colonial israelita que provoca todo o tipo de violência e fanatismos. Israel é o resultado do processo de secularização do sionismo, um nacionalismo estatal que opera a limpeza étnica e o genocídio desde 1947 e que conta com o apoio financeiro e o entusiasmo de inúmeros cristãos fundamentalistas justamente porque se permite pôr em prática a purificação étnica da Terra Santa. Por isso, o que verdadeiramente deveria ser discutido é o processo de descolonização da Palestina e não a questão dos dois Estados. A garantia de que há direitos iguais para todos, o fim do apartheid, o fim do rogue state de Israel. Seja como for, é ridículo que se continue a afastar os palestinianos da liderança da negociação do futuro naquele território. Enquanto a opinião pública internacional se vai lentamente ilustrando para pressionar o poder político (o que move os políticos são apenas as suas carreiras e a imagem pública), em Gaza milhares de inocentes são chacinados sem parar. Velocidades diferentes que permitem a expansão do horror.

12.9.25

A grande farsa

 

Limpeza étnica, pogroms, Lebensraum, genocídio (a 11/09, 72 palestinianos mortos em Gaza, 9 mortos a pedir comida, 7 mortes por fome e má nutrição). 'Presos', referem os jornais, jamais 'reféns' (culpados, pois, por não quererem ver destruídos ou alienados os seus bens, nem mortos os seus familiares e amigos). Marcha pelas estradas de Tulkarm de mais ou menos 100 homens para condenação geral, para serem humilhados. À volta de 1500 palestinianos feitos reféns por Israel ontem em toda a Cisjordânia. Num total de 15000, sem acusação, entre os quais centenas de crianças. Por cá sem manchetes, sem notícias, em suposta democracia.

Adenda, Basel Adra e família em risco, entre tantos outros palestinianos: